A filosofia maçônica compreende o ser humano como obra
inacabada, comparável a uma pedra retirada da pedreira social: sólida em
essência, porém irregular em forma. Essa metáfora, central no presente ensaio,
aproxima-se de uma intuição antiga da filosofia clássica segundo a qual o homem
não nasce virtuoso nem sábio, mas capaz de tornar-se ambos por meio do
exercício consciente da razão e do caráter. Assim como o escultor não cria a
estátua, mas a revela ao retirar o excesso de mármore, o maçom não inventa um
novo homem: ele remove os condicionamentos que obscurecem aquilo que já existe
em potência.
Essa ideia encontra apoio direto no pensamento de Aristóteles,
quando afirma que a virtude é um hábito adquirido pela prática deliberada. Não
se trata de inspiração súbita nem de concessão divina, mas de trabalho
constante sobre si mesmo. A Maçonaria traduz essa noção ética em linguagem
simbólica ao ensinar que cada golpe do malho deve ser precedido de
discernimento, pois força sem medida quebra a pedra, enquanto suavidade
excessiva não a transforma. O equilíbrio entre vontade e razão torna-se, assim,
a arte suprema do aperfeiçoamento humano.
A iniciação maçônica, longe de ser mero rito de passagem social,
representa um choque de um método de ensino destinado a romper a ilusão de
autonomia do homem comum. A cegueira simbólica inicial recorda que a maioria caminha
pela vida guiada por crenças herdadas, costumes não examinados e valores
aceitos por conveniência. Esse estado é notavelmente semelhante ao descrito por
Platão em sua alegoria da caverna, na qual os homens confundem sombras com
realidade por jamais terem voltado o olhar para a fonte da Luz. A Maçonaria não
promete libertar o iniciado; apenas o conduz até o ponto em que ele pode, se
quiser, libertar-se a si mesmo.
A morte simbólica e o testamento iniciático aprofundam essa
ruptura. Ao declarar-se herdeiro de si mesmo, o iniciado assume aquilo que
Sócrates considerava o núcleo da vida ética: a responsabilidade pessoal. Uma
existência não examinada, advertia o filósofo, não merece ser vivida. A
Maçonaria retoma essa máxima ao ensinar que ninguém pode viver, pensar ou
responder pelo outro. Cada consciência é um território soberano, e a liberdade
só se torna real quando acompanhada do peso da responsabilidade.
O conceito de Grande Arquiteto do Universo, frequentemente mal
interpretado como dogma religioso, aparece no ensaio como princípio racional de
ordem e inteligibilidade. Tal compreensão aproxima-se mais da reverência
filosófica de Immanuel Kant diante da lei moral e do céu estrelado do que de
qualquer teologia punitiva. O maçom não negocia recompensas nem teme castigos
eternos; ele reconhece que viver conscientemente já é, em si, um privilégio e
uma tarefa. A criação não exige submissão cega, mas colaboração lúcida.
As ferramentas simbólicas da Maçonaria funcionam como metáforas
pedagógicas acessíveis à vida cotidiana. O esquadro lembra que toda ação deve
buscar retidão; o compasso ensina limites e equilíbrio; o nível recorda a
igualdade essencial entre os homens; o prumo aponta para a coerência interior.
Aplicadas de modo prático, essas imagens sugerem exercícios simples e
construtivos: examinar diariamente as próprias motivações, conter reações
impulsivas, estudar com regularidade e cultivar momentos de silêncio reflexivo.
Pequenos hábitos, repetidos com constância, produzem transformações profundas,
assim como golpes sucessivos, embora discretos, acabam por revelar a forma
oculta da pedra.
Num mundo marcado pela ansiedade e pela fuga constante, o ensaio
propõe uma inversão de direção: em vez de mudar incessantemente de cenário,
profissão ou relacionamento, o indivíduo é convidado a voltar-se para dentro. A
Maçonaria ensina que a viagem não é geográfica, mas interior. Ao lapidar a
própria consciência, o homem torna-se menos vulnerável às ilusões externas e
mais apto a contribuir para a harmonia social, não por discursos grandiosos,
mas pelo exemplo silencioso de equilíbrio, ética e lucidez.
Desse modo, a filosofia maçônica conversa com a tradição
clássica ao reafirmar que o ser humano é, simultaneamente, matéria-prima e
artífice de si mesmo. A pedra polida não é um troféu exibido ao mundo, mas um
estado interior de clareza, no qual amor, vontade e intelecto encontram justa
medida. Essa obra nunca se conclui, mas cada avanço, por menor que pareça, já é
participação consciente na grande arquitetura da humanidade.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin
Claret, 2001. Obra fundamental para compreender a virtude como hábito adquirido
pela prática racional, oferecendo base conceitual ao simbolismo maçônico do
trabalho contínuo sobre a pedra bruta;
2.
EPICTETO. Manual. São Paulo: Edipro, 2012.
Síntese do pensamento estoico sobre liberdade interior e domínio de si, em profunda
consonância com a ética maçônica do autogoverno;
3.
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. Contribui para a compreensão psicológica dos
símbolos iniciáticos e de seu papel na transformação da consciência humana;
4.
KANT, Immanuel. Crítica da razão prática. São
Paulo: Martins Fontes, 2003. Texto essencial para a compreensão da autonomia
moral e da responsabilidade ética, princípios centrais da liberdade defendida
pela Maçonaria;
5.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes,
2014. Especialmente a alegoria da caverna, que ilumina o tema da cegueira
simbólica e da libertação da consciência por meio do conhecimento;

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