A afirmação de que o maçom se constitui, antes de tudo, pela
prática do Ócio Criativo no espaço ritualístico da loja conduz a reflexão a um
núcleo essencial da filosofia maçônica: a liberdade interior como condição
primeira do aperfeiçoamento humano. Independentemente da coerência externa de
suas ações, aquele que comparece regularmente aos trabalhos, entregando-se à
Arte Real de pensar, refletir e silenciar, participa de uma atividade nobre que
transcende o mero fazer utilitário. O Ócio Criativo não é inércia, mas
disponibilidade consciente da alma; não é fuga do mundo, mas suspensão
momentânea de suas urgências para que o espírito possa ordenar-se segundo
princípios mais altos. Nesse sentido, Ócio Criativo e Arte Real são expressões
equivalentes de uma mesma realidade: o exercício da liberdade reflexiva que
distingue o iniciado do homem comum.
Na Antiguidade clássica, o ócio contemplativo era prerrogativa
dos cidadãos livres. Aristóteles já afirmava que a vida teorética era superior
à vida meramente produtiva, pois somente quem se liberta da necessidade
imediata pode dedicar-se à contemplação do verdadeiro, do belo e do justo. A
Maçonaria retoma esse princípio sob forma simbólica: o templo é o espaço onde o
tempo é suspenso, permitindo ao obreiro trabalhar sobre si mesmo. O escravo,
subjugado pela urgência da sobrevivência, não dispõe de tempo interior; por
isso, não pensa livremente sua própria libertação. O maçom, ao contrário,
exercita-se na liberdade ao reservar tempo e presença para o labor silencioso
da consciência.
Essa concepção se entende também com a tradição religiosa,
especialmente com a ideia de santificação do tempo. O repouso sagrado, presente
em diversas tradições espirituais, não se reduz a descanso físico, mas indica a
restauração da ordem interior. Honrar os "lugares sagrados e excepcionais" significa reconhecer que há
espaços e tempos destinados à elevação do ser. Ao fazê-lo, o maçom honra, por
extensão, o Grande Arquiteto do Universo, não por palavras vazias, mas pela
disciplina de uma presença consciente, respeitosa e criativa. O templo
torna-se, assim, metáfora do cosmos ordenado, onde cada gesto deve corresponder
à harmonia universal.
A ausência reiterada e injustificada aos trabalhos da Arte Real
revela, sob essa ótica, não simples falha administrativa, mas regressão
simbólica ao estado profano. Quem se afasta do espaço do Ócio Criativo
submete-se novamente ao "sistema de
coisas humano", marcado pela pressa, pela utilidade imediata e pela
alienação do sentido. A filosofia maçônica pretende libertar o indivíduo desse
domínio, oferecendo-lhe um método simbólico de autoconstrução. Negligenciar
esse método é renunciar à própria finalidade da iniciação, ainda que os sinais
externos permaneçam.
A filosofia moral de Immanuel Kant contribui para esse
entendimento ao afirmar que a dignidade do homem reside na autonomia, isto é,
na capacidade de submeter-se livremente à lei que a própria razão reconhece
como justa. O maçom que, mesmo presente em loja, semeia desarmonia, age como
"profano de avental" porque
abdica dessa autonomia moral. Sua presença física não se converte em presença
interior; seu gesto não participa da ordem simbólica do templo. Da mesma forma,
aquele que viola o silêncio iniciático, revelando a profanos o que foi confiado
sob juramento, rompe a estrutura ética que sustenta a comunidade simbólica,
transformando-se em perjuro e, se age contra a Ordem, em traidor de seus
princípios.
À luz da ciência contemporânea, especialmente da física
quântica, a metáfora se amplia. A observação consciente interfere nos
fenômenos; a intenção modifica resultados. O templo maçônico pode ser comparado
a um campo de ressonância simbólica, no qual pensamentos, palavras e atitudes
produzem efeitos reais na consciência coletiva.
Assim como não há neutralidade absoluta no observador quântico, não há
neutralidade moral no obreiro presente: cada atitude contribui para a harmonia
ou para o colapso simbólico do sistema. A desordem introduzida por
comportamentos desarmônicos compromete o campo inteiro.
Por isso, afirmar que alguém é "verdadeiro maçom" constitui pleonasmo. A Maçonaria não admite diferentes
níveis de pertencimento real: ou o indivíduo compreende e vive a razão de sua
iniciação, ou permanece externo ao seu sentido profundo. Não existe o falso
maçom, porque a falsidade se dissolve no próprio critério de reconhecimento. O
que existe é o homem que entendeu o chamado à liberdade interior e aquele que,
apesar dos sinais e palavras, permaneceu prisioneiro da necessidade. O Ócio
Criativo, praticado com fidelidade e consciência, é a chave que distingue um do
outro, pois nele se revela a dignidade do homem livre que trabalha, em
silêncio, obedecendo ao projeto do Grande Arquiteto do Universo.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo:
Martins Fontes, 2014. Obra fundamental da filosofia clássica na qual o autor
estabelece a distinção entre a vida dedicada à necessidade e a vida
contemplativa, oferecendo base conceitual para compreender o Ócio Criativo como
condição da liberdade e da excelência humana;
2.
EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2017. Conjunto de reflexões filosóficas de um dos
maiores cientistas do século XX, que contribuem para a compreensão da relação
entre consciência, ética e ciência, em harmonia com a visão simbólica da
Maçonaria;
3.
FROMM, Erich. Ter ou ser? Rio de Janeiro: Zahar,
1982. Análise crítica da sociedade orientada pela posse e pela produtividade,
útil para compreender a oposição entre o sistema profano de coisas e a proposta
libertadora do Ócio Criativo;
4.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos
costumes. Lisboa: Edições 70, 2011. Texto central para a compreensão da
autonomia moral e da dignidade do sujeito racional, conceitos que dialogam diretamente
com a ética maçônica e com a noção de responsabilidade interior do iniciado;

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