Charles Evaldo Boller
A Maçonaria, enquanto método iniciático e laboratório do
pensamento, projeta-se como espaço privilegiado de superação dos limites impostos
pela experiência sensorial e pela razão instrumental. O homem ego, encerrado em
suas certezas, converte-se em obstáculo a si mesmo, pois bloqueia a atitude
autêntica que permite o acesso a planos mais elevados de compreensão. É
justamente contra essa clausura interior que a Maçonaria se insurge, convocando
o iniciado a ultrapassar o mundo sensível, onde a experiência já não serve de
guia, e a aventurar-se no domínio das ideias que exigem círculos de juízo mais
amplos do que a linguagem ordinária pode abarcar.
Nesse percurso, as quatro escolas que permeiam o pensamento
maçônico, autêntica, antropológica, mística e esotérica, não se apresentam como
campos estanques, mas como camadas sucessivas de aprofundamento. O pensamento,
inicialmente teológico e mágico, desloca-se para a Metafísica e a mística,
podendo, na medida em que amadurece, alcançar o rigor científico. Tal dinâmica
recorda o itinerário clássico do conhecimento descrito por Aristóteles, que
parte da experiência sensível, mas não se encerra nela, e encontra reflexo em
Kant, para quem a razão só se ilumina plenamente quando reconhece seus próprios
limites.
A dúvida, simbolizada pelo número dois, constitui o alicerce
dessa arquitetura intelectual. Não se trata de ceticismo estéril, mas de uma
atitude vigilante, consciente da ilusão dos sentidos e da precariedade de toda
formulação conceitual. Nesse ponto, a Maçonaria aproxima-se tanto do ceticismo
metódico cartesiano quanto das tradições místicas que reconhecem o silêncio
como via de acesso ao indizível. A tolerância, exaltada como virtude central,
dirige-se exclusivamente ao pensamento do outro, jamais à grosseria ou ao
desvio ético, pois o ambiente iniciático exige pureza simbólica para que a obra
comum não seja conspurcada.
A dinâmica da Loja dissolve a figura do professor no sentido
convencional. Todos são, simultaneamente, mestres e aprendizes, e o
conhecimento supras sensorial emerge da interação do grupo, não da imposição
hierárquica. Essa transmissão em "blocos
de informação" lembra tanto o método dialógico socrático quanto certas
intuições contemporâneas da física quântica, nas quais o observador participa
do fenômeno observado. O saber não é depositado; ele se atualiza na relação, na
escuta e na intuição compartilhada.
Conceitos como Grande Arquiteto do Universo, liberdade e
imortalidade só se tornam inteligíveis após longos processos de depuração
mental. Antes disso, manifestam-se sob a forma de lendas e ficções, esboços
simbólicos que preparam o espírito para níveis mais sutis de entendimento. Tal
procedimento afasta-se do dogmatismo religioso e do reducionismo científico,
buscando uma harmonização em que ciência, filosofia e espiritualidade dialogam
sem se anularem. A física quântica, ao revelar um Universo composto
majoritariamente de vazio e probabilidades, oferece metáforas poderosas para
essa visão: a realidade, tal como o homem a percebe, é uma construção
provisória, uma aparência sustentada por relações invisíveis.
O maçom desperto é, portanto, um inquieto. Sua caminhada não visa
à posse definitiva da verdade, mas à permanente reavaliação dos mistérios à luz
do conhecimento contemporâneo. Nesse sentido, ele se reconhece como "filho da heresia", não por negação
gratuita, mas por fidelidade ao movimento vivo do pensamento. Do ponto
primordial que se expande em círculo, metáfora do ovo cósmico, emerge um
Universo em que tudo é, simultaneamente, plenitude e nada, espaço vazio e forma
aparente. Reconhecer essa tensão é aceitar que a obra do Grande Arquiteto do
Universo se revela menos na afirmação dogmática do que na humilde e incessante
prática da dúvida, que transforma o homem e, por seu intermédio, a sociedade.
Bibliografia Comentada
1.
DESCARTES, René. Meditações metafísicas.
Tradução J. Guinsburg. São Paulo: Martins Fontes, 2004. Texto clássico do
ceticismo metódico, no qual a dúvida é empregada como instrumento construtivo,
dialogando diretamente com o princípio maçônico de questionamento contínuo como
base da edificação do conhecimento;
2.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. Tradução
Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Análise densa das
estruturas simbólicas do sagrado, útil para compreender como mitos, lendas e
rituais funcionam como mediações iniciais do conhecimento transcendental antes
de sua elaboração racional;
3.
HEISENBERG, Werner. A parte e o todo. Tradução
Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. Relato filosófico-científico
que expõe as implicações epistemológicas da física quântica, oferecendo
metáforas valiosas para a compreensão da realidade como relação e processo,
afinada com o simbolismo maçônico do vazio e da forma;
4.
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Tradução
Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: abril Cultural, 1980. Obra
fundamental para compreender os limites e as possibilidades da razão humana,
oferecendo o conceito de Aufklärung como saída da menoridade intelectual, em
profunda consonância com a busca maçônica pela Luz mediante a dúvida
consciente;
5.
PLATÃO. A República. Tradução Maria Helena da
Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Obra essencial da
filosofia clássica que, por meio de alegorias como a da caverna, ilustra o
processo de passagem da ignorância à contemplação do inteligível, paralelamente
à jornada iniciática proposta pela Maçonaria;

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