A motivação, quando observada pela lente da filosofia maçônica,
deixa de ser um impulso circunstancial e passa a ser compreendida como um
princípio ordenador da vida interior. Não se trata de entusiasmo passageiro,
mas de uma disposição contínua da consciência que orienta o homem na edificação
do próprio Templo Interior. Pensar, desejar, decidir e persistir tornam-se,
assim, atos simbólicos e operativos, equivalentes aos gestos do construtor que,
pedra após pedra, transforma matéria bruta em forma inteligível.
Desde a filosofia clássica, o pensamento foi reconhecido como
força estruturante da existência. Para Platão, o mundo sensível é apenas sombra
de uma realidade mais elevada, acessível pela razão e pela contemplação
interior. A Maçonaria se entende com essa visão ao ensinar que o homem só se
liberta das aparências quando aprende a governar seus pensamentos. Pensar não é
acumular ideias, mas ordenar o caos interno, do mesmo modo que o esquadro
ordena a pedra irregular. Uma mente dispersa produz desejos confusos; uma mente
disciplinada transforma desejo em propósito.
A metáfora do maço de cédulas de dinheiro e do cacho de bananas
ilustra esse ponto com clareza simbólica. O instinto escolhe o alimento
imediato; a consciência escolhe aquilo que projeta o futuro. O homem
condicionado pelo sistema social tende a agir como o macaco simbólico, reagindo
a estímulos imediatos e confundindo ocupação com sentido. A filosofia maçônica
propõe outra postura: olhar além da aparência, reconhecer que oportunidades
frequentemente se disfarçam de dificuldades e compreender que o sucesso não
reside na posse, mas na disposição da mente. Nesse sentido, a motivação não é
algo que se recebe, mas algo que se constrói.
O desejo ocupa papel central nesse processo. Para os antigos, o
desejo era ambíguo: podia elevar ou degradar. Aristóteles ensinava que a
virtude está no justo meio, isto é, na capacidade de orientar as paixões pela
razão. A Maçonaria expressa essa mesma ideia ao afirmar que o desejo, quando
iluminado pela ética, torna-se força criadora; quando abandonado ao instinto,
converte-se em prisão. O desejo é o fogo inicial da obra, mas precisa de forma,
assim como o metal precisa do molde.
A fé, compreendida não como crença cega, mas como certeza
interior, sustenta o construtor quando a forma ainda não é visível. Visualizar
a realização é como traçar, no plano invisível, a planta do edifício antes de
erguer suas paredes. Aqui, a autossugestão desempenha papel relevante:
pensamentos carregados de emoção penetram no subconsciente e ali se fixam como
sementes. O subconsciente, comparável a um solo fértil, não distingue o que é
verdadeiro ou falso, mas apenas o que é repetido com convicção. Por isso, a
disciplina mental é uma exigência iniciática.
A imaginação, por sua vez, é a oficina da mente. Nada existe no
mundo humano que não tenha sido antes imaginado. Cidades, instituições, obras
de arte e trajetórias pessoais nasceram como imagens interiores. Contudo, a
imaginação precisa ser educada, pois tanto pode libertar quanto iludir. Quando
orientada por princípios, ela se torna aliada da razão; quando desvinculada da
ética, gera fantasias estéreis. A filosofia maçônica ensina a imaginar com
medida, como quem traça círculos com o compasso, respeitando proporções
invisíveis.
Decisão e persistência completam o quadro. Decidir é romper com
a névoa da indecisão, assumir responsabilidade e fixar um norte. Persistir é
honrar essa decisão no tempo, mesmo quando o entusiasmo inicial se dissipa. A
obra interior não se realiza em um único golpe de cinzel, mas em repetição
paciente e consciente. O hábito, nesse contexto, transforma esforço em
disciplina e disciplina em caráter. O homem que persiste aprende a dialogar com
o tempo, compreendendo que maturação é parte essencial da construção.
Há ainda a dimensão coletiva, frequentemente negligenciada. A
Maçonaria reconhece que mentes harmonizadas produzem uma energia simbólica
superior à soma dos esforços individuais. O pensamento coletivo, quando
orientado por fraternidade e propósito, sustenta o indivíduo em seus momentos
de fraqueza. Essa ideia encontra eco na noção de sincronicidade elaborada por
Carl Gustav Jung, segundo a qual há conexões significativas entre o mundo
interior e os acontecimentos exteriores. O Templo, nesse sentido, funciona como
espaço de ressonância, onde o invisível encontra forma simbólica.
Como sugestão construtiva, o ensaio convida o leitor a praticar
o ócio criativo: reservar tempo para refletir, estudar e silenciar. Em uma
sociedade que glorifica a pressa, o silêncio torna-se ato revolucionário. É
nele que o homem distingue o essencial do acessório e reencontra o sentido de
suas ações. Outra sugestão é observar os próprios pensamentos como quem observa
ferramentas: quais constroem e quais ferem? Essa vigilância cotidiana é
exercício iniciático simples e profundamente transformador.
Em síntese, a motivação, à luz da filosofia maçônica e da
tradição clássica, não é estímulo externo, mas governo interior. Pensar bem é
viver melhor; desejar com consciência é construir com sentido; persistir é
respeitar a obra que se quer realizar. O homem que compreende isso deixa de ser
escravo das circunstâncias e passa a ser artífice de si mesmo, transformando a
própria vida em obra ética, simbólica e consciente.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin
Claret, 2014. Tratado essencial sobre virtude, hábito e finalidade da ação
humana, dialogando diretamente com a noção maçônica de persistência e
disciplina como fundamentos do caráter;
2.
JUNG, Carl Gustav. Sincronicidade: um princípio
de conexões não causais. Petrópolis: Vozes, 2000. Texto que aprofunda a relação
entre psique e acontecimentos exteriores, oferecendo suporte conceitual à
compreensão simbólica do pensamento coletivo e das correspondências entre mundo
interior e exterior;
3.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret,
2014. Obra fundamental da filosofia clássica que apresenta a primazia do mundo
inteligível sobre o sensível, servindo como base simbólica para compreender a
centralidade do pensamento na construção do ser e na libertação das aparências;

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