No Rito Escocês Antigo e Aceito, o método de ensino simbólico da
pedra bruta e da pedra polida estrutura um estudo geral do ser no
aperfeiçoamento humano e coletivo. A pedra bruta, retirada da pedreira em seu
estado rude, representa o ser ainda submisso à irregularidade dos impulsos, à
dispersão dos desejos e à opacidade da ignorância. A pedra polida, por sua vez,
é fruto do trabalho consciente, do esforço disciplinado e da submissão
voluntária à regra, figurando o processo de individuação pelo qual o iniciado
se constrói na medida em que se conhece. Reduzir tal símbolo a uma moralização
superficial seria permanecer no plano da aparência sensível; o simbolismo
maçônico exige leitura metafísica, onde forma e essência se reconciliam.
A filosofia clássica já intuía essa dinâmica. Em Platão, a
passagem do mundo sensível ao inteligível exige uma conversão da alma, um
polimento interior que a liberta das sombras da caverna. Em Aristóteles, a
forma realiza a potência, atualizando aquilo que a matéria apenas promete. A
pedra bruta é potência; a pedra cúbica é ato. O símbolo maçônico, assim, não
apenas se relaciona com a filosofia antiga, mas a prolonga em chave operativa,
convertendo especulação em método de vida.
A leitura social do símbolo aprofunda esse horizonte. A pedra
bruta pode representar o povo em sua condição originária: plural, desordenado,
rico em força, porém carente de forma. A pedra cúbica, símbolo da perfeição
geométrica, figura o Estado organizado, cuja legitimidade deriva da vontade do
governado e se expressa na Constituição e nas leis. A força popular, quando
burilada pela razão normativa, torna-se ordem política. Não se trata de
dominação, mas de ajuste: a régua, o esquadro e o nível não violentam a pedra,
apenas revelam nela a possibilidade de equilíbrio.
O cubo, quando projetado sobre um plano, mostra três faces, nove
linhas e sete pontos; em sua totalidade, apresenta seis faces, doze linhas e
oito pontos. Essa aritmética simbólica articula números tradicionalmente
sagrados: o três da perfeição, o sete da plenitude, o nove do quadrado do
ternário e o doze da totalidade cíclica. O visível e o invisível coexistem,
como na própria realidade política e espiritual. As três faces visíveis do cubo
evocam os poderes executivo, legislativo e judiciário, cuja harmonia garante a
estabilidade do edifício social. As três faces invisíveis remetem à liberdade,
à igualdade e à fraternidade, princípios que não se veem, mas sem os quais a
estrutura colapsa.
Essa dialética entre visível e invisível encontra ressonância
tanto na ciência quanto na religião. A física contemporânea, especialmente a
quântica, ensina que a realidade última não se reduz ao que os sentidos captam;
campos, probabilidades e relações precedem a matéria observável. Albert
Einstein, embora crítico de certos desdobramentos quânticos, reconheceu que o
mistério é a fonte de toda verdadeira ciência. Do mesmo modo, a Maçonaria
afirma que o Grande Arquiteto do Universo não se impõe como dogma, mas se
revela como princípio ordenador inteligível, acessível à razão simbólica.
Na religião, o símbolo do templo edificado com pedras bem
ajustadas ecoa a mesma verdade: não há espiritualidade autêntica sem trabalho
interior e sem ordem coletiva. A pedra cúbica não anula a diversidade das
pedras; antes, permite que cada uma encontre seu lugar na construção. A
Maçonaria, ao harmonizar ciência, filosofia e religião, propõe uma ética da
forma: a liberdade sem regra degenera em caos; a regra sem liberdade
converte-se em tirania. O equilíbrio é a perfeição.
Assim, a passagem da pedra bruta à pedra polida não descreve
apenas o itinerário do iniciado, mas o destino das sociedades que aspiram à
justiça. Burilar a si mesmo é condição para burilar o mundo. O cubo, sólido e
silencioso, ensina que a perfeição não é espontânea, mas construída; não é
dada, mas conquistada; não é visível em sua totalidade, mas sustentada por
dimensões invisíveis que conferem sentido ao todo.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Giovanni
Reale. São Paulo: Loyola, 2002. O conceito aristotélico de potência e ato
ilumina o simbolismo da transformação da pedra, oferecendo base filosófica
sólida para a ideia de aperfeiçoamento gradual e teleológico;
2.
DACHEZ, Roger. Histoire de la Franc-Maçonnerie
Française. Paris: PUF, 2003. O autor contextualiza historicamente os símbolos
maçônicos, esclarecendo suas múltiplas camadas de significado e sua aplicação
ética, social e política;
3.
EINSTEIN, Albert. Como Vejo o Mundo. Tradução de
H. P. De Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. As reflexões do autor
sobre ciência e mistério auxiliam na harmonização entre racionalidade
científica, simbolismo iniciático e abertura ao transcendente;
4.
PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da
Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. A obra fornece o
arcabouço metafísico da passagem do sensível ao inteligível, permitindo
compreender a pedra bruta como estado de ignorância e a pedra polida como
realização da forma racional;

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