domingo, 15 de fevereiro de 2026

Pedra Cúbica e a Ordem da Perfeição

 Charles Evaldo Boller

No Rito Escocês Antigo e Aceito, o método de ensino simbólico da pedra bruta e da pedra polida estrutura um estudo geral do ser no aperfeiçoamento humano e coletivo. A pedra bruta, retirada da pedreira em seu estado rude, representa o ser ainda submisso à irregularidade dos impulsos, à dispersão dos desejos e à opacidade da ignorância. A pedra polida, por sua vez, é fruto do trabalho consciente, do esforço disciplinado e da submissão voluntária à regra, figurando o processo de individuação pelo qual o iniciado se constrói na medida em que se conhece. Reduzir tal símbolo a uma moralização superficial seria permanecer no plano da aparência sensível; o simbolismo maçônico exige leitura metafísica, onde forma e essência se reconciliam.

A filosofia clássica já intuía essa dinâmica. Em Platão, a passagem do mundo sensível ao inteligível exige uma conversão da alma, um polimento interior que a liberta das sombras da caverna. Em Aristóteles, a forma realiza a potência, atualizando aquilo que a matéria apenas promete. A pedra bruta é potência; a pedra cúbica é ato. O símbolo maçônico, assim, não apenas se relaciona com a filosofia antiga, mas a prolonga em chave operativa, convertendo especulação em método de vida.

A leitura social do símbolo aprofunda esse horizonte. A pedra bruta pode representar o povo em sua condição originária: plural, desordenado, rico em força, porém carente de forma. A pedra cúbica, símbolo da perfeição geométrica, figura o Estado organizado, cuja legitimidade deriva da vontade do governado e se expressa na Constituição e nas leis. A força popular, quando burilada pela razão normativa, torna-se ordem política. Não se trata de dominação, mas de ajuste: a régua, o esquadro e o nível não violentam a pedra, apenas revelam nela a possibilidade de equilíbrio.

O cubo, quando projetado sobre um plano, mostra três faces, nove linhas e sete pontos; em sua totalidade, apresenta seis faces, doze linhas e oito pontos. Essa aritmética simbólica articula números tradicionalmente sagrados: o três da perfeição, o sete da plenitude, o nove do quadrado do ternário e o doze da totalidade cíclica. O visível e o invisível coexistem, como na própria realidade política e espiritual. As três faces visíveis do cubo evocam os poderes executivo, legislativo e judiciário, cuja harmonia garante a estabilidade do edifício social. As três faces invisíveis remetem à liberdade, à igualdade e à fraternidade, princípios que não se veem, mas sem os quais a estrutura colapsa.

Essa dialética entre visível e invisível encontra ressonância tanto na ciência quanto na religião. A física contemporânea, especialmente a quântica, ensina que a realidade última não se reduz ao que os sentidos captam; campos, probabilidades e relações precedem a matéria observável. Albert Einstein, embora crítico de certos desdobramentos quânticos, reconheceu que o mistério é a fonte de toda verdadeira ciência. Do mesmo modo, a Maçonaria afirma que o Grande Arquiteto do Universo não se impõe como dogma, mas se revela como princípio ordenador inteligível, acessível à razão simbólica.

Na religião, o símbolo do templo edificado com pedras bem ajustadas ecoa a mesma verdade: não há espiritualidade autêntica sem trabalho interior e sem ordem coletiva. A pedra cúbica não anula a diversidade das pedras; antes, permite que cada uma encontre seu lugar na construção. A Maçonaria, ao harmonizar ciência, filosofia e religião, propõe uma ética da forma: a liberdade sem regra degenera em caos; a regra sem liberdade converte-se em tirania. O equilíbrio é a perfeição.

Assim, a passagem da pedra bruta à pedra polida não descreve apenas o itinerário do iniciado, mas o destino das sociedades que aspiram à justiça. Burilar a si mesmo é condição para burilar o mundo. O cubo, sólido e silencioso, ensina que a perfeição não é espontânea, mas construída; não é dada, mas conquistada; não é visível em sua totalidade, mas sustentada por dimensões invisíveis que conferem sentido ao todo.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Giovanni Reale. São Paulo: Loyola, 2002. O conceito aristotélico de potência e ato ilumina o simbolismo da transformação da pedra, oferecendo base filosófica sólida para a ideia de aperfeiçoamento gradual e teleológico;

2.      DACHEZ, Roger. Histoire de la Franc-Maçonnerie Française. Paris: PUF, 2003. O autor contextualiza historicamente os símbolos maçônicos, esclarecendo suas múltiplas camadas de significado e sua aplicação ética, social e política;

3.      EINSTEIN, Albert. Como Vejo o Mundo. Tradução de H. P. De Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. As reflexões do autor sobre ciência e mistério auxiliam na harmonização entre racionalidade científica, simbolismo iniciático e abertura ao transcendente;

4.      PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. A obra fornece o arcabouço metafísico da passagem do sensível ao inteligível, permitindo compreender a pedra bruta como estado de ignorância e a pedra polida como realização da forma racional;

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