A filosofia maçônica, tal como se revela no Rito Escocês Antigo
e Aceito, pode ser compreendida como um método de ensino do nascimento
interior. O homem não nasce pleno ao vir ao mundo; nasce apenas no potencial. A
iniciação simbólica ensina que viver, em sentido elevado, exige aprender a
morrer para as ilusões, para os dogmas não examinados e para os medos que
aprisionam a consciência. Essa ideia, longe de ser estranha à tradição
filosófica, vem sendo repetida desde a Antiguidade, quando Sócrates afirmava
que filosofar é aprender a morrer. Não se trata de culto à morte, mas de
exercício de desapego: quem compreende a finitude liberta-se do medo e passa
a viver com lucidez.
No caminho maçônico, a morte simbólica inaugura a liberdade. A
liberdade, aqui, não é mera ausência de amarras externas, mas soberania
interior. Tal concepção aproxima-se do pensamento de Aristóteles, para quem a
virtude nasce do hábito racional e consciente, não da obediência cega. Assim
como o estagirita via na ética um exercício de justa medida, a Maçonaria propõe
ao iniciado o equilíbrio entre razão, emoção e ação. A felicidade não é buscada
como prazer imediato, mas como harmonia durável, fruto de escolhas prudentes. A
metáfora da pedra bruta ilustra esse processo: o homem é matéria inacabada
que exige trabalho paciente, golpe após golpe, até revelar forma e sentido.
A Maçonaria não se opõe à espiritualidade, mas rejeita a fé que
exige a abdicação do pensamento. A chamada fé raciocinada encontra paralelo no
projeto iluminista de Immanuel Kant, sintetizado no célebre "ousa saber". Para Kant, a
maioridade do homem consiste em usar a própria razão sem tutela. De modo
análogo, o maçom recusa tanto o dogmatismo religioso quanto o materialismo
absoluto, pois ambos podem reduzir a dignidade humana: o primeiro pela
submissão intelectual, o segundo pela negação do sentido. A Maçonaria situa-se
como via média, na qual o mistério é respeitado sem que a razão seja
silenciada.
Essa postura dialoga também com a ciência contemporânea, não
como rival, mas como aliada. A física moderna revelou que a matéria é dinâmica,
relacional e profundamente interconectada, ideia que ressoa antigas intuições
filosóficas e esotéricas. Quando Albert Einstein afirmou que a matéria é
energia condensada, abriu-se espaço para pensar a existência de forma menos
mecanicista. Utiliza-se essa aproximação como metáfora: se nada se perde,
apenas se transforma, a vida humana pode ser compreendida como parte de uma
ordem maior, ainda que seus contornos permaneçam velados. Essa hipótese não é
promessa dogmática de imortalidade, mas fonte de serenidade racional diante da
morte.
A convivência fraterna ocupa lugar central nesse processo. A
Loja funciona como espelho coletivo, onde cada iniciado testa suas virtudes e
limitações. Aqui, a filosofia deixa de ser discurso abstrato e torna-se
experiência vivida. Platão já advertia que a justiça nasce da harmonia entre as
partes da alma e da cidade; de modo semelhante, a Maçonaria entende que o
Templo Interior só se sustenta quando edificado em consonância com o bem comum.
A fraternidade não é retórica, mas exercício diário de tolerância, escuta e
respeito. O outro torna-se prova iniciática permanente, pois amar o
semelhante sem dominá-lo é uma das tarefas mais exigentes da liberdade.
Como sugestão construtiva, o ensaio convida o leitor a cultivar
três atitudes fundamentais. A primeira é o estudo reflexivo: ler filosofia,
ciência e simbolismo não para acumular erudição, mas para ampliar horizontes e
evitar o pensamento estreito. A segunda é o silêncio interior, entendido como
espaço de escuta da consciência; sem silêncio, o símbolo se esvazia e o rito se
torna mera forma. A terceira é a ação ética concreta: traduzir ideias em gestos
simples de justiça, generosidade e responsabilidade social. Assim como o
arquiteto não se contenta com o projeto no papel, o maçom é chamado a construir
no mundo aquilo que concebe no interior.
Em última instância, a "salvação"
maçônica não se projeta para um além indefinido, mas se realiza no presente
como serenidade consciente. O homem que aceita sua finitude, pensa livremente e
ama com dignidade não necessita de promessas que o infantilizem. Ele vive como
viajante lúcido: sabe que o caminho é breve, mas reconhece que cada passo pode
ser pleno de sentido. Tal como ensinava Baruch Spinoza, a liberdade consiste em
compreender a necessidade e agir segundo a razão. Nesse entendimento repousa a
paz do iniciado e a obra da Maçonaria: formar consciências livres capazes de
edificar, em si e no mundo, uma humanidade mais justa e fraterna, sob a
inspiração do Grande Arquiteto do Universo.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo:
Martins Fontes, 2002. - Fundamenta a noção de virtude como hábito racional,
oferecendo base sólida à ética maçônica da justa medida e da responsabilidade
consciente;
2.
EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1981. - Reflexões que aproximam ciência e
espiritualidade, inspirando uma leitura simbólica da realidade compatível com a
filosofia maçônica;
3.
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: o que é o
esclarecimento? São Paulo: Boitempo, 2005. - Texto essencial para compreender a
liberdade de pensar como condição da maturidade humana, em plena consonância
com o ideal iniciático;
4.
PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2001. - Obra que ilumina a relação entre justiça, harmonia interior
e ordem social, dialogando com a fraternidade maçônica;
5.
SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte:
Autêntica, 2013. - Apresenta uma visão racional da liberdade e da serenidade
diante da finitude, convergente com a salvação entendida como paz interior;

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