Charles Evaldo Boller
Uma Edificação Moral e Espiritual
O Templo de Salomão, erguido há milênios como morada divina,
ultrapassa o tempo e a pedra para renascer, na Maçonaria, como símbolo do templo
interior que cada homem deve construir em si. O que antes foi obra de mãos e
martelos transforma-se em edificação moral e espiritual, onde o silêncio
substitui o ruído das ferramentas e a luz do conhecimento dissolve as trevas da
ignorância. Nesse novo templo, não se adora um deus cioso e distante, mas se
reconhece o Grande Arquiteto do Universo como princípio de harmonia cósmica e
consciência viva. O edifício maçônico, mais que lugar físico, é escola do
espírito, laboratório da alma e espelho do Universo interior, onde a ciência, a
filosofia e a fé se reconciliam. O maçom, ao desbastar a própria pedra bruta,
descobre que seu corpo é o templo e sua mente, o altar. A construção torna-se
eterna, pois é feita de virtude, sabedoria e amor fraterno. Cada coluna
ergue-se com um gesto ético, cada lâmpada acende-se com um pensamento justo.
Assim, o Templo de Salomão não está em Jerusalém, mas dentro de cada ser humano
que ousa buscar a Luz e transformar-se em
pedra viva da grande arquitetura universal.
O Homem não Aprisiona o Divino em Templos de Pedra
O Templo de Salomão, antes construção material da fé hebraica,
tornou-se, na Maçonaria, símbolo da edificação interior do homem. O templo
maçônico, inspirado nesse arquétipo, não aprisiona o divino, mas representa o
Universo e o próprio ser humano em sua jornada de autoconhecimento. Nele, o
maçom trabalha com as ferramentas simbólicas da sabedoria, da vontade e da
harmonia para desbastar sua pedra bruta, o ego, e revelar o templo vivo da
consciência. À luz da filosofia clássica, o templo expressa a síntese entre o
ideal e o real; à luz da física quântica, revela a interconexão entre mente e
universo. Assim, o templo exterior é reflexo do templo interior, e a lapidação
de um só homem pode irradiar luz a toda a sociedade. Quando o maçom compreende
que o Grande Arquiteto do Universo habita em sua própria consciência, ele transforma cada ato justo em
pedra sagrada e cada gesto fraterno em coluna de luz do templo universal da
humanidade.
O Templo Histórico e o Mito da Presença Divina
O Templo de Salomão, erguido no Monte Moriá cerca de onze
séculos antes da era cristã, constituiu-se em um marco material da
espiritualidade hebraica e símbolo da aliança entre o homem e o seu Deus. Ali,
Jeová manifestava-se como presença ciumenta e exclusiva, cuja adoração era ordenada
de forma absoluta. O edifício, ainda que pequeno se comparado às pirâmides do
Egito, tornou-se símbolo da grandeza espiritual de Israel. Entretanto, sua
destruição e reconstrução sucessivas, pelas mãos de caldeus, persas e romanos,
revelam a transitoriedade de toda obra
humana quando alicerçada apenas na matéria.
O relato de que, durante sua construção, não se ouviam ruídos
de martelos ou ferramentas, pois as pedras eram talhadas à distância e levadas
já ajustadas, tornou-se um dos mais poderosos símbolos da Maçonaria. Essa lenda
sugere que a construção do templo, e por extensão, do ser humano, deve ser
silenciosa, harmônica e interior. O silêncio do canteiro é o silêncio do
coração disciplinado, onde a aspereza é polida antes de ser trazida à
convivência.
Assim, o templo material serve apenas como espelho do templo interior. A pedra talhada
simboliza o pensamento lapidado; o silêncio, a serenidade da consciência em
obra.
A Maçonaria e a Transposição do Símbolo
Quando a Maçonaria adota o Templo de Salomão como modelo
simbólico de seus lugares de reunião, não o faz como arquiteto que copia uma
planta, mas como filósofo que decifra um arquétipo. O templo maçônico não é uma
réplica física da edificação hebraica; é uma alegoria viva da construção
interior que cada iniciado realiza em si mesmo.
O grão-mestre, ao sagrar o templo maçônico, não consagra
tijolos, mas desperta o sentido simbólico do espaço: transforma o recinto em
oficina espiritual, em laboratório da alma. Nesse local, o maçom não adora uma
divindade externa; busca compreender o Grande Arquiteto do Universo como
princípio ordenador da existência e expressão da harmonia cósmica.
A Maçonaria, herdeira de tradições egípcias, herméticas,
pitagóricas e cabalísticas, faz convergir no templo simbólico o saber antigo e
o saber moderno. A pedra angular representa a sabedoria; o esquadro, a retidão
moral; o compasso, a justa medida e a harmonia universal. Cada ferramenta é um
convite à reflexão sobre si mesmo e sobre o cosmos.
Entre o Templo e o Universo
O templo maçônico, como o descrevem os rituais, representa o
próprio universo. O teto estrelado simboliza o firmamento; o pavimento mosaico,
a dualidade da vida, luz e treva, bem e mal, matéria e espírito. O Oriente, de
onde surge o Sol, evoca a origem da luz intelectual e espiritual; o Ocidente, o
ocaso das ilusões sensíveis.
Nessa simbologia, o templo é tanto o cosmos exterior quanto o
microcosmo interior. O iniciado aprende que o homem é uma miniatura do universo,
uma réplica viva da ordem cósmica. Essa correspondência reflete o princípio
hermético: "o que está em cima é
como o que está embaixo". A física quântica, curiosamente, imita essa
máxima ao demonstrar que o observador influencia o fenômeno observado, o Universo
exterior responde à consciência que o contempla.
Portanto, o templo maçônico é um campo quântico simbólico, onde
energia e consciência se entrelaçam. Cada ritual, palavra e gesto do maçom são
vibrações mentais que o alinham à harmonia do todo. O templo, nesse sentido,
não aprisiona a divindade, mas convida o iniciado a percebê-la como princípio
onipresente e impessoal, imanente e transcendente, cuja presença se manifesta
nas leis naturais.
O Templo Vivo e o Templo de Pedra
O corpo humano é descrito na tradição maçônica como templo
vivo. O maçom é a pedra bruta que deve ser desbastada; seu intelecto é o cinzel
que modela; sua vontade, o malho que imprime a força da ação. Quando o templo
físico é purificado ritualmente, isso não significa que Deus habita ali, mas
que o homem consagra seu próprio corpo e mente à obra do aperfeiçoamento moral.
Em termos andragógicos, essa metáfora tem função educativa: o
templo externo é o instrumento didático que desperta o adulto para a edificação
interior. O aprendizado maçônico é essencialmente prático e reflexivo, cada
símbolo é uma lição de autoconhecimento, cada cerimônia, uma dramatização de
princípios universais.
Assim, o templo é ao mesmo tempo escola e espelho. Nele o maçom
não aprende apenas doutrina, mas experimenta uma forma de ensino simbólica que
o ensina a pensar por imagens e a sentir por ideias. A luz que se acende no
Oriente não é a da lâmpada, mas a da consciência.
O Significado Filosófico e Científico do Templo
Na filosofia clássica, Platão ensinava que o mundo sensível é
cópia imperfeita do mundo das ideias. O templo material, portanto, é apenas a
sombra de uma realidade inteligível, o templo ideal da razão e da virtude.
Aristóteles, ao contrário, via a forma presente na própria matéria; e assim, a
construção concreta do templo é o ato de dar forma ao caos, de transformar
potencialidade em realidade.
Essa tensão entre ideal e concreto surge na própria prática
maçônica. O templo de pedra é a forma visível de uma ideia invisível: a busca
da perfeição moral. O templo interno é
o ato contínuo de aperfeiçoar-se.
A física moderna, por sua vez, reforça essa visão simbólica. No
mundo quântico, a matéria não é substância sólida, mas energia em vibração; o
átomo é um templo invisível onde partículas e ondas se alternam numa dança
cósmica. Assim também o homem, templo vivo, é composto de energia, consciência
e propósito. Quando o maçom trabalha em silêncio interior, ele harmoniza suas
vibrações com o ritmo universal.
A Religião e o Espírito de Liberdade
A Maçonaria não é religião, mas reconhece a espiritualidade
como essência da condição humana. O Grande Arquiteto do Universo não é o Deus
tribal do Antigo Testamento, mas o princípio universal que integra ciência,
filosofia e fé. Ele é o símbolo da ordem cósmica e da inteligência criadora que
permeia todas as coisas.
Cada religião, ao longo da história, tentou aprisionar essa
ideia em dogmas e templos de pedra. Contudo, a adoração
é interior: a reverência à harmonia da vida e o respeito à liberdade
de consciência. Por isso, no templo
maçônico não há altares de sacrifício, mas mesas de trabalho; não há
sacerdotes, mas obreiros; não há submissão, mas reflexão.
A tolerância religiosa, um dos pilares da Maçonaria, é a consciência de que cada homem vê o Grande
Arquiteto através da janela de sua cultura e de sua época. O templo maçônico é
o ponto de convergência de todas essas janelas, o laboratório onde a
diversidade se transforma em fraternidade.
O Trabalho Interior: do Símbolo à Ação
A pedra bruta simboliza o homem natural, instintivo e
imperfeito. Lapidá-la é transformar impulsos em virtudes, ignorância em
sabedoria, egoísmo em fraternidade. O trabalho maçônico é contínuo,
silencioso e pessoal. Ninguém pode desbastar a pedra de outrem. O mestre
apenas orienta; o aprendiz, com o maço e o cinzel da razão e da vontade,
realiza sua própria lapidação.
Esse processo é análogo ao que a psicologia moderna chama de individuação: o caminho de integração da sombra e
da luz, da matéria e do espírito. Jung, em Aion, descreve o símbolo como ponte
entre o inconsciente e a consciência, o mesmo papel que os rituais
maçônicos exercem na alma do iniciado.
Cada sessão de loja é, assim, um laboratório alquímico: as
emoções são o chumbo; o pensamento, o fogo; e o ouro é a sabedoria que resulta
da transformação interior. O templo é o forno alquímico da alma, onde o homem é ao mesmo tempo artífice e obra.
O Universo Interior e o Cosmos Exterior
No simbolismo maçônico, o Oriente é a fonte da luz, metáfora do
conhecimento que dissipa as trevas da ignorância. Cada iniciado, ao acender sua
Luz, torna-se astro menor refletindo a luz maior. Essa imagem se harmoniza com
a cosmologia moderna: o homem é feito da mesma matéria das estrelas.
O carbono de nossos corpos, o ferro de nosso sangue, o cálcio
de nossos ossos nasceu no coração de estrelas extintas. Assim, o templo
interior é literalmente construído de pó estelar. Quando o maçom contempla o
teto estrelado de seu templo, ele reconhece a irmandade cósmica que o une a
todos os seres.
A física quântica acrescenta a essa visão o princípio da
interconectividade[1]: tudo no
Universo está em relação com tudo. Cada pensamento, cada emoção, é uma onda que
vibra no campo universal. O amor fraterno, tão exaltado nos rituais, não é
apenas virtude moral, mas vibração energética capaz de transformar o ambiente
social.
O Templo e a Sociedade
O templo maçônico é microcosmo da sociedade ideal. Em seu
interior, não há distinção de raça, credo ou condição social; todos são
obreiros sob a mesma Luz. Essa igualdade simbólica é lição prática de
convivência humana.
O modelo do templo propõe uma instrução cívica. A ordem do
templo ensina a ordem social; o respeito às hierarquias ritualísticas ensina o respeito
às leis e instituições; a alternância de cargos simboliza a transitoriedade do
poder e a necessidade de humildade.
Na vida profana, o maçom é chamado a reproduzir o que vivencia
no templo: ser construtor de pontes, conciliador de opostos, mediador de
conflitos. Cada atitude ética é um tijolo colocado na construção do templo
universal da humanidade.
O Efeito Dominó da Luz
O aperfeiçoamento pessoal, embora individual, irradia-se como
luz coletiva. Quando um homem se transforma, influencia invisivelmente os que o
cercam. É o que os físicos chamam de "efeito
borboleta[2]",
pequenas causas geram grandes consequências em sistemas interconectados. Assim,
o maçom que conquista a serenidade e a justiça interior modifica o campo
vibratório de sua família, de sua loja e de sua comunidade.
A fraternidade, portanto, não é apenas ideal moral, mas
fenômeno energético e social. A Maçonaria ensina que a regeneração do mundo
começa pela regeneração do indivíduo. Cada templo interno reconstruído
contribui para a reconstrução do templo da humanidade.
O Mistério e a Humildade do Pensar
A mente humana, ainda que dotada de razão e ciência, é apenas
um grão de areia diante do infinito. O templo, em sua simplicidade simbólica,
recorda ao maçom essa humildade. Como o templo de Salomão foi destruído e
reerguido várias vezes, também o homem cai e se levanta em sua busca da Verdade.
O Grande Arquiteto do Universo é o mistério que o pensamento
não encerra, não alcança. A tentativa de materializar a divindade em forma
humana é erro recorrente da história religiosa. A Maçonaria preserva o mistério
como espaço de liberdade: o símbolo é um conceito, uma ideia, não impõe crença,
mas inspira reflexão.
Assim, o templo é a parábola da consciência.
Nele o homem aprende a dialogar com o invisível sem perder o pé na razão;
aprende a unir fé e ciência, emoção e lógica, numa síntese que honra tanto o
coração quanto o intelecto.
O Templo Interior e o Caminho da Luz
O templo é construído no coração do homem, e suas colunas são
Sabedoria, Força e Beleza. A Sabedoria planeja, a Força executa e a Beleza
harmoniza, tríade que reflete as leis universais da criação.
Cada vez que o maçom pratica a caridade, ergue uma coluna
invisível; cada vez que domina a cólera, assenta uma pedra; cada vez que
perdoa, acende uma lâmpada no Oriente de sua alma.
O templo interior jamais se conclui, pois, a perfeição é
dinâmica. Assim como o Universo está em expansão, também a consciência humana está em constante crescimento.
Construir-se é evoluir; e evoluir é cooperar com a obra do Grande Arquiteto do
Universo.
Entre a Pedra e a Luz
O Templo de Salomão, o templo maçônico e o templo interior são
três faces de um mesmo arquétipo: a busca do homem por sentido e
transcendência. Do granito à consciência, o caminho é o mesmo: lapidar a
matéria até que ela reflita a luz.
A Maçonaria, ao transformar um edifício simbólico em escola de
sabedoria, recorda que o santuário é a consciência
desperta. Cada maçom, ao entrar em seu templo, deve recordar-se de que pisa
sobre o reflexo do cosmos e dentro de si contém um Universo inteiro.
Quando compreender plenamente essa correspondência, o homem
deixará de construir templos para aprisionar deuses e passará a edificar sua
própria alma como morada da harmonia universal.
Bibliografia Comentada
1.
ANDERSON, James. Constituições dos
Francos-Maçons. Londres, 1723. Documento fundador da Maçonaria moderna,
estabelece princípios de liberdade, moral e fraternidade que inspiram a
simbologia do templo maçônico;
2.
ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução E. Berti.
Lisboa: Gulbenkian, 2007. Analisa a forma e a substância, permitindo
compreender o templo como ato de atualização do ser;
3.
BLAVATSKY, Helena P. A Doutrina Secreta. Adyar,
1888. Desenvolve a concepção de correspondência entre microcosmo e macrocosmo,
essencial para a compreensão do templo como espelho do universo;
4.
CAMINO, Rizzardo da. Os Símbolos Maçônicos e sua
Interpretação. Madras, 2006. Obra fundamental para o estudo simbólico dos
templos e ferramentas maçônicas, explorando sua origem egípcia e hermética;
5.
FERRER BENIMELI, José Antonio. La Masonería:
Historia y Mitología. Madrid: Istmo, 1986. Fornece base histórica e simbólica
sobre a transposição do Templo de Salomão à tradição maçônica;
6.
HALL,
Manly P. The Secret Teachings of All Ages. Los Angeles, 1928. Compêndio
esotérico que relaciona as tradições antigas, egípcia, grega e judaica, aos
símbolos da Maçonaria moderna;
7.
HEISENBERG,
Werner. Physics and Philosophy. New York: Harper, 1958. Relaciona os
princípios da física quântica ao papel do observador, base para analogias
maçônicas entre consciência e realidade;
8.
JUNG, Carl G. Aion: Estudos sobre o Simbolismo
do Si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 1991. Fundamenta a leitura psicológica dos
símbolos maçônicos como expressões do processo de individuação;
9.
LÉVI, Eliphas. Dogma e Ritual da Alta Magia. São
Paulo: Pensamento, 1993. Explora a analogia entre alquimia e iniciação, reforçando
a ideia do templo como laboratório da alma;
10. PLATÃO. A República. Tradução Carlos Alberto Nunes. Belém: UFPA, 2000. Fundamenta a distinção entre o mundo das ideias e o mundo sensível, correspondendo ao contraste entre o templo ideal e o templo material;
[1]
O princípio da interconectividade refere-se à ideia de que todos os
elementos de um sistema estão intrinsecamente ligados e influenciam-se
mutuamente. Esse conceito é fundamental em áreas como a ecologia, o direito
ambiental e a gestão de riscos, onde as ações em uma parte do sistema podem ter
consequências em outras partes, muitas vezes de formas imprevisíveis;
[2]
O efeito borboleta é um conceito da teoria do caos que afirma que uma
pequena mudança nas condições iniciais de um sistema complexo pode levar a
consequências vastas e imprevisíveis ao longo do tempo. Ele é ilustrado pela
metáfora de que o bater de asas de uma borboleta poderia, em teoria, causar um
furacão em outro lugar do mundo. Esse fenômeno demonstra a "sensibilidade
às condições iniciais" em sistemas não-lineares, como o clima e o
tráfego, tornando a previsão de longo prazo extremamente difícil;

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