A tradição maçônica ensina que todo homem nasce livre, mas nem
todo homem vive em liberdade. Essa distinção, aparentemente simples, encerra
uma das mais profundas reflexões da filosofia iniciática: a liberdade não se
esgota na ausência de grilhões externos, antes se realiza no domínio consciente
de si mesmo. O Ritual do Aprendiz da Grande Loja do Paraná adverte que aquele que
abdica voluntariamente de sua liberdade não pode assumir compromissos sérios,
pois quem não governa a própria individualidade não sustenta juramentos, nem
edifica obra duradoura. Tal ensinamento repete a antiga sabedoria segundo a
qual o maior cativeiro é invisível, feito de paixões, medos e preconceitos que
se alojam na consciência como ferrugem silenciosa no ferro do espírito.
A filosofia clássica oferece sólido apoio a essa compreensão.
Platão, ao narrar o mito da caverna, descreve homens acorrentados não por
forças externas, mas pela ignorância que os faz confundir sombras com
realidade. Libertar-se, nesse contexto, não é romper cadeias físicas, mas
voltar o olhar para a luz do conhecimento. De modo semelhante, Aristóteles
compreendia a liberdade como a capacidade de agir segundo a razão, orientando
paixões para um justo meio. A Maçonaria, ao propor o trabalho simbólico sobre a
pedra bruta, traduz essa ética em linguagem ritualística: cada golpe do cinzel
é um ato de razão que disciplina impulsos, não para suprimi-los, mas para lhes
dar forma construtiva.
O pensamento moderno aprofunda essa perspectiva ao situar a
liberdade no campo da responsabilidade moral. Immanuel Kant afirmou que o homem
só é livre quando obedece à lei moral que a própria razão reconhece como
válida. Essa ideia encontra correspondência direta na ética maçônica, que não
impõe dogmas, mas convoca o iniciado a escolher conscientemente seus
princípios. Ser livre, portanto, não é fazer tudo o que se deseja, mas desejar
aquilo que pode ser assumido com dignidade e coerência. A liberdade torna-se,
assim, uma bússola interna: não elimina as tempestades da existência, mas
permite atravessá-las com rumo e sentido.
No campo da psicologia humanista, Erich Fromm contribui ao
afirmar que o objetivo maior do ser humano é causar o próprio nascimento.
Essa imagem se comunica profundamente com o simbolismo iniciático, no qual o
Aprendiz é convidado a um renascimento moral e intelectual. Nascer para si
mesmo exige coragem para abandonar confortos ilusórios e enfrentar o vazio que
precede a construção do sentido. Quando o homem evita esse trabalho, busca
refúgio em sistemas, instituições ou grupos que lhe prometem pertencimento ao preço da autonomia. Tal troca, porém, gera
alienação: ao delegar suas escolhas, o indivíduo abdica da própria liberdade e
passa a viver por reflexo, não por consciência.
A Maçonaria oferece um caminho singular para superar essa
alienação ao cultivar um espaço onde a singularidade é respeitada e a
fraternidade não se confunde com conformidade. O amor fraterno, exaltado como
virtude suprema, não é sentimentalismo, mas atitude ética que reconhece no
outro um ser igualmente livre. Amar, nesse sentido, não é possuir, moldar ou
absorver, mas criar espaço para que o outro seja. Quando o amor degenera em
controle, transforma-se em nova forma de cativeiro; quando se fundamenta na
liberdade, torna-se força de união sem anulação da diferença. Tal concepção
aproxima-se da ideia aristotélica de amizade virtuosa e da noção kantiana de
respeito à dignidade do outro como fim em si mesmo.
Metáforas ajudam a iluminar esse processo. O homem que não se
conhece é como um artesão que trabalha às cegas: possui ferramentas, mas ignora
a forma que deseja construir. O iniciado, ao contrário, aprende a olhar a
própria matéria antes de golpeá-la. Cada vício reconhecido é uma aresta
visível; cada virtude cultivada, uma superfície polida. Do mesmo modo, a
liberdade pode ser comparada ao fogo: aquece e ilumina quando controlada, mas
consome e destrói quando abandonada ao acaso. O trabalho iniciático consiste em
aprender a manter essa chama viva sem permitir que se transforme em incêndio.
Como sugestão construtiva, o ensaio convida o maçom a exercitar
o silêncio reflexivo, observando suas reações antes de agir, e a cultivar o
estudo contínuo como forma de ampliar horizontes, não de acumular vaidade
intelectual. O diálogo fraterno em Loja deve ser vivido como laboratório ético,
onde se aprende a discordar sem hostilidade e a concordar sem submissão. Fora
do Templo, o iniciado é chamado a aplicar esses princípios na vida profana,
tornando-se exemplo silencioso de equilíbrio entre liberdade e responsabilidade.
Em síntese, a liberdade interior é o alicerce sobre o qual se
ergue o Templo do Ser. Sem ela, a iniciação perde sentido; com ela, cada passo
da caminhada torna-se ato consciente de construção. A Maçonaria, ao integrar
filosofia, ética e simbolismo, recorda ao homem que ser livre é governar-se,
amar sem possuir e assumir, com lucidez, a tarefa permanente de tornar-se
aquilo que se é em essência.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: abril
Cultural, 1991. - Fundamenta a liberdade como ação racional orientada à
virtude, base ética do trabalho simbólico sobre a pedra bruta;
2.
FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de
Janeiro: Zahar, 1980. - Analisa a tendência humana à fuga da liberdade,
iluminando o sentido do renascimento interior proposto pela iniciação maçônica;
3.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos
costumes. São Paulo: Martins Fontes, 2003. - Apresenta a autonomia moral como
essência da liberdade, em consonância com o compromisso consciente exigido ao
iniciado;
4.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes,
2006. - A alegoria da caverna oferece uma poderosa metáfora da libertação da
ignorância, afinada com o despertar iniciático da consciência;

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