A pergunta é legítima e recorrente. A resposta, porém, exige
precisão conceitual e afastamento de mitos. A Maçonaria não é uma sociedade de
segredos, mas uma sociedade iniciática que preserva métodos simbólicos e
experiências reservadas. O que costuma ser chamado de "segredo" é, em verdade, de outra
natureza.
A seguir, apresento a resposta de forma clara, estruturada e
fiel à tradição maçônica.
O que não São os "Segredos" da Maçonaria
Antes de definir o que são, é essencial esclarecer o que não
são:
·
Não são conspirações políticas ou econômicas;
·
Não são fórmulas mágicas, poderes ocultos ou
conhecimentos sobrenaturais;
·
Não são verdades proibidas à humanidade;
·
Não são informações que mudariam o mundo se
reveladas;
A Maçonaria não se sustenta sobre conteúdos secretos no sentido
profano, mas sobre processos iniciáticos vivenciais.
O Núcleo dos "Segredos" Maçônicos
O Segredo não é o Conteúdo, é a Vivência
Os princípios da Maçonaria são amplamente conhecidos:
·
Ética;
·
Liberdade;
·
Igualdade;
·
Fraternidade;
·
Aperfeiçoamento moral;
·
Busca da Verdade;
O que não pode ser transmitido plenamente por palavras é a
experiência simbólica da iniciação. Assim como ninguém aprende música apenas
lendo partituras, o método maçônico exige vivência ritualística, não mera
informação.
O Segredo Está no Simbolismo Operante
Os símbolos maçônicos:
·
Não escondem significados por proibição;
·
Revelam significados por maturidade;
Cada símbolo "fala"
de modo diferente conforme o grau de consciência do iniciado. O segredo não é
externo; é interno.
O Segredo é Iniciático, não Informacional
Rituais, sinais, toques e palavras:
·
Não são códigos para ocultar poder;
·
São instrumentos de instrução, uma técnica
própria do iniciado;
·
Servem para criar memória simbólica, disciplina
interior e identidade ritual;
Eles perdem completamente o sentido fora do contexto da Loja e
da caminhada iniciática.
O Maior Segredo: a Transformação do Indivíduo
O verdadeiro segredo da Maçonaria é este:
O homem que entra não é o mesmo que sai.
A Ordem propõe:
·
Lapidação do caráter;
·
Domínio das paixões;
·
Consciência ética;
·
Responsabilidade social;
·
Espiritualidade sem dogma;
Nada disso é imposto. Tudo é descoberto pelo próprio iniciado.
Por que, então, existe reserva?
A reserva maçônica tem quatro funções essenciais:
·
Proteção do método - Evita banalização do
rito;
·
Preservação do impacto simbólico - O
símbolo só transforma quando surpreende;
·
Respeito ao tempo interior - Cada grau
corresponde a diversos estágios de maturação;
·
Disciplina do silêncio - O silêncio educa
tanto quanto a palavra;
Silêncio, na Maçonaria, não é ocultação: é ferramenta dentro de
uma técnica de ensino própria do iniciado.
O Paradoxo Maçônico
Tudo o que é essencial na Maçonaria:
·
Está nos livros;
·
Está na filosofia;
·
Está na história;
·
Está disponível ao público;
E, ainda assim, nada disso substitui a iniciação.
Esse é o paradoxo:
O segredo está à vista de todos, mas só se revela a quem
caminha.
Síntese Objetiva
Os "segredos"
da Maçonaria são:
·
Experiências simbólicas, não informações
ocultas;
·
Processos internos de transformação;
·
Leitura viva de símbolos universais;
·
Um método de autoconstrução ética e espiritual;
Quem busca segredos externos se decepciona.
Quem busca transformação interior, encontra exatamente o que
procura.
Segredo Iniciático e Mistério
O Equívoco Moderno do "Segredo"
No senso comum, segredo é aquilo que:
·
Alguém sabe e oculta;
·
Confere vantagem;
·
Produz assimetria de poder;
Esse conceito não se aplica à Maçonaria. Nada do que a Ordem
propõe é desconhecido da humanidade: virtude, ética, justiça, fraternidade e
aperfeiçoamento são temas universais desde Platão, Aristóteles e os estoicos.
O que é, então, um Segredo Iniciático
O segredo iniciático não é informacional, mas existencial. Ele
não se transmite; acontece.
Assim como:
·
Ninguém aprende a nadar apenas lendo um manual;
·
Ninguém se torna ético apenas conhecendo normas;
·
Ninguém amadurece apenas acumulando conceitos;
O conhecimento iniciático só se consolida quando atravessa o
sujeito.
O Mistério Profano
O mistério profano é externo, curioso, espetacular. Ele:
·
Promete revelações rápidas;
·
Busca impacto emocional;
·
Confunde conhecimento com espetáculo;
O mistério iniciático, ao contrário:
·
Exige silêncio;
·
Requer tempo;
·
Opera por transformação lenta;
A Maçonaria não protege segredos do mundo; protege o iniciado
de si mesmo, evitando que receba aquilo para o qual ainda não está preparado.
O Silêncio como Ferramenta de uma Técnica de Ensino
O Silêncio como Disciplina Interior
O silêncio maçônico não é censura. É:
·
Contenção do ego;
·
Suspensão do julgamento imediato;
·
Preparação para a escuta profunda;
Na filosofia clássica, Pitágoras exigia anos de silêncio de
seus discípulos. Não por autoritarismo, mas porque o pensamento amadurece antes
da palavra.
O Silêncio como Antídoto à Sociedade do Ruído
Vivemos na era da verborragia:
·
Opiniões instantâneas;
·
Certezas rasas;
·
Fala sem reflexão;
O silêncio ritualístico cria uma ruptura com os sistemas de
ensino mundanos: ele força o indivíduo a confrontar a própria interioridade.
Muitos descobrem, nesse processo, o quanto falam para fugir de pensar.
O Silêncio como Gerador de Sentido
Somente quem silencia:
·
Percebe símbolos;
·
Reconhece padrões;
·
Escuta o outro sem projetar a si mesmo;
O silêncio não empobrece o discurso; qualifica-o.
O Simbolismo Maçônico e a Psicologia do Adulto
Por que Símbolos e não Dogmas?
O adulto aprende de modo distinto da criança:
·
Rejeita imposições;
·
Questiona autoridades;
·
Resiste a doutrinas fechadas;
O símbolo resolve esse problema instrucional porque:
·
Não impõe;
·
Não conclui;
·
Não fecha o sentido;
Ele provoca reflexão, não obediência.
O Símbolo como Espelho Psíquico
Um símbolo não "diz"
algo fixo. Ele revela aquilo que o sujeito é capaz de ver.
Por isso:
·
O mesmo símbolo acompanha vários graus;
·
O mesmo ritual nunca é igual;
·
A interpretação amadurece com o indivíduo;
O símbolo cresce porque o iniciado cresce.
Simbolismo e Responsabilidade
Ao não entregar respostas prontas, a Maçonaria transfere ao
iniciado a responsabilidade pelo próprio progresso. Isso é profundamente
adulto:
·
Não há salvação delegada;
·
Não há culpa herdada;
·
Não há verdade terceirizada.
Há apenas trabalho interior contínuo.
Maçonaria, Filosofia Clássica e Autoconhecimento
O Método Socrático no Ritual
Sócrates não ensinava conteúdos; fazia perguntas. A Maçonaria
faz o mesmo:
·
O ritual pergunta;
·
O símbolo interroga;
·
O silêncio confronta;
O iniciado não recebe verdades, é levado a buscá-las.
Ética como Prática, não Discurso
Para Aristóteles, a virtude não é teórica, mas habitual. A
Maçonaria:
·
Não discursa sobre moral abstrata;
·
Treina a ética no convívio;
·
Exige coerência entre palavra e ação;
Por isso o Templo é simbólico: ele representa o espaço onde o
homem se observa em relação ao outro.
Autoconhecimento como Finalidade
O maior ensinamento filosófico clássico, "conhece-te a ti mesmo", é o centro
da Maçonaria.
Todo o método converge para:
·
Reconhecer limites;
·
Dominar paixões;
·
Ordenar desejos;
·
Alinhar ação e consciência.
Nada disso é rápido. Nada disso é fácil. Nada disso pode ser
entregue pronto.
Não se Prometem Revelações
Ao aprofundar todas as propostas, chegamos a conclusão
inequívoca:
·
O segredo maçônico não está no rito, mas no
efeito do rito;
·
O silêncio não oculta, educa;
·
O símbolo não informa, transforma;
·
A filosofia não é ornamento, é fundamento;
A Maçonaria não promete revelações. Ela oferece um caminho de
trabalho interior. Quem deseja atalhos se frustra. Quem aceita o processo se
transforma.
O Segredo Iniciático e a Jornada Simbólica da Consciência Maçônica
O Segredo Maçônico como Jornada Interior
Há perguntas que atravessam os séculos porque não se contentam
com respostas rápidas. O chamado "segredo"
da Maçonaria pertence a essa categoria. Ele não se oferece como informação a
ser consumida, mas como experiência a ser vivida. Desperta curiosidade
justamente porque não se deixa reduzir a fórmulas, códigos ou revelações
espetaculares. O leitor atento logo percebe que a Maçonaria não promete
atalhos: propõe um caminho. E todo caminho começa com uma mudança de olhar.
Entre Saber e Tornar-se
Pensadores clássicos já advertiam que conhecer não é o mesmo
que transformar-se. Sócrates insistia no valor da pergunta; Aristóteles, no
hábito que molda o caráter. A tradição maçônica conversa com ambos ao afirmar,
de modo silencioso, que certas Verdades não se ensinam, amadurecem. O segredo
iniciático não se oculta por medo, mas por respeito ao tempo interior. Assim
como uma semente não germina antes da estação, o símbolo não revela seus
sentidos antes que a consciência esteja pronta.
O Simbolismo como Linguagem da Consciência
O símbolo é o primeiro degrau dessa jornada. Ele não informa;
provoca. Não explica; interroga. Por isso, acompanha o iniciado ao longo dos 33
graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, sempre o mesmo e sempre novo. O símbolo
funciona como um espelho: devolve ao observador aquilo que ele é capaz de ver.
Essa dinâmica desperta a curiosidade do leitor porque sugere que o mistério não
está no rito, mas no próprio sujeito que o atravessa.
Silêncio, Ciência e Espiritualidade
O silêncio, frequentemente incompreendido, surge como
ferramenta central desse processo. Ele educa a escuta, disciplina o ego e cria
espaço para a reflexão profunda. Curiosamente, essa lógica encontra eco na
ciência contemporânea, quando a física quântica revela que o observador
participa do fenômeno observado. Não há neutralidade absoluta, nem no
laboratório, nem no templo simbólico. A Maçonaria articula, assim, ciência,
filosofia e espiritualidade sem dogma, propondo uma ética da consciência
responsável.
Um Ensaio como Porta de Entrada
Esta síntese não pretende revelar segredos, mas despertar
perguntas. O ensaio que se segue convida o leitor a compreender a Maçonaria
como uma escola de humanidade, onde cada grau amplia a responsabilidade do
indivíduo consigo, com o outro e com o mundo. Ler adiante é aceitar o convite
para uma jornada em que o símbolo é a chave, o silêncio é o método e a
transformação interior é o verdadeiro sentido.
O Simbolismo como Porta de Entrada da Jornada
A Maçonaria, especialmente em sua expressão filosófica no Rito
Escocês Antigo e Aceito, apresenta-se como um sistema iniciático completo,
estruturado em 33 graus, cujo ponto de entrada não é o ritual em si, mas o
simbolismo que o permeia. O símbolo é a linguagem inaugural dessa jornada: ele
antecede a palavra, ultrapassa o dogma e conversa diretamente com a
consciência. Desde o primeiro passo até os graus mais elevados, o iniciado não
recebe Verdades prontas; ele é convidado a aprender a ler a si mesmo por meio
de imagens, gestos e silêncios. Nesse sentido, o chamado "segredo maçônico" não reside na
ocultação de informações, mas na vivência gradual de um método de transformação
interior que articula filosofia, ciência, religião, andragogia e, de modo mais
contemporâneo, analogias com a física quântica.
O Segredo Iniciático e a Diferença Entre Saber e Ser
Na tradição da sociedade, segredo costuma ser compreendido como
algo escondido para manter poder ou vantagem. Na tradição iniciática, ocorre o
oposto. O segredo não é aquilo que não pode ser dito, mas aquilo que não pode
ser plenamente compreendido sem experiência. Platão já advertia, no mito da
caverna, que o conhecimento não se impõe por discurso, mas exige uma conversão
do olhar. Do mesmo modo, a Maçonaria compreende que há Verdades que só se
revelam quando o sujeito se transforma.
Nos graus simbólicos e filosóficos do Rito Escocês Antigo e
Aceito, o iniciado percebe progressivamente que o "segredo" não está no conteúdo do ritual, mas no efeito que o
ritual produz sobre sua consciência. O que se preserva não é a informação, mas
a potência do método de ensino na descoberta pessoal. Como afirmava
Aristóteles, "o conhecimento que não
se traduz em hábito não é virtude". O segredo iniciático é, portanto,
um segredo de ser, não de saber.
Essa lógica tem relação com a ciência contemporânea quando se
compreende que o observador interfere no fenômeno observado. Na física
quântica, não há separação absoluta entre sujeito e objeto; na iniciação, não
há separação entre conhecimento e transformação. O iniciado não "assiste" ao símbolo: ele é afetado
por ele.
O Silêncio como Método de Educação da Consciência
O silêncio ocupa lugar central no método iniciático maçônico.
Longe de ser mera formalidade ritual, ele constitui uma disciplina do espírito.
Em uma sociedade marcada pela hipercomunicação e pela opinião imediata, o
silêncio torna-se um gesto contracultural e profundamente educativo. Pitágoras
exigia longos períodos de silêncio de seus discípulos porque compreendia que a
palavra prematura cristaliza o pensamento imaturo.
No contexto maçônico, o silêncio ensina antes de qualquer
discurso. Ele obriga o iniciado a confrontar suas próprias ideias, preconceitos
e impulsos. Nos graus iniciais, o silêncio é interno; nos graus filosóficos, pela
prática, ele se torna ainda mais profundo. O iniciado aprende que nem tudo
precisa ser dito, e que muitas vezes o trabalho ocorre na escuta atenta do
outro e de si mesmo.
Do ponto de vista andragógico, essa prática é extremamente
sofisticada. A educação do adulto exige autonomia, reflexão e responsabilidade.
O silêncio cria o espaço necessário para que o aprendiz adulto se torne sujeito
do próprio processo. Ele não recebe respostas; ele amadurece perguntas. Essa
lógica se estende por todos os 33 graus do rito, nos quais o silêncio vai sendo
transmutado em palavra responsável e ação ética.
O Simbolismo como Linguagem Universal da Transformação
O simbolismo maçônico não é decorativo nem alegórico; ele é
operativo. Cada símbolo funciona como um espelho que reflete o estágio de
consciência de quem o contempla. Por isso, o mesmo símbolo acompanha o iniciado
por vários graus, revelando significados cada vez mais profundos. O esquadro, o
compasso, o pavimento mosaico, as colunas e a luz não mudam; quem muda é o
iniciado.
Carl Jung afirmava que os símbolos são expressões do
inconsciente coletivo e instrumentos de individuação. A Maçonaria, séculos
antes da psicologia analítica, já utilizava esse princípio ao empregar símbolos
universais para provocar autoconhecimento. O símbolo
não impõe uma interpretação; ele convida à reflexão. É como um mapa
que não define o caminho, mas indica direções possíveis.
Nos graus filosóficos do Rito Escocês Antigo e Aceito, o
simbolismo se torna ainda mais refinado, dialogando com temas como justiça,
liberdade, responsabilidade, transcendência e sentido da existência. O iniciado
compreende que o símbolo não aponta para fora, mas para dentro. Ele não
descreve o mundo; ele revela o homem.
Filosofia Clássica, Religião e Ciência: Convergências no Método Maçônico
A Maçonaria não se opõe à religião nem à ciência; ela se comunica
com ambas sem se confundir com nenhuma. Sua espiritualidade é simbólica, não
dogmática. Sua racionalidade é filosófica, não reducionista. Essa postura
permite uma síntese rara entre fé, razão e experiência.
Sócrates ensinava que a sabedoria começa no reconhecimento da
própria ignorância. A iniciação maçônica retoma esse princípio ao conduzir o
iniciado por uma jornada de desconstrução de certezas. Santo Agostinho afirmava
que a Verdade habita no interior do homem; a Maçonaria traduz essa ideia em
símbolos e rituais que apontam para o templo interior. Já a ciência
contemporânea, especialmente a física quântica, reforça a noção de que a
realidade não é fixa nem absoluta, mas relacional e dinâmica.
Ao relacionar esses campos, a Maçonaria oferece ao adulto
moderno um espaço de integração. O iniciado aprende que ciência sem ética é
cega, religião sem reflexão é dogmática, e filosofia sem prática é estéril. Nos
graus superiores do rito, essa síntese se torna evidente: o trabalho não é mais
apenas sobre si mesmo, mas sobre a responsabilidade do indivíduo perante a
sociedade e a humanidade.
Andragogia Maçônica e o Progresso Pelos 33 Graus
O Rito Escocês Antigo e Aceito, ao estruturar-se em 33 graus,
respeita o ritmo da aprendizagem adulta. Cada grau representa não apenas um
novo conjunto simbólico, mas um nível de consciência. O progresso não é
automático nem garantido; ele depende do trabalho interior do iniciado.
A andragogia reconhece que o adulto aprende melhor quando vê
sentido prático no que estuda. A Maçonaria responde a isso ao relacionar seus
símbolos com a vida cotidiana: família, trabalho, cidadania, ética profissional
e responsabilidade social. O iniciado é constantemente convidado a aplicar o
que compreende simbolicamente em ações concretas.
Uma metáfora útil é a da escada: cada degrau é necessário, mas
nenhum é definitivo. Subir exige esforço, equilíbrio e humildade. Os graus
filosóficos não anulam os simbólicos; eles os aprofundam. O símbolo é sempre o
ponto de partida, e nunca deixa de ser o ponto de retorno.
Sugestões Construtivas para a Prática em Loja
Para que esse método se mantenha vivo, é fundamental que as
lojas cultivem espaços de reflexão genuína. Trabalhos que relacionem símbolos
com experiências pessoais, debates orientados pelo método socrático e momentos
de silêncio consciente podem aprofundar a vivência iniciática. A utilização
consciente da andragogia, respeitando a maturidade e a diversidade dos irmãos,
fortalece o sentido do rito.
Outra sugestão é estimular a leitura comparada entre textos
filosóficos, científicos e simbólicos, sempre evitando o dogmatismo. O símbolo
deve permanecer aberto, como uma janela, não fechado como uma resposta
definitiva. Assim, a Maçonaria cumpre sua vocação de ser uma escola de liberdade responsável.
O Segredo Revelado como Caminho
Ao final dessa reflexão, torna-se claro que o segredo da
Maçonaria não é algo que se guarda, mas algo que se vive. Ele se revela
na transformação silenciosa do indivíduo que percorre, grau a grau, a jornada
simbólica proposta pelo Rito Escocês Antigo e Aceito. O simbolismo é a porta de
entrada; o trabalho interior é o caminho; a consciência ampliada é o resultado
sempre provisório.
Como afirmava Heráclito, "ninguém entra duas vezes no mesmo rio". Do mesmo modo, ninguém
percorre a iniciação sem mudar. A Maçonaria não promete respostas finais, mas
oferece um método para aprender a perguntar melhor. E esse, talvez, seja seu
segredo mais profundo.
O que Permanece Após a Leitura
Ao concluir este ensaio, torna-se evidente que o chamado "segredo" da Maçonaria não se
encontra em fórmulas ocultas, palavras reservadas ou rituais isolados de seu
contexto. Ele reside no método iniciático que articula simbolismo, silêncio,
reflexão ética e transformação interior. O Rito Escocês Antigo e Aceito,
estruturado em seus 33 graus, revela-se como um método de ensino progressivo da
consciência, na qual cada etapa aprofunda a responsabilidade do indivíduo
consigo mesmo, com a sociedade e com a humanidade. O simbolismo, ponto de
entrada dessa jornada, mostrou-se não como ornamento, mas como linguagem viva,
capaz de comunicar-se com filosofia, ciência, religião e educação do adulto.
O Silêncio que Educa e o Símbolo que Transforma
Entre os eixos centrais do ensaio, destacam-se o silêncio e o
símbolo como instrumentos de ensino fundamentais. O silêncio, longe de ser
ausência, apresenta-se como espaço fértil onde o pensamento amadurece e a
escuta se qualifica. O símbolo, por sua vez, não encerra significados; ele os
inaugura. Ambos operam conjuntamente para deslocar o iniciado do mero acúmulo
de saber para o processo mais exigente do tornar-se. Essa lógica relaciona-se
tanto com a filosofia clássica quanto com a ciência contemporânea, especialmente
quando se reconhece que o observador participa da realidade que interpreta,
assim como o iniciado participa ativamente de sua própria transformação.
A Unidade Entre Razão, Espiritualidade e Ética
Outro ponto essencial reafirmado ao longo do ensaio é a capacidade
da Maçonaria de integrar campos que, no mundo moderno, frequentemente aparecem
dissociados. A razão filosófica, a espiritualidade simbólica e a ética prática
não competem entre si; complementam-se. As diversas iniciações maçônicas
propõem uma espiritualidade sem dogma, uma racionalidade sem reducionismo e uma
ética enraizada na ação cotidiana. Nesse sentido, a jornada pelos graus não é
uma escalada de poder, mas um aprofundamento de consciência e serviço.
Uma Mensagem Final ao Leitor
Heráclito afirmava que "o caráter do homem é o seu destino". A Maçonaria parece
repetir esse pensamento ao convidar cada iniciado a trabalhar, incessantemente,
na lapidação de si mesmo. Não há conclusão definitiva, apenas continuidade. O
segredo, afinal, revela-se como um caminho permanente: aquele em que o homem
aprende a pensar melhor, agir com mais justiça e viver com maior consciência.
Ao fechar estas páginas, permanece a mensagem essencial do ensaio: a iniciação não termina no rito; ela começa na vida.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin
Claret, 2001. Obra fundamental para compreender a ética como hábito e prática,
conceito central para a moral maçônica aplicada à vida cotidiana;
2.
CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo:
Cultrix, 2006. Obra que estabelece pontes entre física moderna, filosofia
oriental e espiritualidade, oferecendo analogias férteis para reflexões
maçônicas contemporâneas sobre consciência, observador e realidade;
3.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São
Paulo: Martins Fontes, 1992. Análise profunda da experiência do sagrado e do
rito como estruturadores da consciência humana, contribuindo para a compreensão
da Maçonaria como tradição iniciática não dogmática;
4.
HEISENBERG, Werner. Física e Filosofia. São
Paulo: Cultrix, 1995. Texto fundamental para compreender as implicações
filosóficas da física quântica, especialmente a relação entre observador e
fenômeno, dialogando simbolicamente com o processo iniciático maçônico;
5.
HERÁCLITO. Fragmentos. São Paulo: Martins
Fontes, 2002. Conjunto de reflexões essenciais para compreender a ideia de
transformação contínua, mudança e fluxo, conceitos diretamente relacionados à
jornada iniciática e ao aperfeiçoamento progressivo do maçom ao longo dos
graus;
6.
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. Obra indispensável para entender o símbolo
como linguagem do inconsciente e instrumento de individuação, oferecendo
suporte teórico moderno para a compreensão do simbolismo maçônico como
ferramenta de autoconhecimento;
7.
KNOWLES,
Malcolm. The Adult Learner. Houston: Gulf Publishing, 1984. Referência
central da andragogia, essencial para compreender o método educativo implícito
na Maçonaria, que respeita a autonomia, a experiência prévia e a
responsabilidade do aprendiz adulto;
8.
PLATÃO. A República. São Paulo: Edipro, 2014.
Texto clássico que apresenta o mito da caverna como metáfora do processo
iniciático, permitindo uma leitura profundamente convergente com a Maçonaria
enquanto caminho de saída da ignorância para a luz do conhecimento interior;
9.
Rito Escocês Antigo e Aceito. Rituais e
Instruções Gerais. Diversas edições. Conjunto de textos fundamentais para a
compreensão da estrutura simbólica e filosófica dos 33 graus, servindo como
base ritual e pedagógica para a jornada iniciática e para a leitura progressiva
do simbolismo maçônico;
10. SOCRATES
(em PLATÃO). Apologia de Sócrates. São Paulo: Martin Claret, 2008. Obra que
reafirma o valor da pergunta, da consciência ética e do autoconhecimento,
princípios centrais do método socrático amplamente refletido na pedagogia
simbólica da Maçonaria;
