sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A Maçonaria e a Libertação do Pensamento

 Charles Evaldo Boller

A Maçonaria, ao longo de sua história especulativa, jamais buscou a aceitação irrestrita nem o aplauso universal. Sua presença discreta, muitas vezes tolerada e frequentemente combatida, revela um paradoxo próprio das instituições que operam no campo da liberdade interior: quanto mais silenciosa e profunda é sua ação, mais inquieta se torna a reação dos sistemas que dependem do condicionamento das consciências. A rejeição à Maçonaria não decorre de seus símbolos, de sua reserva ritual ou de seus segredos iniciáticos, pois outras instituições igualmente discretas não despertam semelhante hostilidade. O cerne do conflito reside no fato de que a Maçonaria educa o homem para pensar por si mesmo.

Desde a Antiguidade, a liberdade de pensamento foi percebida como ameaça aos regimes baseados na submissão. A filosofia clássica já apontava esse dilema quando Sócrates afirmava que a vida não examinada não merece ser vivida. O método socrático, fundado no questionamento permanente, ecoa no método de ensino simbólico da Maçonaria, que não transmite dogmas, mas provoca o iniciado a depurar suas próprias certezas. A pedra bruta, metáfora central da Arte Real, representa precisamente o homem condicionado por crenças herdadas, medos coletivos e narrativas impostas; seu desbaste contínuo é o exercício da razão aplicada à própria existência.

Esse processo de libertação intelectual não se confunde com rebeldia política nem com oposição religiosa. A Maçonaria não pretende substituir credos nem erigir um novo sistema de poder. Ela atua na interioridade do indivíduo, na medida em que o convida a reconhecer no Grande Arquiteto do Universo um princípio ordenador acessível pela razão, pela intuição e pela experiência simbólica, e não por intermediários exclusivos. É justamente essa autonomia espiritual que incomoda estruturas religiosas dogmáticas e regimes políticos autoritários, pois o homem que pensa não se submete facilmente.

A filosofia moderna reforça esse diagnóstico. Immanuel Kant, ao definir o esclarecimento como a saída do homem de sua menoridade autoimposta, antecipou o ideal maçônico de emancipação intelectual. Pensar por conta própria exige coragem, disciplina e tempo interior, elementos raros em sociedades orientadas pela produtividade acrítica. É nesse ponto que o ócio criativo, praticado conscientemente pelo maçom em loja e em meditação, assume valor iniciático. Longe de ser inatividade, trata-se de um trabalho interno intenso, no qual razão e símbolo cooperam para a formação da individuação.

A ciência contemporânea oferece analogias elucidativas para esse fenômeno. Albert Einstein reconhecia que a imaginação e a intuição são tão essenciais quanto o cálculo matemático na compreensão do real. A física quântica, ao revelar a interdependência entre observador e fenômeno observado, sugere que a consciência participa ativamente da construção da realidade percebida. Tal perspectiva dialoga com a experiência maçônica, na qual o templo externo reflete o templo interior, e a transformação do mundo começa pela transformação do sujeito que observa.

No campo ético e político, Baruch Spinoza já advertia que o homem livre é aquele que age segundo a razão, não movido pelo medo nem pela esperança de recompensas externas. A Maçonaria, ao recusar promessas de salvação ou ameaças de punição, educa para uma liberdade responsável, fundada na consciência e na fraternidade. Essa postura torna-se insuportável para sistemas que prosperam sobre a obediência cega, pois o indivíduo emancipado rompe o ciclo de dominação.

A rejeição à Maçonaria, portanto, é sintoma de sua eficácia. Ao formar homens capazes de discernimento, ela desestabiliza narrativas que legitimam desigualdades extremas, fanatismos religiosos e autoritarismos políticos. O maçom, ao aprender a pensar, passa a questionar fronteiras arbitrárias, dogmas excludentes e estruturas que naturalizam a miséria de muitos para o conforto de poucos. Esse despertar não é revolucionário no sentido violento, mas profundamente transformador no plano humano.

Assim, a Maçonaria permanece fiel ao seu objetivo maior: contribuir para a felicidade da humanidade pelo cultivo da liberdade, do amor fraterno e da razão esclarecida. Seu método de ensino simbólico não cria servos nem seguidores, mas indivíduos conscientes, capazes de harmonizar ciência, filosofia e espiritualidade em uma visão integrada do mundo. Por isso ela é combatida; e exatamente por isso continua necessária.

Bibliografia Comentada

1.      ANDERSON, James. Constituições dos Franco-Maçons. Londres: 1723. Obra fundacional da Maçonaria Especulativa, estabelece os princípios de liberdade de consciência e tolerância religiosa que sustentam a oposição histórica da Ordem a qualquer forma de dogmatismo;

2.      EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. Coletânea de reflexões nas quais o autor evidencia a importância da intuição, da imaginação e da responsabilidade ética do pensamento científico, em harmonia com a visão simbólica maçônica;

3.      JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. Análise profunda do simbolismo como via de individuação, esclarecendo o papel dos rituais e imagens arquetípicas no processo de autoconhecimento promovido pela Maçonaria;

4.      KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: Que é o esclarecimento? São Paulo: Martins Fontes, 2003. Texto essencial para compreender a noção de emancipação intelectual como saída da menoridade, conceito diretamente convergente com o ideal maçônico de formação do livre-pensador;

5.      SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2013. A obra apresenta uma concepção de liberdade fundada na razão e na compreensão das causas, oferecendo base filosófica sólida para a crítica ao medo e à superstição como instrumentos de dominação;

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