segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Catarse Maçônica

Mudança interna do maçom.

Charles Evaldo Boller


Na filosofia da antiguidade grega, a catarse constava na libertação, expulsão ou purgação daquilo que é estranho à essência ou à natureza de um ser e que, por esta razão, o corrompe. Em Maçonaria, com treinamento e condicionamento, tenta-se induzir o adepto a expurgar de dentro de si o que possui de rude e grosseiro, melhorando o que já possui de bom e expondo um ser humano capaz de produzir para si e a sociedade grandes benfeitorias, que de forma legítima pode denominar-se catarse maçônica.

Desde o momento em que entra na Maçonaria pelo Rito Escocês Antigo e Aceito, o maçom é admoestado em só continuar sua jornada se realmente estiver disposto em melhorar a si mesmo. Mesmo porque, ser maçom por curiosidade é perda de tempo, pois todos os segredos da Maçonaria estão amplamente revelados em centenas de livros espalhados pelas livrarias; inclusive aquilo que muitos ainda consideram segredos da ordem como palavras sagradas e de passe, passos, sinais de reconhecimento, toques e outros.

Buscar um ambiente social onde encontre amigos para conversar também não justifica, haja vista existirem clubes sociais mais glamorosos e chiques para se frequentar.

Distração é outro detalhe que não condiz com a presença nas atividades em loja.

Conquistar relacionamentos para formar clientela para atividades profissionais está totalmente fora de questão, apesar de os relacionamentos abrirem as portas de certos gabinetes do poder e possibilitar tráfego de influências.

Tampouco a satisfação de vaidades e busca por honrarias não faz sentido para comprovar a presença do maçom num templo.

Apenas se justifica a assiduidade pela catarse maçônica.

Estão enganados os profanos que dizem todo maçom ser rico, bom de vida porque é amparado por seus irmãos em seus negócios; uns para driblar o fisco, outros para obter melhores contratos, e outras. Aquele que vive a realidade da ordem maçônica sabe perfeitamente o quão distante esta afirmativa está da realidade.

O maçom conquista seus recursos de subsistência com dedicação e suor igual a qualquer cidadão. Por aplicar bons princípios na circunvizinhança, conquista clientes e trabalho de valor pelo simples fato de as pessoas confiarem mais nele pelo que ele é. Porque em todas as oportunidades de sua vida profissional e social ele se comporta conforme o que aprendeu de sua convivência com outros maçons, dentro e fora dos templos. Uma pessoa assim não tem necessidade de expor sua condição de maçom, ela brilha por si mesma e progride materialmente.

Do que aprende na convivência maçônica, leva para seu lar as benesses de um pai, avô, tio, irmão, comportado e amoroso. Raramente se machuca com pequenos detalhes de comportamento em sua relação conjugal, pois sua condição de maçom o condiciona a estudar e pensar, a pensar antes de falar. Aquele maçom que não acordou para esta realidade, certamente está perdendo tempo ou adormecido em plena atividade.

Na Maçonaria é importante exercitar intimidade com a arte da dúvida, ser rebelde e questionador de tudo pelo simples gosto de investigar a verdade; inclusive questionar o ensinamento transmitido pelos rituais e filosofias da própria ordem. Ficar acomodado e inerte é inútil, perda de tempo para obter a catarse maçônica. As atividades o tornam hábil orador, debatedor ardoroso e sempre instiga a expressão de pensamentos novos. Se isto não estiver ocorrendo é porque tem algo errado com ele ou com a loja que frequenta.

Com esta atividade aliada a uma profunda espiritualidade, culmina em transformar-se líder dentro e fora da Maçonaria. É a razão de tantos maçons obterem destaque, enriquecerem em cultura, saúde, espiritualidade, e, como consequência natural, obterem sucesso e recursos financeiros suficientes para levar uma vida tranquila e de qualidade.

Na sociedade, os bons pensadores são assassinados já na pré-escola, na universidade apenas rezam a missa de sétimo dia. Infelizmente a escola só transmite conteúdo, encapsula o professor em metas que não preparam o aluno para a vida; não ensinam a pensar. Alunos são tratados como se fossem pendrives, lotam a memória deles com "coisas", enquanto isto a inteligência é subutilizada.

Os debates na Maçonaria usam os centros de inteligência em seus diversos níveis, enquanto a memória é apenas coadjuvante no processo. Num debate reage-se em frações de segundos e arruma-se a casa da memória, construindo novos e inusitados pensamentos nos eternos ciclos de tese, antítese e síntese. Professores e alunos deveriam ser debatedores de ideias e não meros repetidores destas.

O maçom entra no templo para divertir-se para valer e fixar os princípios simples, porém profundos da filosofia maçônica, objetivando a catarse maçônica. O sucesso do método maçônico atrela símbolos e alegorias ao treinamento com disciplina para reeducação emocional. É um processo de formação de bons pensadores em resposta de bons debates. Resgata-se um pouco do dano que a escola fez.

Pena que alguns, profundamente afetados, adoentados pelo que aprenderam nas escolas, não estão dotados para perceber e avaliar a preciosidade do método da catarse maçônica. Limitam-se em repetirem aquilo que as escolas fazem, entopem a memória dos obreiros com conteúdo ao lerem de forma mecânica os rituais e suas instruções. Com isto, pouco ou nada acrescentam, porque não desenvolvem a capacidade de pensar com discussões, questionamentos, dúvidas, debates etc. É comum ouvir o mestre dizer ao aprendiz - tenha paciência, você vai ver isto mais tarde; na maioria das vezes é medo de não ter a resposta, porque este mestre está ciente que é apenas um repositório de informações e não um pensador hábil que sabe utilizar-se da informação da memória para modificá-la, adaptá-la a cada situação - pode até ter conteúdo, mas desenvolveu pouca inteligência neste setor. E esta característica o acompanha na vida fora da Maçonaria.

Somando espiritualidade, emoção e racionalidade o sucesso da catarse maçônica é garantido até para os sem formação acadêmica; inteligência não é questão de saber, mas de como usar do pouco para produzir muito. Adicionalmente, também não é questão de falar muito, mas de falar o suficiente com proficiência.

Sócrates era hábil utilizador de sua inteligência, pelo diálogo convencia os outros e chegava até ao ponto de revelar um não saber com sua ironia.

Platão fez uma demonstração - experiência maiêutica - onde provava que o cérebro humano já contém o necessário de forma inata, bastando para isto à pessoa apenas ser lembrada - foi quando por um diálogo, carregado de ironia socrática, entabulada com um escravo, fez com que aquele desenvolvesse o Teorema de Pitágoras.

O sofista Protágoras disse que "o homem interpreta a natureza ao seu modo e conforme ditado por seus interesses"; sabe-se que ele muda de posição quando interage com outros; é a tribo influindo no indivíduo. É uma característica da psique que veio se desenvolvendo desde os tempos das cavernas e está profundamente incrustada nos processos cognitivos do homem de hoje. Utilizar-se desta, foi um grande estalo intuitivo dos iluministas ao reunir pessoas, das mais diferentes crenças e formações para se influenciarem mutuamente para o bem, na solução de problemas da humanidade.

A catarse maçônica é um método educacional voltado para a saúde mental, o desenvolvimento da inteligência, da espiritualidade, da sociabilização, e outras, mas principalmente voltada ao fomento do amor fraterno, a única solução para todos os problemas da humanidade, para honra e à glória do Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia

1. ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni, História da Filosofia, Antiguidade e Idade Média, Vol. 1, ISBN 85-349-0114-7, 1ª edição, Paulus, 670 páginas, São Paulo, 1990;

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