quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A Ética como Arte de Lapidação Interior

 Charles Evaldo Boller

A reflexão ética proposta visa a uma compreensão mais profunda da moralidade como experiência viva, trágica e iniciática, e não como simples aplicação de regras abstratas. Na filosofia maçônica, o homem é visto como construtor de si mesmo, chamado a transformar a pedra bruta de suas paixões, impulsos e certezas ingênuas em pedra polida, apta a integrar o edifício simbólico da humanidade sob a orientação do Grande Arquiteto do Universo. Os dilemas morais difíceis revelam-se, assim, instrumentos privilegiados dessa lapidação, pois expõem o indivíduo a situações em que nenhum caminho preserva integralmente o bem, obrigando-o a escolher não entre o certo e o errado, mas entre perdas inevitáveis.

A filosofia clássica oferece fundamentos sólidos para essa compreensão. Em Platão, a justiça não é mera obediência à lei, mas harmonia da alma; quando essa harmonia se rompe, o indivíduo entra em conflito consigo mesmo e com a pólis. Já Aristóteles aprofunda essa visão ao afirmar que a ética não pode ser reduzida a fórmulas matemáticas, pois lida com o contingente, com aquilo que "pode ser de outro modo". A prudência surge como virtude central, orientando o julgamento concreto quando as regras gerais se mostram insuficientes. Essa noção conversa profundamente com o simbolismo do compasso maçônico, instrumento que não impõe linhas retas absolutas, mas mede, ajusta e reconhece limites.

Os dilemas do médico, do juiz que pode condenar um inocente para conter revoltas violentas, do cientista que descobre uma cura potencialmente revolucionária, mas precisa testá-la sem consentimento humano, do homem da ponte na qual um indivíduo deve ser empurrado para salvar outros, funcionam como espelhos que refletem a fragilidade da ética puramente consequencialista. Salvar muitos à custa da dignidade de um parece, à primeira vista, solução eficiente; contudo, tal escolha equivale a substituir pessoas por números, como se a vida fosse mercadoria intercambiável. Contra essa tentação, ergue-se a ética do dever, sistematizada por Immanuel Kant, para quem o ser humano jamais deve ser tratado apenas como meio. O ensaio mostra, entretanto, que mesmo esse rigor kantiano encontra limites diante do sofrimento concreto, exigindo integração com a sensibilidade moral e com a formação do caráter.

A Maçonaria propõe justamente essa integração simbólica. O esquadro representa princípios que não devem ser violados; o compasso lembra que toda aplicação desses princípios ocorre em circunstâncias singulares; entre ambos, o iniciado aprende que a moral é uma arquitetura viva, sujeita a tensões constantes. Uma metáfora elucidativa é a do arquiteto que constrói sobre terreno irregular: o projeto ideal existe, mas precisa dialogar com o solo real, sob pena de ruir. Do mesmo modo, a ética que ignora a complexidade humana transforma-se em dogma estéril; a ética que abandona princípios converte-se em oportunismo.

Também se dialoga com a ciência contemporânea, especialmente por meio de analogias com a física quântica. Tal como o observador interfere no fenômeno observado, o agente moral transforma a realidade e a si mesmo ao decidir. A escolha não é neutra: deixa marcas duradouras na consciência. O dilema do cientista evidencia esse ponto com clareza. O conhecimento amplia o poder humano, mas não fornece automaticamente critérios para seu uso. Sem iniciação ética, o progresso assemelha-se ao fogo mitológico: ilumina e aquece, mas também queima e destrói. A tradição iniciática sempre advertiu que o saber sem sabedoria conduz ao orgulho, a desmedida que antecede a queda.

Nesse contexto, os dilemas morais podem ser comparados a travessias noturnas. A razão funciona como lanterna de alcance limitado; a tradição filosófica, como estrelas-guia; a consciência, como bússola interior. Nenhum desses elementos, isoladamente, garante chegada segura, mas juntos reduzem o risco de naufrágio moral. Uma sugestão construtiva decorrente do ensaio é a valorização do debate ético contínuo, tanto em espaços iniciáticos quanto educacionais, não para impor respostas, mas para treinar o discernimento e a empatia. Outra proposta é o cultivo sistemático da introspecção, pois decisões maduras nascem menos da pressa e mais do silêncio reflexivo.

Por fim, sugere-se que a verdadeira ética não elimina o sofrimento inerente às escolhas trágicas, mas confere dignidade à ação. Escolher é assumir responsabilidade, e responsabilidade é aceitar o custo moral sem se esconder atrás de justificativas fáceis. Nesse sentido, a Maçonaria, em diálogo com a filosofia clássica, a ciência e a espiritualidade, oferece o método de ensino do limite: ensina que o ser humano não é onipotente, mas pode ser íntegro. A grandeza moral não reside em jamais errar, mas em permanecer fiel à dignidade humana e ao esforço constante de aperfeiçoamento interior sob o olhar do Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2009. Obra fundamental da ética das virtudes, na qual a prudência é apresentada como guia da ação moral em situações concretas e contingentes, oferecendo base conceitual para compreender a complexidade dos dilemas éticos;

2.      CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo: Cultrix, 2006. Obra que aproxima ciência moderna e tradições filosófico-espirituais, útil para analogias entre ética, observador e responsabilidade na construção da realidade;

3.      KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. Texto central da ética deontológica, defendendo a dignidade humana e o dever moral como princípios incondicionais, essenciais para a crítica à instrumentalização do ser humano;

4.      PLATÃO. A República. São Paulo: Edipro, 2014. Diálogo clássico sobre justiça, verdade e harmonia da alma, fornecendo fundamentos para a reflexão sobre a relação entre indivíduo, consciência e ordem social;

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