quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O Ponto, o Círculo e a Ordem do Ser

 Charles Evaldo Boller

O símbolo do ponto no centro do círculo constitui uma das sínteses mais eloquentes da tradição maçônica, pois condensa, em linguagem geométrica, uma visão integrada do cosmos, do ser humano e do princípio que a tudo ordena. O ponto, sem dimensão e sem forma, representa a unidade primordial, invisível e não manifesta, enquanto o círculo exprime a totalidade ilimitada das possibilidades que emanam desse princípio. Na Maçonaria, essa unidade é compreendida como o Grande Arquiteto do Universo, não enquanto figura antropomórfica, mas como inteligência ordenadora, causa primeira e fundamento da harmonia que sustenta tanto as leis naturais quanto a ética humana. Tal como o ponto é indispensável para o traçado de qualquer figura, o princípio espiritual é indispensável para que a existência adquira sentido e coerência.

A filosofia clássica fornece um arcabouço conceitual que se entende profundamente com esse simbolismo. Entre os gregos, o Logos foi concebido como a razão universal que governa o devir. Heráclito afirmava que tudo flui segundo o Logos, indicando que a mudança não é caótica, mas regida por uma ordem invisível. Aristóteles, ao desenvolver sua metafísica, reforçou essa ideia ao distinguir potência e ato, mostrando que toda realidade manifesta resulta da atualização de uma possibilidade prévia. O ponto central pode ser lido como essa potência absoluta, enquanto o círculo representa o processo pelo qual o ser se atualiza no tempo e no espaço. Assim, a simbólica maçônica não se opõe à filosofia, mas a traduz em forma contemplativa.

A geometria, nesse contexto, assume papel iniciático. Platão via nas formas geométricas um caminho de elevação da alma, pois elas conduzem o pensamento do sensível ao inteligível. Na Loja, o compasso e o esquadro ensinam que a vida deve ser vivida segundo proporção, equilíbrio e retidão. O ponto no centro do círculo torna-se, então, metáfora do próprio iniciado, chamado a expandir sua consciência e sua ação no mundo sem jamais perder o eixo moral. Ultrapassar o círculo é romper os limites da Lei; afastar-se do ponto é perder a referência interior que orienta a construção do Templo Interior.

As tradições esotéricas antigas reforçam essa compreensão ao recorrerem ao símbolo do ovo cósmico para explicar a origem do universo. No interior do ovo, todas as formas estavam contidas em estado potencial, aguardando o momento da manifestação. Essa imagem aparece tanto na filosofia aristotélica quanto na simbólica maçônica, que vê o ser humano como obra em permanente lapidação. O ponto central representa a essência ainda não plenamente realizada; o círculo, o campo de experiências no qual essa essência se desenvolve. A iniciação, sob essa perspectiva, não adiciona algo externo, mas desperta o que já estava latente, como a chama que surge quando o combustível encontra a centelha adequada.

A ciência moderna, embora utilize linguagem distinta, aproxima-se surpreendentemente dessas intuições. Ao investigar a origem do universo, a cosmologia fala de singularidade, um estado inicial de concentração absoluta de energia e matéria, no qual as leis conhecidas deixam de operar. O Big Bang pode ser compreendido, em chave simbólica, como a expansão do círculo a partir de um ponto primordial. Albert Einstein, ao formular a teoria da relatividade, demonstrou que espaço e tempo não são absolutos, mas dependem da estrutura do universo, reforçando a ideia de uma realidade relacional. Essa concepção dialoga com o ensinamento simbólico de que o centro não está ausente de lugar algum, pois a ordem do princípio se manifesta em toda parte.

Nas tradições religiosas, a criação é frequentemente descrita como o surgimento da Luz. Essa Luz não se limita ao fenômeno físico, mas simboliza consciência, ordem e inteligibilidade. Na Maçonaria, receber a Luz significa despertar para uma nova percepção de si e do mundo. O ponto luminoso no centro do círculo representa esse despertar interior, enquanto o círculo simboliza o campo de experiências no qual a consciência deve atuar com responsabilidade. Como ensinava Sócrates, conhecer a si mesmo é o fundamento da sabedoria; reconhecer o próprio centro é assumir a tarefa de ordenar a própria vida segundo princípios superiores.

O símbolo do ponto e do círculo pode ser compreendido, por fim, como uma metáfora arquitetônica do Templo Interior. O ponto é o altar invisível da consciência; o círculo, as paredes éticas que delimitam a ação justa. Construir esse templo exige disciplina, silêncio e perseverança, assim como a obra material exige fidelidade ao projeto original. A ciência descreve a ordem do Universo por meio de leis; a religião contempla essa ordem como mistério sagrado; a filosofia a investiga como princípio racional. A Maçonaria integra essas dimensões em uma síntese prática, convidando o ser humano a viver de tal modo que pensamento, palavra e ação permaneçam alinhados ao centro.

O ponto no centro do círculo ensina, em última instância, que a unidade não se opõe à diversidade, mas a sustenta. Guardar o centro é permanecer fiel ao princípio mesmo na multiplicidade das circunstâncias. Como afirmava Plotino, tudo tende a retornar ao Uno. Quando o ser humano orienta sua existência por esse centro, sua vida torna-se expressão viva da ordem cósmica, e o Templo Interior ergue-se como reflexo harmonioso do Universo governado pelo Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, 2002. Obra fundamental para a compreensão dos conceitos de potência e ato, essenciais para relacionar o simbolismo do ponto primordial ao processo de manifestação do ser;

2.      EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. Reflexões filosóficas que auxiliam a compreender a relação entre ciência, ordem cósmica e sentido existencial;

3.      ELIADE, Mircea. O mito do eterno retorno. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Análise profunda das estruturas simbólicas arcaicas, especialmente da ideia de origem e repetição, oferecendo base conceitual para a compreensão do centro sagrado;

4.      PLATÃO. Timeu. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Diálogo central da cosmologia platônica, no qual o Universo é apresentado como obra ordenada segundo princípios matemáticos e racionais;

5.      PLOTINO. Enéadas. São Paulo: Paulus, 2014. Texto essencial do Neoplatonismo que aprofunda a noção do Uno como princípio absoluto, dialogando diretamente com a simbólica do ponto central;

Nenhum comentário: