sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A Travessia Interior e a Arte de Governar a Si Mesmo

 Charles Evaldo Boller

As viagens maçônicas revelam-se como uma síntese simbólica da própria condição humana. O homem é lançado ao mundo como alguém que atravessa uma tempestade: cercado por ruídos, empurrado por ventos ideológicos, assustado por trovões de opiniões alheias e conduzido, quase sempre sem perceber, por forças que não domina. A filosofia maçônica transforma essa experiência comum em método de ensino para adultos, ensinando que o caos não é um erro da existência, mas a matéria-prima da consciência. Assim como a pedra bruta não é defeituosa, mas inacabada, o ser humano não é corrompido por natureza, apenas não lapidado.

Na tradição filosófica clássica, essa ideia aparece com clareza. Platão, ao descrever a alegoria da caverna, afirma que os homens confundem sombras com realidade porque nunca foram educados para ver a Luz. O ruído das viagens maçônicas equivale a essas sombras: imagens, crenças e discursos que se impõem como verdades, mas que apenas refletem a luz de forma distorcida. A iniciação não quebra as correntes à força; ela ensina o iniciado a reconhecer que está acorrentado. Esse reconhecimento é o primeiro gesto de liberdade.

A Maçonaria, ao associar a primeira viagem à purificação pelo ar, demonstra compreensão profunda da natureza do homem. O ar é o elemento do pensamento, da palavra e da comunicação. Viver em sociedade é respirar ideias, muitas vezes poluídas, sem sequer perceber. Purificar-se pelo ar é aprender a filtrar o que se inspira intelectualmente. Sócrates já advertia que o maior perigo não é ignorar respostas, mas jamais questionar as perguntas. O silêncio simbólico que se exige do iniciado não é ausência de voz, mas suspensão do ruído mental, condição indispensável para que a razão possa operar como régua e compasso da vida interior.

Nesse ponto, a filosofia maçônica encontra afinidade com o estoicismo. Epiteto ensinava que não são os fatos que perturbam os homens, mas os juízos que fazem sobre eles. O caos, portanto, não está apenas fora, mas sobretudo dentro. A tempestade ritual ensina que o inimigo não é externo, mas interno. O homem que não governa suas paixões é como um navio sem leme: mesmo em águas calmas, acaba à deriva. O autocontrole, tão enfatizado, surge como a arte de pilotar a própria embarcação em meio ao mar da existência.

A citação de Buda, ao afirmar que é melhor morrer combatendo o inimigo do que viver escravo dos pequenos prazeres, reforça essa mesma verdade sob outra linguagem. Buda não se refere a batalhas físicas, mas à guerra silenciosa travada no interior de cada ser humano. A Maçonaria traduz essa luta em símbolos: o domínio do eu inferior, a vigilância sobre os impulsos e a transformação da energia instintiva em força ética. É como canalizar um rio caudaloso: sem margens, ele destrói; com direção, fertiliza.

A ciência contemporânea, especialmente a física moderna, oferece metáforas que se assemelham surpreendentemente com esse simbolismo. A ideia de que o observador influencia o fenômeno observado sugere que a consciência não é espectadora passiva da realidade, mas agente participante. Do mesmo modo, a Maçonaria ensina que o mundo percebido reflete o estado interior do observador. Quem vive em caos interior percebe caos por toda parte; quem organiza a si mesmo começa a reconhecer ordem mesmo em meio à aparente desordem. A iniciação, assim, não muda o mundo externo de imediato, mas muda o olhar que o interpreta.

A filosofia clássica oferece ainda um fundamento ético indispensável a essa travessia. Aristóteles afirmava que a virtude é o hábito de escolher o justo meio. O autocontrole maçônico não é repressão, mas equilíbrio. Não se trata de negar os sentidos, mas de educá-los; não de eliminar desejos, mas de hierarquizá-los. O iniciado aprende que liberdade não é fazer tudo o que se quer, mas querer aquilo que é conforme à razão e à ética. Essa ideia será retomada séculos depois por Immanuel Kant, ao afirmar que a liberdade consiste em obedecer à lei que a própria razão reconhece como justa.

Como sugestão prática e ilustrativa, o ensaio inspira o leitor a transformar o ritual em vida cotidiana. Praticar momentos de silêncio consciente, questionar opiniões prontas antes de adotá-las, observar reações emocionais antes de agir e buscar coerência entre pensamento, palavra e ação são formas concretas de prolongar as viagens ao longo da existência. Cada dificuldade cotidiana torna-se, assim, uma nova tempestade simbólica; cada escolha ética, um passo na edificação do Templo Interior.

Ao final, a mensagem central permanece clara: a Luz não é concedida por autoridade externa alguma, seja religiosa, política ou social. Ela é conquistada pelo homem que ousa atravessar seu próprio caos, guiado pela razão, pela ética e pela consciência. A filosofia maçônica, dialogando com a sabedoria antiga e com a ciência moderna, recorda que governar a si mesmo é a mais elevada forma de poder e a única capaz de gerar liberdade.

Bibliografia Comentada

1.     ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2018. Obra fundamental da filosofia clássica que fundamenta a noção de virtude como hábito racional e equilíbrio, oferecendo sólido apoio à ideia maçônica de autocontrole como caminho ético;

2.     EPICTETO. Manual. São Paulo: Edipro, 2017. Texto central do estoicismo prático, no qual o domínio de si é apresentado como condição da liberdade, dialogando diretamente com o simbolismo iniciático do governo interior;

3.     KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. São Paulo: Martins Fontes, 2019. Referência essencial para a compreensão da liberdade como autonomia moral, conceito convergente com a ética maçônica;

4.     PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2016. A alegoria da caverna fornece metáfora clássica do processo iniciático de passagem da ignorância à luz do conhecimento;

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