sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A Dúvida como Caminho da Luz Maçônica

 Charles Evaldo Boller

A Maçonaria apresenta-se como uma escola de liberdade interior fundada não na certeza, mas na dúvida consciente. Longe de ser fragilidade do espírito, a dúvida constitui o método por excelência da investigação maçônica, pois liberta o homem do dogmatismo e o conduz à ampliação progressiva da consciência. Tal perspectiva encontra resposta imediata na filosofia clássica, especialmente em Sócrates, cuja máxima, saber que nada se sabe, não representa ignorância, mas lucidez diante da complexidade do real. O maçom, ao adentrar o templo simbólico, é convidado a reconhecer os limites da razão ordinária e a iniciar uma travessia que vai do visível ao invisível, do concreto ao metafísico, do ego à consciência universal.

Esta reflexão deixa claro que existem conhecimentos que escapam à experiência sensorial direta. Esses saberes não se submetem à lógica imediata nem à linguagem comum, exigindo símbolos, ritos e metáforas como instrumentos de aproximação. Platão, ao narrar a alegoria da caverna, descreveu com precisão esse movimento iniciático: os homens acorrentados às sombras representam aqueles presos às aparências sensíveis, enquanto o difícil caminho rumo à luz simboliza o processo de libertação intelectual e espiritual. Do mesmo modo, a Maçonaria utiliza lendas e rituais não para impor verdades, mas para provocar deslocamentos internos, despertando no iniciado a capacidade de ver além das formas.

Nesse percurso, o maior obstáculo não é a ignorância, mas o homem ego, figura simbólica daquele que torna absolutas as suas próprias certezas e se fecha ao diálogo. Aristóteles já advertia que o conhecimento exige disposição ética, pois o intelecto deformado pelo orgulho perde sua capacidade de apreender o verdadeiro. A filosofia maçônica reconhece esse risco e, por isso, valoriza o respeito ao pensamento do outro como argamassa essencial da construção fraterna. Cada ideia, mesmo embrionária, é como uma pedra ainda bruta: necessita do tempo, do trabalho coletivo e do confronto respeitoso para adquirir forma estável.

A existência de diferentes escolas maçônicas interpretativas, histórica, antropológica, mística e esotérica, não indica fragmentação, mas riqueza metodológica. Essas escolas podem ser comparadas às causas aristotélicas: cada uma explica o fenômeno iniciático sob um ângulo distinto, sem esgotá-lo. A escola histórica examina a matéria do edifício; a antropológica observa sua função humana; a mística contempla sua finalidade espiritual; e a esotérica investiga sua forma interior. Negar qualquer uma dessas perspectivas empobrece o todo. Kant, ao delimitar os alcances da razão pura, mostrou que o conhecimento humano progride quando reconhece seus próprios limites, abrindo espaço para a metafísica prática e para a reflexão ética, ideia profundamente consonante com o método maçônico.

Outro aspecto central é a natureza coletiva do conhecimento. Na Maçonaria não há um professor no sentido tradicional, porque a Verdade iniciática não se transmite por imposição, mas por ressonância. O saber emerge do grupo como uma chama que se intensifica ao encontrar outras chamas. Essa dinâmica pode ser comparada ao diálogo platônico, no qual a verdade não é entregue pronta, mas nasce do confronto de ideias. Como sugestão construtiva, as lojas podem incentivar mais momentos de reflexão compartilhada, nos quais o silêncio, a escuta e a livre exposição de pensamentos sejam valorizadas tanto quanto a erudição formal.

O diálogo com a ciência contemporânea, especialmente com a física moderna, reforça essa visão ampliada da realidade. Assim como a física quântica demonstrou que o observador participa do fenômeno observado, a Maçonaria ensina que o conhecimento simbólico depende do estado interior de quem o contempla. O Grande Arquiteto do Universo, conceito central da filosofia maçônica, não se define como dogma, mas como princípio ordenador intuído na harmonia do cosmos, ideia que encontra respaldo em pensadores como Spinoza, para quem Deus e natureza expressam uma mesma substância infinita.

Por fim, o ensaio conduz à compreensão de que a iniciação não tem ponto final. A Luz não é um destino fixo, mas um horizonte que se afasta na medida em que caminhamos. O maçom iluminado não é aquele que possui respostas definitivas, mas o que permanece inquieto, fiel à dúvida e aberto à transformação. Como afirmou Heráclito, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, pois tudo flui; do mesmo modo, o pensamento vivo deve aceitar o movimento contínuo como condição de sua própria vitalidade.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, 2002. Texto essencial para entender a investigação das causas primeiras e notingir o diálogo entre razão, finalidade e ordem cósmica, elementos centrais do simbolismo maçônico;

2.      CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo: Cultrix, 1983. Estabelece pontes fecundas entre ciência moderna e pensamento místico, reforçando o diálogo entre Maçonaria, filosofia e física contemporânea;

3.      ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Contribui para a compreensão do rito e do espaço simbólico como ruptura com o cotidiano e acesso ao sagrado;

4.      KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Fundamenta a noção de limites do conhecimento humano, justificando o uso do símbolo e da Metafísica prática na Maçonaria;

5.      PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Obra fundamental para a compreensão do processo iniciático por meio da alegoria da caverna, que ilumina simbolicamente a passagem do mundo sensível ao inteligível;

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