O presente ensaio parte de uma inquietação tipicamente
iniciática: em uma época em que a técnica promete respostas instantâneas e a
informação circula em velocidade vertiginosa, qual é o lugar do pensamento
consciente, reflexivo e transformador, tal como cultivado pela filosofia
maçônica? A Maçonaria jamais se constituiu como um repositório de dados ou um
sistema fechado de verdades prontas; ela se apresenta, antes, como um método
simbólico de formação do ser humano, no qual pensar é inseparável de agir e
agir é inseparável de responder eticamente pelo próprio caminho.
Desde a Antiguidade, a filosofia clássica advertiu para os
perigos do pensamento não examinado. Sócrates afirmava que uma vida não
examinada não merece ser vivida, não por desprezo à existência, mas porque
viver sem reflexão equivale a mover-se como sombra, reagindo a estímulos
externos sem verdadeira autonomia. Essa advertência ecoa no ideal maçônico do
homem livre e de bons costumes: livre não porque faz tudo o que deseja, mas
porque governa a si mesmo. O computador,
enquanto ferramenta poderosa, pode auxiliar esse governo interior, mas também
pode, se mal utilizado, transformá-lo em delegação da própria consciência.
A distinção entre informação e conhecimento, central no ensaio,
já estava presente na filosofia platônica. Platão, ao diferenciar doxa e
episteme, indicava que nem tudo o que se apresenta como saber merece esse nome.
A informação é como pedra ainda na pedreira: possui potencial, mas não forma. O
conhecimento, ao contrário, é pedra lapidada, integrada à arquitetura do Templo
Interior. Nenhum instrumento, por mais sofisticado, executa sozinho esse
trabalho; ele exige intenção, esforço e discernimento.
A filosofia maçônica compreende o rito como um espaço pedagógico
no qual o tempo profano é suspenso para que o iniciado possa ouvir aquilo que o
ruído cotidiano encobre. Nesse sentido, a presença indiscriminada de
tecnologias durante os momentos simbólicos não é apenas uma questão prática,
mas filosófica. Aristóteles ensinava que a virtude nasce do hábito deliberado,
isto é, de ações repetidas com consciência. O hábito de consultar respostas
prontas, sem o exercício do silêncio e da escuta, molda um caráter apressado,
pouco afeito à ponderação, incompatível com a ética iniciática.
O pragmatismo moderno, especialmente em John Dewey, reforça essa
ideia ao afirmar que o pensamento surge da experiência problemática e retorna a
ela como ação transformadora. O pensamento que não
se converte em vida é estéril; a ação que não nasce da reflexão é cega.
A Maçonaria situa-se exatamente nesse ponto de equilíbrio: não cultua
abstrações vazias, mas também não se rende ao utilitarismo imediato. Sua
sabedoria é prática, mas não apressada; simbólica, mas não evasiva.
A ciência contemporânea, sobretudo a física quântica, oferece metáforas
elucidativas para esse debate. O observador interfere no fenômeno observado; a
realidade não se apresenta como bloco rígido, mas como campo de possibilidades.
De modo análogo, o maçom transforma o mundo à medida que se transforma. A
máquina calcula possibilidades; o ser humano escolhe caminhos. Confundir essas
esferas é como esperar que o compasso desenhe sozinho a obra ou que o esquadro
determine o sentido moral da construção.
Como sugestão construtiva, aponta-se para uma integração
consciente da tecnologia na vida maçônica. Ferramentas digitais podem servir ao
estudo prévio, à organização administrativa e ao aprofundamento individual, mas
o espaço ritualístico deve permanecer como território da presença plena. O
desligar das máquinas, nesse contexto, não é rejeição da modernidade, mas gesto
simbólico: um retorno deliberado do exterior ao interior, do ruído ao silêncio,
da pressa à reflexão.
A Maçonaria, ao insistir no aperfeiçoamento moral e intelectual,
oferece uma resposta atual a um problema antigo: como viver bem em meio às
facilidades técnicas. Immanuel Kant lembrava que o ser humano deve ser sempre
tratado como fim em si mesmo, jamais como meio. Aplicado ao nosso tempo, isso
significa não permitir que a técnica transforme o homem em operador automático
de sistemas que já não compreende nem governa.
Assim, conclui-se que o progresso não está na substituição do
pensamento pela máquina, mas no uso consciente da ferramenta pelo artífice. O
Templo não se ergue em servidores nem em bancos de dados, mas na consciência
que escolhe, na ética que orienta e no silêncio que permite compreender.
Pensar, para o maçom, continua sendo um ato de coragem, e agir, a sua mais alta
forma de filosofia.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin
Claret, 2009. Referência central para a compreensão da virtude como hábito
deliberado, conceito aplicado à formação ética proposta pela Maçonaria;
2.
DEWEY, John. Experiência e educação. São Paulo:
Nacional, 1976. Texto essencial do pragmatismo moderno, que sustenta a ideia de
pensamento como instrumento de ação consciente, em diálogo direto com a
filosofia maçônica;
3.
HEISENBERG, Werner. Física e filosofia.
Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995. Livro que aproxima ciência e
reflexão filosófica, oferecendo metáforas úteis para compreender a relação
entre observador, realidade e consciência;
4.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos
costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. Obra que fundamenta a dignidade da pessoa
humana como fim em si mesma, princípio ético que orienta a crítica ao
automatismo tecnológico;
5.
PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2001. Obra fundamental da filosofia clássica, utilizada aqui
sobretudo pela distinção entre opinião e conhecimento verdadeiro, oferecendo
base conceitual para diferenciar informação de sabedoria no contexto
iniciático;

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