quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Ócio Criativo e A Arte Real da Liberdade Interior

 Charles Evaldo Boller

A afirmação de que o maçom se constitui, antes de tudo, pela prática do Ócio Criativo no espaço ritualístico da loja conduz a reflexão a um núcleo essencial da filosofia maçônica: a liberdade interior como condição primeira do aperfeiçoamento humano. Independentemente da coerência externa de suas ações, aquele que comparece regularmente aos trabalhos, entregando-se à Arte Real de pensar, refletir e silenciar, participa de uma atividade nobre que transcende o mero fazer utilitário. O Ócio Criativo não é inércia, mas disponibilidade consciente da alma; não é fuga do mundo, mas suspensão momentânea de suas urgências para que o espírito possa ordenar-se segundo princípios mais altos. Nesse sentido, Ócio Criativo e Arte Real são expressões equivalentes de uma mesma realidade: o exercício da liberdade reflexiva que distingue o iniciado do homem comum.

Na Antiguidade clássica, o ócio contemplativo era prerrogativa dos cidadãos livres. Aristóteles já afirmava que a vida teorética era superior à vida meramente produtiva, pois somente quem se liberta da necessidade imediata pode dedicar-se à contemplação do verdadeiro, do belo e do justo. A Maçonaria retoma esse princípio sob forma simbólica: o templo é o espaço onde o tempo é suspenso, permitindo ao obreiro trabalhar sobre si mesmo. O escravo, subjugado pela urgência da sobrevivência, não dispõe de tempo interior; por isso, não pensa livremente sua própria libertação. O maçom, ao contrário, exercita-se na liberdade ao reservar tempo e presença para o labor silencioso da consciência.

Essa concepção se entende também com a tradição religiosa, especialmente com a ideia de santificação do tempo. O repouso sagrado, presente em diversas tradições espirituais, não se reduz a descanso físico, mas indica a restauração da ordem interior. Honrar os "lugares sagrados e excepcionais" significa reconhecer que há espaços e tempos destinados à elevação do ser. Ao fazê-lo, o maçom honra, por extensão, o Grande Arquiteto do Universo, não por palavras vazias, mas pela disciplina de uma presença consciente, respeitosa e criativa. O templo torna-se, assim, metáfora do cosmos ordenado, onde cada gesto deve corresponder à harmonia universal.

A ausência reiterada e injustificada aos trabalhos da Arte Real revela, sob essa ótica, não simples falha administrativa, mas regressão simbólica ao estado profano. Quem se afasta do espaço do Ócio Criativo submete-se novamente ao "sistema de coisas humano", marcado pela pressa, pela utilidade imediata e pela alienação do sentido. A filosofia maçônica pretende libertar o indivíduo desse domínio, oferecendo-lhe um método simbólico de autoconstrução. Negligenciar esse método é renunciar à própria finalidade da iniciação, ainda que os sinais externos permaneçam.

A filosofia moral de Immanuel Kant contribui para esse entendimento ao afirmar que a dignidade do homem reside na autonomia, isto é, na capacidade de submeter-se livremente à lei que a própria razão reconhece como justa. O maçom que, mesmo presente em loja, semeia desarmonia, age como "profano de avental" porque abdica dessa autonomia moral. Sua presença física não se converte em presença interior; seu gesto não participa da ordem simbólica do templo. Da mesma forma, aquele que viola o silêncio iniciático, revelando a profanos o que foi confiado sob juramento, rompe a estrutura ética que sustenta a comunidade simbólica, transformando-se em perjuro e, se age contra a Ordem, em traidor de seus princípios.

À luz da ciência contemporânea, especialmente da física quântica, a metáfora se amplia. A observação consciente interfere nos fenômenos; a intenção modifica resultados. O templo maçônico pode ser comparado a um campo de ressonância simbólica, no qual pensamentos, palavras e atitudes produzem efeitos reais na consciência coletiva. Assim como não há neutralidade absoluta no observador quântico, não há neutralidade moral no obreiro presente: cada atitude contribui para a harmonia ou para o colapso simbólico do sistema. A desordem introduzida por comportamentos desarmônicos compromete o campo inteiro.

Por isso, afirmar que alguém é "verdadeiro maçom" constitui pleonasmo. A Maçonaria não admite diferentes níveis de pertencimento real: ou o indivíduo compreende e vive a razão de sua iniciação, ou permanece externo ao seu sentido profundo. Não existe o falso maçom, porque a falsidade se dissolve no próprio critério de reconhecimento. O que existe é o homem que entendeu o chamado à liberdade interior e aquele que, apesar dos sinais e palavras, permaneceu prisioneiro da necessidade. O Ócio Criativo, praticado com fidelidade e consciência, é a chave que distingue um do outro, pois nele se revela a dignidade do homem livre que trabalha, em silêncio, obedecendo ao projeto do Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martins Fontes, 2014. Obra fundamental da filosofia clássica na qual o autor estabelece a distinção entre a vida dedicada à necessidade e a vida contemplativa, oferecendo base conceitual para compreender o Ócio Criativo como condição da liberdade e da excelência humana;

2.      EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017. Conjunto de reflexões filosóficas de um dos maiores cientistas do século XX, que contribuem para a compreensão da relação entre consciência, ética e ciência, em harmonia com a visão simbólica da Maçonaria;

3.      FROMM, Erich. Ter ou ser? Rio de Janeiro: Zahar, 1982. Análise crítica da sociedade orientada pela posse e pela produtividade, útil para compreender a oposição entre o sistema profano de coisas e a proposta libertadora do Ócio Criativo;

4.      KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 2011. Texto central para a compreensão da autonomia moral e da dignidade do sujeito racional, conceitos que dialogam diretamente com a ética maçônica e com a noção de responsabilidade interior do iniciado;

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