segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Motivação, Pensamento e Construção do Ser

 Charles Evaldo Boller

A motivação, quando observada pela lente da filosofia maçônica, deixa de ser um impulso circunstancial e passa a ser compreendida como um princípio ordenador da vida interior. Não se trata de entusiasmo passageiro, mas de uma disposição contínua da consciência que orienta o homem na edificação do próprio Templo Interior. Pensar, desejar, decidir e persistir tornam-se, assim, atos simbólicos e operativos, equivalentes aos gestos do construtor que, pedra após pedra, transforma matéria bruta em forma inteligível.

Desde a filosofia clássica, o pensamento foi reconhecido como força estruturante da existência. Para Platão, o mundo sensível é apenas sombra de uma realidade mais elevada, acessível pela razão e pela contemplação interior. A Maçonaria se entende com essa visão ao ensinar que o homem só se liberta das aparências quando aprende a governar seus pensamentos. Pensar não é acumular ideias, mas ordenar o caos interno, do mesmo modo que o esquadro ordena a pedra irregular. Uma mente dispersa produz desejos confusos; uma mente disciplinada transforma desejo em propósito.

A metáfora do maço de cédulas de dinheiro e do cacho de bananas ilustra esse ponto com clareza simbólica. O instinto escolhe o alimento imediato; a consciência escolhe aquilo que projeta o futuro. O homem condicionado pelo sistema social tende a agir como o macaco simbólico, reagindo a estímulos imediatos e confundindo ocupação com sentido. A filosofia maçônica propõe outra postura: olhar além da aparência, reconhecer que oportunidades frequentemente se disfarçam de dificuldades e compreender que o sucesso não reside na posse, mas na disposição da mente. Nesse sentido, a motivação não é algo que se recebe, mas algo que se constrói.

O desejo ocupa papel central nesse processo. Para os antigos, o desejo era ambíguo: podia elevar ou degradar. Aristóteles ensinava que a virtude está no justo meio, isto é, na capacidade de orientar as paixões pela razão. A Maçonaria expressa essa mesma ideia ao afirmar que o desejo, quando iluminado pela ética, torna-se força criadora; quando abandonado ao instinto, converte-se em prisão. O desejo é o fogo inicial da obra, mas precisa de forma, assim como o metal precisa do molde.

A fé, compreendida não como crença cega, mas como certeza interior, sustenta o construtor quando a forma ainda não é visível. Visualizar a realização é como traçar, no plano invisível, a planta do edifício antes de erguer suas paredes. Aqui, a autossugestão desempenha papel relevante: pensamentos carregados de emoção penetram no subconsciente e ali se fixam como sementes. O subconsciente, comparável a um solo fértil, não distingue o que é verdadeiro ou falso, mas apenas o que é repetido com convicção. Por isso, a disciplina mental é uma exigência iniciática.

A imaginação, por sua vez, é a oficina da mente. Nada existe no mundo humano que não tenha sido antes imaginado. Cidades, instituições, obras de arte e trajetórias pessoais nasceram como imagens interiores. Contudo, a imaginação precisa ser educada, pois tanto pode libertar quanto iludir. Quando orientada por princípios, ela se torna aliada da razão; quando desvinculada da ética, gera fantasias estéreis. A filosofia maçônica ensina a imaginar com medida, como quem traça círculos com o compasso, respeitando proporções invisíveis.

Decisão e persistência completam o quadro. Decidir é romper com a névoa da indecisão, assumir responsabilidade e fixar um norte. Persistir é honrar essa decisão no tempo, mesmo quando o entusiasmo inicial se dissipa. A obra interior não se realiza em um único golpe de cinzel, mas em repetição paciente e consciente. O hábito, nesse contexto, transforma esforço em disciplina e disciplina em caráter. O homem que persiste aprende a dialogar com o tempo, compreendendo que maturação é parte essencial da construção.

Há ainda a dimensão coletiva, frequentemente negligenciada. A Maçonaria reconhece que mentes harmonizadas produzem uma energia simbólica superior à soma dos esforços individuais. O pensamento coletivo, quando orientado por fraternidade e propósito, sustenta o indivíduo em seus momentos de fraqueza. Essa ideia encontra eco na noção de sincronicidade elaborada por Carl Gustav Jung, segundo a qual há conexões significativas entre o mundo interior e os acontecimentos exteriores. O Templo, nesse sentido, funciona como espaço de ressonância, onde o invisível encontra forma simbólica.

Como sugestão construtiva, o ensaio convida o leitor a praticar o ócio criativo: reservar tempo para refletir, estudar e silenciar. Em uma sociedade que glorifica a pressa, o silêncio torna-se ato revolucionário. É nele que o homem distingue o essencial do acessório e reencontra o sentido de suas ações. Outra sugestão é observar os próprios pensamentos como quem observa ferramentas: quais constroem e quais ferem? Essa vigilância cotidiana é exercício iniciático simples e profundamente transformador.

Em síntese, a motivação, à luz da filosofia maçônica e da tradição clássica, não é estímulo externo, mas governo interior. Pensar bem é viver melhor; desejar com consciência é construir com sentido; persistir é respeitar a obra que se quer realizar. O homem que compreende isso deixa de ser escravo das circunstâncias e passa a ser artífice de si mesmo, transformando a própria vida em obra ética, simbólica e consciente.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2014. Tratado essencial sobre virtude, hábito e finalidade da ação humana, dialogando diretamente com a noção maçônica de persistência e disciplina como fundamentos do caráter;

2.      JUNG, Carl Gustav. Sincronicidade: um princípio de conexões não causais. Petrópolis: Vozes, 2000. Texto que aprofunda a relação entre psique e acontecimentos exteriores, oferecendo suporte conceitual à compreensão simbólica do pensamento coletivo e das correspondências entre mundo interior e exterior;

3.      PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2014. Obra fundamental da filosofia clássica que apresenta a primazia do mundo inteligível sobre o sensível, servindo como base simbólica para compreender a centralidade do pensamento na construção do ser e na libertação das aparências;

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