quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Ser Maçom sem Sê-lo

O maçom não iniciado.

Charles Evaldo Boller


É possível ser maçom sem sê-lo?

A pergunta é comum.

Para o maçom é motivo de séria reflexão em si mesmo.

Como responderia o homem treinado nas coisas da Arte Real?

Poderia formular o seguinte raciocínio?

- Já viu em algum lugar uma estátua representando uma pessoa vigorosa portando um malho e um cinzel a esculpir-se de dentro de uma pedra?

Esta é a representação simbólica da autoeducação da Maçonaria.

Não é fácil explicar o funcionamento do processo. Também não constitui segredo. Em resumo, a educação maçônica pode apenas ser vivida; é resultado de salutar convivência.

Para dar uma ideia superficial do que ocorre na Maçonaria é interessante imaginar o homem em sua origem e de como ele provavelmente construiu sua convivência social.

Na era do homem da caverna, quando o Sol se colocava no horizonte, acendiam-se fogueiras para aquecer, assar alimentos e iluminar o ambiente. Ao redor destas fogueiras reunia-se a tribo. Trocavam ideias do cotidiano, da caça, da colheita, dos perigos, e passavam conhecimentos novos de uns para os outros. Nestas reuniões, pelo debate, por conversas, em resultado de atos judicativos e outras comunicações verbais, cada um desejava sobressair-se ao outro com vistas a estabelecer sua vontade, e, principalmente, de obter a aprovação dos demais membros do clã, de identificar-se.

Esta necessidade de aprovação do grupo fazia com que o indivíduo se adaptasse ao grupo e aceitasse códigos de ação e conduta que o identificassem. Trocavam segredos, confidências de novas técnicas de caça e truques para os mais diversos fins. Quem traísse tais segredos e os divulgasse a outros de fora do grupo, no mínimo seria expulso do clã, quando não o matavam. Isto foi usado por tanto tempo que acabou gravado indelevelmente nos genes do homem, e, assim, passa de geração para geração.

O indivíduo, ao forçar uma modificação em si mesmo, às vezes até contra suas próprias inclinações, praticava o que se faz numa loja maçônica; ele se auto educava; é o que significa a alegoria do escultor de si mesmo.

O que ocorre dentro da loja maçônica é esta força do grupo sobre o indivíduo.

Há quem a designe uma força mística.

Mágico mesmo é quando se observam pessoas a se modificarem gradativamente para o bem, e isto sem que elas o percebam.

O grupo reunido é uma força poderosa para modificar pessoas.

- Somos seres sociais por excelência!

Sociais porque o grupo exerce uma força incrível sobre cada um de seus membros. Isto é verificável nos grupos de jovens: usar "piercins", cortar cabelo de forma bizarra, tatuagem, e outros sinais de identificação externa, são apenas algumas das modificações forçadas pelos seus iguais.

Transfira-se isto para características internas de valores e princípios, espiritualidade, emoções e tem-se o que ocorre dentro de uma loja maçônica.

É por isso que não tem como aprender Maçonaria a partir de livros; estes possuem apenas conhecimento, informação e isto não é educação.

Para tal é necessária a convivência.

A escola que só transmite conhecimento sem o aporte de princípios, valores e virtudes, não educa, e, às vezes, sequer transmite conhecimentos.

Transmitir conhecimento não é educação.

Informação serve quase que exclusivamente para prover o sustento.

E como existe apenas a autoeducação, cada um só muda quando decide e age para estabelecer uma mudança. E quando esta alteração no seu eu, self, tem o apoio do ego, livre-arbítrio, tem-se a autoeducação pura e proativa.

Na Maçonaria esta autoeducação é sempre orientada para o bem porque a ela sempre exige sacrifício, sair da zona de conforto e partir para a ação contra a tendência natural de aderir a vícios, exige força de vontade hercúlea. Sozinho é difícil, mas não impossível! Em grupo a tarefa é facilitada exatamente pela pressão advinda da reunião de diversas pessoas, da energia do pensamento emitido pela coletividade: é genético.

O estímulo vem sempre dos irmãos maçons. Membros do mesmo grupo social influenciam seus iguais. É um provocando o outro para o bem. E como se tratam quais irmãos, demonstram profundo amor entre si, o perfeito vínculo de união, é certo que onde se reúnem, manifesta-se aquilo que conhecem pelo conceito de Grande Arquiteto do Universo, espírito que permite reunir numa mesma sala pessoas das mais variadas linhas de pensamentos e religiões para discutirem assuntos da sociedade sem que se matem.

É uma grande ideia! A maior herança que a Maçonaria recebeu do Iluminismo Francês.

É possível ser maçom mesmo sem portar avental, o símbolo do trabalho em si mesmo, da autoeducação.

O maçom sabe que colocar um avental exige um tácito juramento, formal e sagrado, com trágicas e sérias implicações para consigo mesmo se falhar.

O simples fato de ser iniciado na Maçonaria, de portar avental não gera um homem perfeito.

Cada loja é a união de homens imperfeitos, livres e de boa vontade, com uma vontade imensa de buscar a perfeição, de se ver aprovado pelos iguais.

A virtuosidade aflora quando se entende o benefício da associação e de como empunhar as ferramentas certas na autoeducação.

O dia-a-dia do maçom é tomado pelo salutar trabalho em si mesmo: trabalha a pedra. Enquanto uma mão empunha o malho e golpeia com força, a outra mão, conduzida pela razão, empunha firme e delicadamente o cabo do cinzel. A ponta afiada do cinzel elimina gradativamente nódoas e excessos da pedra imperfeita, revelando do interior da rocha disforme o homem aperfeiçoado, exemplar obra de arte do Grande Arquiteto do Universo.

Esta é a representação do pedreiro esculpindo-se da rocha, é a representação da sua autoeducação pelo uso da razão equilibrada por emoção e espiritualidade.

Então é possível tornar-se maçom sem sê-lo?

Se faltarem os camaradas de caminhada é difícil, mas possível.

Existem homens que nunca viram o piso de um templo maçônico, são maçons sem avental cujo comportamento probo e valioso para a sociedade os faz agirem quais obreiros da pedra, faz deles membros da ordem maçônica sem formalizar sua aderência pela iniciação.

Quando identificados, a Maçonaria os convida a fazerem parte da instituição para reforçarem as colunas de seus templos, de somar força com outros homens de igual disposição mental e espírito servidor da humanidade. É o motivo da entrada na ordem maçônica ocorrer sempre em resultado de um convite e não de vontade explicita do pretendente.

É este acúmulo de líderes sociais num só lugar a razão de com frequência ouvir-se que a meta de todo maçom deveria ser o de acabar com a Maçonaria: fechar seus templos.

Utopia?

Mas, e se todos os homens se tornarem perfeitos, qual será então a utilidade da ordem maçônica?

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