domingo, 22 de fevereiro de 2026

Horizontes da Dúvida e Arquitetura do Conhecimento

 Charles Evaldo Boller

A Maçonaria, enquanto método iniciático e laboratório do pensamento, projeta-se como espaço privilegiado de superação dos limites impostos pela experiência sensorial e pela razão instrumental. O homem ego, encerrado em suas certezas, converte-se em obstáculo a si mesmo, pois bloqueia a atitude autêntica que permite o acesso a planos mais elevados de compreensão. É justamente contra essa clausura interior que a Maçonaria se insurge, convocando o iniciado a ultrapassar o mundo sensível, onde a experiência já não serve de guia, e a aventurar-se no domínio das ideias que exigem círculos de juízo mais amplos do que a linguagem ordinária pode abarcar.

Nesse percurso, as quatro escolas que permeiam o pensamento maçônico, autêntica, antropológica, mística e esotérica, não se apresentam como campos estanques, mas como camadas sucessivas de aprofundamento. O pensamento, inicialmente teológico e mágico, desloca-se para a Metafísica e a mística, podendo, na medida em que amadurece, alcançar o rigor científico. Tal dinâmica recorda o itinerário clássico do conhecimento descrito por Aristóteles, que parte da experiência sensível, mas não se encerra nela, e encontra reflexo em Kant, para quem a razão só se ilumina plenamente quando reconhece seus próprios limites.

A dúvida, simbolizada pelo número dois, constitui o alicerce dessa arquitetura intelectual. Não se trata de ceticismo estéril, mas de uma atitude vigilante, consciente da ilusão dos sentidos e da precariedade de toda formulação conceitual. Nesse ponto, a Maçonaria aproxima-se tanto do ceticismo metódico cartesiano quanto das tradições místicas que reconhecem o silêncio como via de acesso ao indizível. A tolerância, exaltada como virtude central, dirige-se exclusivamente ao pensamento do outro, jamais à grosseria ou ao desvio ético, pois o ambiente iniciático exige pureza simbólica para que a obra comum não seja conspurcada.

A dinâmica da Loja dissolve a figura do professor no sentido convencional. Todos são, simultaneamente, mestres e aprendizes, e o conhecimento supras sensorial emerge da interação do grupo, não da imposição hierárquica. Essa transmissão em "blocos de informação" lembra tanto o método dialógico socrático quanto certas intuições contemporâneas da física quântica, nas quais o observador participa do fenômeno observado. O saber não é depositado; ele se atualiza na relação, na escuta e na intuição compartilhada.

Conceitos como Grande Arquiteto do Universo, liberdade e imortalidade só se tornam inteligíveis após longos processos de depuração mental. Antes disso, manifestam-se sob a forma de lendas e ficções, esboços simbólicos que preparam o espírito para níveis mais sutis de entendimento. Tal procedimento afasta-se do dogmatismo religioso e do reducionismo científico, buscando uma harmonização em que ciência, filosofia e espiritualidade dialogam sem se anularem. A física quântica, ao revelar um Universo composto majoritariamente de vazio e probabilidades, oferece metáforas poderosas para essa visão: a realidade, tal como o homem a percebe, é uma construção provisória, uma aparência sustentada por relações invisíveis.

O maçom desperto é, portanto, um inquieto. Sua caminhada não visa à posse definitiva da verdade, mas à permanente reavaliação dos mistérios à luz do conhecimento contemporâneo. Nesse sentido, ele se reconhece como "filho da heresia", não por negação gratuita, mas por fidelidade ao movimento vivo do pensamento. Do ponto primordial que se expande em círculo, metáfora do ovo cósmico, emerge um Universo em que tudo é, simultaneamente, plenitude e nada, espaço vazio e forma aparente. Reconhecer essa tensão é aceitar que a obra do Grande Arquiteto do Universo se revela menos na afirmação dogmática do que na humilde e incessante prática da dúvida, que transforma o homem e, por seu intermédio, a sociedade.

Bibliografia Comentada

1.      DESCARTES, René. Meditações metafísicas. Tradução J. Guinsburg. São Paulo: Martins Fontes, 2004. Texto clássico do ceticismo metódico, no qual a dúvida é empregada como instrumento construtivo, dialogando diretamente com o princípio maçônico de questionamento contínuo como base da edificação do conhecimento;

2.      ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. Tradução Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Análise densa das estruturas simbólicas do sagrado, útil para compreender como mitos, lendas e rituais funcionam como mediações iniciais do conhecimento transcendental antes de sua elaboração racional;

3.      HEISENBERG, Werner. A parte e o todo. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. Relato filosófico-científico que expõe as implicações epistemológicas da física quântica, oferecendo metáforas valiosas para a compreensão da realidade como relação e processo, afinada com o simbolismo maçônico do vazio e da forma;

4.      KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Tradução Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: abril Cultural, 1980. Obra fundamental para compreender os limites e as possibilidades da razão humana, oferecendo o conceito de Aufklärung como saída da menoridade intelectual, em profunda consonância com a busca maçônica pela Luz mediante a dúvida consciente;

5.      PLATÃO. A República. Tradução Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Obra essencial da filosofia clássica que, por meio de alegorias como a da caverna, ilustra o processo de passagem da ignorância à contemplação do inteligível, paralelamente à jornada iniciática proposta pela Maçonaria;

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