O símbolo do ponto no centro do círculo constitui uma das
sínteses mais eloquentes da tradição maçônica, pois condensa, em linguagem
geométrica, uma visão integrada do cosmos, do ser humano e do princípio que a
tudo ordena. O ponto, sem dimensão e sem forma, representa a unidade
primordial, invisível e não manifesta, enquanto o círculo exprime a totalidade
ilimitada das possibilidades que emanam desse princípio. Na Maçonaria, essa
unidade é compreendida como o Grande Arquiteto do Universo, não enquanto figura
antropomórfica, mas como inteligência ordenadora, causa primeira e fundamento
da harmonia que sustenta tanto as leis naturais quanto a ética humana. Tal como
o ponto é indispensável para o traçado de qualquer figura, o princípio
espiritual é indispensável para que a existência adquira sentido e coerência.
A filosofia clássica fornece um arcabouço conceitual que se
entende profundamente com esse simbolismo. Entre os gregos, o Logos foi
concebido como a razão universal que governa o devir. Heráclito afirmava que
tudo flui segundo o Logos, indicando que a mudança não é caótica, mas regida
por uma ordem invisível. Aristóteles, ao desenvolver sua metafísica, reforçou
essa ideia ao distinguir potência e ato, mostrando que toda realidade manifesta
resulta da atualização de uma possibilidade prévia. O ponto central pode ser
lido como essa potência absoluta, enquanto o círculo representa o processo pelo
qual o ser se atualiza no tempo e no espaço. Assim, a simbólica maçônica não se
opõe à filosofia, mas a traduz em forma contemplativa.
A geometria, nesse contexto, assume papel iniciático. Platão via
nas formas geométricas um caminho de elevação da alma, pois elas conduzem o
pensamento do sensível ao inteligível. Na Loja, o compasso e o esquadro ensinam
que a vida deve ser vivida segundo proporção, equilíbrio e retidão. O ponto no
centro do círculo torna-se, então, metáfora do próprio iniciado, chamado a
expandir sua consciência e sua ação no mundo sem jamais perder o eixo moral.
Ultrapassar o círculo é romper os limites da Lei; afastar-se do ponto é perder
a referência interior que orienta a construção do Templo Interior.
As tradições esotéricas antigas reforçam essa compreensão ao recorrerem
ao símbolo do ovo cósmico para explicar a origem do universo. No interior do
ovo, todas as formas estavam contidas em estado potencial, aguardando o momento
da manifestação. Essa imagem aparece tanto na filosofia aristotélica quanto na
simbólica maçônica, que vê o ser humano como obra em permanente lapidação. O
ponto central representa a essência ainda não plenamente realizada; o círculo,
o campo de experiências no qual essa essência se desenvolve. A iniciação, sob
essa perspectiva, não adiciona algo externo, mas desperta o que já estava
latente, como a chama que surge quando o combustível encontra a centelha
adequada.
A ciência moderna, embora utilize linguagem distinta,
aproxima-se surpreendentemente dessas intuições. Ao investigar a origem do
universo, a cosmologia fala de singularidade, um estado inicial de concentração
absoluta de energia e matéria, no qual as leis conhecidas deixam de operar. O
Big Bang pode ser compreendido, em chave simbólica, como a expansão do círculo
a partir de um ponto primordial. Albert Einstein, ao formular a teoria da
relatividade, demonstrou que espaço e tempo não são absolutos, mas dependem da
estrutura do universo, reforçando a ideia de uma realidade relacional. Essa
concepção dialoga com o ensinamento simbólico de que o centro não está ausente
de lugar algum, pois a ordem do princípio se manifesta em toda parte.
Nas tradições religiosas, a criação é frequentemente descrita
como o surgimento da Luz. Essa Luz não se limita ao fenômeno físico, mas
simboliza consciência, ordem e inteligibilidade. Na Maçonaria, receber a Luz
significa despertar para uma nova percepção de si e do mundo. O ponto
luminoso no centro do círculo representa esse despertar interior, enquanto o
círculo simboliza o campo de experiências no qual a consciência deve atuar com
responsabilidade. Como ensinava Sócrates, conhecer a si mesmo é o fundamento da
sabedoria; reconhecer o próprio centro é assumir a tarefa de ordenar a própria
vida segundo princípios superiores.
O símbolo do ponto e do círculo pode ser compreendido, por fim,
como uma metáfora arquitetônica do Templo Interior. O ponto é o altar invisível
da consciência; o círculo, as paredes éticas que delimitam a ação justa. Construir
esse templo exige disciplina, silêncio e perseverança, assim como a obra
material exige fidelidade ao projeto original. A ciência descreve a ordem
do Universo por meio de leis; a religião contempla essa ordem como mistério
sagrado; a filosofia a investiga como princípio racional. A Maçonaria integra
essas dimensões em uma síntese prática, convidando o ser humano a viver de tal
modo que pensamento, palavra e ação permaneçam alinhados ao centro.
O ponto no centro do círculo ensina, em última instância, que
a unidade não se opõe à diversidade, mas a sustenta. Guardar o centro é
permanecer fiel ao princípio mesmo na multiplicidade das circunstâncias. Como
afirmava Plotino, tudo tende a retornar ao Uno. Quando o ser humano orienta sua
existência por esse centro, sua vida torna-se expressão viva da ordem cósmica,
e o Templo Interior ergue-se como reflexo harmonioso do Universo governado pelo
Grande Arquiteto do Universo.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola,
2002. Obra fundamental para a compreensão dos conceitos de potência e ato,
essenciais para relacionar o simbolismo do ponto primordial ao processo de
manifestação do ser;
2.
EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1981. Reflexões filosóficas que auxiliam a compreender
a relação entre ciência, ordem cósmica e sentido existencial;
3.
ELIADE, Mircea. O mito do eterno retorno. São
Paulo: Martins Fontes, 1992. Análise profunda das estruturas simbólicas
arcaicas, especialmente da ideia de origem e repetição, oferecendo base
conceitual para a compreensão do centro sagrado;
4.
PLATÃO. Timeu. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2001. Diálogo central da cosmologia platônica, no qual o Universo é
apresentado como obra ordenada segundo princípios matemáticos e racionais;
5.
PLOTINO. Enéadas. São Paulo: Paulus, 2014. Texto
essencial do Neoplatonismo que aprofunda a noção do Uno como princípio
absoluto, dialogando diretamente com a simbólica do ponto central;

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