quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O Horizonte Cósmico e a Consciência Maçônica

 Charles Evaldo Boller

A hipótese da existência de inteligências oriundas de outras regiões do cosmos atua, no campo filosófico, menos como provocação científica e mais como instrumento de exame da maturidade espiritual e intelectual do homem. Quando se pergunta o que ocorreria com a crença no Grande Arquiteto do Universo diante de um eventual encontro com seres tecnologicamente superiores, a questão real não se dirige ao céu, mas à estrutura interior da consciência humana. A Maçonaria, enquanto sistema filosófico iniciático, oferece arcabouço singular para essa reflexão, pois não se ancora em dogmas fechados, mas em símbolos que educam o espírito para lidar com o mistério, com o limite e com o desconhecido.

Desde a Antiguidade, a filosofia clássica advertiu contra a tentação de reduzir o absoluto às medidas humanas. Platão, ao distinguir o mundo sensível do mundo das ideias, já ensinava que aquilo que se percebe é apenas sombra projetada na parede da caverna. O contato com uma inteligência extraterrestre, nesse sentido, seria apenas uma nova sombra capaz de confundir aqueles que ainda tomam o brilho tecnológico como critério de transcendência. A Maçonaria, ao conceber o Grande Arquiteto do Universo como princípio ordenador e não como entidade antropomórfica, preserva-se dessa confusão, pois compreende que toda criatura, por mais avançada que seja, permanece inserida na ordem do criado.

Aristóteles, ao propor o Primeiro Motor Imóvel, já intuía um princípio que move sem ser movido, inacessível à experiência sensível direta. Tal noção encontra paralelo evidente no simbolismo maçônico, que evita definir a essência do Grande Arquiteto do Universo para não o aprisionar em formas conceituais rígidas. Assim como o compasso traça círculos sem jamais confundir o centro com a periferia, o pensamento iniciático distingue com clareza o fundamento metafísico das manifestações contingentes do Universo.

A religião, ao longo da história, desempenhou papel essencial ao oferecer narrativas capazes de consolar o homem diante da finitude e do medo da morte. Contudo, ao penetrar profundamente na cultura antropomórfica, muitas vezes cristalizou imagens do divino excessivamente humanas. É possível que um encontro cósmico poderia provocar abalos nessas estruturas simbólicas, exigindo revisões teológicas profundas. A Maçonaria, entretanto, não sofre tal abalo, pois jamais reivindicou exclusividade interpretativa do sagrado. Seu método é outro: educar o homem para a humildade diante do mistério e para a convivência respeitosa entre diferentes visões de mundo.

A ciência moderna reforça essa postura ao revelar um cosmos vasto, probabilístico e interconectado. A física contemporânea ensina que o observador participa do fenômeno observado, dissolvendo a ilusão de neutralidade absoluta. Essa constatação entende-se diretamente com a ética maçônica, que reconhece que todo conhecimento é parcial e que a verdade se constrói pela soma de fragmentos apreendidos por múltiplas consciências. Immanuel Kant advertia que o homem não conhece a coisa em si, mas apenas os fenômenos moldados pelas estruturas da razão; a Maçonaria transforma essa limitação em virtude dentro do seu método de ensino, convidando o iniciado a permanecer aprendiz permanente.

A metáfora da pedra bruta ilumina esse processo. O homem que acredita possuir respostas definitivas comporta-se como pedra não lavrada, resistente ao cinzel da dúvida. O contato com o desconhecido, seja ele filosófico, científico ou cósmico, atua como golpe preciso que revela imperfeições ocultas e abre caminho para a lapidação. Modificar-se dói, mas permanecer rígido conduz à estagnação. Por isso a Maçonaria realiza seu trabalho em loja, onde a diversidade de opiniões funciona como espelho e ferramenta, permitindo que cada um reconheça seus limites e potencialidades.

Como sugestão construtiva, propõe-se que o maçom exercite conscientemente a distinção entre princípio e manifestação em todas as áreas da vida. No campo religioso, isso implica respeitar as formas sem torna-las absolutas; no campo científico, valorizar o método sem transformá-lo em novo dogma; no campo social, reconhecer que nenhuma cultura detém monopólio da Verdade. Tal exercício prepara o indivíduo não apenas para um eventual encontro com inteligências extraterrestres, mas para o convívio cotidiano com a alteridade humana, igualmente desafiadora.

A grande lição subjacente é que o contato transformador não ocorre entre naves e planetas, mas entre consciências. Quando o homem compreende que o Grande Arquiteto do Universo é ideia reguladora, princípio inteligível e não personagem cósmico, ele se liberta do medo de perder a fé diante do avanço do conhecimento. Como o navegante que confia na estrela polar sem jamais tocá-la, o iniciado orienta sua vida por um princípio que não se esgota em imagens nem discursos. Assim, se um dia o céu trouxer visitantes de outras estrelas, o maçom não verá deuses nem demônios, mas criaturas irmãs submetidas à mesma ordem universal, confirmando que a grandeza não está no poder, mas na consciência que sabe reconhecer seus próprios limites.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, 2002. A obra oferece base racional para a compreensão da causalidade e do princípio primeiro, permitindo analogia direta com o simbolismo maçônico do Grande Arquiteto do Universo enquanto fundamento impessoal da ordem cósmica;

2.      KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Texto essencial para compreender os limites do conhecimento humano e sustentar a postura maçônica de humildade epistemológica diante do absoluto;

3.      PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Diálogo clássico que introduz a distinção entre aparência e essência, oferecendo metáforas fundamentais para a reflexão iniciática sobre verdade, conhecimento e transcendência;

4.      SPINOZA, Baruch. Ética Demonstrada à Maneira dos Geômetras. São Paulo: abril Cultural, 1983. Contribui para uma concepção não antropomórfica do divino, compatível com a visão maçônica do Grande Arquiteto do Universo como princípio universal;

Nenhum comentário: