A afirmação de que tudo o que existe no Universo é energia
coloca o espírito humano diante de um paradoxo fundamental: se tudo é energia,
por que percebemos um mundo sólido, material, aparentemente estável? A resposta
a essa questão exige uma abordagem que ultrapasse os limites da Física clássica
e convoque, de forma harmoniosa, a filosofia, o simbolismo maçônico, a ciência
contemporânea e a dimensão religiosa da experiência humana. Na tradição
iniciática, a realidade nunca se apresenta de forma imediata; ela se oculta sob
véus que apenas a consciência desperta é capaz de levantar.
A percepção da matéria é resultado direto das limitações
sensoriais do ser humano. Nossos sentidos não captam energia em si, mas apenas
seus efeitos organizados em padrões inteligíveis. Assim como não vemos a
eletricidade, mas percebemos sua ação ao atravessar os condutores e animar os
dispositivos, também não vemos a energia que constitui os átomos, mas
experimentamos a solidez aparente que dela emerge. A matéria, nesse sentido, é
uma forma de instruir a consciência: uma linguagem simbólica por meio da qual o
invisível se torna experimentável.
O simbolismo maçônico oferece uma metáfora eloquente para essa
compreensão. O Aprendiz é convidado a trabalhar a pedra bruta, não porque a
pedra seja apenas um objeto material, mas porque ela representa a forma densa
de uma realidade mais profunda. O trabalho iniciático consiste em reconhecer
que a dureza da pedra é, em verdade, a cristalização de forças sutis, análoga
ao grão de areia que, ao ser observado em sua estrutura atômica, revela-se como
um entrelaçamento de múltiplas energias. O que parece sólido é, na realidade,
um campo de possibilidades organizado segundo leis que escapam à intuição
imediata.
A filosofia clássica já intuía esse princípio. Em Timeu, Platão
descreve o mundo sensível como uma sombra do mundo inteligível, uma cópia
imperfeita de realidades mais fundamentais. Séculos depois, Plotino
aprofundaria essa visão ao afirmar que tudo emana do Uno, fonte de toda
existência, onde não há separação entre ser, pensamento e vida. A matéria, para
o Neoplatonismo, não é substância autônoma, mas o último grau de manifestação
da realidade espiritual. Tal concepção encontra surpreendente ressonância na
Física Quântica, que descreve o Universo como um campo de probabilidades onde a
observação participa ativamente da manifestação dos fenômenos.
Na perspectiva quântica, não há partículas isoladas no sentido
clássico, mas campos em interação constante. Prótons, elétrons, quarks e
neutrinos não são "coisas"
estáticas, mas processos, vibrações, relações. A noção de tempo contínuo e de
deslocamento espacial, tão cara à Física Newtoniana, perde sua validade nesse
domínio. Os fenômenos ocorrem de maneira não local, instantânea, desafiando a
lógica do senso comum. Essa constatação aproxima-se da noção iniciática de que
a realidade última não está submetida às categorias ordinárias de espaço e
tempo.
A religião, quando compreendida em seu sentido etimológico de "religare",
não se opõe a essa visão, mas a complementa. Religação é o reconhecimento de
que o ser humano participa de uma totalidade consciente, sustentada pelo Grande
Arquiteto do Universo. A criação não é um mecanismo cego, mas uma ordem
inteligível, na qual a consciência ocupa papel central. A ciência descreve os
mecanismos, a filosofia interroga seus fundamentos, a religião intui seu
sentido, e a Maçonaria busca harmonizar essas dimensões por meio do
aperfeiçoamento moral e intelectual do indivíduo.
A metáfora do Universo como um grande templo invisível ajuda a
compreender essa síntese. As colunas, os arcos e as abóbadas não são feitos de
pedra visível, mas de energias organizadas por leis que a mente humana começa
apenas a entrever. A consciência é a lâmpada que ilumina esse templo; sem ela,
a matéria não passaria de um jogo caótico de forças. Assim, afirmar que o
Universo é feito de consciência não nega a existência da matéria, mas a
recoloca em seu devido lugar: como expressão transitória de uma realidade mais
profunda, anterior a toda forma.
O caminho iniciático, portanto, não consiste em negar o mundo
sensível, mas em compreendê-lo como símbolo. A matéria existe para a
consciência, e não o contrário. Ao reconhecer essa verdade, o ser humano deixa
de ser enganado pela aparência e passa a perceber, por detrás da solidez
ilusória das coisas, o dinamismo vivo das energias que sustentam o cosmos. É
nesse ponto que ciência, filosofia, religião e Maçonaria convergem: todas
apontam, por caminhos distintos, para a necessidade de uma consciência
ampliada, capaz de reconhecer a unidade fundamental por trás da multiplicidade
das formas.
Bibliografia Comentada
1.
BOHM, David. A Totalidade e a Ordem Implicada.
São Paulo: Cultrix, 2008. Obra que propõe uma visão holística do Universo,
concebendo a realidade como um todo indivisível em movimento, em consonância
com abordagens simbólicas e iniciáticas que veem a matéria como expressão de
uma ordem mais profunda;
2.
HEISENBERG, Werner. Física e Filosofia. São
Paulo: Cultrix, 1999. Texto clássico em que um dos fundadores da Física
Quântica reflete sobre as implicações filosóficas da ciência moderna,
especialmente a superação do materialismo ingênuo e o papel do observador na
constituição da realidade;
3.
PLATÃO. Timeu. Tradução de Maria Cecília Gomes
dos Reis. São Paulo: Edipro, 2011. Diálogo fundamental da filosofia clássica no
qual Platão apresenta uma cosmologia simbólica, descrevendo o mundo sensível
como uma cópia ordenada de realidades inteligíveis, ideia que fundamenta a
compreensão da matéria como manifestação derivada de princípios superiores;
4.
PLOTINO. Enéadas. Tradução de Carlos Alberto
Nunes. Belém: UFPA, 2000. Obra central do Neoplatonismo, na qual Plotino
desenvolve a doutrina da emanação a partir do Uno, oferecendo uma visão
Metafísica que antecipa concepções modernas sobre unidade, energia e
consciência;

Nenhum comentário:
Postar um comentário