A reflexão sobre a liberdade humana, quando conduzida à luz da
filosofia maçônica, ultrapassa imediatamente os limites do discurso político ou
jurídico e adentra o território mais exigente da ética, do simbolismo e da
transcendência. O homem nasce livre em potência, mas raramente o é em ato.
Entre o nascimento biológico e a maturidade espiritual interpõem-se
condicionamentos sociais, estruturas culturais, crenças herdadas e, sobretudo,
paixões interiores que aprisionam silenciosamente a consciência. A Maçonaria
reconhece que a forma mais severa de escravidão não é aquela imposta de fora,
mas a que se instala no íntimo do ser, quando o indivíduo abdica do governo de
si mesmo e passa a viver segundo impulsos, medos ou preconceitos não
examinados.
Nesse sentido, a liberdade maçônica é inseparável do
autoconhecimento. O trabalho simbólico sobre a pedra bruta representa a
necessidade de lapidar o caráter, retirar arestas morais e conferir forma
consciente à própria existência. Tal imagem encontra ressonância direta na
filosofia clássica. Em Platão, a libertação da alma ocorre quando ela se
desprende das sombras da caverna e volta-se para a luz do conhecimento; em Aristóteles,
a virtude nasce do hábito consciente orientado pelo justo meio; em Kant, a
liberdade realiza-se na autonomia da razão moral, quando o indivíduo obedece à
lei que reconhece como universal. Em todos esses sistemas, ser livre significa
governar-se, e não simplesmente escolher sem critério.
A psicologia humanista moderna reforça essa visão iniciática.
Erich Fromm afirma que o grande objetivo do ser humano é causar o próprio
nascimento, indicando que muitos atravessam a vida sem jamais despertarem plenamente
para si. Fritz Perls, por sua vez, sustenta que a autorrealização só ocorre
quando o indivíduo se encontra consigo mesmo. A Maçonaria traduz essas
intuições em linguagem simbólica ao propor um renascimento interior, no qual o
iniciado deixa de ser conduzido pela inércia da vida em sociedade e passa a
assumir a autoria consciente de suas escolhas. A liberdade, portanto, não é um
ponto de partida, mas um processo contínuo de amadurecimento da consciência.
No campo religioso, essa liberdade interior não se opõe à ideia
de ordem divina, mas a aprofunda. O Grande Arquiteto do Universo simboliza a
inteligência que estrutura o cosmos segundo leis harmônicas. Ser livre, nesse
contexto, não é rebelar-se contra a ordem, mas compreendê-la e alinhar-se
conscientemente a ela. Essa concepção aproxima-se tanto do estoicismo, que
propõe viver de acordo com a natureza, quanto do pensamento de Spinoza, para
quem a liberdade consiste na compreensão da necessidade. A Maçonaria, ao
recusar dogmatismos e estimular a reflexão simbólica, harmoniza fé e razão,
permitindo que o iniciado construa uma espiritualidade lúcida, não submissa,
mas consciente.
A ciência contemporânea, longe de negar essa visão, oferece
metáforas fecundas para compreendê-la. A física quântica revela um Universo
interligado, no qual o observador participa do fenômeno observado. Essa
interdependência simbólica dialoga com a noção maçônica de fraternidade: nenhum
ser existe isolado, e toda ação consciente repercute no todo. A liberdade,
assim, não é isolamento, mas responsabilidade relacional. O homem só se realiza
plenamente quando reconhece sua singularidade sem romper os vínculos que o unem
à humanidade e à natureza.
É nesse ponto que o amor fraterno emerge como culminância da
liberdade interior. Amar, no sentido iniciático, não é possuir, moldar ou
fundir-se ao outro, mas respeitar sua individualidade e criar espaço para que
ele seja plenamente ele mesmo. Tal concepção encontra eco na ética de Immanuel
Kant, ao afirmar que o ser humano deve sempre ser tratado como um fim e nunca
como um meio, e na filosofia do diálogo de Martin Buber, para quem a relação
autêntica nasce do encontro entre sujeitos livres. A Maçonaria transforma esse
princípio em prática viva ao reunir homens diferentes em um mesmo espaço simbólico,
onde a diversidade não é obstáculo, mas riqueza.
Pode-se dizer, metaforicamente, que a liberdade é a luz que
permite ver o próprio caminho, enquanto o amor fraterno é a argamassa invisível
que une as pedras do edifício humano. Sem liberdade, o amor degenera em
dependência; sem amor, a liberdade converte-se em egoísmo. A edificação do
Templo Interior exige ambos em equilíbrio dinâmico. Cada gesto ético, cada
escolha consciente, cada ato de respeito ao outro constitui uma pedra assentada
com retidão.
Assim, a Maçonaria apresenta-se como uma escola de humanidade,
na qual ciência, religião, filosofia e simbolismo não se excluem, mas se
complementam. Seu objetivo último não é produzir eruditos nem místicos
isolados, mas homens livres, responsáveis e fraternos, capazes de irradiar no
mundo profano a luz conquistada no silêncio do trabalho interior. A iniciação
não termina no ritual; ela começa ali e se prolonga na vida, na medida em que o
indivíduo transforma conhecimento em sabedoria e liberdade em amor fraterno.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo:
Martins Fontes, 2002. Obra clássica que fundamenta a noção de virtude como
hábito consciente orientado pelo equilíbrio, em consonância com o simbolismo
maçônico do justo meio;
2.
BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro,
2001. Texto essencial para a compreensão do amor fraterno como relação
autêntica entre sujeitos livres, dialogando profundamente com a ética
iniciática;
3.
FROMM, Erich. O Medo à Liberdade. Rio de
Janeiro: Zahar, 1980. Análise crítica das ambiguidades da liberdade moderna,
esclarecendo os mecanismos de fuga da autonomia interior combatidos pela
Maçonaria;
4.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos
Costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. Referência central para a compreensão da
liberdade como autonomia moral e responsabilidade ética;
5.
SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte:
Autêntica, 2015. Obra que ilumina a relação entre liberdade e necessidade,
oferecendo base filosófica para a harmonia entre ordem universal e autonomia
humana;

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