segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Liberdade Interior e Amor Fraterno como Eixos do Ser

 Charles Evaldo Boller

A reflexão sobre a liberdade humana, quando conduzida à luz da filosofia maçônica, ultrapassa imediatamente os limites do discurso político ou jurídico e adentra o território mais exigente da ética, do simbolismo e da transcendência. O homem nasce livre em potência, mas raramente o é em ato. Entre o nascimento biológico e a maturidade espiritual interpõem-se condicionamentos sociais, estruturas culturais, crenças herdadas e, sobretudo, paixões interiores que aprisionam silenciosamente a consciência. A Maçonaria reconhece que a forma mais severa de escravidão não é aquela imposta de fora, mas a que se instala no íntimo do ser, quando o indivíduo abdica do governo de si mesmo e passa a viver segundo impulsos, medos ou preconceitos não examinados.

Nesse sentido, a liberdade maçônica é inseparável do autoconhecimento. O trabalho simbólico sobre a pedra bruta representa a necessidade de lapidar o caráter, retirar arestas morais e conferir forma consciente à própria existência. Tal imagem encontra ressonância direta na filosofia clássica. Em Platão, a libertação da alma ocorre quando ela se desprende das sombras da caverna e volta-se para a luz do conhecimento; em Aristóteles, a virtude nasce do hábito consciente orientado pelo justo meio; em Kant, a liberdade realiza-se na autonomia da razão moral, quando o indivíduo obedece à lei que reconhece como universal. Em todos esses sistemas, ser livre significa governar-se, e não simplesmente escolher sem critério.

A psicologia humanista moderna reforça essa visão iniciática. Erich Fromm afirma que o grande objetivo do ser humano é causar o próprio nascimento, indicando que muitos atravessam a vida sem jamais despertarem plenamente para si. Fritz Perls, por sua vez, sustenta que a autorrealização só ocorre quando o indivíduo se encontra consigo mesmo. A Maçonaria traduz essas intuições em linguagem simbólica ao propor um renascimento interior, no qual o iniciado deixa de ser conduzido pela inércia da vida em sociedade e passa a assumir a autoria consciente de suas escolhas. A liberdade, portanto, não é um ponto de partida, mas um processo contínuo de amadurecimento da consciência.

No campo religioso, essa liberdade interior não se opõe à ideia de ordem divina, mas a aprofunda. O Grande Arquiteto do Universo simboliza a inteligência que estrutura o cosmos segundo leis harmônicas. Ser livre, nesse contexto, não é rebelar-se contra a ordem, mas compreendê-la e alinhar-se conscientemente a ela. Essa concepção aproxima-se tanto do estoicismo, que propõe viver de acordo com a natureza, quanto do pensamento de Spinoza, para quem a liberdade consiste na compreensão da necessidade. A Maçonaria, ao recusar dogmatismos e estimular a reflexão simbólica, harmoniza fé e razão, permitindo que o iniciado construa uma espiritualidade lúcida, não submissa, mas consciente.

A ciência contemporânea, longe de negar essa visão, oferece metáforas fecundas para compreendê-la. A física quântica revela um Universo interligado, no qual o observador participa do fenômeno observado. Essa interdependência simbólica dialoga com a noção maçônica de fraternidade: nenhum ser existe isolado, e toda ação consciente repercute no todo. A liberdade, assim, não é isolamento, mas responsabilidade relacional. O homem só se realiza plenamente quando reconhece sua singularidade sem romper os vínculos que o unem à humanidade e à natureza.

É nesse ponto que o amor fraterno emerge como culminância da liberdade interior. Amar, no sentido iniciático, não é possuir, moldar ou fundir-se ao outro, mas respeitar sua individualidade e criar espaço para que ele seja plenamente ele mesmo. Tal concepção encontra eco na ética de Immanuel Kant, ao afirmar que o ser humano deve sempre ser tratado como um fim e nunca como um meio, e na filosofia do diálogo de Martin Buber, para quem a relação autêntica nasce do encontro entre sujeitos livres. A Maçonaria transforma esse princípio em prática viva ao reunir homens diferentes em um mesmo espaço simbólico, onde a diversidade não é obstáculo, mas riqueza.

Pode-se dizer, metaforicamente, que a liberdade é a luz que permite ver o próprio caminho, enquanto o amor fraterno é a argamassa invisível que une as pedras do edifício humano. Sem liberdade, o amor degenera em dependência; sem amor, a liberdade converte-se em egoísmo. A edificação do Templo Interior exige ambos em equilíbrio dinâmico. Cada gesto ético, cada escolha consciente, cada ato de respeito ao outro constitui uma pedra assentada com retidão.

Assim, a Maçonaria apresenta-se como uma escola de humanidade, na qual ciência, religião, filosofia e simbolismo não se excluem, mas se complementam. Seu objetivo último não é produzir eruditos nem místicos isolados, mas homens livres, responsáveis e fraternos, capazes de irradiar no mundo profano a luz conquistada no silêncio do trabalho interior. A iniciação não termina no ritual; ela começa ali e se prolonga na vida, na medida em que o indivíduo transforma conhecimento em sabedoria e liberdade em amor fraterno.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martins Fontes, 2002. Obra clássica que fundamenta a noção de virtude como hábito consciente orientado pelo equilíbrio, em consonância com o simbolismo maçônico do justo meio;

2.      BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 2001. Texto essencial para a compreensão do amor fraterno como relação autêntica entre sujeitos livres, dialogando profundamente com a ética iniciática;

3.      FROMM, Erich. O Medo à Liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. Análise crítica das ambiguidades da liberdade moderna, esclarecendo os mecanismos de fuga da autonomia interior combatidos pela Maçonaria;

4.      KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. Referência central para a compreensão da liberdade como autonomia moral e responsabilidade ética;

5.      SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. Obra que ilumina a relação entre liberdade e necessidade, oferecendo base filosófica para a harmonia entre ordem universal e autonomia humana;

Nenhum comentário: