segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Consciência, Energia e a Ilusão da Matéria

 Charles Evaldo Boller

A afirmação de que tudo o que existe no Universo é energia coloca o espírito humano diante de um paradoxo fundamental: se tudo é energia, por que percebemos um mundo sólido, material, aparentemente estável? A resposta a essa questão exige uma abordagem que ultrapasse os limites da Física clássica e convoque, de forma harmoniosa, a filosofia, o simbolismo maçônico, a ciência contemporânea e a dimensão religiosa da experiência humana. Na tradição iniciática, a realidade nunca se apresenta de forma imediata; ela se oculta sob véus que apenas a consciência desperta é capaz de levantar.

A percepção da matéria é resultado direto das limitações sensoriais do ser humano. Nossos sentidos não captam energia em si, mas apenas seus efeitos organizados em padrões inteligíveis. Assim como não vemos a eletricidade, mas percebemos sua ação ao atravessar os condutores e animar os dispositivos, também não vemos a energia que constitui os átomos, mas experimentamos a solidez aparente que dela emerge. A matéria, nesse sentido, é uma forma de instruir a consciência: uma linguagem simbólica por meio da qual o invisível se torna experimentável.

O simbolismo maçônico oferece uma metáfora eloquente para essa compreensão. O Aprendiz é convidado a trabalhar a pedra bruta, não porque a pedra seja apenas um objeto material, mas porque ela representa a forma densa de uma realidade mais profunda. O trabalho iniciático consiste em reconhecer que a dureza da pedra é, em verdade, a cristalização de forças sutis, análoga ao grão de areia que, ao ser observado em sua estrutura atômica, revela-se como um entrelaçamento de múltiplas energias. O que parece sólido é, na realidade, um campo de possibilidades organizado segundo leis que escapam à intuição imediata.

A filosofia clássica já intuía esse princípio. Em Timeu, Platão descreve o mundo sensível como uma sombra do mundo inteligível, uma cópia imperfeita de realidades mais fundamentais. Séculos depois, Plotino aprofundaria essa visão ao afirmar que tudo emana do Uno, fonte de toda existência, onde não há separação entre ser, pensamento e vida. A matéria, para o Neoplatonismo, não é substância autônoma, mas o último grau de manifestação da realidade espiritual. Tal concepção encontra surpreendente ressonância na Física Quântica, que descreve o Universo como um campo de probabilidades onde a observação participa ativamente da manifestação dos fenômenos.

Na perspectiva quântica, não há partículas isoladas no sentido clássico, mas campos em interação constante. Prótons, elétrons, quarks e neutrinos não são "coisas" estáticas, mas processos, vibrações, relações. A noção de tempo contínuo e de deslocamento espacial, tão cara à Física Newtoniana, perde sua validade nesse domínio. Os fenômenos ocorrem de maneira não local, instantânea, desafiando a lógica do senso comum. Essa constatação aproxima-se da noção iniciática de que a realidade última não está submetida às categorias ordinárias de espaço e tempo.

A religião, quando compreendida em seu sentido etimológico de "religare", não se opõe a essa visão, mas a complementa. Religação é o reconhecimento de que o ser humano participa de uma totalidade consciente, sustentada pelo Grande Arquiteto do Universo. A criação não é um mecanismo cego, mas uma ordem inteligível, na qual a consciência ocupa papel central. A ciência descreve os mecanismos, a filosofia interroga seus fundamentos, a religião intui seu sentido, e a Maçonaria busca harmonizar essas dimensões por meio do aperfeiçoamento moral e intelectual do indivíduo.

A metáfora do Universo como um grande templo invisível ajuda a compreender essa síntese. As colunas, os arcos e as abóbadas não são feitos de pedra visível, mas de energias organizadas por leis que a mente humana começa apenas a entrever. A consciência é a lâmpada que ilumina esse templo; sem ela, a matéria não passaria de um jogo caótico de forças. Assim, afirmar que o Universo é feito de consciência não nega a existência da matéria, mas a recoloca em seu devido lugar: como expressão transitória de uma realidade mais profunda, anterior a toda forma.

O caminho iniciático, portanto, não consiste em negar o mundo sensível, mas em compreendê-lo como símbolo. A matéria existe para a consciência, e não o contrário. Ao reconhecer essa verdade, o ser humano deixa de ser enganado pela aparência e passa a perceber, por detrás da solidez ilusória das coisas, o dinamismo vivo das energias que sustentam o cosmos. É nesse ponto que ciência, filosofia, religião e Maçonaria convergem: todas apontam, por caminhos distintos, para a necessidade de uma consciência ampliada, capaz de reconhecer a unidade fundamental por trás da multiplicidade das formas.

Bibliografia Comentada

1.      BOHM, David. A Totalidade e a Ordem Implicada. São Paulo: Cultrix, 2008. Obra que propõe uma visão holística do Universo, concebendo a realidade como um todo indivisível em movimento, em consonância com abordagens simbólicas e iniciáticas que veem a matéria como expressão de uma ordem mais profunda;

2.      HEISENBERG, Werner. Física e Filosofia. São Paulo: Cultrix, 1999. Texto clássico em que um dos fundadores da Física Quântica reflete sobre as implicações filosóficas da ciência moderna, especialmente a superação do materialismo ingênuo e o papel do observador na constituição da realidade;

3.      PLATÃO. Timeu. Tradução de Maria Cecília Gomes dos Reis. São Paulo: Edipro, 2011. Diálogo fundamental da filosofia clássica no qual Platão apresenta uma cosmologia simbólica, descrevendo o mundo sensível como uma cópia ordenada de realidades inteligíveis, ideia que fundamenta a compreensão da matéria como manifestação derivada de princípios superiores;

4.      PLOTINO. Enéadas. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: UFPA, 2000. Obra central do Neoplatonismo, na qual Plotino desenvolve a doutrina da emanação a partir do Uno, oferecendo uma visão Metafísica que antecipa concepções modernas sobre unidade, energia e consciência;

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