quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Pensamento Pragmático e Ação Consciente

 Charles Evaldo Boller

Pensar para Agir ou Agir sem Pensar?

Em um mundo saturado por informações instantâneas, algoritmos preditivos e respostas prontas, pensar tornou-se, paradoxalmente, um ato raro. A velocidade substituiu a reflexão; a eficiência eclipsou a sabedoria. O ensaio que se segue nasce justamente dessa tensão: o que significa filosofar quando máquinas processam dados mais rápido do que a consciência humana pode refletir? E, mais ainda, qual é o papel do filosofar maçônico em uma sociedade que confunde informação com conhecimento e técnica com verdade?

Desde sua origem etimológica, o pensamento pragmático se vincula à ação. Pensar é intervir no real. Contudo, quando a ação se dissocia da consciência, ela se converte em automatismo. O texto convida o leitor a investigar se a tecnologia amplia ou empobrece a experiência reflexiva do maçom, e até que ponto o computador pode ser um aliado sem se tornar um substituto da consciência iniciática.

Tradição Simbólica em Tempos Digitais

A Maçonaria sempre se estruturou como um sistema simbólico de autoconstrução humana. Seus ritos, mitos e alegorias não pretendem explicar o mundo, mas transformar o sujeito que o observa. Em contraste, a sociedade contemporânea abandonou o simbolismo profundo em favor da utilidade imediata. O ensaio questiona: ao introduzir máquinas nos espaços ritualísticos, preserva-se o caráter iniciático ou dilui-se a atmosfera mística que favorece a introspecção e a intuição?

O leitor será conduzido por uma reflexão que percorre ritos antigos, filosofia clássica, ciência moderna e física quântica, demonstrando que o simbolismo maçônico não é um resíduo arcaico, mas uma linguagem sofisticada para lidar com a complexidade do real, algo que nenhuma máquina consegue plenamente reproduzir.

Verdade, Experiência e Consciência

Outro eixo provocador do ensaio reside na pergunta sobre a verdade. O pensamento pragmático abandona a verdade ou apenas redefine seu sentido? O texto defende que, na Maçonaria, a Verdade não é um objeto a ser possuído, mas um caminho a ser trilhado. Essa concepção dialoga com a filosofia clássica, com o pragmatismo moderno e com os princípios da ciência contemporânea, segundo os quais o observador participa do fenômeno observado.

O leitor encontrará argumentos que demonstram por que o computador pode organizar dados, mas não realizar síntese moral; por que a dialética viva não pode ser automatizada; e por que a evolução maçônica ocorre no silêncio reflexivo tanto quanto no debate consciente.

Um Convite à Leitura Integral

Este ensaio não oferece respostas fáceis. Ele propõe perguntas necessárias. Questiona crenças, tensiona certezas e convida o leitor a reavaliar o lugar da tecnologia, da filosofia e do simbolismo em sua própria caminhada. Ao final, torna-se claro que o conflito não é entre Maçonaria e tecnologia, mas entre consciência e automatismo. Ler até o fim é aceitar esse desafio iniciático.

A palavra "pragmático" deriva do grego prâgma, que significa ação, feito, acontecimento concreto. Tal etimologia já revela que o pragmatismo não se ocupa primariamente de especulações abstratas desconectadas da realidade, mas do pensamento enquanto instrumento de intervenção no mundo. O pensamento vale pelo que produz, pela transformação que opera na vida individual e coletiva. Essa perspectiva encontra reflexo profundo na filosofia maçônica, cujo eixo não é o acúmulo de doutrinas, mas a lapidação do ser humano em sua vida prática, moral e espiritual.

O Pensamento se Prova na Conduta

Para o maçom, pensar é agir interiormente; agir interiormente é transformar o mundo exterior. Assim como o cinzel não tem valor se não toca a pedra, a ideia não tem dignidade se não conduz à edificação do Templo Interior. A Maçonaria, desde seus primórdios simbólicos, nunca foi uma escola de Metafísica estéril, mas um laboratório ético, onde o pensamento se prova na conduta.

Essa compreensão aproxima a ordem maçônica de correntes modernas do pensamento, como o pragmatismo filosófico, cujo principal expoente foi John Dewey. Para Dewey, o pensamento nasce da experiência problemática e retorna a ela como solução provisória. Não pensamos por deleite intelectual, mas porque algo no mundo exige reorganização.

Problema, Experiência e Consciência

Segundo Dewey, a mente humana não opera no vazio: ela se ativa diante de obstáculos, rupturas e incertezas. O pensamento é uma resposta organizada à desordem percebida. Essa concepção encontra surpreendente consonância com o simbolismo maçônico da Câmara de Reflexões, onde o iniciado é confrontado com a instabilidade da existência, com a finitude e com a necessidade de escolher conscientemente seu caminho.

No entanto, quando se introduz o computador com acesso irrestrito à Internet nos debates maçônicos, surge uma tensão filosófica relevante: a mente continua sendo convocada a pensar ou passa a apenas consultar respostas prontas? O perigo não reside na tecnologia em si, mas na substituição da experiência reflexiva pela dependência informacional. A diferença entre conhecimento e informação torna-se aqui crucial.

O conhecimento implica assimilação, interiorização, transformação do sujeito; a informação, por si só, é neutra, fragmentária e frequentemente descontextualizada. Uma loja maçônica que se limita a reproduzir dados acessados em tempo real corre o risco de transformar o templo em sala de conferências técnicas, esvaziando o caráter iniciático da vivência.

Mudança, Adaptação e Evolução

A teoria da evolução proposta por Charles Darwin demonstrou que a vida não é estática, mas adaptação contínua a ambientes em permanente mutação. Esse princípio pode ser transposto simbolicamente para a Maçonaria: uma instituição que se recusa a dialogar com seu tempo fossiliza-se; aquela que se entrega sem crítica à técnica dissolve-se.

O maçom vive, portanto, no limiar entre tradição e adaptação. O ambiente contemporâneo é marcado pela incerteza, pela aceleração e pela sobrecarga informacional. Nesse cenário, não cabe ao maçom rejeitar a tecnologia, mas experimentá-la conscientemente, transformando condicionamentos naturais e artificiais em oportunidades de crescimento.

Tal postura é essencialmente iniciática: experimentar, observar, refletir, integrar. Assim como o alquimista não teme o fogo, mas o domina, o maçom não deve temer o computador, mas compreender seus limites e potencialidades.

Ritos Antigos, Símbolos Eternos

Desde as civilizações antigas, ritos, sacrifícios, encenações míticas e práticas simbólicas foram utilizados para harmonizar o ser humano com forças invisíveis, sejam elas compreendidas como deuses, arquétipos ou princípios cósmicos. A Maçonaria herdou e ressignificou tais práticas, depurando-as de literalismos e integrando-as a uma ética racional e espiritual.

O rito maçônico não apazigua deuses irados; ele organiza a psique humana. O símbolo não atua sobre entidades externas, mas sobre estruturas internas de consciência. Nesse sentido, o maçom moderno não oferece sacrifícios aos deuses, mas sacrifica suas ilusões, vaidades e ignorâncias no altar da Verdade possível.

Entretanto, a sociedade contemporânea, marcada pelo utilitarismo e pelo imediatismo, abandonou em grande parte o filosofar. Busca-se eficiência sem sabedoria, solução sem compreensão, técnica sem ética. O computador tornou-se uma prótese cognitiva que dispensa o esforço reflexivo. O risco não é tecnológico, mas espiritual.

Retórica, Silêncio e Intuição

Nas lojas maçônicas, o processo de autoeducação afasta-se deliberadamente da retórica clássica vazia. Longos discursos, prolixos e autorreferentes, cansam porque não conduzem à ação nem à transformação. O filosofar maçônico é essencialmente dialético, mas uma dialética viva, encarnada, voltada à construção do ser.

Nesse ponto, a Maçonaria aproxima-se da tradição socrática. Para Sócrates, a Verdade não é transmitida, mas despertada. A maiêutica não fornece respostas prontas; ela provoca o nascimento da consciência. Nenhum computador, por mais avançado, pode substituir esse encontro humano, esse choque de consciências que gera sentido.

A satisfação que o maçom experimenta ao final de uma sessão não decorre de conclusões definitivas, mas de uma intuição integradora. A verdade permanece suspensa, como um véu parcialmente erguido. Essa suspensão não é falha, mas método. O pensamento simbólico não resolve; ele fecunda.

Verdade, Pragmatismo e Simbolismo

O pensamento pragmático não abandona a verdade; ele redefine seu estatuto. A verdade deixa de ser um objeto absoluto e torna-se um horizonte regulador. Para William James, verdadeiro é aquilo que funciona no fluxo da experiência sem trair valores fundamentais.

Na Maçonaria, a Verdade não é dogma, mas caminho. O símbolo protege essa verdade do fanatismo, permitindo múltiplas leituras sem dissolver o núcleo ético. Assim, o filosofar maçônico orienta moralmente, não por imposição, mas por conscientização.

Tecnologia, Consciência e Limites

A tecnologia pode auxiliar o maçom como instrumento, jamais como substituto. O computador organiza dados, cruza informações, simula cenários. Mas não realiza síntese existencial, não experimenta silêncio, não acessa o sagrado. Ele opera na esfera da dianoia[1], jamais da noesis[2], para usar a distinção platônica de Platão.

A noesis, a intuição intelectual do ser, nasce da integração entre razão, experiência e simbolismo. Máquinas não intuem; calculam. O mundo vivo, inteligente e espiritual não pode ser plenamente programado, pois ele contém indeterminação, liberdade e transcendência, conceitos que a física quântica apenas começa a vislumbrar.

Física Quântica e Metáfora Iniciática

A física quântica revelou que o observador interfere no fenômeno observado, que a realidade não é totalmente objetiva e que o potencial precede o ato. Essas descobertas dialogam simbolicamente com a Maçonaria: o maçom transforma o mundo ao transformar-se; o Templo Exterior reflete o Templo Interior.

Assim como a partícula só se define no ato da observação, o ser humano só se realiza no ato consciente de escolha. A tecnologia pode ampliar o campo de possibilidades, mas jamais substituir o ato iniciático da decisão moral.

Sugestões Construtivas à Prática Maçônica

É recomendável que as lojas utilizem tecnologia de forma criteriosa e ritualisticamente consciente: para pesquisa prévia, organização administrativa e aprofundamento individual. Durante os debates simbólicos, o desligamento consciente das máquinas pode funcionar como um ritual de passagem do profano ao sagrado.

Sessões temáticas, momentos de silêncio, perguntas abertas e exercícios reflexivos preservam o caráter iniciático e estimulam a metacognição, isto é, a consciência sobre o próprio pensar. O progresso maçônico não está na velocidade da informação, mas na profundidade da compreensão.

O Maçom é o Artífice

O filosofar maçônico permanece como um dos raros espaços contemporâneos onde ciência, ética, espiritualidade e simbolismo ainda dialogam. Ele não rejeita a modernidade, mas a submete ao crivo da consciência. Não idolatra a máquina nem demoniza a técnica; antes, recoloca o ser humano no centro do processo.

O computador pode ser uma ferramenta; o maçom é o artífice. A pedra pode ser bruta ou polida; o sentido nasce do trabalho. A verdade não é possuída; é buscada. E nessa busca reside a dignidade da Maçonaria.

Entre a Ferramenta e o Artífice

Ao longo do ensaio, tornou-se evidente que o debate não se estabelece entre Maçonaria e tecnologia, mas entre consciência e automatismo. O computador, enquanto ferramenta sofisticada, amplia o acesso à informação, acelera processos e organiza dados; contudo, permanece ontologicamente incapaz de substituir o ser humano como sujeito pensante, moral e simbólico. Na filosofia maçônica, o centro da obra não é o instrumento, mas o artífice. A ferramenta apenas obedece; o maçom escolhe, julga e responde por seus atos.

Essa distinção é fundamental para preservar o caráter iniciático das sessões maçônicas. A tecnologia pode auxiliar, mas jamais ocupar o lugar da experiência simbólica, da escuta atenta, do silêncio fecundo e da dialética viva entre consciências.

Conhecimento não é Acúmulo, é Transformação

Outro ponto essencial ressaltado pelo ensaio é a diferença radical entre informação e conhecimento. Informações podem ser armazenadas, copiadas e transmitidas mecanicamente; o conhecimento, porém, exige assimilação interior, reflexão crítica e integração ética. A Maçonaria não forma depósitos de dados, mas consciências despertas.

Nesse sentido, a prática do filosofar maçônico revela-se um antídoto contra a superficialidade contemporânea. Ao invés de respostas prontas, oferece perguntas estruturantes; ao invés de certezas dogmáticas, caminhos simbólicos. A Verdade, aqui, não é um ponto de chegada, mas um horizonte regulador que orienta a conduta e promove a evolução interior.

Simbolismo, Ciência e Mistério

O ensaio também demonstrou que não há antagonismo necessário entre Maçonaria, ciência e espiritualidade. Pelo contrário, o simbolismo maçônico conversa profundamente com descobertas da ciência moderna e da física quântica, sobretudo no reconhecimento da indeterminação, da participação do observador e da complexidade do real. Onde a máquina calcula, o símbolo integra; onde o algoritmo prevê, a consciência escolhe.

Assim, preservar o ambiente ritualístico como espaço de experiência simbólica não é apego ao passado, mas fidelidade a um método de ensino espiritual que reconhece os limites da razão instrumental.

Uma Advertência Clássica ao Mundo Moderno

Como mensagem correlata, ouvimos com força o pensamento de Immanuel Kant, ao afirmar que o ser humano deve ser sempre tratado como um fim em si mesmo, jamais como meio. Essa advertência ilumina todo o ensaio: quando a tecnologia passa a governar o pensamento, o homem corre o risco de tornar-se meio de seus próprios instrumentos.

A Maçonaria, ao insistir no aperfeiçoamento moral, na autonomia da consciência e na responsabilidade individual, reafirma sua missão histórica: lembrar ao ser humano que nenhuma máquina pode substituir o dever de pensar, escolher e agir com sabedoria. O progresso não é técnico, mas ético; não é exterior, mas interior. Nesse ponto, o ensaio conclui como começou: pensar é agir, mas apenas quando a ação nasce da consciência.

Bibliografia Comentada

1.      DARWIN, Charles. A origem das espécies. São Paulo: Martin Claret, 2004. Clássico da ciência moderna que demonstra a adaptação contínua como princípio da vida, permitindo analogias simbólicas com a evolução moral e espiritual proposta pela Maçonaria;

2.      DEWEY, John. Experiência e educação. São Paulo: Nacional, 1976. Obra fundamental do pragmatismo pedagógico, na qual o autor defende que o conhecimento nasce da experiência e retorna a ela como ação transformadora, oferecendo sólido suporte teórico para a compreensão do pensamento maçônico como prática viva;

3.      ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Referência indispensável para compreender o papel dos ritos, símbolos e espaços sagrados, fundamentais à estrutura ritual da Maçonaria;

4.      HEISENBERG, Werner. Física e filosofia. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995. Livro que estabelece pontes entre física quântica e reflexão filosófica, oferecendo metáforas valiosas para a compreensão simbólica da realidade na tradição iniciática;

5.      JAMES, William. Pragmatismo. São Paulo: abril Cultural, 1979. Obra que consolida o pragmatismo como teoria da verdade em movimento, dialogando diretamente com a noção maçônica de verdade como caminho simbólico e ético;

6.      PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Texto central da filosofia clássica, especialmente relevante pela distinção entre doxa, dianoia e noesis, conceitos aplicáveis à compreensão dos limites da tecnologia frente ao conhecimento iniciático;


[1] Dianoia é um termo grego antigo que significa "pensamento", "entendimento" ou "faculdade de pensar", referindo-se mais especificamente ao pensamento discursivo, hipotético-dedutivo, que se move através de raciocínios e premissas (como na matemática e ciências). Em Platão, contrasta com noesis (intuição imediata) e é crucial na Alegoria da Caverna; em Aristóteles, divide-se em conhecimento teórico (episteme) e prático (techne);

[2] Noesis (Nóesis), do grego, significa inteligência, intelecção ou compreensão imediata, o ato de pensar, perceber ou conhecer algo diretamente, sem discursos, contrastando com a dianoia (pensamento discursivo). Em filosofia, descreve o ato da consciência de intencionar ou conhecer, a atividade do intelecto;

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