O amor à família, compreendido como exercício consciente de
responsabilidade e não como indulgência cega, revela-se, sob a ótica filosófica
maçônica, uma verdadeira via iniciática. Amar filhos, noras e netos "como eles são", reconhecendo neles
a mesma abertura ao erro que marcou a própria trajetória, é reconhecer a
condição humana como processo, jamais como estado concluído. Tal compreensão
aproxima-se do princípio iniciático segundo o qual o ser não nasce pronto, mas
é constantemente talhado, na medida em que enfrenta suas imperfeições à luz da
consciência.
A experiência acumulada ao longo da vida, expressa na metáfora
da "cancha" adquirida pelos
erros, corresponde simbolicamente à lapidação da pedra bruta. Cada falha, cada
arrependimento e cada dor transformam-se em instrumentos de discernimento, não
para o julgamento, mas para a orientação. Nesse ponto, a sabedoria prática
dialoga com a ética de Aristóteles, para quem a virtude nasce do hábito
refletido, amadurecido pela experiência e pela prudência. Não se trata de impor
um caminho, mas de indicar limites onde a liberdade, se não iluminada, pode
converter-se em causa de sofrimento.
A afirmação de que não existe força no Universo, nem mesmo o Grande
Arquiteto do Universo, capaz de mudar o outro contra o seu livre-arbítrio
encontra sólida correspondência tanto na filosofia clássica quanto no
simbolismo maçônico. Immanuel Kant sustenta que a dignidade humana reside
justamente na autonomia moral, isto é, na capacidade de o indivíduo legislar
para si mesmo. De modo convergente, a Maçonaria reconhece que nenhuma iniciação
externa substitui a iniciação interior; nenhuma palavra transforma se não
houver disposição íntima para ouvir.
O reconhecimento de que "o outro só muda se eu mudar primeiro" revela uma profunda
compreensão simbólica da causalidade moral. Antes de corrigir, é necessário
exemplificar; antes de exigir, é preciso viver. Essa lógica ecoa o pensamento
de Baruch Spinoza, para quem a verdadeira potência não consiste em dominar o
outro, mas em compreender a si mesmo segundo a ordem necessária da Natureza.
Assim, a mudança pessoal torna-se um campo vibracional que, sem coerção,
influencia aqueles que compartilham o mesmo espaço existencial.
Do ponto de vista da ciência contemporânea, a física quântica
oferece metáforas sugestivas para essa compreensão. O observador, ao interagir
com o fenômeno observado, não permanece neutro: sua presença altera o
resultado. Transposto ao plano ético e familiar, isso significa que a postura
interior, feita de coerência, humildade e integridade, atua como campo
silencioso de influência. Não se trata de Misticismo ingênuo, mas de reconhecer
que relações humanas são sistemas interdependentes, nos quais intenção e
exemplo produzem efeitos reais.
A advertência amorosa, ainda que por vezes fira sentimentos,
assume caráter iniciático quando orientada pelo zelo e não pelo orgulho. A
omissão, descrita como covardia, revela-se, retrospectivamente, mais danosa do
que a palavra firme. Aqui, a linha reta adquire sentido simbólico: não é
rigidez moral, mas alinhamento entre consciência, ação e consequência. O
sofrimento do descendente que se desvia torna-se, então, também sofrimento
daquele que, por medo de desagradar, deixou de cumprir seu dever ético.
A consciência da finitude, intensificada pela idade avançada,
confere urgência ao amor responsável. Saber que o tempo é limitado não conduz
ao desespero, mas à clareza: amar é também proteger, advertir e preparar o
outro para caminhar sem o amparo físico daquele que parte. Essa postura
aproxima-se da humildade iniciática, que reconhece não a própria perfeição, mas
a dependência última do Grande Arquiteto do Universo, único detentor da
perfeição absoluta.
Assim, o amor familiar transforma-se em laboratório moral, onde
Maçonaria, filosofia, religião e ciência se harmonizam. Amar, nesse contexto, é
um ato consciente, livre e responsável, que respeita o livre-arbítrio, oferece
caminhos e aceita que cada um só caminha quando decide fazê-lo. O "eu te amo", não é mero afeto
emocional, mas síntese iniciática de uma vida dedicada a construir, com
palavras e exemplos, pontes de consciência entre gerações.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo:
Martins Fontes, 2002. Obra fundamental para compreender a noção de virtude como
hábito adquirido pela prática consciente, oferecendo sólida base para a
reflexão sobre prudência, responsabilidade moral e formação do caráter ao longo
da vida;
2.
BOHM, David. Totalidade e a ordem implicada. São
Paulo: Cultrix, 1980. Texto relevante para a compreensão de interdependência e
totalidade, oferecendo suporte conceitual às metáforas quânticas aplicadas às
relações humanas e aos campos de influência ética;
3.
EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1981. Coletânea de reflexões que, embora não
sistemáticas, articulam ciência, ética e responsabilidade humana, fornecendo
metáforas fecundas para o diálogo entre física moderna e consciência moral;
4.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos
costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. Texto central da filosofia moral moderna,
no qual a autonomia e o livre-arbítrio são apresentados como fundamentos da
dignidade humana, dialogando diretamente com a impossibilidade de transformação
ética por imposição externa;
5.
SPINOZA, Baruch. Ética demonstrada à maneira dos
geômetras. São Paulo: abril Cultural, 1973. Obra que propõe uma visão racional
e necessária da Natureza e do agir humano, destacando a compreensão de si como
verdadeira potência e oferecendo rica interlocução com o simbolismo iniciático;

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