Ao refletir sobre a constituição do Universo e do próprio ser
humano, propõe-se uma ruptura necessária com a ingenuidade perceptiva que
domina o pensamento comum. Aquilo que os sentidos apresentam como realidade
sólida revela-se, à luz da filosofia, da ciência moderna e do simbolismo
iniciático, uma construção funcional, porém limitada. A Maçonaria, enquanto
escola de aperfeiçoamento moral e intelectual, sempre advertiu que ver não é
compreender, e que tocar não equivale a conhecer. O iniciado é chamado a
ultrapassar o domínio da aparência para penetrar no campo das causas, onde o
visível nasce do invisível como a sombra nasce da luz.
A filosofia clássica já intuía essa distinção fundamental.
Platão, ao formular a alegoria da caverna, ensinou que os homens confundem
sombras projetadas com a própria realidade, esquecendo-se da fonte luminosa que
lhes dá origem. Aristóteles, ao investigar a substância, reconheceu que a
matéria, por si só, não se basta, necessitando de forma, ato e finalidade.
Essas reflexões encontram apoio direto no pensamento maçônico, que jamais
tratou a matéria como fim, mas como meio simbólico para a elevação da
consciência. A pedra bruta não é exaltada por sua aspereza, mas por aquilo que
pode vir a ser após o trabalho paciente do cinzel interior.
No campo da ciência, a física moderna aprofundou esse
questionamento de modo decisivo. A Física Quântica demonstrou que a matéria não
possui a solidez que a intuição sensorial lhe atribui. Átomos são, em sua maior
parte, vazios estruturados por campos de energia e probabilidades. A célebre
equivalência entre massa e energia formulada por Einstein dissolveu
definitivamente a ideia de substância fixa, aproximando o discurso científico
de antigas intuições alquímicas. Para o alquimista, a matéria sempre foi um
estado transitório da energia universal; para o maçom atento, essa verdade é
transmitida simbolicamente por meio da luz, da geometria e da harmonia ritualística.
A religião, quando despida de dogmatismos estreitos, também
converge para essa compreensão. Ao falar de criação, ordem e sentido, ela não
descreve fenômenos físicos, mas aponta para um princípio ordenador que sustenta
a existência. O Grande Arquiteto do Universo, compreendido filosoficamente, não
concorre com a ciência, nem substitui suas explicações; antes, oferece uma
chave simbólica para pensar a inteligibilidade do cosmos. Assim como um
arquiteto concebe o plano antes da edificação, o princípio ordenador antecede e
sustenta a manifestação, sem se confundir com ela.
A harmonia entre Maçonaria, ciência e religião emerge quando se
reconhece que cada uma opera em um nível distinto da realidade. A ciência
descreve o funcionamento do mundo; a filosofia interroga seus fundamentos; a
religião busca seu sentido; a Maçonaria integra essas dimensões por meio do
símbolo, evitando tanto o reducionismo materialista quanto o Misticismo
acrítico. Essa integração pode ser comparada a um prisma: a luz branca da
verdade, ao atravessá-lo, manifesta-se em cores diversas, sem perder sua
unidade essencial.
Recorremos aqui a metáforas para tornar essa compreensão
acessível. A realidade sensorial assemelha-se à superfície de um oceano: ondas
visíveis, mutáveis e mensuráveis. A realidade profunda é o próprio oceano,
silencioso em suas profundezas, mas responsável por todo movimento aparente. O
homem comum descreve as ondas; o iniciado busca compreender o mar. Da mesma
forma, o conhecimento fragmentado limita-se às formas; a sabedoria busca a
unidade que as sustenta.
Dessa perspectiva decorre uma ética iniciática. Se o homem é
expressão consciente do mesmo campo energético que estrutura o cosmos, suas
ações não são isoladas, mas ressoam no todo. Conhecer-se torna-se, portanto, um
dever universal, pois ao lapidar a própria consciência o indivíduo contribui
para a harmonia coletiva. Como ensinava Sócrates, conhecer a si mesmo é o
primeiro passo para a sabedoria; como confirma a física contemporânea, o
observador jamais está separado do fenômeno observado.
Convida-se ao irmão a um compromisso interior: abandonar a
confiança absoluta nos sentidos, sem desprezá-los; valorizar a ciência, sem torna-la
absoluta; respeitar a religião, sem dogmatizá-la; e viver a Maçonaria como
caminho de síntese viva. Entre a ilusão da forma e a luz do conhecimento, o
iniciado aprende que a realidade não se opõe ao símbolo, mas se revela por meio
dele, na medida em que a consciência se torna capaz de enxergar além da
aparência.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola,
2002. Texto fundamental para a compreensão da noção de substância, forma e
causa, antecipando debates sobre a insuficiência da matéria como princípio
último;
2.
EINSTEIN, Albert. A Evolução da Física. Rio de
Janeiro: Zahar, 2001. Apresenta a transição da física clássica para a moderna,
evidenciando a superação da matéria sólida em favor de campos energéticos;
3.
PLANCK, Max. Iniciação à Física. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian, 1993. Introduz os fundamentos da Física Quântica,
demonstrando a descontinuidade da energia e suas implicações filosóficas;
4.
PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2007. Obra central da filosofia ocidental, cuja alegoria da caverna
oferece base conceitual para a distinção entre aparência sensível e realidade
inteligível;

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