quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O Nascimento Interior como Obra da Liberdade

 Charles Evaldo Boller

A filosofia maçônica, tal como se revela no Rito Escocês Antigo e Aceito, pode ser compreendida como um método de ensino do nascimento interior. O homem não nasce pleno ao vir ao mundo; nasce apenas no potencial. A iniciação simbólica ensina que viver, em sentido elevado, exige aprender a morrer para as ilusões, para os dogmas não examinados e para os medos que aprisionam a consciência. Essa ideia, longe de ser estranha à tradição filosófica, vem sendo repetida desde a Antiguidade, quando Sócrates afirmava que filosofar é aprender a morrer. Não se trata de culto à morte, mas de exercício de desapego: quem compreende a finitude liberta-se do medo e passa a viver com lucidez.

No caminho maçônico, a morte simbólica inaugura a liberdade. A liberdade, aqui, não é mera ausência de amarras externas, mas soberania interior. Tal concepção aproxima-se do pensamento de Aristóteles, para quem a virtude nasce do hábito racional e consciente, não da obediência cega. Assim como o estagirita via na ética um exercício de justa medida, a Maçonaria propõe ao iniciado o equilíbrio entre razão, emoção e ação. A felicidade não é buscada como prazer imediato, mas como harmonia durável, fruto de escolhas prudentes. A metáfora da pedra bruta ilustra esse processo: o homem é matéria inacabada que exige trabalho paciente, golpe após golpe, até revelar forma e sentido.

A Maçonaria não se opõe à espiritualidade, mas rejeita a fé que exige a abdicação do pensamento. A chamada fé raciocinada encontra paralelo no projeto iluminista de Immanuel Kant, sintetizado no célebre "ousa saber". Para Kant, a maioridade do homem consiste em usar a própria razão sem tutela. De modo análogo, o maçom recusa tanto o dogmatismo religioso quanto o materialismo absoluto, pois ambos podem reduzir a dignidade humana: o primeiro pela submissão intelectual, o segundo pela negação do sentido. A Maçonaria situa-se como via média, na qual o mistério é respeitado sem que a razão seja silenciada.

Essa postura dialoga também com a ciência contemporânea, não como rival, mas como aliada. A física moderna revelou que a matéria é dinâmica, relacional e profundamente interconectada, ideia que ressoa antigas intuições filosóficas e esotéricas. Quando Albert Einstein afirmou que a matéria é energia condensada, abriu-se espaço para pensar a existência de forma menos mecanicista. Utiliza-se essa aproximação como metáfora: se nada se perde, apenas se transforma, a vida humana pode ser compreendida como parte de uma ordem maior, ainda que seus contornos permaneçam velados. Essa hipótese não é promessa dogmática de imortalidade, mas fonte de serenidade racional diante da morte.

A convivência fraterna ocupa lugar central nesse processo. A Loja funciona como espelho coletivo, onde cada iniciado testa suas virtudes e limitações. Aqui, a filosofia deixa de ser discurso abstrato e torna-se experiência vivida. Platão já advertia que a justiça nasce da harmonia entre as partes da alma e da cidade; de modo semelhante, a Maçonaria entende que o Templo Interior só se sustenta quando edificado em consonância com o bem comum. A fraternidade não é retórica, mas exercício diário de tolerância, escuta e respeito. O outro torna-se prova iniciática permanente, pois amar o semelhante sem dominá-lo é uma das tarefas mais exigentes da liberdade.

Como sugestão construtiva, o ensaio convida o leitor a cultivar três atitudes fundamentais. A primeira é o estudo reflexivo: ler filosofia, ciência e simbolismo não para acumular erudição, mas para ampliar horizontes e evitar o pensamento estreito. A segunda é o silêncio interior, entendido como espaço de escuta da consciência; sem silêncio, o símbolo se esvazia e o rito se torna mera forma. A terceira é a ação ética concreta: traduzir ideias em gestos simples de justiça, generosidade e responsabilidade social. Assim como o arquiteto não se contenta com o projeto no papel, o maçom é chamado a construir no mundo aquilo que concebe no interior.

Em última instância, a "salvação" maçônica não se projeta para um além indefinido, mas se realiza no presente como serenidade consciente. O homem que aceita sua finitude, pensa livremente e ama com dignidade não necessita de promessas que o infantilizem. Ele vive como viajante lúcido: sabe que o caminho é breve, mas reconhece que cada passo pode ser pleno de sentido. Tal como ensinava Baruch Spinoza, a liberdade consiste em compreender a necessidade e agir segundo a razão. Nesse entendimento repousa a paz do iniciado e a obra da Maçonaria: formar consciências livres capazes de edificar, em si e no mundo, uma humanidade mais justa e fraterna, sob a inspiração do Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia Comentada

1.     ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martins Fontes, 2002. - Fundamenta a noção de virtude como hábito racional, oferecendo base sólida à ética maçônica da justa medida e da responsabilidade consciente;

2.     EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. - Reflexões que aproximam ciência e espiritualidade, inspirando uma leitura simbólica da realidade compatível com a filosofia maçônica;

3.     KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: o que é o esclarecimento? São Paulo: Boitempo, 2005. - Texto essencial para compreender a liberdade de pensar como condição da maturidade humana, em plena consonância com o ideal iniciático;

4.     PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. - Obra que ilumina a relação entre justiça, harmonia interior e ordem social, dialogando com a fraternidade maçônica;

5.     SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2013. - Apresenta uma visão racional da liberdade e da serenidade diante da finitude, convergente com a salvação entendida como paz interior;

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