A ignorância, longe de constituir simples ausência de instrução
formal, revela-se como uma disposição interior que deturpa o uso do
conhecimento e corrompe a convivência humana. Trata-se de um estado no qual a
razão é subjugada pelo impulso, pela vaidade ou pelo desejo de domínio,
produzindo injustiça, violência e desagregação social. A história demonstra, de
modo recorrente, que não são raras as sociedades abundantemente providas de
informação, mas carentes de discernimento. Nesse sentido, a ignorância
manifesta-se não como vazio, mas como desordem interior, semelhante a um
edifício erguido sem prumo, cujas paredes cedo ou tarde ruirão sobre si mesmas.
A tradição filosófica já advertia sobre tal perigo. Em Platão, a
ignorância aparece como prisão da alma na caverna das aparências, onde sombras
são confundidas com a realidade. O processo educativo, portanto, não consiste
em acumular dados, mas em converter o olhar interior, orientando-o para a Luz.
Essa metáfora encontra profundo eco no simbolismo maçônico, no qual o
aperfeiçoamento do obreiro exige o polimento contínuo da pedra bruta, não
apenas pelo estudo, mas sobretudo pela retificação moral e pelo domínio das
paixões degradantes.
O homem sábio distingue-se do erudito estéril na medida em que
integra conhecimento, ética e ação. A sabedoria, enquanto harmonia interior,
permite ao indivíduo agir com prudência, tolerância e senso de justiça,
evitando os extremos que conduzem ao fanatismo. Em Immanuel Kant, a maioridade
do espírito humano realiza-se quando o indivíduo ousa pensar por si mesmo,
libertando-se da tutela de dogmas impostos. Tal autonomia moral, contudo, não
implica isolamento, mas responsabilidade, pois a liberdade autêntica se
expressa no respeito ao outro e na construção do bem comum.
O fanatismo político e religioso surge precisamente quando essa
autonomia é substituída pela obediência cega. Nessas circunstâncias, a razão é
sacrificada em nome de verdades tornadas absolutas, e o ser humano converte-se
em instrumento de ideologias ou crenças deformadas. A ciência moderna, por sua
vez, ao revelar a complexidade do universo, oferece poderoso antídoto contra tais
simplificações. A física quântica, ao demonstrar que o observador participa do
fenômeno observado, ensina que a realidade não é rígida nem unívoca, mas
relacional. Essa visão conversa com o princípio maçônico segundo o qual a Verdade
não se impõe, constrói-se progressivamente, na medida em que o espírito se
amplia.
Em Albert Einstein, ciência e espiritualidade não se opõem, mas
se complementam. Para ele, a experiência do mistério constitui a fonte mais
profunda da arte, da ciência e da religião autêntica. Tal percepção aproxima-se
da compreensão simbólica do Grande Arquiteto do Universo como princípio
ordenador, não antropomórfico, que convida o ser humano à contemplação, à
humildade intelectual e à ética universal. Nesse horizonte, Maçonaria, ciência e
religião deixam de disputar territórios e passam a cooperar na formação
integral do indivíduo.
A Maçonaria, ao privilegiar o método de ensino simbólico e a
educação permanente, propõe-se a combater a ignorância em sua raiz mais
profunda: a incapacidade de refletir, de dialogar e de reconhecer limites. Sua
ação não se funda em privilégios pessoais, mas na transformação interior, que
se irradia naturalmente para o meio social. Assim como uma lâmpada acesa
ilumina sem esforço, o obreiro esclarecido influencia pelo exemplo, promovendo
concórdia onde havia conflito e discernimento onde reinava a confusão.
Educar o espírito é, portanto, libertar o ser humano das
correntes invisíveis do embrutecimento. Essa libertação não ocorre por ruptura
violenta, mas por amadurecimento consciente, na medida em que a razão se alia à
sensibilidade e a ciência se reconcilia com a espiritualidade. Nessa
convergência, a sociedade encontra caminhos mais justos e humanos, e o
indivíduo realiza sua vocação mais elevada: tornar-se instrumento consciente da
harmonia universal, sob a inspiração do Grande Arquiteto do Universo.
Bibliografia Comentada
1.
BOHM, David. A totalidade e a ordem implicada.
São Paulo: Cultrix, 1992. A obra articula conceitos da física quântica com uma
visão holística da realidade, favorecendo a compreensão simbólica da
interdependência entre consciência, matéria e ordem universal;
2.
EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1981. Reunindo reflexões científicas e filosóficas,
Einstein oferece uma visão integrada entre ciência e espiritualidade,
contribuindo para o diálogo entre conhecimento racional, ética universal e
sentimento do mistério;
3.
FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de
Janeiro: Zahar, 1980. A análise psicológica de Fromm esclarece os mecanismos
pelos quais indivíduos abdicam da liberdade em favor de sistemas autoritários,
fornecendo importante subsídio para a compreensão do fanatismo político e
religioso;
4.
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: que é o
esclarecimento? Petrópolis: Vozes, 2005. O ensaio kantiano apresenta o conceito
de maioridade intelectual como superação da tutela dogmática, sendo referência
indispensável para compreender a relação entre razão, liberdade e
responsabilidade moral;
5.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes,
2006. Nesta obra fundamental, Platão desenvolve a célebre alegoria da caverna,
que permite compreender a ignorância como aprisionamento da consciência às
aparências, oferecendo sólida base filosófica para a reflexão sobre educação,
ética e libertação interior;

Nenhum comentário:
Postar um comentário