quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Entre a Ferramenta e a Consciência

 Charles Evaldo Boller

O presente ensaio parte de uma inquietação tipicamente iniciática: em uma época em que a técnica promete respostas instantâneas e a informação circula em velocidade vertiginosa, qual é o lugar do pensamento consciente, reflexivo e transformador, tal como cultivado pela filosofia maçônica? A Maçonaria jamais se constituiu como um repositório de dados ou um sistema fechado de verdades prontas; ela se apresenta, antes, como um método simbólico de formação do ser humano, no qual pensar é inseparável de agir e agir é inseparável de responder eticamente pelo próprio caminho.

Desde a Antiguidade, a filosofia clássica advertiu para os perigos do pensamento não examinado. Sócrates afirmava que uma vida não examinada não merece ser vivida, não por desprezo à existência, mas porque viver sem reflexão equivale a mover-se como sombra, reagindo a estímulos externos sem verdadeira autonomia. Essa advertência ecoa no ideal maçônico do homem livre e de bons costumes: livre não porque faz tudo o que deseja, mas porque governa a si mesmo. O computador, enquanto ferramenta poderosa, pode auxiliar esse governo interior, mas também pode, se mal utilizado, transformá-lo em delegação da própria consciência.

A distinção entre informação e conhecimento, central no ensaio, já estava presente na filosofia platônica. Platão, ao diferenciar doxa e episteme, indicava que nem tudo o que se apresenta como saber merece esse nome. A informação é como pedra ainda na pedreira: possui potencial, mas não forma. O conhecimento, ao contrário, é pedra lapidada, integrada à arquitetura do Templo Interior. Nenhum instrumento, por mais sofisticado, executa sozinho esse trabalho; ele exige intenção, esforço e discernimento.

A filosofia maçônica compreende o rito como um espaço pedagógico no qual o tempo profano é suspenso para que o iniciado possa ouvir aquilo que o ruído cotidiano encobre. Nesse sentido, a presença indiscriminada de tecnologias durante os momentos simbólicos não é apenas uma questão prática, mas filosófica. Aristóteles ensinava que a virtude nasce do hábito deliberado, isto é, de ações repetidas com consciência. O hábito de consultar respostas prontas, sem o exercício do silêncio e da escuta, molda um caráter apressado, pouco afeito à ponderação, incompatível com a ética iniciática.

O pragmatismo moderno, especialmente em John Dewey, reforça essa ideia ao afirmar que o pensamento surge da experiência problemática e retorna a ela como ação transformadora. O pensamento que não se converte em vida é estéril; a ação que não nasce da reflexão é cega. A Maçonaria situa-se exatamente nesse ponto de equilíbrio: não cultua abstrações vazias, mas também não se rende ao utilitarismo imediato. Sua sabedoria é prática, mas não apressada; simbólica, mas não evasiva.

A ciência contemporânea, sobretudo a física quântica, oferece metáforas elucidativas para esse debate. O observador interfere no fenômeno observado; a realidade não se apresenta como bloco rígido, mas como campo de possibilidades. De modo análogo, o maçom transforma o mundo à medida que se transforma. A máquina calcula possibilidades; o ser humano escolhe caminhos. Confundir essas esferas é como esperar que o compasso desenhe sozinho a obra ou que o esquadro determine o sentido moral da construção.

Como sugestão construtiva, aponta-se para uma integração consciente da tecnologia na vida maçônica. Ferramentas digitais podem servir ao estudo prévio, à organização administrativa e ao aprofundamento individual, mas o espaço ritualístico deve permanecer como território da presença plena. O desligar das máquinas, nesse contexto, não é rejeição da modernidade, mas gesto simbólico: um retorno deliberado do exterior ao interior, do ruído ao silêncio, da pressa à reflexão.

A Maçonaria, ao insistir no aperfeiçoamento moral e intelectual, oferece uma resposta atual a um problema antigo: como viver bem em meio às facilidades técnicas. Immanuel Kant lembrava que o ser humano deve ser sempre tratado como fim em si mesmo, jamais como meio. Aplicado ao nosso tempo, isso significa não permitir que a técnica transforme o homem em operador automático de sistemas que já não compreende nem governa.

Assim, conclui-se que o progresso não está na substituição do pensamento pela máquina, mas no uso consciente da ferramenta pelo artífice. O Templo não se ergue em servidores nem em bancos de dados, mas na consciência que escolhe, na ética que orienta e no silêncio que permite compreender. Pensar, para o maçom, continua sendo um ato de coragem, e agir, a sua mais alta forma de filosofia.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2009. Referência central para a compreensão da virtude como hábito deliberado, conceito aplicado à formação ética proposta pela Maçonaria;

2.      DEWEY, John. Experiência e educação. São Paulo: Nacional, 1976. Texto essencial do pragmatismo moderno, que sustenta a ideia de pensamento como instrumento de ação consciente, em diálogo direto com a filosofia maçônica;

3.      HEISENBERG, Werner. Física e filosofia. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995. Livro que aproxima ciência e reflexão filosófica, oferecendo metáforas úteis para compreender a relação entre observador, realidade e consciência;

4.      KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. Obra que fundamenta a dignidade da pessoa humana como fim em si mesma, princípio ético que orienta a crítica ao automatismo tecnológico;

5.      PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Obra fundamental da filosofia clássica, utilizada aqui sobretudo pela distinção entre opinião e conhecimento verdadeiro, oferecendo base conceitual para diferenciar informação de sabedoria no contexto iniciático;

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