Entre as luzes da Loja, a Maçonaria manifesta-se como um segredo
que não se reduz ao silêncio, mas se revela como método de formação moral,
intelectual e espiritual. Esse segredo não é ocultação, mas uma forma de ensino
simbólico, ou, mais propriamente, método de ensino simbólico, destinado a
educar o homem para a liberdade responsável, para a justiça equilibrada e para
a fraternidade universal. Fundada sobre os desígnios do Grande Arquiteto do
Universo, a ordem maçônica não propõe dogmas de fé, mas uma confiança racional
na existência de uma ordem universal inteligível, acessível à razão esclarecida
e à intuição disciplinada.
Tal concepção aproxima a Maçonaria da tradição filosófica
clássica. Em Platão, a ideia do Bem ordena o cosmos e orienta a alma humana; em
Aristóteles, a ética se estrutura na busca da virtude como hábito racional; em
Kant, a lei moral se impõe como imperativo interno, independente de recompensas
externas. O maçom, ao trabalhar sobre si mesmo, reencontra essas intuições
antigas sob a forma de símbolos operativos, que traduzem princípios abstratos
em experiências vivas. A pedra bruta, por exemplo, não é apenas metáfora moral,
mas expressão concreta do esforço contínuo de aperfeiçoamento do caráter.
No plano metafísico, a fé raciocinada que sustenta o maçom não
se confunde com crença cega. Ela se aproxima da atitude filosófica que
reconhece a insuficiência dos sentidos para abarcar a totalidade do real, sem,
contudo, abdicar da razão. Nesse ponto, o diálogo com a ciência moderna
torna-se inevitável. A física quântica, ao revelar um Universo regido por
probabilidades, interconexões e campos invisíveis, recoloca o mistério no
centro do conhecimento científico. Assim como o observador influencia o
fenômeno observado, também o homem, ao agir moralmente, transforma o campo
social e espiritual em que está inserido.
A religião, por sua vez, comparece na Maçonaria não como sistema
confessional, mas como reconhecimento simbólico do sagrado. O Grande Arquiteto
do Universo representa a síntese possível entre transcendência e racionalidade,
permitindo que homens de diferentes crenças encontrem um ponto comum de
convergência ética. Esse símbolo supremo funciona como eixo de harmonia entre ciência,
filosofia e espiritualidade, evitando tanto o fanatismo quanto o materialismo
estéril.
Os princípios de caridade, igualdade e fraternidade não
permanecem no plano da retórica. Eles se concretizam no combate sistemático aos
vícios que degradam a humanidade: ignorância, superstição, fanatismo e
corrupção. O maçom treina para agir com justiça temperada pela tolerância,
corrigindo com brandura e auxiliando com empatia. Tal postura exige coragem,
pois implica fazer o bem mesmo quando isso acarreta riscos pessoais,
reafirmando a primazia da ética sobre a conveniência.
Os encontros ritualísticos, enriquecidos por símbolos e pela
convivência fraterna, culminam nos ágapes, onde a amizade se afirma como
virtude suprema da sociabilidade humana. À semelhança das antigas escolas
filosóficas, a Loja torna-se espaço de formação integral, no qual pensamento e
ação se entrelaçam. Contra a hipocrisia institucionalizada que marca muitas
organizações humanas, a Maçonaria propõe a coerência entre palavra e obra, entre
intenção e gesto.
O segredo da Maçonaria, portanto, não reside em fórmulas
ocultas, mas na disciplina do trabalho constante. Ele ensina que a vida
encontra sentido na livre escolha pelo bem, orientada pela razão e animada pelo
amor. Tudo o mais é complemento. O essencial é transformar a intenção elevada
em ação perseverante, oferecendo ao mundo não apenas belas palavras, mas
exemplos vivos de humanidade reconciliada com a ordem do Grande Arquiteto do
Universo.
Bibliografia Comentada
1.
ANDERSON, James. Constituições dos
Franco-Maçons. Londres: 1723. Obra fundacional da Maçonaria moderna, estabelece
os princípios morais, filosóficos e organizacionais da Ordem, evidenciando seu
caráter racional, universalista e não dogmático, além de fundamentar a noção de
fraternidade como eixo da prática maçônica;
2.
CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo:
Cultrix, 2011. A obra aproxima a física moderna das tradições filosóficas e
espirituais, contribuindo para a compreensão da harmonia possível entre
ciência, simbolismo e metafísica, tema central à reflexão maçônica
contemporânea;
3.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São
Paulo: Martins Fontes, 1992. O autor analisa a experiência do sagrado como
dimensão estruturante da consciência humana, oferecendo subsídios para
compreender o simbolismo do Grande Arquiteto do Universo como eixo de
integração entre razão e transcendência;
4.
KANT, Immanuel. Crítica da razão prática. São
Paulo: Martins Fontes, 2003. O autor desenvolve a centralidade da lei moral
como expressão da autonomia da razão, oferecendo um sólido paralelo com a ética
maçônica, que privilegia a responsabilidade individual e o dever livremente
assumido;
5.
PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2007. Ao tratar da educação da alma e da busca do Bem, Platão
fornece bases filosóficas que dialogam com o método simbólico maçônico,
especialmente no que concerne à ascensão do homem do mundo sensível ao
inteligível;

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