A Maçonaria, enquanto escola filosófica e simbólica, ocupa um
espaço singular no pensamento humano: aquele situado entre a ciência que mede e
a religião que atribui sentido. Essa posição intermediária, descrita de forma
magistral por Bertrand Russell ao definir a filosofia como uma "Terra de Ninguém", não é um
território de indecisão estéril, mas um campo fértil de formação da
consciência. O maçom é educado não para possuir verdades finais, mas para
aprender a caminhar com lucidez entre o que pode ser demonstrado e o que apenas
pode ser significado.
Desde a Antiguidade, a filosofia clássica reconhece esse desafio.
Sócrates já advertia que a sabedoria começa no reconhecimento da própria
ignorância. Essa atitude socrática encontra paralelo direto na iniciação
maçônica, que ensina o iniciado a desconfiar tanto das certezas dogmáticas
quanto das negações absolutas. O símbolo, nesse contexto, funciona como uma
ponte: não afirma como a ciência, nem impõe como a teologia, mas sugere,
convida e provoca.
A ciência moderna, com todo o seu rigor, ampliou
extraordinariamente o domínio humano sobre a natureza. Contudo, como alertaria
Aristóteles, o conhecimento técnico não se confunde com sabedoria prática.
Saber como as coisas funcionam não equivale a saber como viver bem. A Maçonaria
recupera essa distinção ao insistir que o progresso material, quando não acompanhado
de progresso moral, tende a produzir desequilíbrio. A metáfora da pedra bruta
ilustra com clareza esse ponto: não basta extrair a pedra da pedreira do mundo;
é necessário trabalhá-la, lapidá-la, dar-lhe forma e finalidade.
No campo religioso, a Maçonaria não se apresenta como substituta
das tradições espirituais, mas como espaço de depuração. Ao reconhecer um
Princípio Criador sem defini-lo dogmaticamente, preserva a dimensão do sagrado
sem aprisioná-la em fórmulas. Aqui se aplica a lição de Platão, para quem o
mundo sensível aponta para realidades mais profundas, acessíveis não por
imposição, mas por elevação da alma. O maçom é convidado a buscar sentido sem
abdicar da razão, compreendendo que fé sem reflexão degenera em fanatismo, e
razão sem transcendência empobrece a existência.
As reflexões contemporâneas sobre a ciência, inclusive aquelas
inspiradas pela física moderna, reforçam simbolicamente essa postura. A noção
de que o observador participa do fenômeno observado, ainda que tratada com
cautela filosófica, serve como metáfora ética poderosa: não somos espectadores
neutros da realidade social, mas participantes ativos. Cada escolha individual
reverbera no Todo. Essa percepção dialoga com o imperativo moral de Immanuel
Kant, segundo o qual o ser humano deve agir de modo que sua ação possa ser
erigida em princípio universal.
A Loja maçônica, nesse sentido, funciona como um laboratório
ético. Nela, liberdade e disciplina coexistem, ensinando que a autonomia não é
ausência de limites, mas capacidade de autogoverno. Como um rio que precisa de
margens para não se dissipar, a liberdade humana necessita de princípios para
gerar vida, e não caos. Essa imagem ajuda a compreender por que a Maçonaria
valoriza tanto o método quanto o conteúdo: o caminho é tão formativo quanto o
objetivo.
Como sugestão prática, as lojas podem aprofundar essa formação
promovendo estudos comparativos entre símbolos maçônicos e textos clássicos,
estimulando debates que não busquem vencedores, mas ampliem a compreensão
coletiva. Exercícios de reflexão silenciosa, aliados a peças de arquitetura que
relacionem ciência, ética e espiritualidade, fortalecem a iniciação interna e
evitam tanto o dogmatismo quanto o relativismo vazio.
Ao final, a grande lição do ensaio é simples e exigente: o mundo
não se transforma por decretos ideológicos, mas pela reforma íntima de
consciências. A Maçonaria, ao ensinar a viver entre a razão e o mistério, forma
homens capazes de agir com lucidez em um Universo complexo. Como uma ponte
lançada sobre águas profundas, ela não elimina o abismo, mas torna possível a
travessia.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin
Claret, 2001. Texto clássico que fundamenta a ética da virtude e do hábito
consciente, dialogando diretamente com a noção maçônica de lapidação da pedra
bruta e de construção do caráter;
2.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática. São
Paulo: Vozes, 2002. Referência central para a compreensão da autonomia moral e
do dever ético, princípios que sustentam a liberdade responsável defendida pela
filosofia maçônica;
3.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes,
2006. Obra essencial para a compreensão da relação entre justiça, indivíduo e
comunidade, oferecendo imagens e conceitos que enriquecem a leitura simbólica
do Templo Interior;
4.
RUSSELL, Bertrand. História da Filosofia
Ocidental. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2001. Obra fundamental para
compreender a filosofia como campo intermediário entre ciência e religião,
oferecendo base conceitual para a leitura maçônica da incerteza, da razão
crítica e da responsabilidade ética;

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