segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Segredo Maçônico e Harmonia do Conhecimento

 Charles Evaldo Boller

Entre as luzes da Loja, a Maçonaria manifesta-se como um segredo que não se reduz ao silêncio, mas se revela como método de formação moral, intelectual e espiritual. Esse segredo não é ocultação, mas uma forma de ensino simbólico, ou, mais propriamente, método de ensino simbólico, destinado a educar o homem para a liberdade responsável, para a justiça equilibrada e para a fraternidade universal. Fundada sobre os desígnios do Grande Arquiteto do Universo, a ordem maçônica não propõe dogmas de fé, mas uma confiança racional na existência de uma ordem universal inteligível, acessível à razão esclarecida e à intuição disciplinada.

Tal concepção aproxima a Maçonaria da tradição filosófica clássica. Em Platão, a ideia do Bem ordena o cosmos e orienta a alma humana; em Aristóteles, a ética se estrutura na busca da virtude como hábito racional; em Kant, a lei moral se impõe como imperativo interno, independente de recompensas externas. O maçom, ao trabalhar sobre si mesmo, reencontra essas intuições antigas sob a forma de símbolos operativos, que traduzem princípios abstratos em experiências vivas. A pedra bruta, por exemplo, não é apenas metáfora moral, mas expressão concreta do esforço contínuo de aperfeiçoamento do caráter.

No plano metafísico, a fé raciocinada que sustenta o maçom não se confunde com crença cega. Ela se aproxima da atitude filosófica que reconhece a insuficiência dos sentidos para abarcar a totalidade do real, sem, contudo, abdicar da razão. Nesse ponto, o diálogo com a ciência moderna torna-se inevitável. A física quântica, ao revelar um Universo regido por probabilidades, interconexões e campos invisíveis, recoloca o mistério no centro do conhecimento científico. Assim como o observador influencia o fenômeno observado, também o homem, ao agir moralmente, transforma o campo social e espiritual em que está inserido.

A religião, por sua vez, comparece na Maçonaria não como sistema confessional, mas como reconhecimento simbólico do sagrado. O Grande Arquiteto do Universo representa a síntese possível entre transcendência e racionalidade, permitindo que homens de diferentes crenças encontrem um ponto comum de convergência ética. Esse símbolo supremo funciona como eixo de harmonia entre ciência, filosofia e espiritualidade, evitando tanto o fanatismo quanto o materialismo estéril.

Os princípios de caridade, igualdade e fraternidade não permanecem no plano da retórica. Eles se concretizam no combate sistemático aos vícios que degradam a humanidade: ignorância, superstição, fanatismo e corrupção. O maçom treina para agir com justiça temperada pela tolerância, corrigindo com brandura e auxiliando com empatia. Tal postura exige coragem, pois implica fazer o bem mesmo quando isso acarreta riscos pessoais, reafirmando a primazia da ética sobre a conveniência.

Os encontros ritualísticos, enriquecidos por símbolos e pela convivência fraterna, culminam nos ágapes, onde a amizade se afirma como virtude suprema da sociabilidade humana. À semelhança das antigas escolas filosóficas, a Loja torna-se espaço de formação integral, no qual pensamento e ação se entrelaçam. Contra a hipocrisia institucionalizada que marca muitas organizações humanas, a Maçonaria propõe a coerência entre palavra e obra, entre intenção e gesto.

O segredo da Maçonaria, portanto, não reside em fórmulas ocultas, mas na disciplina do trabalho constante. Ele ensina que a vida encontra sentido na livre escolha pelo bem, orientada pela razão e animada pelo amor. Tudo o mais é complemento. O essencial é transformar a intenção elevada em ação perseverante, oferecendo ao mundo não apenas belas palavras, mas exemplos vivos de humanidade reconciliada com a ordem do Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia Comentada

1.      ANDERSON, James. Constituições dos Franco-Maçons. Londres: 1723. Obra fundacional da Maçonaria moderna, estabelece os princípios morais, filosóficos e organizacionais da Ordem, evidenciando seu caráter racional, universalista e não dogmático, além de fundamentar a noção de fraternidade como eixo da prática maçônica;

2.      CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo: Cultrix, 2011. A obra aproxima a física moderna das tradições filosóficas e espirituais, contribuindo para a compreensão da harmonia possível entre ciência, simbolismo e metafísica, tema central à reflexão maçônica contemporânea;

3.      ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992. O autor analisa a experiência do sagrado como dimensão estruturante da consciência humana, oferecendo subsídios para compreender o simbolismo do Grande Arquiteto do Universo como eixo de integração entre razão e transcendência;

4.      KANT, Immanuel. Crítica da razão prática. São Paulo: Martins Fontes, 2003. O autor desenvolve a centralidade da lei moral como expressão da autonomia da razão, oferecendo um sólido paralelo com a ética maçônica, que privilegia a responsabilidade individual e o dever livremente assumido;

5.      PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. Ao tratar da educação da alma e da busca do Bem, Platão fornece bases filosóficas que dialogam com o método simbólico maçônico, especialmente no que concerne à ascensão do homem do mundo sensível ao inteligível;

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