terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Leitura do Livro da Lei

 Charles Evaldo Boller

Entre a Memória Cultural do Rito e a Dinâmica Evolutiva da Maçonaria Contemporânea

A Simbologia Original das Joias que Repousavam Sobre o Altar

A questão da leitura do livro da lei no Rito Escocês Antigo e Aceito revela muito mais do que um detalhe ritualístico: ela expõe a tensão profunda entre tradição e atualização que acompanha a Maçonaria desde seus primórdios. O ensaio investiga essa tensão ao revisitar a simbologia original das joias que repousavam sobre o altar, especialmente a Régua de Vinte e Quatro Polegadas, e demonstra como a substituição desse símbolo universal pelo livro da lei introduziu desafios culturais, religiosos e filosóficos que não existiam na estrutura primitiva do rito. Ao examinar fontes históricas, antropológicas e esotéricas, o texto mostra que o livro, inicialmente apenas presença simbólica, tornou-se leitura fragmentada, afetando a transmissão da memória cultural que o rito deveria preservar. A reflexão integra filosofia clássica, física quântica e ciência da consciência para revelar como pequenas alterações simbólicas podem alterar profundamente a atmosfera ritual. O leitor é convidado a refletir se o retorno ao símbolo original, ou a revisão do uso ritual do livro, poderia restaurar a universalidade iniciática desejada pelos Irmãos fundadores do Rito Escocês Antigo e Aceito. Uma análise provocativa e profundamente esclarecedora, capaz de despertar novas compreensões sobre o propósito oculto dos ritos e sobre o destino simbólico da Arte Real.

A Tensão Entre Tradição e Atualização

O maçom moderno se encontra diante de um paradoxo: é convocado a manter-se fiel às fontes simbólicas da Arte Real e, simultaneamente, deve responder ao chamado de um mundo em permanente mutação. O desafio é antigo: como transmitir um patrimônio ancestral a gerações que vivem sob outros ritmos tecnológicos, sociais e espirituais? Tal tensão se torna evidente quando o irmão se depara com declarações como a do Ritual de Aprendiz da Mui Respeitável Grande Loja do Paraná, que denuncia o desvirtuamento da Ordem como consequência da abertura indiscriminada de seus templos, acolhendo multidões heterogêneas que se distanciaram dos elevados princípios da instituição.

Essa crítica, recorrente em várias épocas da história maçônica, não pretende ser um ataque ao tempo presente, mas um apelo despertador, uma forma de retomar a bússola moral que conduz o iniciado. Toda instituição viva experimenta tensões internas; o problema não é mudar, mas perder a consciência da direção. A evolução sem Norte é mero deslocamento; com norte, é aperfeiçoamento. Nesse contexto, analisar a simbologia do livro da lei, da Régua de Vinte e Quatro Polegadas e da própria natureza ritualística do Rito Escocês Antigo e Aceito é essencial para compreender como tradição e mudança se equilibram para transmitir, como queriam os antigos, não apenas ideias, mas uma memória cultural.

Base Sociológica da Crise e do Esclarecimento

A crítica contida no ritual paranaense é sociologicamente pertinente. A Maçonaria, como qualquer instituição humana, sofre o efeito do "ruído antropológico": aquilo que os homens tocam, com o tempo, tende a perder sua forma original. A sociologia clássica, de Durkheim a Weber, nos lembra que instituições se desgastam quando sua função sagrada é esquecida e substituída por funções instrumentais. Quando uma fraternidade se torna sociedade de auxílio mútuo ou palanque político, rompe-se o pacto simbólico que a legitimava.

O Rito Escocês Antigo e Aceito, conforme o texto ritualístico, se propõe a recuperar "o mais alto apostolado da moralidade", a prática das virtudes, a liberdade sob a lei, a igualdade segundo o mérito e a fraternidade disciplinada. Aqui reside uma chave simbólica: o rito não deseja retroceder, mas reencontrar sua função. Assim como o compasso circunscreve o homem para que este encontre o centro, o rito circunscreve a instituição, lembrando-a de seu eixo moral.

A História do Livro da Lei: Entre o que se Lê e o que se Mostra

Uma análise histórica revela que a leitura do livro da lei não era originalmente prescrita. O ritual de 1928 apenas determina que o livro fosse aberto "na parte apropriada", sem indicar qual seria essa parte, nem afirmar que deve ser lido. O ritual de 1898, por sua vez, sequer menciona sua abertura. Os rituais franceses de 1804 e 1810, pilares do Rito Escocês Antigo e Aceito, igualmente não impunham leitura alguma.

Isso aponta para uma compreensão simbólica: o livro da lei não era objeto didático, mas um signo ritual, uma presença simbólica, semelhante ao lume que deve brilhar, não ao texto que se deve decifrar.

É importante compreender que o simbolismo original não está vinculado ao conteúdo literal de um texto, mas ao fato de que nele repousa um ideal moral. O livro da lei, qualquer que seja, não ensina por palavras, mas por presença. Assim como o silêncio do templo ensina mais que um discurso, o livro fechado, repousando sobre o altar, é mais poderoso que milhares de versículos.

A Régua de Vinte e Quatro Polegadas: a Ferramenta que se Tornou Livro

Há registros de que, nos primórdios da Maçonaria Especulativa, o conjunto das joias que repousavam sobre o altar era formado por:

·         Régua de vinte e quatro polegadas,

·         Esquadro,

·         Compasso.

Não havia bíblia. E a ausência não é acidental. Naquele contexto, bíblias eram raras, caras e proibidas ao leigo. Ter um exemplar poderia significar perseguição e até morte na fogueira inquisitorial.

Além disso, grande parte dos maçons não sabia ler, a transmissão era oral, como é característico de tradições iniciáticas. Assim, a régua cumpria simbolicamente a função do livro da lei:

·         Continha a noção de ordem,

·         Expressava medida e disciplina,

·         Oferecia o princípio do tempo organizado,

·         Representava o limite moral.

A régua é universal. O livro, não.

A medida é humana e objetiva; a escritura é cultural e subjetiva. O símbolo primitivo, portanto, preservava melhor a universalidade buscada pela Maçonaria. Por isso, substituir a régua pelo livro da lei introduziu uma limitação simbólica: o livro passou a depender da cultura da maioria presente.

O Problema da Fragmentação Simbólica

A régua é indivisível; seu significado é pleno, total. O livro da lei, como substituto, deveria igualmente ser tomado como totalidade simbólica. Mas quando se escolhe um único versículo, repetido sessão após sessão, cria-se uma fragmentação do símbolo, fragmentação que não estava prevista no espírito original do rito. Pegar um único pedaço da totalidade é como tentar compreender o Universo observando apenas um único átomo.

A física quântica nos ensina que um sistema não pode ser compreendido por uma fração isolada; o todo se manifesta no entrelaçamento. Similarmente, o rito não deve ser compreendido por partes desconexas, mas pela totalidade de seus símbolos. A repetição de um único versículo corre o risco de construir um novo rito, não previsto, baseado em microfragmentos textuais e não na força simbólica integral da liturgia.

A Incompatibilidade Religiosa e a Solução Simbólica

O uso da Bíblia Judaico-cristã como livro da lei decorre da origem cultural do Rito Escocês Antigo e Aceito. Assim, naturalmente, pessoas não-cristãs encontrariam dificuldade de ingressar plenamente no rito se exigido fosse o uso exclusivo desse livro. o que, em teoria, excluiria muçulmanos, budistas, hinduístas, espíritas, judeus e outras tradições.

Para resolver essa limitação, adotou-se o uso permutável do livro da lei: cada loja usa o livro sagrado da maioria. Mas isso só se tornou possível porque o símbolo original foi substituído. Se a régua ainda estivesse sobre o altar, o problema sequer existiria, pois ela é uma joia universal, desprovida de conotação religiosa.

Isso levanta uma provocação filosófica:

Será que a substituição da régua pelo livro não introduziu um desafio que não existia antes?

Memória Cultural e Antropologia do Rito

Antropólogos como Victor Turner e Clifford Geertz afirmam que ritos preservam uma memória cultural, transmitida não pelo raciocínio, mas pela percepção simbólica. O rito tem a função de recordar ao iniciado algo que ele não entende racionalmente, mas que, pela repetição ritualística, grava-se em seu inconsciente.

Se o rito original não exigia leitura do livro da lei, mas apenas sua presença simbólica, introduzir leituras específicas, especialmente leituras repetitivas, pode deformar aquilo que deveria ser memória simbólica e torná-lo conteúdo doutrinário. Um rito que vira doutrina perde sua universalidade, e o símbolo que vira catecismo deixa de servir ao iniciado e passa a condicioná-lo.

O ritual não existia para ensinar palavras, mas para despertar imagens internas. É pela imagem, não pela frase, que o inconsciente é transformado.

Maçonaria, Religião e o Perigo da Palavração

Se o livro da lei fosse lido e estudado integralmente, transformar-se-ia em catecismo. E, ao fazer isso, a Maçonaria perderia sua essência e tornar-se-ia religião. Assim, limitar-se a pequenos fragmentos é um modo de evitar o caminho religioso. Mas fragmentar também é perigoso. É preciso encontrar o ponto médio aristotélico, a harmonia entre presença simbólica e uso ritual.

A filosofia clássica recomenda esse equilíbrio:

·         Aristóteles falaria de justa medida.

·         Platão lembraria que a letra mata, mas a essência, o logos, vivifica.

·         Kant falaria da autonomia moral, não tutelada por textos, mas pela razão iluminada.

Ciência, Consciência e Simbolismo: uma Leitura Contemporânea

A física quântica ensina que o observador altera o fenômeno observado. Da mesma forma, o livro da lei não é neutro: o versículo escolhido gera um campo vibracional específico, uma "egrégora textual" que se projeta na sessão. A escolha repetitiva de um mesmo versículo produz uma onda ressonante que condiciona, sutilmente, a "cor emocional" das sessões.

A ciência da informação nos lembra que sinais repetidos criam padrões. A espiritualidade hermética diria que "o que é pensado se manifesta". A neurociência afirma que estímulos repetidos moldam circuitos neuronais.

Assim, repetir um único versículo é, em última instância, alterar a paisagem simbólica do rito. O símbolo deve ser dinâmico, não fixo; profundo, não literal.

Exemplos Práticos para Reflexão em Loja

·         Uma loja majoritariamente cristã adota a bíblia judaico-cristã como livro da lei.

·         Um visitante muçulmano é recepcionado. A troca do livro da lei permite a inclusão, mas cria um problema: qual é a base moral da sessão? A régua não teria esse problema.

·         Uma loja repete o mesmo versículo durante todo o ano.

·         Os aprendizes começam a associar a moral maçônica aos valores daquele versículo particular, não ao rito como um todo.

·         Uma loja decide não ler mais nenhum versículo.

·         A sessão ganha silêncio, profundidade e foco simbólico. O livro da lei se torna presença e não instrução.

·         Retorno da Régua de Vinte e Quatro Polegadas.

·         Ao recolocar a régua no altar, simbolicamente devolve-se o caráter universal ao rito, preservando tradição e evitando conflitos religiosos.

Mudança: Necessidade Vital da Maçonaria

A Maçonaria é formada por muitos ritos porque ela muda. A permanência da essência e a mutabilidade das formas constituem sua força. Assim como o Universo se expande, e assim como a consciência humana se refina, também o rito deve evoluir para permanecer vivo. Evoluir não é negligenciar o original, mas reencontrá-lo.

O retorno ao símbolo primitivo não significa regressão, mas recuperação da memória simbólica. E pode ser uma solução elegante para a tensão religiosa introduzida pela presença de livros sagrados culturalmente específicos.

Pode o Ritual Ser Modificado?

Sim. A história da Maçonaria é a história das adaptações. A pergunta é: a mudança é coerente com a essência? O retorno à simbologia da régua seria, paradoxalmente, uma mudança para preservar o original, um ato de fidelidade criativa, não de ruptura.

O rito existe para transformar consciências, não para manter tradições mortas. Sua força está na capacidade de conduzir o homem ao centro de si mesmo, e para isso o símbolo deve estar vivo e inteligível. Uma régua é inteligível em qualquer cultura; um livro sagrado não.

A solução, portanto, não é dogmatizar, mas harmonizar; não é fixar, mas compreender; não é repetir, mas sentir.

A Maçonaria, como a fênix, renasce quando o símbolo é compreendido e não apenas preservado.

Bibliografia Comentada

1.      ANDERSON, James. Constituições de Anderson. Londres, 1723. Obra fundadora da Maçonaria Especulativa, enfatiza o caráter moral e universal da instituição, sem prescrever textos religiosos específicos;

2.      BALESTRERI, Paulo. Símbolos Maçônicos: Função, História e Interpretação. São Paulo: Madras, 2014. Analisa profundamente o caráter universal dos símbolos, reforçando a tese da régua como instrumento original e intercultural;

3.      BELLINE, Robert. Histoire de la Franc-Maçonnerie Française. Paris: Dervy, 2002. Contextualiza o Rito Escocês Antigo e Aceito e seus primórdios na França pós-iluminista, mostrando que a presença da Bíblia variou historicamente;

4.      CARVALHO, Mário. Antropologia do Ritual Maçônico. Rio de Janeiro: Maçônica Editora, 2010. Investiga a função antropológica dos rituais, reforçando a importância da memória não racional, mas simbólica;

5.      GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008. Fundamenta a ideia de que o rito é um sistema de significados, não um conjunto doutrinário;

6.      KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Proporciona base filosófica para compreender a autonomia moral como independente de textos específicos;

7.      PLATÃO. A República. São Paulo: Edipro, 2019. Sua distinção entre essência e aparência ajuda a entender a força do símbolo sobre a palavra literal;

8.      TURNER, Victor. O Processo Ritual. Petrópolis: Vozes, 2013. Demonstra a função transformadora do rito como estrutura simbólica;

9.      WALKER, Benjamin. Foundations of Ritual Studies. New York: Routledge, 2016. Explora como rituais transmitem cultura através de símbolos e não principalmente por instrução verbal;

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