A hipótese da existência de inteligências oriundas de outras
regiões do cosmos atua, no campo filosófico, menos como provocação científica e
mais como instrumento de exame da maturidade espiritual e intelectual do homem.
Quando se pergunta o que ocorreria com a crença no Grande Arquiteto do Universo
diante de um eventual encontro com seres tecnologicamente superiores, a questão
real não se dirige ao céu, mas à estrutura interior da consciência humana. A
Maçonaria, enquanto sistema filosófico iniciático, oferece arcabouço singular
para essa reflexão, pois não se ancora em dogmas fechados, mas em símbolos que
educam o espírito para lidar com o mistério, com o limite e com o desconhecido.
Desde a Antiguidade, a filosofia clássica advertiu contra a
tentação de reduzir o absoluto às medidas humanas. Platão, ao distinguir o
mundo sensível do mundo das ideias, já ensinava que aquilo que se percebe é
apenas sombra projetada na parede da caverna. O contato com uma inteligência
extraterrestre, nesse sentido, seria apenas uma nova sombra capaz de confundir
aqueles que ainda tomam o brilho tecnológico como critério de transcendência. A
Maçonaria, ao conceber o Grande Arquiteto do Universo como princípio ordenador
e não como entidade antropomórfica, preserva-se dessa confusão, pois compreende
que toda criatura, por mais avançada que seja, permanece inserida na ordem do
criado.
Aristóteles, ao propor o Primeiro Motor Imóvel, já intuía um
princípio que move sem ser movido, inacessível à experiência sensível direta.
Tal noção encontra paralelo evidente no simbolismo maçônico, que evita definir
a essência do Grande Arquiteto do Universo para não o aprisionar em formas
conceituais rígidas. Assim como o compasso traça círculos sem jamais confundir
o centro com a periferia, o pensamento iniciático distingue com clareza o
fundamento metafísico das manifestações contingentes do Universo.
A religião, ao longo da história, desempenhou papel essencial ao
oferecer narrativas capazes de consolar o homem diante da finitude e do medo da
morte. Contudo, ao penetrar profundamente na cultura antropomórfica, muitas
vezes cristalizou imagens do divino excessivamente humanas. É possível que um
encontro cósmico poderia provocar abalos nessas estruturas simbólicas, exigindo
revisões teológicas profundas. A Maçonaria, entretanto, não sofre tal abalo,
pois jamais reivindicou exclusividade interpretativa do sagrado. Seu método é
outro: educar o homem para a humildade diante do mistério e para a convivência
respeitosa entre diferentes visões de mundo.
A ciência moderna reforça essa postura ao revelar um cosmos
vasto, probabilístico e interconectado. A física contemporânea ensina que o
observador participa do fenômeno observado, dissolvendo a ilusão de
neutralidade absoluta. Essa constatação entende-se diretamente com a ética
maçônica, que reconhece que todo conhecimento é parcial e que a verdade se
constrói pela soma de fragmentos apreendidos por múltiplas consciências.
Immanuel Kant advertia que o homem não conhece a coisa em si, mas apenas os
fenômenos moldados pelas estruturas da razão; a Maçonaria transforma essa
limitação em virtude dentro do seu método de ensino, convidando o iniciado a
permanecer aprendiz permanente.
A metáfora da pedra bruta ilumina esse processo. O homem que
acredita possuir respostas definitivas comporta-se como pedra não lavrada,
resistente ao cinzel da dúvida. O contato com o desconhecido, seja ele
filosófico, científico ou cósmico, atua como golpe preciso que revela
imperfeições ocultas e abre caminho para a lapidação. Modificar-se dói, mas
permanecer rígido conduz à estagnação. Por isso a Maçonaria realiza seu
trabalho em loja, onde a diversidade de opiniões funciona como espelho e
ferramenta, permitindo que cada um reconheça seus limites e potencialidades.
Como sugestão construtiva, propõe-se que o maçom exercite
conscientemente a distinção entre princípio e manifestação em todas as áreas da
vida. No campo religioso, isso implica respeitar as formas sem torna-las
absolutas; no campo científico, valorizar o método sem transformá-lo em novo
dogma; no campo social, reconhecer que nenhuma cultura detém monopólio da
Verdade. Tal exercício prepara o indivíduo não apenas para um eventual encontro
com inteligências extraterrestres, mas para o convívio cotidiano com a
alteridade humana, igualmente desafiadora.
A grande lição subjacente é que o contato transformador não
ocorre entre naves e planetas, mas entre consciências. Quando o homem compreende
que o Grande Arquiteto do Universo é ideia reguladora, princípio inteligível e
não personagem cósmico, ele se liberta do medo de perder a fé diante do avanço
do conhecimento. Como o navegante que confia na estrela polar sem jamais
tocá-la, o iniciado orienta sua vida por um princípio que não se esgota em
imagens nem discursos. Assim, se um dia o céu trouxer visitantes de outras
estrelas, o maçom não verá deuses nem demônios, mas criaturas irmãs submetidas
à mesma ordem universal, confirmando que a grandeza não está no poder, mas na
consciência que sabe reconhecer seus próprios limites.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola,
2002. A obra oferece base racional para a compreensão da causalidade e do
princípio primeiro, permitindo analogia direta com o simbolismo maçônico do Grande
Arquiteto do Universo enquanto fundamento impessoal da ordem cósmica;
2.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Texto essencial para compreender os limites
do conhecimento humano e sustentar a postura maçônica de humildade
epistemológica diante do absoluto;
3.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes,
2006. Diálogo clássico que introduz a distinção entre aparência e essência,
oferecendo metáforas fundamentais para a reflexão iniciática sobre verdade,
conhecimento e transcendência;
4.
SPINOZA, Baruch. Ética Demonstrada à Maneira dos
Geômetras. São Paulo: abril Cultural, 1983. Contribui para uma concepção não
antropomórfica do divino, compatível com a visão maçônica do Grande Arquiteto
do Universo como princípio universal;

Nenhum comentário:
Postar um comentário