segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Ignorância Sabedoria e Libertação do Espírito

 Charles Evaldo Boller

A ignorância, longe de constituir simples ausência de instrução formal, revela-se como uma disposição interior que deturpa o uso do conhecimento e corrompe a convivência humana. Trata-se de um estado no qual a razão é subjugada pelo impulso, pela vaidade ou pelo desejo de domínio, produzindo injustiça, violência e desagregação social. A história demonstra, de modo recorrente, que não são raras as sociedades abundantemente providas de informação, mas carentes de discernimento. Nesse sentido, a ignorância manifesta-se não como vazio, mas como desordem interior, semelhante a um edifício erguido sem prumo, cujas paredes cedo ou tarde ruirão sobre si mesmas.

A tradição filosófica já advertia sobre tal perigo. Em Platão, a ignorância aparece como prisão da alma na caverna das aparências, onde sombras são confundidas com a realidade. O processo educativo, portanto, não consiste em acumular dados, mas em converter o olhar interior, orientando-o para a Luz. Essa metáfora encontra profundo eco no simbolismo maçônico, no qual o aperfeiçoamento do obreiro exige o polimento contínuo da pedra bruta, não apenas pelo estudo, mas sobretudo pela retificação moral e pelo domínio das paixões degradantes.

O homem sábio distingue-se do erudito estéril na medida em que integra conhecimento, ética e ação. A sabedoria, enquanto harmonia interior, permite ao indivíduo agir com prudência, tolerância e senso de justiça, evitando os extremos que conduzem ao fanatismo. Em Immanuel Kant, a maioridade do espírito humano realiza-se quando o indivíduo ousa pensar por si mesmo, libertando-se da tutela de dogmas impostos. Tal autonomia moral, contudo, não implica isolamento, mas responsabilidade, pois a liberdade autêntica se expressa no respeito ao outro e na construção do bem comum.

O fanatismo político e religioso surge precisamente quando essa autonomia é substituída pela obediência cega. Nessas circunstâncias, a razão é sacrificada em nome de verdades tornadas absolutas, e o ser humano converte-se em instrumento de ideologias ou crenças deformadas. A ciência moderna, por sua vez, ao revelar a complexidade do universo, oferece poderoso antídoto contra tais simplificações. A física quântica, ao demonstrar que o observador participa do fenômeno observado, ensina que a realidade não é rígida nem unívoca, mas relacional. Essa visão conversa com o princípio maçônico segundo o qual a Verdade não se impõe, constrói-se progressivamente, na medida em que o espírito se amplia.

Em Albert Einstein, ciência e espiritualidade não se opõem, mas se complementam. Para ele, a experiência do mistério constitui a fonte mais profunda da arte, da ciência e da religião autêntica. Tal percepção aproxima-se da compreensão simbólica do Grande Arquiteto do Universo como princípio ordenador, não antropomórfico, que convida o ser humano à contemplação, à humildade intelectual e à ética universal. Nesse horizonte, Maçonaria, ciência e religião deixam de disputar territórios e passam a cooperar na formação integral do indivíduo.

A Maçonaria, ao privilegiar o método de ensino simbólico e a educação permanente, propõe-se a combater a ignorância em sua raiz mais profunda: a incapacidade de refletir, de dialogar e de reconhecer limites. Sua ação não se funda em privilégios pessoais, mas na transformação interior, que se irradia naturalmente para o meio social. Assim como uma lâmpada acesa ilumina sem esforço, o obreiro esclarecido influencia pelo exemplo, promovendo concórdia onde havia conflito e discernimento onde reinava a confusão.

Educar o espírito é, portanto, libertar o ser humano das correntes invisíveis do embrutecimento. Essa libertação não ocorre por ruptura violenta, mas por amadurecimento consciente, na medida em que a razão se alia à sensibilidade e a ciência se reconcilia com a espiritualidade. Nessa convergência, a sociedade encontra caminhos mais justos e humanos, e o indivíduo realiza sua vocação mais elevada: tornar-se instrumento consciente da harmonia universal, sob a inspiração do Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia Comentada

1.      BOHM, David. A totalidade e a ordem implicada. São Paulo: Cultrix, 1992. A obra articula conceitos da física quântica com uma visão holística da realidade, favorecendo a compreensão simbólica da interdependência entre consciência, matéria e ordem universal;

2.      EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. Reunindo reflexões científicas e filosóficas, Einstein oferece uma visão integrada entre ciência e espiritualidade, contribuindo para o diálogo entre conhecimento racional, ética universal e sentimento do mistério;

3.      FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. A análise psicológica de Fromm esclarece os mecanismos pelos quais indivíduos abdicam da liberdade em favor de sistemas autoritários, fornecendo importante subsídio para a compreensão do fanatismo político e religioso;

4.      KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: que é o esclarecimento? Petrópolis: Vozes, 2005. O ensaio kantiano apresenta o conceito de maioridade intelectual como superação da tutela dogmática, sendo referência indispensável para compreender a relação entre razão, liberdade e responsabilidade moral;

5.      PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Nesta obra fundamental, Platão desenvolve a célebre alegoria da caverna, que permite compreender a ignorância como aprisionamento da consciência às aparências, oferecendo sólida base filosófica para a reflexão sobre educação, ética e libertação interior;

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