As viagens maçônicas revelam-se como uma síntese simbólica da
própria condição humana. O homem é lançado ao mundo como alguém que atravessa
uma tempestade: cercado por ruídos, empurrado por ventos ideológicos, assustado
por trovões de opiniões alheias e conduzido, quase sempre sem perceber, por
forças que não domina. A filosofia maçônica transforma essa experiência comum
em método de ensino para adultos, ensinando que o caos não é um erro da
existência, mas a matéria-prima da consciência. Assim como a pedra
bruta não é defeituosa, mas inacabada, o ser humano não é corrompido por
natureza, apenas não lapidado.
Na tradição filosófica clássica, essa ideia aparece com clareza.
Platão, ao descrever a alegoria da caverna, afirma que os homens confundem
sombras com realidade porque nunca foram educados para ver a Luz. O ruído das
viagens maçônicas equivale a essas sombras: imagens, crenças e discursos que se
impõem como verdades, mas que apenas refletem a luz de forma distorcida. A
iniciação não quebra as correntes à força; ela ensina o iniciado a reconhecer que está acorrentado. Esse
reconhecimento é o primeiro gesto de liberdade.
A Maçonaria, ao associar a primeira viagem à purificação pelo
ar, demonstra compreensão profunda da natureza do homem. O ar é o elemento do
pensamento, da palavra e da comunicação. Viver em sociedade é respirar ideias,
muitas vezes poluídas, sem sequer perceber. Purificar-se pelo ar é aprender a
filtrar o que se inspira intelectualmente. Sócrates já advertia que o maior
perigo não é ignorar respostas, mas jamais questionar as perguntas. O silêncio simbólico que se exige do iniciado não é
ausência de voz, mas suspensão do ruído mental, condição indispensável para que
a razão possa operar como régua e compasso da vida interior.
Nesse ponto, a filosofia maçônica encontra afinidade com o
estoicismo. Epiteto ensinava que não são os fatos que perturbam os homens, mas
os juízos que fazem sobre eles. O caos, portanto, não está apenas fora, mas
sobretudo dentro. A tempestade ritual ensina que o inimigo não é externo, mas
interno. O homem que não governa suas paixões é como um navio sem leme:
mesmo em águas calmas, acaba à deriva. O autocontrole, tão enfatizado,
surge como a arte de pilotar a própria embarcação em meio ao mar da existência.
A citação de Buda, ao afirmar que é melhor morrer combatendo o
inimigo do que viver escravo dos pequenos prazeres, reforça essa mesma verdade
sob outra linguagem. Buda não se refere a batalhas físicas, mas à guerra
silenciosa travada no interior de cada ser humano. A Maçonaria traduz essa
luta em símbolos: o domínio do eu inferior, a vigilância sobre os impulsos e a
transformação da energia instintiva em força ética. É como canalizar um rio
caudaloso: sem margens, ele destrói; com direção, fertiliza.
A ciência contemporânea, especialmente a física moderna, oferece
metáforas que se assemelham surpreendentemente com esse simbolismo. A ideia de
que o observador influencia o fenômeno observado sugere que a consciência não é
espectadora passiva da realidade, mas agente participante. Do mesmo modo, a
Maçonaria ensina que o mundo percebido reflete o estado interior do observador.
Quem vive em caos interior percebe caos por toda parte; quem organiza a si
mesmo começa a reconhecer ordem mesmo em meio à aparente desordem. A
iniciação, assim, não muda o mundo externo de imediato, mas muda o olhar que o
interpreta.
A filosofia clássica oferece ainda um fundamento ético
indispensável a essa travessia. Aristóteles afirmava que a virtude é o hábito
de escolher o justo meio. O autocontrole maçônico não é repressão, mas
equilíbrio. Não se trata de negar os sentidos, mas de educá-los; não de
eliminar desejos, mas de hierarquizá-los. O iniciado aprende que liberdade não
é fazer tudo o que se quer, mas querer aquilo que é conforme à razão e à ética.
Essa ideia será retomada séculos depois por Immanuel Kant, ao afirmar que a liberdade
consiste em obedecer à lei que a própria razão reconhece como justa.
Como sugestão prática e ilustrativa, o ensaio inspira o leitor a
transformar o ritual em vida cotidiana. Praticar momentos de silêncio
consciente, questionar opiniões prontas antes de adotá-las, observar reações
emocionais antes de agir e buscar coerência entre pensamento, palavra e ação
são formas concretas de prolongar as viagens ao longo da existência. Cada
dificuldade cotidiana torna-se, assim, uma nova tempestade simbólica; cada
escolha ética, um passo na edificação do Templo Interior.
Ao final, a mensagem central permanece clara: a Luz não é
concedida por autoridade externa alguma, seja religiosa, política ou social.
Ela é conquistada pelo homem que ousa atravessar seu próprio caos, guiado pela
razão, pela ética e pela consciência. A filosofia maçônica, dialogando com a
sabedoria antiga e com a ciência moderna, recorda que governar a si mesmo é a
mais elevada forma de poder e a única capaz de gerar liberdade.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin
Claret, 2018. Obra fundamental da filosofia clássica que fundamenta a noção de
virtude como hábito racional e equilíbrio, oferecendo sólido apoio à ideia
maçônica de autocontrole como caminho ético;
2.
EPICTETO. Manual. São Paulo: Edipro, 2017. Texto
central do estoicismo prático, no qual o domínio de si é apresentado como
condição da liberdade, dialogando diretamente com o simbolismo iniciático do
governo interior;
3.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos
Costumes. São Paulo: Martins Fontes, 2019. Referência essencial para a
compreensão da liberdade como autonomia moral, conceito convergente com a ética
maçônica;
4.
PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2016. A alegoria da caverna fornece metáfora clássica do processo
iniciático de passagem da ignorância à luz do conhecimento;

Nenhum comentário:
Postar um comentário