domingo, 4 de janeiro de 2026

Entre a Razão, o Símbolo e o Mistério

 Charles Evaldo Boller

A Maçonaria, enquanto escola filosófica e simbólica, ocupa um espaço singular no pensamento humano: aquele situado entre a ciência que mede e a religião que atribui sentido. Essa posição intermediária, descrita de forma magistral por Bertrand Russell ao definir a filosofia como uma "Terra de Ninguém", não é um território de indecisão estéril, mas um campo fértil de formação da consciência. O maçom é educado não para possuir verdades finais, mas para aprender a caminhar com lucidez entre o que pode ser demonstrado e o que apenas pode ser significado.

Desde a Antiguidade, a filosofia clássica reconhece esse desafio. Sócrates já advertia que a sabedoria começa no reconhecimento da própria ignorância. Essa atitude socrática encontra paralelo direto na iniciação maçônica, que ensina o iniciado a desconfiar tanto das certezas dogmáticas quanto das negações absolutas. O símbolo, nesse contexto, funciona como uma ponte: não afirma como a ciência, nem impõe como a teologia, mas sugere, convida e provoca.

A ciência moderna, com todo o seu rigor, ampliou extraordinariamente o domínio humano sobre a natureza. Contudo, como alertaria Aristóteles, o conhecimento técnico não se confunde com sabedoria prática. Saber como as coisas funcionam não equivale a saber como viver bem. A Maçonaria recupera essa distinção ao insistir que o progresso material, quando não acompanhado de progresso moral, tende a produzir desequilíbrio. A metáfora da pedra bruta ilustra com clareza esse ponto: não basta extrair a pedra da pedreira do mundo; é necessário trabalhá-la, lapidá-la, dar-lhe forma e finalidade.

No campo religioso, a Maçonaria não se apresenta como substituta das tradições espirituais, mas como espaço de depuração. Ao reconhecer um Princípio Criador sem defini-lo dogmaticamente, preserva a dimensão do sagrado sem aprisioná-la em fórmulas. Aqui se aplica a lição de Platão, para quem o mundo sensível aponta para realidades mais profundas, acessíveis não por imposição, mas por elevação da alma. O maçom é convidado a buscar sentido sem abdicar da razão, compreendendo que fé sem reflexão degenera em fanatismo, e razão sem transcendência empobrece a existência.

As reflexões contemporâneas sobre a ciência, inclusive aquelas inspiradas pela física moderna, reforçam simbolicamente essa postura. A noção de que o observador participa do fenômeno observado, ainda que tratada com cautela filosófica, serve como metáfora ética poderosa: não somos espectadores neutros da realidade social, mas participantes ativos. Cada escolha individual reverbera no Todo. Essa percepção dialoga com o imperativo moral de Immanuel Kant, segundo o qual o ser humano deve agir de modo que sua ação possa ser erigida em princípio universal.

A Loja maçônica, nesse sentido, funciona como um laboratório ético. Nela, liberdade e disciplina coexistem, ensinando que a autonomia não é ausência de limites, mas capacidade de autogoverno. Como um rio que precisa de margens para não se dissipar, a liberdade humana necessita de princípios para gerar vida, e não caos. Essa imagem ajuda a compreender por que a Maçonaria valoriza tanto o método quanto o conteúdo: o caminho é tão formativo quanto o objetivo.

Como sugestão prática, as lojas podem aprofundar essa formação promovendo estudos comparativos entre símbolos maçônicos e textos clássicos, estimulando debates que não busquem vencedores, mas ampliem a compreensão coletiva. Exercícios de reflexão silenciosa, aliados a peças de arquitetura que relacionem ciência, ética e espiritualidade, fortalecem a iniciação interna e evitam tanto o dogmatismo quanto o relativismo vazio.

Ao final, a grande lição do ensaio é simples e exigente: o mundo não se transforma por decretos ideológicos, mas pela reforma íntima de consciências. A Maçonaria, ao ensinar a viver entre a razão e o mistério, forma homens capazes de agir com lucidez em um Universo complexo. Como uma ponte lançada sobre águas profundas, ela não elimina o abismo, mas torna possível a travessia.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2001. Texto clássico que fundamenta a ética da virtude e do hábito consciente, dialogando diretamente com a noção maçônica de lapidação da pedra bruta e de construção do caráter;

2.      KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática. São Paulo: Vozes, 2002. Referência central para a compreensão da autonomia moral e do dever ético, princípios que sustentam a liberdade responsável defendida pela filosofia maçônica;

3.      PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Obra essencial para a compreensão da relação entre justiça, indivíduo e comunidade, oferecendo imagens e conceitos que enriquecem a leitura simbólica do Templo Interior;

4.      RUSSELL, Bertrand. História da Filosofia Ocidental. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2001. Obra fundamental para compreender a filosofia como campo intermediário entre ciência e religião, oferecendo base conceitual para a leitura maçônica da incerteza, da razão crítica e da responsabilidade ética;

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