Charles Evaldo Boller
A Maçonaria, ao longo de sua história especulativa, jamais
buscou a aceitação irrestrita nem o aplauso universal. Sua presença discreta,
muitas vezes tolerada e frequentemente combatida, revela um paradoxo próprio
das instituições que operam no campo da liberdade interior: quanto mais
silenciosa e profunda é sua ação, mais inquieta se torna a reação dos sistemas
que dependem do condicionamento das consciências. A rejeição à Maçonaria não
decorre de seus símbolos, de sua reserva ritual ou de seus segredos
iniciáticos, pois outras instituições igualmente discretas não despertam
semelhante hostilidade. O cerne do conflito reside no fato de que a Maçonaria
educa o homem para pensar por si mesmo.
Desde a Antiguidade, a liberdade de pensamento foi percebida
como ameaça aos regimes baseados na submissão. A filosofia clássica já apontava
esse dilema quando Sócrates afirmava que a vida não examinada não merece ser
vivida. O método socrático, fundado no questionamento permanente, ecoa no
método de ensino simbólico da Maçonaria, que não transmite dogmas, mas provoca o iniciado a depurar suas próprias certezas.
A pedra bruta, metáfora central da Arte Real, representa precisamente o homem
condicionado por crenças herdadas, medos coletivos e narrativas impostas; seu
desbaste contínuo é o exercício da razão aplicada à própria existência.
Esse processo de libertação intelectual não se confunde com
rebeldia política nem com oposição religiosa. A Maçonaria não pretende
substituir credos nem erigir um novo sistema de poder. Ela atua na
interioridade do indivíduo, na medida em que o convida a reconhecer no Grande
Arquiteto do Universo um princípio ordenador acessível pela razão, pela
intuição e pela experiência simbólica, e não por intermediários exclusivos. É
justamente essa autonomia espiritual que incomoda estruturas religiosas
dogmáticas e regimes políticos autoritários, pois o homem que pensa não se
submete facilmente.
A filosofia moderna reforça esse diagnóstico. Immanuel Kant, ao
definir o esclarecimento como a saída do homem de sua menoridade autoimposta,
antecipou o ideal maçônico de emancipação intelectual. Pensar por conta própria
exige coragem, disciplina e tempo interior, elementos raros em sociedades
orientadas pela produtividade acrítica. É nesse ponto que o ócio criativo,
praticado conscientemente pelo maçom em loja e em meditação, assume valor
iniciático. Longe de ser inatividade, trata-se de um trabalho interno intenso,
no qual razão e símbolo cooperam para a formação da individuação.
A ciência contemporânea oferece analogias elucidativas para esse
fenômeno. Albert Einstein reconhecia que a imaginação e a intuição são tão essenciais
quanto o cálculo matemático na compreensão do real. A física quântica, ao
revelar a interdependência entre observador e fenômeno observado, sugere que a
consciência participa ativamente da construção da realidade percebida. Tal
perspectiva dialoga com a experiência maçônica, na qual o templo externo
reflete o templo interior, e a transformação do mundo começa pela transformação
do sujeito que observa.
No campo ético e político, Baruch Spinoza já advertia que o
homem livre é aquele que age segundo a razão, não movido pelo medo nem pela
esperança de recompensas externas. A Maçonaria, ao recusar promessas de
salvação ou ameaças de punição, educa para uma liberdade responsável, fundada
na consciência e na fraternidade. Essa postura torna-se insuportável para
sistemas que prosperam sobre a obediência cega, pois o indivíduo emancipado
rompe o ciclo de dominação.
A rejeição à Maçonaria, portanto, é sintoma de sua eficácia. Ao
formar homens capazes de discernimento, ela desestabiliza narrativas que
legitimam desigualdades extremas, fanatismos religiosos e autoritarismos
políticos. O maçom, ao aprender a pensar, passa a questionar fronteiras
arbitrárias, dogmas excludentes e estruturas que naturalizam a miséria de
muitos para o conforto de poucos. Esse despertar não é revolucionário no
sentido violento, mas profundamente transformador no plano humano.
Assim, a Maçonaria permanece fiel ao seu objetivo maior:
contribuir para a felicidade da humanidade pelo cultivo da liberdade, do amor
fraterno e da razão esclarecida. Seu método de ensino simbólico não cria servos
nem seguidores, mas indivíduos conscientes, capazes de harmonizar ciência,
filosofia e espiritualidade em uma visão integrada do mundo. Por isso ela é
combatida; e exatamente por isso continua necessária.
Bibliografia Comentada
1.
ANDERSON, James. Constituições dos
Franco-Maçons. Londres: 1723. Obra fundacional da Maçonaria Especulativa,
estabelece os princípios de liberdade de consciência e tolerância religiosa que
sustentam a oposição histórica da Ordem a qualquer forma de dogmatismo;
2.
EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2001. Coletânea de reflexões nas quais o autor
evidencia a importância da intuição, da imaginação e da responsabilidade ética
do pensamento científico, em harmonia com a visão simbólica maçônica;
3.
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. Análise profunda do simbolismo como via de
individuação, esclarecendo o papel dos rituais e imagens arquetípicas no
processo de autoconhecimento promovido pela Maçonaria;
4.
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: Que é o
esclarecimento? São Paulo: Martins Fontes, 2003. Texto essencial para
compreender a noção de emancipação intelectual como saída da menoridade,
conceito diretamente convergente com o ideal maçônico de formação do
livre-pensador;
5.
SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte:
Autêntica, 2013. A obra apresenta uma concepção de liberdade fundada na razão e
na compreensão das causas, oferecendo base filosófica sólida para a crítica ao
medo e à superstição como instrumentos de dominação;

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