domingo, 8 de fevereiro de 2026

Amor Iniciático e Responsabilidade do Livre Arbítrio

 Charles Evaldo Boller

O amor à família, compreendido como exercício consciente de responsabilidade e não como indulgência cega, revela-se, sob a ótica filosófica maçônica, uma verdadeira via iniciática. Amar filhos, noras e netos "como eles são", reconhecendo neles a mesma abertura ao erro que marcou a própria trajetória, é reconhecer a condição humana como processo, jamais como estado concluído. Tal compreensão aproxima-se do princípio iniciático segundo o qual o ser não nasce pronto, mas é constantemente talhado, na medida em que enfrenta suas imperfeições à luz da consciência.

A experiência acumulada ao longo da vida, expressa na metáfora da "cancha" adquirida pelos erros, corresponde simbolicamente à lapidação da pedra bruta. Cada falha, cada arrependimento e cada dor transformam-se em instrumentos de discernimento, não para o julgamento, mas para a orientação. Nesse ponto, a sabedoria prática dialoga com a ética de Aristóteles, para quem a virtude nasce do hábito refletido, amadurecido pela experiência e pela prudência. Não se trata de impor um caminho, mas de indicar limites onde a liberdade, se não iluminada, pode converter-se em causa de sofrimento.

A afirmação de que não existe força no Universo, nem mesmo o Grande Arquiteto do Universo, capaz de mudar o outro contra o seu livre-arbítrio encontra sólida correspondência tanto na filosofia clássica quanto no simbolismo maçônico. Immanuel Kant sustenta que a dignidade humana reside justamente na autonomia moral, isto é, na capacidade de o indivíduo legislar para si mesmo. De modo convergente, a Maçonaria reconhece que nenhuma iniciação externa substitui a iniciação interior; nenhuma palavra transforma se não houver disposição íntima para ouvir.

O reconhecimento de que "o outro só muda se eu mudar primeiro" revela uma profunda compreensão simbólica da causalidade moral. Antes de corrigir, é necessário exemplificar; antes de exigir, é preciso viver. Essa lógica ecoa o pensamento de Baruch Spinoza, para quem a verdadeira potência não consiste em dominar o outro, mas em compreender a si mesmo segundo a ordem necessária da Natureza. Assim, a mudança pessoal torna-se um campo vibracional que, sem coerção, influencia aqueles que compartilham o mesmo espaço existencial.

Do ponto de vista da ciência contemporânea, a física quântica oferece metáforas sugestivas para essa compreensão. O observador, ao interagir com o fenômeno observado, não permanece neutro: sua presença altera o resultado. Transposto ao plano ético e familiar, isso significa que a postura interior, feita de coerência, humildade e integridade, atua como campo silencioso de influência. Não se trata de Misticismo ingênuo, mas de reconhecer que relações humanas são sistemas interdependentes, nos quais intenção e exemplo produzem efeitos reais.

A advertência amorosa, ainda que por vezes fira sentimentos, assume caráter iniciático quando orientada pelo zelo e não pelo orgulho. A omissão, descrita como covardia, revela-se, retrospectivamente, mais danosa do que a palavra firme. Aqui, a linha reta adquire sentido simbólico: não é rigidez moral, mas alinhamento entre consciência, ação e consequência. O sofrimento do descendente que se desvia torna-se, então, também sofrimento daquele que, por medo de desagradar, deixou de cumprir seu dever ético.

A consciência da finitude, intensificada pela idade avançada, confere urgência ao amor responsável. Saber que o tempo é limitado não conduz ao desespero, mas à clareza: amar é também proteger, advertir e preparar o outro para caminhar sem o amparo físico daquele que parte. Essa postura aproxima-se da humildade iniciática, que reconhece não a própria perfeição, mas a dependência última do Grande Arquiteto do Universo, único detentor da perfeição absoluta.

Assim, o amor familiar transforma-se em laboratório moral, onde Maçonaria, filosofia, religião e ciência se harmonizam. Amar, nesse contexto, é um ato consciente, livre e responsável, que respeita o livre-arbítrio, oferece caminhos e aceita que cada um só caminha quando decide fazê-lo. O "eu te amo", não é mero afeto emocional, mas síntese iniciática de uma vida dedicada a construir, com palavras e exemplos, pontes de consciência entre gerações.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martins Fontes, 2002. Obra fundamental para compreender a noção de virtude como hábito adquirido pela prática consciente, oferecendo sólida base para a reflexão sobre prudência, responsabilidade moral e formação do caráter ao longo da vida;

2.      BOHM, David. Totalidade e a ordem implicada. São Paulo: Cultrix, 1980. Texto relevante para a compreensão de interdependência e totalidade, oferecendo suporte conceitual às metáforas quânticas aplicadas às relações humanas e aos campos de influência ética;

3.      EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. Coletânea de reflexões que, embora não sistemáticas, articulam ciência, ética e responsabilidade humana, fornecendo metáforas fecundas para o diálogo entre física moderna e consciência moral;

4.      KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. Texto central da filosofia moral moderna, no qual a autonomia e o livre-arbítrio são apresentados como fundamentos da dignidade humana, dialogando diretamente com a impossibilidade de transformação ética por imposição externa;

5.      SPINOZA, Baruch. Ética demonstrada à maneira dos geômetras. São Paulo: abril Cultural, 1973. Obra que propõe uma visão racional e necessária da Natureza e do agir humano, destacando a compreensão de si como verdadeira potência e oferecendo rica interlocução com o simbolismo iniciático;

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