segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Liberdade Interior e Edificação do Templo do Ser

 Charles Evaldo Boller

A tradição maçônica ensina que todo homem nasce livre, mas nem todo homem vive em liberdade. Essa distinção, aparentemente simples, encerra uma das mais profundas reflexões da filosofia iniciática: a liberdade não se esgota na ausência de grilhões externos, antes se realiza no domínio consciente de si mesmo. O Ritual do Aprendiz da Grande Loja do Paraná adverte que aquele que abdica voluntariamente de sua liberdade não pode assumir compromissos sérios, pois quem não governa a própria individualidade não sustenta juramentos, nem edifica obra duradoura. Tal ensinamento repete a antiga sabedoria segundo a qual o maior cativeiro é invisível, feito de paixões, medos e preconceitos que se alojam na consciência como ferrugem silenciosa no ferro do espírito.

A filosofia clássica oferece sólido apoio a essa compreensão. Platão, ao narrar o mito da caverna, descreve homens acorrentados não por forças externas, mas pela ignorância que os faz confundir sombras com realidade. Libertar-se, nesse contexto, não é romper cadeias físicas, mas voltar o olhar para a luz do conhecimento. De modo semelhante, Aristóteles compreendia a liberdade como a capacidade de agir segundo a razão, orientando paixões para um justo meio. A Maçonaria, ao propor o trabalho simbólico sobre a pedra bruta, traduz essa ética em linguagem ritualística: cada golpe do cinzel é um ato de razão que disciplina impulsos, não para suprimi-los, mas para lhes dar forma construtiva.

O pensamento moderno aprofunda essa perspectiva ao situar a liberdade no campo da responsabilidade moral. Immanuel Kant afirmou que o homem só é livre quando obedece à lei moral que a própria razão reconhece como válida. Essa ideia encontra correspondência direta na ética maçônica, que não impõe dogmas, mas convoca o iniciado a escolher conscientemente seus princípios. Ser livre, portanto, não é fazer tudo o que se deseja, mas desejar aquilo que pode ser assumido com dignidade e coerência. A liberdade torna-se, assim, uma bússola interna: não elimina as tempestades da existência, mas permite atravessá-las com rumo e sentido.

No campo da psicologia humanista, Erich Fromm contribui ao afirmar que o objetivo maior do ser humano é causar o próprio nascimento. Essa imagem se comunica profundamente com o simbolismo iniciático, no qual o Aprendiz é convidado a um renascimento moral e intelectual. Nascer para si mesmo exige coragem para abandonar confortos ilusórios e enfrentar o vazio que precede a construção do sentido. Quando o homem evita esse trabalho, busca refúgio em sistemas, instituições ou grupos que lhe prometem pertencimento ao preço da autonomia. Tal troca, porém, gera alienação: ao delegar suas escolhas, o indivíduo abdica da própria liberdade e passa a viver por reflexo, não por consciência.

A Maçonaria oferece um caminho singular para superar essa alienação ao cultivar um espaço onde a singularidade é respeitada e a fraternidade não se confunde com conformidade. O amor fraterno, exaltado como virtude suprema, não é sentimentalismo, mas atitude ética que reconhece no outro um ser igualmente livre. Amar, nesse sentido, não é possuir, moldar ou absorver, mas criar espaço para que o outro seja. Quando o amor degenera em controle, transforma-se em nova forma de cativeiro; quando se fundamenta na liberdade, torna-se força de união sem anulação da diferença. Tal concepção aproxima-se da ideia aristotélica de amizade virtuosa e da noção kantiana de respeito à dignidade do outro como fim em si mesmo.

Metáforas ajudam a iluminar esse processo. O homem que não se conhece é como um artesão que trabalha às cegas: possui ferramentas, mas ignora a forma que deseja construir. O iniciado, ao contrário, aprende a olhar a própria matéria antes de golpeá-la. Cada vício reconhecido é uma aresta visível; cada virtude cultivada, uma superfície polida. Do mesmo modo, a liberdade pode ser comparada ao fogo: aquece e ilumina quando controlada, mas consome e destrói quando abandonada ao acaso. O trabalho iniciático consiste em aprender a manter essa chama viva sem permitir que se transforme em incêndio.

Como sugestão construtiva, o ensaio convida o maçom a exercitar o silêncio reflexivo, observando suas reações antes de agir, e a cultivar o estudo contínuo como forma de ampliar horizontes, não de acumular vaidade intelectual. O diálogo fraterno em Loja deve ser vivido como laboratório ético, onde se aprende a discordar sem hostilidade e a concordar sem submissão. Fora do Templo, o iniciado é chamado a aplicar esses princípios na vida profana, tornando-se exemplo silencioso de equilíbrio entre liberdade e responsabilidade.

Em síntese, a liberdade interior é o alicerce sobre o qual se ergue o Templo do Ser. Sem ela, a iniciação perde sentido; com ela, cada passo da caminhada torna-se ato consciente de construção. A Maçonaria, ao integrar filosofia, ética e simbolismo, recorda ao homem que ser livre é governar-se, amar sem possuir e assumir, com lucidez, a tarefa permanente de tornar-se aquilo que se é em essência.

Bibliografia Comentada

1.     ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: abril Cultural, 1991. - Fundamenta a liberdade como ação racional orientada à virtude, base ética do trabalho simbólico sobre a pedra bruta;

2.     FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. - Analisa a tendência humana à fuga da liberdade, iluminando o sentido do renascimento interior proposto pela iniciação maçônica;

3.     KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos costumes. São Paulo: Martins Fontes, 2003. - Apresenta a autonomia moral como essência da liberdade, em consonância com o compromisso consciente exigido ao iniciado;

4.     PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006. - A alegoria da caverna oferece uma poderosa metáfora da libertação da ignorância, afinada com o despertar iniciático da consciência;

Nenhum comentário: