segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Entre a Ilusão dos Sentidos e a Luz do Conhecimento

 Charles Evaldo Boller

Ao refletir sobre a constituição do Universo e do próprio ser humano, propõe-se uma ruptura necessária com a ingenuidade perceptiva que domina o pensamento comum. Aquilo que os sentidos apresentam como realidade sólida revela-se, à luz da filosofia, da ciência moderna e do simbolismo iniciático, uma construção funcional, porém limitada. A Maçonaria, enquanto escola de aperfeiçoamento moral e intelectual, sempre advertiu que ver não é compreender, e que tocar não equivale a conhecer. O iniciado é chamado a ultrapassar o domínio da aparência para penetrar no campo das causas, onde o visível nasce do invisível como a sombra nasce da luz.

A filosofia clássica já intuía essa distinção fundamental. Platão, ao formular a alegoria da caverna, ensinou que os homens confundem sombras projetadas com a própria realidade, esquecendo-se da fonte luminosa que lhes dá origem. Aristóteles, ao investigar a substância, reconheceu que a matéria, por si só, não se basta, necessitando de forma, ato e finalidade. Essas reflexões encontram apoio direto no pensamento maçônico, que jamais tratou a matéria como fim, mas como meio simbólico para a elevação da consciência. A pedra bruta não é exaltada por sua aspereza, mas por aquilo que pode vir a ser após o trabalho paciente do cinzel interior.

No campo da ciência, a física moderna aprofundou esse questionamento de modo decisivo. A Física Quântica demonstrou que a matéria não possui a solidez que a intuição sensorial lhe atribui. Átomos são, em sua maior parte, vazios estruturados por campos de energia e probabilidades. A célebre equivalência entre massa e energia formulada por Einstein dissolveu definitivamente a ideia de substância fixa, aproximando o discurso científico de antigas intuições alquímicas. Para o alquimista, a matéria sempre foi um estado transitório da energia universal; para o maçom atento, essa verdade é transmitida simbolicamente por meio da luz, da geometria e da harmonia ritualística.

A religião, quando despida de dogmatismos estreitos, também converge para essa compreensão. Ao falar de criação, ordem e sentido, ela não descreve fenômenos físicos, mas aponta para um princípio ordenador que sustenta a existência. O Grande Arquiteto do Universo, compreendido filosoficamente, não concorre com a ciência, nem substitui suas explicações; antes, oferece uma chave simbólica para pensar a inteligibilidade do cosmos. Assim como um arquiteto concebe o plano antes da edificação, o princípio ordenador antecede e sustenta a manifestação, sem se confundir com ela.

A harmonia entre Maçonaria, ciência e religião emerge quando se reconhece que cada uma opera em um nível distinto da realidade. A ciência descreve o funcionamento do mundo; a filosofia interroga seus fundamentos; a religião busca seu sentido; a Maçonaria integra essas dimensões por meio do símbolo, evitando tanto o reducionismo materialista quanto o Misticismo acrítico. Essa integração pode ser comparada a um prisma: a luz branca da verdade, ao atravessá-lo, manifesta-se em cores diversas, sem perder sua unidade essencial.

Recorremos aqui a metáforas para tornar essa compreensão acessível. A realidade sensorial assemelha-se à superfície de um oceano: ondas visíveis, mutáveis e mensuráveis. A realidade profunda é o próprio oceano, silencioso em suas profundezas, mas responsável por todo movimento aparente. O homem comum descreve as ondas; o iniciado busca compreender o mar. Da mesma forma, o conhecimento fragmentado limita-se às formas; a sabedoria busca a unidade que as sustenta.

Dessa perspectiva decorre uma ética iniciática. Se o homem é expressão consciente do mesmo campo energético que estrutura o cosmos, suas ações não são isoladas, mas ressoam no todo. Conhecer-se torna-se, portanto, um dever universal, pois ao lapidar a própria consciência o indivíduo contribui para a harmonia coletiva. Como ensinava Sócrates, conhecer a si mesmo é o primeiro passo para a sabedoria; como confirma a física contemporânea, o observador jamais está separado do fenômeno observado.

Convida-se ao irmão a um compromisso interior: abandonar a confiança absoluta nos sentidos, sem desprezá-los; valorizar a ciência, sem torna-la absoluta; respeitar a religião, sem dogmatizá-la; e viver a Maçonaria como caminho de síntese viva. Entre a ilusão da forma e a luz do conhecimento, o iniciado aprende que a realidade não se opõe ao símbolo, mas se revela por meio dele, na medida em que a consciência se torna capaz de enxergar além da aparência.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, 2002. Texto fundamental para a compreensão da noção de substância, forma e causa, antecipando debates sobre a insuficiência da matéria como princípio último;

2.      EINSTEIN, Albert. A Evolução da Física. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. Apresenta a transição da física clássica para a moderna, evidenciando a superação da matéria sólida em favor de campos energéticos;

3.      PLANCK, Max. Iniciação à Física. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993. Introduz os fundamentos da Física Quântica, demonstrando a descontinuidade da energia e suas implicações filosóficas;

4.      PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007. Obra central da filosofia ocidental, cuja alegoria da caverna oferece base conceitual para a distinção entre aparência sensível e realidade inteligível;

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