domingo, 17 de setembro de 2023

A Nível

Espiritualidade estável.

Charles Evaldo Boller


No simbolismo maçônico, estar em nível e a prumo são condições do que está no lugar certo. Situação aprovada. Obreiro com obrigações da loja em dia: tesouraria, tronco de solidariedade, trabalhos filosóficos etc. Nível e prumo são símbolos que representam o trabalho do maçom, como construtor do Universo moral e material. Ambos relacionados com questões esotéricas e filosóficas, trabalhadas pela Maçonaria.

Nível é ferramenta com a qual o profissional de construção verifica se uma superfície está nivelada, já que para a edificação de um alicerce seguro é fundamental uma superfície no nível que representa a ideia que todos os maçons são iguais na Maçonaria no que diz respeito a seus pensamento e crenças.

Prumo é instrumento que permite aferir a verticalidade da parede sendo erigida: condição fundamental para assegurar estabilidade. Nível e prumo são ferramentas que simbolizam a igualdade que existe entre os irmãos e a sua retidão de caráter. O prumo simboliza a retidão do caráter do irmão. Jeová colocou uma regra de conduta ao povo de Israel, a qual deve ser seguida para que o povo escolhido se desenvolva reto como um muro a prumo.

É comum comparar-se o Universo material com a construção de um edifício, e este, simbolizado pelo templo maçônico, inspirado do templo de Jerusalém, é imitação do cosmo. O mapa celeste, conforme visto pelos antigos hierofantes caldeus e persas, é reproduzido no teto do templo maçônico no Rito Escocês Antigo e Aceito, onde a prática maçônica no interior do templo é o exercício da construção cósmica.

Nível e prumo são importantes ferramentas do labor construtivo que o maçom coloca em sua obra de autoconstrução. Com o nível se comprova a horizontalidade que ele adquire em seu trabalho de construção do seu edifício interno. O prumo mostra que o edifício está perfeito em sua verticalidade em busca de aperfeiçoamento espiritual.

Relacionam-se nível e prumo com os dois os sentidos que a Maçonaria dá ao edifício do caráter humano: horizontal, energia yin, vertical, energia yang.

O maçom cresce nos sentidos dos dois raios que formatam o Universo em sua expansão: extensão e profundidade, latitude e longitude, simplicidade e complexidade, tempo e espaço etc. O prumo, eixo vertical indica o sentido da ascensão em direção à sua elevação espiritual. O nível, eixo horizontal, indica o sentido da extensão em direção aos quadrantes da Terra nos assuntos relacionados a sua materialidade.

Na tradição maçônica o templo reflete o cosmo construído a prumo com o eixo do mundo, cujo centro é a estrela polar. Dela desce um eixo imaginário em torno qual o Universo gira. Como eixo do mundo é o instrumento pelo qual o Grande Arquiteto do Universo esquadreja e erige o Universo de horizonte a horizonte e de cima até em baixo.

Na estrutura fisiológica do ser humano utiliza-se a simbologia do nível e do prumo para representar o homem em sua posição horizontal, em equilíbrio com a natureza e na sua posição vertical em sua ascensão espiritual.

Estar à nível aponta a materialidade e estar a prumo representa a evolução espiritual necessária para a evolução conforme o projeto do Grande Arquiteto do Universo.


Bibliografia

1. BOUCHER, Jules, A Simbólica Maçônica, Segundo as Regras da Simbólica Esotérica e Tradicional, título original: La Symbolique Maçonnique, tradução: Frederico Ozanam Pessoa de Barros, ISBN 85-315-0625-5, primeira edição, Editora Pensamento Cultrix Limitada, 400 páginas, São Paulo, 1979;

2. CASTELLANI, José, Dicionário Etimológico Maçônico, M-N-O-P, Coleção Biblioteca do Maçom, ISBN 85-7252-152-6, terceira edição, Editora Maçônica a Trolha Limitada, 151 páginas, Londrina, 2002;

3. CASTELLANI, José, Dicionário Etimológico Maçônico, M-N-O-P, Coleção Biblioteca do Maçom, ISBN 85-7252-152-6, terceira edição, Editora Maçônica a Trolha Limitada, 151 páginas, Londrina, 2002;

4. FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de, Dicionário de Maçonaria, Seus Mistérios, seus Ritos, sua Filosofia, sua História, quarta edição, Editora Pensamento Cultrix Limitada, 550 páginas, São Paulo, 1989;

5. PUSCH, Jaime, ABC do Aprendiz, segunda edição, 146 páginas, Tubarão Santa Catarina, 1982;

6. QUEIROZ, Álvaro de, A Maçonaria Esotérica, Rito Escocês Antigo e Aceito, ISBN 978-85-370-1003-7, primeira edição, Madras Editora Limitada, 158 páginas, São Paulo, 2016;

A Utópica Ética Justa e Perfeita

Como viver uma utopia.

Charles Evaldo Boller


A filosofia maçônica considera a possibilidade de se praticar uma ética justa e perfeita, como um alvo a se atingir e não como possibilidade real. Tem a ver com um jargão comum, usado entre os maçons, que a cada sessão repete que os trabalhos foram justos e perfeitos, quando, em verdade, isso é impossível.

Se os preceitos filosóficos que norteiam as relações humanas contivessem pretensões de se obter o cumprimento de regras éticas, em condição de serem justas e perfeitas, não haveria necessidade de palácios de justiça ao redor do mundo. Todo ser humano compreenderia que a cada ação sua corresponde uma reação. Se a ação fosse baseada no amor, o retorno nas relações interpessoais, seria realizado na mesma moeda.

Mas o homem é extremamente competitivo, e cada um luta em manter o comportamento que lhe dê vantagens, daí os ânimos se acirrarem e a necessidade de se estabelecerem normas de conduta moral, que sustentem um código de ética, para que a convivência tenha um mínimo de respeito a limites preestabelecidos em leis; um recurso fraco inventado pelo homem para permitir uma convivência pacífica relativa. Portanto, considerar a ética como justa e perfeita é parte da visão idealizada da Maçonaria, com vistas a uma sociedade utópica, mas plausível. Sonham com condições ideais, assemelhadas às relações fraternas que vigoram dentro de seus templos.

A simples ideia justa e perfeita implica afirmar a existência de respostas ao comportamento humano, em termos absolutos, que estivessem desligadas das circunstancias envolvidas nas relações interpessoais, na geopolítica, nos contextos e nas culturas. A ética é complexa e envolve intrincado sistema de respostas para questionamentos contingentes e subjetivos.

A ética recebe impulsos de diversas fontes e fatores como, cultura, crença, religião, sociedades, e, principalmente, das necessidades e sonhos pessoais de posse, convivência e sobrevivência. Jean-Jacques Rousseau ilumina uma causa grave de conflitos: "o primeiro homem que inventou de cercar uma parcela de terra e dizer - isto é meu -, foi o autêntico fundador da sociedade civil. De quantos crimes, guerras, assassínios, desgraças e horrores teria livrado a humanidade se aquele, arrancando as cercas, tivesse gritado: - não, impostor!".

O que é ético numa cultura pode ser reprovado por outra. O estabelecimento de regras éticas, normalmente, é resultado de administração de conflitos, valores, ideologias ou princípios impostos por dilemas circunstanciais. Daí, não existe uma ética universalmente justa e perfeita, a não ser, o que intuíram grandes avatares da humanidade como, Cristo, Sócrates, Platão, Krishna, Moisés, Confúcio, Aristóteles e outros, que foram unânimes em recomendar a única lei dada aos cristãos: a lei do amor.

Ética é resultado de convulsões sociais intensas que envolvem filósofos, acadêmicos e elemento das sociedades em geral, que melhor contemplem a vida em comum das mais variadas influências culturais e comportamentais, ligados a situações particulares de cada grupo social, assim como é objeto de debates e estudos da comunidade maçônica mundial.

A Maçonaria, do alto de séculos de prática da dinâmica social, lançou a utopia de obter uma ética justa e perfeita, portanto, absoluta. Não que ela venha a obter isso em sua plenitude, mas, apenas, para fixar o rumo naquilo que o próprio homem estabelece, como sendo a vontade do Grande Arquiteto do Universo, em seu projeto da criatura humana inteligente.

É utopia, sim! Entretanto, o objetivo é tornar feliz a humanidade pelo amor, pelo respeito a diversidade do pensamento livre e à crença de cada um. A crença no poder do amor pleno constitui outra utopia, porque as variáveis são imensas e o comportamento humano dinâmico e emocional. Por isso, nas oficinas maçônicas, são promovidos de forma continuada, oportunidades de reflexão crítica, debates abertos e respeitosos, onde se colocam em prática as palavras de um dos principais nomes do Iluminismo na França, o irmão Voltaire: "não concordo com uma palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo", citada ao livro de Jean-jacques Rousseau, O Contrato Social. Então, cabe continuar a perseguição de atingir a utopia de uma ética justa e perfeita baseada no amor fraterno, de modo a desenvolver homens evoluídos, conforme o que se imagina ser o pensamento e a ação do Grande Arquiteto do Universo.

A utópica ética justa e perfeita é alvo inatingível, mas o maçom tem a felicidade de sonhar com algo inalcançável como a perfeição absoluta, onde faz parte sonhar e trabalhar na busca contínua de uma hipotética e utópica ética apoiada no amor fraterno, justo e perfeito. Tais sonhos inatingíveis são a expressão íntima de busca da liberdade em termos ótimos, utópicos. A discussão permanente da ética maçônica constitui um nobre objetivo para a humanidade onde os obreiros da paz continuam a trabalhar em suas oficinas como aquilo que foi intuído pelos grandes pensadores, do presente e do passado, que gravaram seus pensamentos, para hoje e amanhã permitir uma vida plena de realizações, vivendo na prática aquilo que o homem considera alinhado ao projeto do Grande Projetista do Universo.


Bibliografia

1. ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de Filosofia, Dizionario DI Filosofia, tradução: Alfredo Bosi, ISBN 978-85-336-2356-9, quinta edição, Livraria Martins Fontes Editora Limitada, 1210 páginas, São Paulo, 2007;

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Conatus

Avaliação da possibilidade do maçom frear o motor do desejo que o movimenta ao erro e submissão, sem matar o Conatus, sua iniciativa de persistir e evoluir independente.

Charles Evaldo Boller


Origem

Diversos filósofos aplicam o conceito Conatus na explicação da origem da violência que tira a liberdade do homem: aquela que o impede de andar com as forças de sua própria iniciativa, escravizando-o através de paixões e desejos.

Trata-se de um verbo latino que dá tratamento filosófico à compreensão e determinação necessárias para tornar-se livre, continuar a existência e aprimorar-se na linha de tempo reservada para a vida: a base da vivência maçônica.

Tem aspectos positivos e negativos que são interessantes de serem analisados, pois exercita uma dicotomia que auxilia no entendimento do ser.

Sem que muitos o percebam, é parte das grandes provocações que a Maçonaria faz a seus adeptos, já desde o primeiro psicodrama do simbolismo: a cerimônia da iniciação; ocasião em que o iniciando é instado se deseja persistir mesmo em presença da luta interna contra rejeição, desejo e paixão.


Baruch Espinoza

Para Baruch Espinoza o conceito Conatus é:

  • O desejo de viver, existir;
  • Esforço que se manifesta na consciência em direção da autoperseverança para continuar existindo;
  • A vida repleta de desejos dos quais depende o usufruto da vida;
  • Onde o homem é essencialmente composto de desejos;
  • A potência de agir e resistir;
  • A essência da humanidade que varia de acordo com a intensidade da autopreservação onde não ter desejos é suicidar-se: é morte!

Como viver sem submeter-se a desejos que escravizam à existência?

Como perseverar na vida com qualidade debaixo do princípio de autoconservação natural que pode levar à escravidão?

O conceito Conatus tem diversas significações em resultado do instinto e livre-arbítrio naturais contrapondo-se ao exercício consciente da liberdade.


Desejo

Desejo é potência, capacidade de realizar, força que leva à ação.

Tudo que resulta em ação é resultado de desejos.

É nisso que se baseiam os oportunistas para exaurir a força da maioria dos humanos: exploram os outros através de seus próprios desejos. Os abusadores deduziram que o homem está construído mais para desejar que para raciocinar.

Pensar é atividade cansativa, para alguns até dolorosa.

Poucos pensam!

A absoluta maioria da massa humana prefere receber o produto de outros pensadores e levar a vida apenas nutrindo seus apetites e desejos primários: são aqueles que estacionam na base da Pirâmide das Necessidades de Maslow, ao nível das necessidades fisiológicas, e dificilmente alcançam ao estágio da autorrealização.

O homem exibe em primeiro plano os resultados de seus desejos e não o resultado de sua capacidade racional.

Os desejos e paixões não deveriam ser a raiz de todo mal, perversidades e perturbações, mas, em resultado da preguiça, são!

Por indolência ou por perversidade, as paixões e desejos escravizam o homem. E o pior, é o próprio escravo que assim o deseja, preferindo a prisão no recôndito de suas paixões que ser livre com responsabilidade.

Daí ser o maçom instado em combater o bom combate para vencer suas paixões escravizantes e praticar as boas paixões para servir e trazer felicidade para si mesmo e aos conviventes.

Mas como matar o motor do desejo que movimenta o homem ao erro e submissão sem matar o Conatus, sua iniciativa de persistir em evoluir independente?

Usando deste elemento motor para desenvolver, pela racionalidade, apenas o lado bom e livre desta potência natural.

Na Maçonaria é oferecida a oportunidade de desenvolver a capacidade de iluminação, o desejo de andar com as próprias forças, sem auxílio ou tutela de outros, nutrindo os próprios desejos naturais sem submeter-se ao desejo de terceiros em virtude de preguiça para evoluir utilizando dos recursos de seu próprio discernimento.


Fraternidade

A convivência fraterna, e sem necessidade de escudos hipócritas, têm potencial para libertar o homem.

A fraternidade existe para proporcionar experiências alegres e agradáveis que levam ao desenvolvimento de forças de ataque e defesa para derrubar desejos que degradam.

A iluminação maçônica tem a pretensão, não a certeza, de propiciar o meio onde a potência para existir com qualidade seja aumentada. Tudo depende de como cada um reage diante da provocação da Maçonaria que, pela fraternidade, induz às experiências alegres de convivência, afastando os adeptos de situações dolorosas e tristes causadas pela tirania, opressão e prepotência de minorias sobre maiorias.

Os encontros efetuados em loja, com sua ritualística e atividades cognitivas cultas, levam a desfrutar da vida com alegria e utiliza a ação Conatus em seu sentido positivo, presta-se a induzir perseverança para continuar na autoconstrução. A loja é semelhante a uma família e ao mesmo tempo uma escola de conhecimentos. Os mestres têm a obrigação de promover atividades e eventos que alimentem o Conatus dos demais associados de tal forma a aumentar sua potência e desejo para a vida fraterna. Não se trata exclusivamente de festividades sociais, mas de reuniões alegres que promovam o bem, o culto, o erudito. Os banquetes maçônicos são culturais. De um lado apreendem-se conhecimentos e de outro, estes mesmos saberes são servidos e distribuídos aos conviventes. É um sistema de trocas que funciona por indução: impossível de representar em linguagem oral ou escrita porque afluem forças que são sentidas, mas ainda impossíveis de serem verbalizadas.

Desta forma são construídas personalidades fortes que agem na sociedade em todas as suas dimensões.

Desenvolvem-se líderes e não títeres.

Despertam potencialidades que levam ao desenvolvimento de gestores dos próprios destinos e transformadores da sociedade para desfrutar daquilo que a natureza oferece.

O objetivo é lúdico e ao mesmo tempo de árduo trabalho na autoconstrução.

O centro é o maçom.

É experiência espiritual.

A mudança, de forma agradável, é centrada no maçom, no adepto, e não nos homens da sociedade. A sociedade é afetada por consequências das ações dos maçons.

É o homem forjado nas oficinas da ordem maçônica que vai fazer a diferença na sociedade onde tem a potencialidade de conduzir seu destino e ajudar outros a desenvolverem-se de igual forma.


Teoria da Afetividade

O conceito Conatus é central dentro da teoria da afetividade.

O operador dinâmico é o maçom e sua afetividade enquanto ser concebido como tendo uma natureza comum.

A amizade é estratégica no procedimento de elevar a capacidade de perseverança, de Conatus, para o desenvolvimento ao bem.

O sucesso da atividade maçonicamente orientada depende e é inseparável dos laços que se formam entre os irmãos. O próprio tratamento como irmandade já implica na exigência de camaradagem na atividade lúdica e cultural.

A ação Conatus é um esforço que não possui objeto, mas é estratégica: é uma potência de agir dentro da fraternidade, seguindo a teoria da afetividade, com fortes possibilidades de conservação do desejo de fazer o bem para a humanidade. Assim, o maçom produz os frutos resultantes da própria produtividade dos dons afetivos que a natureza disponibilizou dentro dele.

Os aspectos positivos do conceito Conatus são as decisões internas que, necessariamente, passam pela vontade de viver em sociedade com outros seres vivos; "o homem é, por natureza, um ser social" (Karl Marx).


Thomas Hobbes

Segundo Thomas Hobbes, o conceito Conatus é indispensável na análise da concepção da natureza humana, em:

  • Tudo aquilo que, de alguma forma, propicia a vida em resultado do desejo e da vontade individual;
  • Um fogo interno que move o homem a dirigir-se àquilo que lhe traz prazer e o afasta do que o desagrada;
  • Ação sem imposição externa: resultante do esforço em perseverar;
  • Capacidade natural de autoconservação: característica racional humana em resultado da consciência de preservação da vida;
  • Preservar a essência interna do homem livre;
  • Manter um estado natural de vida do homem em sociedade.

Por outro lado, a característica natural do conceito Conatus é observada também em aspectos negativos, caracterizado por:

  • Egoísmo do homem que, desassossegado, deseja poder sempre mais que os outros, tendência que o acompanha até a morte;
  • Inclinação que move o homem a vencer sempre;
  • Luta no acumulo de recursos para além da necessidade;
  • Guerra de todos contra todos na vida social;
  • Homem governado por suas paixões, que acha possuir o direito natural de apoderar-se do que bem entender;
  • Aquilo que impulsiona o homem a ultrapassar ao outro na vida social, de onde afloram sentimentos de perdedor e vencedor;
  • Disposição que torna os homens iguais em força quando o fisicamente mais fraco adquire a capacidade de matar o fisicamente mais forte ao usar de estratagemas mais espertos.

Subjugar o outro é característica natural do homem enquanto selvagem ou enquanto não vence a si mesmo. Sua tendência natural é de sempre subjugar os da própria espécie, explorando e exaurindo a força de produção do outro, dando o mínimo ou nada em troca.

Segue a máxima: "estamos aqui para comer uns aos outros".

Esta disposição mental violenta e agressiva pode ser moderada quando cada indivíduo ingressa de forma responsável na vida social: uma das fortes propostas da Maçonaria: pela igualdade, mesmo em presença das diferenças.

O estudo dos contrates do conceito Conatus proporciona o entendimento de como funciona a violência humana decorrentes do despotismo, da arrogância e da prepotência de indivíduos, pessoas e grupos.

Ao maçom, a dicotomia do conceito Conatus aponta caminhos para:

  • Tornar-se bem-sucedido e evitar ser presa daqueles que se acham com mais direitos.
  • Fomentar relacionamentos onde todos levam vantagens, não necessariamente igualitárias, mas justas.
  • Ajudar no entendimento das razões da existência da violência, traduzindo-a como característica natural do livre-arbítrio que pode ser superada pela transformação consciente.


Liberdade e Livre-arbítrio

A ação humana é livre na proporção em que o ator entende como funciona sua determinação, seu exercício de Conatus. O pensamento correto de liberdade advém da análise das possibilidades, onde liberdade e possibilidade são ideias independentes. A liberdade consta de possibilidades de ações e ideias independentes.

Aprende-se na Maçonaria que o homem só pode considerar-se livre se, em sua caminhada pelo mundo, tiver a seu dispor a possibilidade de escolher racionalmente entre alternativas. É a razão da pugna da ordem maçônica em oferecer liberdade para toda a sociedade humana. Assim, ela desenvolve homens com conhecimento da liberdade que se manifesta àqueles que obtêm consciência da autodeterminação: do Conatus.

O maçom constata esta liberdade quando descobre que nada existe fora dele mesmo que lhe imponha uma direção: é o exercício do Conatus voltado ao esforço de atender a tendência de ser livre para persistir em existir e evoluir continuamente.

Com este entendimento, não se confunde liberdade com livre-arbítrio:

  • Liberdade - Livre-arbítrio
  • Autodeterminação: a decisão vem do depois de pensado e avaliado. - Agir sem motivos ou finalidades: em resultado de impulso natural e instintivo.
  • Limitada e racional. - Ilimitado: manifesta-se sem razão ou objetivo.
  • Racional; artificial, dissimulada. - Emocional, instintivo, natural, franco.

O autoconhecimento livra o homem do obscurantismo assim como a autodeterminação leva o homem a desfrutar da liberdade com coerência.

Gostar de alguma coisa, considerando que possa ser resultado de imposição de modismos ou propaganda da mídia, não implica em falta de liberdade, desde que a ação, ou gosto, seja resultado de desejo interno, particular. É liberdade desde que o gosto pertença à pessoa em resultado de sua autodeterminação.

Já o livre-arbítrio não passa de uma ilusão da imaginação, espécie de conhecimento inicial. Livre-arbítrio, na ótica de Baruch Espinoza, é um preconceito primordial, fonte de todos os outros preconceitos.


Conceito e Ação Conatus

Em diversas oportunidades da jornada, o adepto maçom é levado explorar e reforçar sua inclinação latente e congênita de existir com qualidade e de aprimorar-se como pessoa humana na ação Conatus que lhe é inerente.

A melhoria pessoal ocorre na mente, no espírito, na psique e na matéria. Mudança que acontece em todas as dimensões humanas com vistas a produzir um ser humano melhorado em condições de persistir, de aplicar Conatus em sua jornada.

A exploração do conceito Conatus, em seus aspectos positivos, evita a vaidade congênita que tende ao desejo de querer ser mais importante que o outro, daí constar na divisa da Maçonaria: a igualdade. Não existe igualdade sem fraternidade e liberdade. Assim sendo, a ação Conatus impulsiona ao equilíbrio: ocorre aporte de determinação e persistência quando se exercitam igualmente igualdade, liberdade e fraternidade.

Ao frequentar as sessões maçônicas, lentamente, em resultado de fraterna convivência, o maçom se modifica e domina a inclinação de reinar sobre os demais, considera-se igual e, com isso, propicia a liberdade de si mesmo. Entender isso é iniciar-se em espírito: abraçar uma vibração energética que fica acima da realidade perceptível aos sentidos. Ao vencer a vaidade e a soberba torna-se irmão, inicia-se maçom: é reconhecido maçom. Assim, a sua regularidade como maçom vai muito além dos sinais, toques e palavras. Demonstra que entendeu a mensagem da cerimônia de iniciação: a dramatização da iluminação maçônica. Entendeu que está no Universo para servir seus irmãos e à sociedade: "a Maçonaria está nele!" -, dizem sem falsa retórica os mais adiantados.

Aprendeu bem e responde favoravelmente às provocações da Maçonaria em seus rituais: faz o bem e se modifica em resultado da prática do bem. Para um homem assim, os diplomas, as medalhas, os aventais, os colares e outros penduricalhos traduzem expressões de vaidades! Encontrou o poder e a riqueza que edifica seu próprio templo vivo nas virtudes que estão no espírito! Desta forma a ação do Conatus faz o homem persistir em evoluir constantemente.

A jornada modificadora interna do maçom segue em ascendência por uma senda que é semelhante a uma escada dupla que sobe de um lado e desce pelo outro. De um lado, enquanto o maçom sobe, ele é servido por seus irmãos de conhecimentos e ciências, e de outro, enquanto desce pela escada, baseado em virtudes, ele serve seus irmãos. É um exercício de humildade sem precedentes, haja vista a característica natural negativa do conceito Conatus aplicada ao ser humano leva o homem a sentir-se naturalmente mais importante que o outro. Servir sem esperar nada em troca é o altruísmo mais elevado que o maçom pode alcançar! Com isso ele serve qual construtor de templos vivos numa sociedade perdida, pervertida e alienada a um sistema terrível de usura e escravatura.

Livre da escravidão ao sistema florescem qualidades internas que edificam o caráter. O ritual maçônico instiga ao hábito das coisas a serem desenvolvidas no dia-a-dia em todos os lugares.

E do hábito amadurecem grandes maçons que vencem o teste do tempo!

Sem confundir liberdade com livre-arbítrio e longe de se afetar com a perda de liberdade com a evolução científica, o maçom iniciado no espírito - que vive uma experiência espiritual - usa dos conhecimentos e criações científicas para servir a si e aos seus irmãos.

O conceito Conatus é entendido e utilizado em suas dimensões positivas e de construção do desejo e da paixão para o bem: é essencial na manutenção da perseverança para realizar a caminhada da modificação em sentido lato do ser para o bem.

O maçom iniciado no espírito - naquele onde a Maçonaria penetrou em resultado das reiteradas provocações - é o mestre servidor de seus irmãos. Sua alma purificada pelo serviço prestado aos irmãos faz seu corpo resplandecer! Este brilho, esta luz, é resultado positivo da ação Conatus, do ensino e do apoio dado aos irmãos porque é com isto que se dá honra e glória ao Grande Arquiteto do Universo!


Bibliografia

1. LIMONGI, Maria Isabel, Hobbes e o Conatus: da Física à Teoria das Paixões;

2. PAES LEME, André, Spinoza: o Conatus e a Liberdade Humana;

3. PEREIRA, Rafael Rodrigues, o Conatus de Spinoza, Autoconservação ou Liberdade;

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Maçom é Fraterno?

A busca da fraternidade para evoluir.

Charles Evaldo Boller


Ser reconhecido maçom é, acima de tudo, ação espiritual! E esta não pode abdicar de ambiente fraterno onde cada maçom exercita o que desenvolveu em si mesmo.

A filosofia maçônica apenas provoca àquele que deseja, de fato, ser fraterno. Então, em resultado desta mudança, vir a ser reconhecido maçom!

A ação, a capacidade de mudar a si mesmo é individual: apenas eu, no Universo, tenho a capacidade de modificar-me.

E se eu mudar, você também muda!

O processo é indutivo e não compulsivo.

É o construtivismo dos rituais e a troca de informações das sessões maçônicas que tem a quase mágica capacidade de impulsionar aos seus executantes mudarem-se: senão tudo não passaria de simples pantomima!

Nem mesmo o Grande Arquiteto do Universo reservou para si a capacidade de modificar ao homem: para isto ele o dotou de livre-arbítrio. O objetivo é que a criatura, de sua livre iniciativa, desperte em si a capacidade de conviver fraternalmente com outras criaturas, indicando com isso que está evoluindo para um objetivo maior. E este objetivo, podemos especular, deve ser parte de intensão racional contido no projeto escrito no DNA para algum maravilhoso fim: senão a vida não teria sentido.

Somos criaturas em evolução contínua vivendo uma experiência espiritual que exige aporte de comportamento fraterno.

Deduzimos então que, não é reconhecido maçom todo aquele que ainda não desenvolveu em si a capacidade de conviver fraternalmente.

Pode ter passado por uma cerimônia denominada iniciação, mas ainda não entendeu o seu significado.

Aí entra a tolerância daqueles que já colocaram em prática o que aprenderam: de pacientemente aguardar a saída da cegueira daqueles que ainda estão contaminados pelo espírito selvagem do homem natural.

Por outro lado, se todos os que passaram pela cerimônia de iniciação pudessem ser reconhecidos maçons, poderíamos fechar nossas lojas e voltarmos definitivamente para as nossas casas: a sociedade estaria perfeita!

Portanto, dia destes os ainda vendados terão acesso à Luz iniciática que os impulsionará às mudanças e daí eles entenderão o que significa ser fraterno.

Ser fraterno não é questão de debates: é ação!

Ser fraterno é buscar no mais íntimo de si mesmo a força necessária para mudar-se e perceber que se é parte de algo muito maior.

Ser fraterno é:

  • Amar a si mesmo.
  • Amar aos outros como a si mesmo.
  • Desejar o bem para toda sociedade humana.
  • Amar aos outros seres vivos que compartilham a biosfera.
  • Sentir-se feliz em tornar felizes aos outros.
  • Amar a obra do Grande Arquiteto do Universo.
  • Amar ao Grande Arquiteto do Universo.
  • É amar.

E o amor, é o mais perfeito vínculo de união.

Ser fraterno é amar!

Apenas isso!

Simples assim!

Está dentro de cada um!

É isso que a filosofia da Maçonaria busca despertar em cada um: apenas provoca àquele que deseja, de fato, ser reconhecido maçom.

Apenas isso!

Simples assim!

Está dentro do iniciado, em seu espírito encarnado!

sábado, 12 de outubro de 2013

Sentidos Humanos e Espiritualidade

Desligamento dos cinco sentidos naturais e desenvolvimento da espiritualidade para efeito de mudanças duradouras.

Charles Evaldo Boller


Os sentidos humanos existem para possibilitar os relacionamentos com outras pessoas e a realidade por eles perceptível. As sensações de tato, paladar, audição, olfato e visão são utilizados de forma limitada na orientação das criaturas reclusas ao planeta Terra.

O homem, devido sua capacidade racional mais desenvolvida, tem a capacidade de atingir a plenitude do sentir. Para tal, há necessidade de desligar os cinco sentidos, possível ao retirar-se para um local sem ruído e luz. É na escuridão e silêncio que os cinco sentidos humanos ficam sem alimento. Movimentos paralisam. Ficam apenas os pensamentos; é a meditação. Com a meditação é possível esvaziar a mente. Tal ação intencional e racional faz com que a percepção se volte para dentro de si. E é lá, neste mundo artificial criado pela mente que se abrem os olhos. São outros olhos e outro despertar. Ver esta luz desperta para realidades mais profundas. Percebe-se a espiritualidade, uma forma de energia que pode ser percebida e controlada.

O homem evolui, num maior ou menor grau, para os conhecimentos intelectual e espiritual: O conhecimento intelectual é tudo o que é possível de ser medido, aferido, possuído ou disponibilizado mediante alguma técnica. Normalmente são operações de identificação da criação que o sujeito faz do objeto, da consciência e da linguagem; o conhecimento espiritual, em sentido lato, é a relação interna da consciência para consigo mesmo. Basicamente o resultado do conhecimento que o sujeito tem de si mesmo. Em sentido íntimo é o único conhecimento possível para as próprias verdades metafísicas. Algo como a visão que o espírito tem de si mesmo. É a percepção de que existe sempre em um dado objeto inseparável de si mesmo que a consciência tem de suas próprias vivências. O espírito é a constatação material de uma forma de energia que está encarnada no sujeito.

Toda vez que a razão bloqueia o funcionamento dos sensores materiais, esvaziando a mente, a energia denominada alma, espírito, sopro de vida ou alento, conforme traduzido das mais diversas linhas de pensamento e culturas, penetra cada vez mais na matéria. Mistura-se. Forma unidade com ela. Com o exercício de esvaziamento o sujeito adentra a estados cada vez mais aprofundados de consciência. A manifestação física da substância sólida é outra forma de energia, só que hipoteticamente congelada devido sua frequência ondulatória manifestar-se em frequência tal que a torna perceptível aos sensores naturais. Bloquear os sensores naturais tem a função de afastar o sujeito da ilusão. A substância sólida é uma ilusão percebida pelos sensores naturais. Em sendo energia, a pessoa encontra dentro de si um vasto espaço, um Universo em miniatura, semelhante ao grande Universo que, de sua parte, também é energia. Tudo é energia e está energeticamente interligado! Tudo está amarrado por linhas de força. Tudo é, em essência, formado de espaço vazio. O nada!

"A realidade é constituída de átomos esféricos e de vazio; não existe nada além de átomos e espaços vazios. O resto não passa de opinião". (Demócrito de Abdera), filósofo de nacionalidade grega.

A afirmação que tudo é energia já foi intuída e é parte dos usos e costumes das culturas do Sul da Ásia, onde, para indicar respeito e até veneração, as pessoas cumprimentam-se com as mãos postas em frente à testa, como se curvassem diante de um Deus ou pessoa santa, pronunciando a palavra "namastê"; significando: "o Deus que habita meu coração, saúda o Deus que habita teu coração". Traduzindo para a presente finalidade: a força ativa que anima meu coração, saúda o alento que habita em teu coração. Estou em você como você está em mim. Energeticamente somos um.

Em Maçonaria os adeptos são levados a reconstruir o templo que foi destruído, numa referência lendária a Zorobabel. O templo em verdade não é o histórico lugar misterioso e respeitável onde os judeus praticavam a adoração ao seu Deus Jeová, mas refere-se a um templo feito de carne e ossos: o próprio adepto. Interpretar literalmente a lenda histórica de Zorobabel de nada serve para alçar o homem a estados espirituais mais elevados. A razão do não entendimento subliminar da lenda reside na forma de organização e exploração definida pelo sistema humano de coisas, dada à alienação que consta da:

  • Consciência, que passa a considerar-se coisa;
  • Pessoa tornar-se estranha para si mesma;
  • Obrigatoriedade do trabalho;
  • Influência das tecnologias;
  • Frivolidade de entregar-se aos prazeres do instinto;
  • Fantasia;
  • Regra ou lei imposta que, de alguma forma, afasta o sujeito da vida natural.

Submissos ao sistema criado pelo homem, os templos de carne ficam ao chão, ao nível do esquadro, na materialidade.

A reconstrução do templo do maçom acontece a cada grau e está repleta de tensão e desespero. Implica em perigos. O pior inimigo está em si quando este se sabota e embota a coragem de mudar e de ser diferente. A busca da sabedoria para reconstruir implica em coragem para enfrentar a mudança. É precaver-se contra os inimigos internos e externos. Os agentes inimigos sabotam a capacidade e o incentivo às mudanças como: valor, firmeza e perseverança.

Há necessidade do uso da espada com maestria. O órgão mais parecido com uma espada de dois gumes é a língua. Uma língua afiada corta em dois sentidos; é arma que serve tanto para o ataque quanto para a defesa. Defende o conhecimento intelectual de fazer frente às mudanças e ataca o pensamento aviltante de terceiros que visam escravizar as pessoas a dogmas; verdades impostas por decreto e longe da Iluminação. Com a trolha o maçom constrói a espiritualidade. Como a espiritualidade é encarnada é internamente que a ferramenta tem a capacidade de aplainar rugosidades, preencher os vazios da mente que é o próprio processo da vida. Na medida em que a mente evolui pelo uso da espada e da trolha, cresce a consciência espiritual.

No passado considerava-se a mente como o aspecto da alma imaterial, ou espírito, sopro de vida, alento. Hoje, na visão da Teoria dos Sistemas Vivos, a mente deixou de ser coisa e passou a ser considerado um processo; comparável ao software que roda num hardware. A mente, o intelecto, corresponde a um conjunto de funções superiores da alma e da vontade. E o que é importante: é modificável! É esta capacidade que o maçom usa para modificar-se a cada grau que sobe e que introduzem na mente novos conhecimentos. Quando aumenta seu conhecimento intelectual, aplicado pelo uso da espada cresce também o seu conhecimento espiritual na aplicação da trolha. Por isso, todo maçom, para perseverar nas mudanças que resolveu em sua mente, tem a espada numa das mãos e a trolha noutra.

São muitas as considerações que permitem afirmar e aceitar a existência da energia interna que muda a forma de ver o mundo e de relacionar-se com ele, de perceber que o mundo é como um imenso campo energético. Pode-se especular que o templo de carne é parte de um todo que funciona em sincronia de oscilações energéticas, algumas visíveis, mas em sua maioria invisíveis aos sentidos naturais. Daí a necessidade de desenvolver novas capacidades de percepção pela anulação dos sentidos naturais. Onde o esvaziar da mente promove a percepção daquilo que tem a capacidade de efetuar mudanças no mais íntimo do ser: a espiritualidade.

O contato com energias desconhecidas e imperceptíveis aos sensores naturais leva à constituição de nova identidade. Um novo homem a cada mudança, a cada grau. É um processo que não tem fim. Depois de treinar a capacidade de reagir favoravelmente ao que cada grau que a Maçonaria pretende de seus adeptos, estes, treinados e suscetíveis a caminhar sozinhos, iniciam novas ligações mentais. Mesmo depois de alcançar o maior grau, o processo de multiplicação dos degraus da escada que ascende à espiritualidade continua. A mente está treinada. A escada propicia infinitas associações no caminho da Iluminação, vista pela primeira vez na cerimônia de iniciação do primeiro grau. Ritual e símbolo são sempre os mesmos, mas as suas interpretações evoluem de tempos em tempos dependendo apenas de perseverança no seu exercício.

O objetivo central de todos os graus da Maçonaria é o exercício de fortalecimento da espiritualidade. Da penetração da energia, do sopro da vida, cada vez mais fundo no campo energético que a pessoa é. Fortalece a capacidade de mudança na busca de contato com a essência daquilo que cada homem é. A espiritualidade pavimenta o caminho à religação com o divino ensinado pela religião que cada adepto segue. Justifica o fato de o maçom referir-se à divindade que existe dentro de seus irmãos por algo assemelhado a "namastê", o conceito Grande Arquiteto do Universo, o inominado, a energia com a qual cada criatura que pensa deseja religar-se.


Bibliografia

1. ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de Filosofia, Dizionario DI Filosofia, tradução: Alfredo Bosi, Ivone Castilho Benedetti, ISBN 978-85-336-2356-9, quinta edição, Livraria Martins Fontes Editora Limitada, 1210 páginas, São Paulo, 2007;

2. ALMEIDA, João Ferreira de, Bíblia Sagrada, ISBN 978-85-311-1134-1, Sociedade Bíblica do Brasil, 1268 páginas, Baruerí, 2009;

3. ANATALINO, João, Conhecendo a Arte Real, A Maçonaria e Suas Influências Históricas e Filosóficas, ISBN 978-85-370-0158-5, primeira edição, Madras Editora limitada., 320 páginas, São Paulo, 2007;

4. ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni, História da Filosofia, Antiguidade e Idade Média, Volume 1, ISBN 85-349-0114-7, primeira edição, Paulus, 670 páginas, São Paulo, 1990;

5. BLASCHKE, Jorge, Somos Energia, o Segredo Quântico e o Despertar das Energia, tradução: Flávia Busato Delgado, ISBN 978-85-370-0643-6, primeira edição, Madras Editora limitada., 172 páginas, São Paulo, 2009;

6. GUIMARÃES, João Francisco, Maçonaria, A Filosofia do Conhecimento, ISBN 85-7374-565-7, primeira edição, Madras Editora limitada., 308 páginas, São Paulo, 2003;

7. HILL, Clive; BURNHAM, Douglas; BUCKINGHAN, Will, O Livro da Filosofia, tradução: Rosemarie Ziegelmaier, ISBN 978-85-250-4986-5, primeira edição, Editora Globo, 352 páginas, São Paulo, 2011;

sábado, 14 de setembro de 2013

Influência da Educação Maçônica

Educação maçônica na construção de homens.

Charles Evaldo Boller


Especula-se que: o Universo é resultado de projeto inteligente com finalidade definida; não é o resultado de ocasionais ocorrências aleatórias; que a vida tem propósito significativo; que é lógico pensar na vida com intenção de preencher finalidade determinada, planejada.

Na contramão disso, o homem percebe que muitas de suas atividades são dispersivas e alienantes no uso da vida. Para a maioria a vida não tem sentido, principalmente na forma correta de usufruir o que realmente a natureza intenciona no viver bem.

Na atividade do homem não se concebe que faça o que é certo em um aspecto da vida, enquanto comete erros em outros. Como fará em sua caminhada para não perder a visão de sua vida em sentido lato? Como deve agir para usufruí-la como um conjunto indivisível?

O homem que se iniciou nos mistérios da Maçonaria descobre na vida a existência de maravilhas a serem exploradas, questionadas e aplicadas para usufruir de sua existência da maneira mais equilibrada possível com o propósito do Criador. Pela educação maçônica o homem deixa de ser um morto-vivo de comprometida visão da vida.

A Maçonaria e seus mistérios oferecem ferramentas e instruções que removem barreiras e possibilita o usufruto da vida em sua plenitude. O senso do mistério alimenta emoções residentes na psique e que são trabalhados nas atividades maçônicas. A ciência em forma de arte traduz a emoção fundamental para o progresso pessoal. São mistérios que não inspiram medos, o maçom faz o bem porque isso é parte de sua nova vida e não porque tem medo de algum castigo ou almeje hipotético prêmio depois de morto.

Se aplicada passo-a-passo, de forma simples, a essência da vida é aprendida e, se for da vontade do adepto, liberta-o da escravidão, do servilismo ao sistema desumano de vida, que o espreme e suga toda a sua força ativa até sobrar apenas bagaço. Ao sujeitar a ambição ao controle racional, liberta-se do pior tipo de servilismo, pior até que a própria fome e pobreza. Ao inspirar coragem e decisão no adepto, a filosofia da Maçonaria conduz àquele que passa a confiar em si mesmo e conduz seus próprios passos ao prazer de conquistar a vitória sobre si mesmo. Ao sentir que é capaz de conduzir a si mesmo torna-se apto a conduzir aos que ainda não despertaram.

As noções filosóficas da Maçonaria auxiliam na absorção das noções que livram do obscurantismo e da alienação ao trabalho. São aplicadas apenas umas poucas horas semanais em treinamento e convivência que eliminam anos de frustrantes tentativas de acertos e erros até obter a visão necessária para dar sentido à vida. Não se trata de entendimento intelectual, político ou crença, mas de um sentido misterioso, ainda inexplicável, de intuição individual que dá sentido à vida. Cada adepto usa da Maçonaria para dar o seu próprio sentido para a vida sem ficar batendo cabeça em tentativas inúteis e fantasiosas.

O sucesso pessoal não é devido exclusivamente à força ou ao conhecimento, mas diz respeito à vontade férrea, de coragem para agir. O entendimento de como caminhar por conta própria advém do conhecimento esotérico que conduz ao sucesso pessoal, familiar, social e profissional. A convivência maçônica inspira o conhecimento intuitivo e o fortalecimento do caráter que conduzem o maçom, que inicia a si mesmo, a uma consciência superior. Não um super-homem, mas um homem renascido de sua própria decisão de fazer de si mesmo uma criatura em permanente evolução.

Ao trabalhar em si mesmo, na pedra, o adepto participa na construção de um templo social onde ele é incentivado a ocupar cada vez mais cargos, públicos ou privados, de modo a conduzir a sociedade por bons pastos. Não se trata de conduzir gado de corte por fértil campo de engorda e deste ao matadouro da exploração, mas de propiciar oportunidades razoáveis de vida sem eliminar as diferenças e os desníveis que são característica de civilizações saudáveis. É a sabedoria salomônica aplicada no dia-a-dia do cidadão. O homem sábio é muito mais forte que o bruto, pois o conhecimento aplicado com sabedoria é muito mais forte. O conhecimento provê a base sólida da construção pessoal que se afasta da alienação do sistema de coisas humano pela aplicação do pensamento sábio.

Maçonaria é arte. É uma ciência que permite construir o intelecto cuja compreensão possibilita o despertar, o abraçar da iluminação que vem da racionalidade conduzida por balanceada espiritualidade - diferente de religiosidade. A luz que o maçom busca é o aperfeiçoamento pessoal em seu dia-a-dia. A Maçonaria faz deste entendimento o ponto essencial a ser alcançado. É mero coadjuvante o esforço das atividades maçônicas restantes ao objeto central que é a evolução do homem. O estado de iluminação inspirado pela Maçonaria destrói a máscara da ilusão do sistema de coisas humano que manipula separações e quebra de relações que conduzem a alienação da vida para objetivos fúteis e inúteis. No instante em que o maçom abre os olhos e vê a luz do que é certo e errado torna-se sensato. Desaparece a ilusão e ele deixa de experimentar o que está errado na tentativa de acertar, torna-se mais objetivo e acerta no primeiro ensaio muito mais vezes. Some o ilusionismo com seus truques que submetem o homem a um servilismo voluntário em virtude da perda de noção da realidade.

Surge nova consciência quando a iluminação esclarece a diferença entre religiosidade e espiritualidade. Fica claro o entendimento de que a crença em verdades absolutas ditadas pelos sistemas religiosos não torna seus adeptos pessoas espiritualizadas. Também não é espiritualizado o maçom que não iniciou a si mesmo, que insiste em aprisionar-se na execução de rituais sem penetrar em seus significados. A intenção da educação maçônica é criar a identidade própria do indivíduo afastado de influência ditatorial externa e aproxima-lo da dimensão espiritual que já reside dentro dele. Esta dimensão existe em todos. Basta que acorde. Não está contida no pensamento, mas numa dimensão diferente e inspirada na intuição. Por isso a filosofia maçônica incentiva à diversidade de pensamentos. Procura-se provocar no homem a obtenção de matéria prima para construir pontes evolutivas que progridem aos saltos sobre os precipícios da ignorância. Não se admitem limitações ao pensamento como é objetivo dos sistemas alienantes de crenças. O fato de a espiritualidade surgir em larga escala fora do sistema de crenças é novo para a sociedade em geral, mas é usado faz séculos pelos maçons que iniciaram a si mesmos nos mistérios da arte da Maçonaria.

A iluminação, o andar com as próprias pernas inspirado pela Maçonaria desperta a compaixão que se traduz num homem dotado de menos cobiça; torna-o mais alegre porque a sabedoria o afasta do sofrimento; alimenta a igualdade onde se produzem mais amigos unidos pelo poderoso laço do amor; inspira a ternura que remove a discriminação que produz tantos inimigos. Afasta ignorância, falsas imaginações, desejos viciantes e estultícia, todas nascidas na própria mente, manifestadas pelas ilusões e manipuladas pelo ego.

A mudança estimulada pela educação maçônica repele os desejos da mente e afastam os sofrimentos, lutas inúteis alimentadas pela cobiça, estultícia e ira. Maçom que se iniciou é homem armado com espada - a sua língua, a sua oratória —, e escudo, - o conhecimento de seu cérebro. Pela iluminação, - kant, Aufklärung - anda com os próprios pés. Está sempre pronto para o bom combate com mente treinada para alcançar o objetivo de construir uma sociedade humana dentro dos desígnios estabelecidos pelo Grande Arquiteto do Universo.


Bibliografia

1. ANATALINO, João, Conhecendo a Arte Real, A Maçonaria e Suas Influências Históricas e Filosóficas, ISBN 978-85-370-0158-5, primeira edição, Madras Editora limitada., 320 páginas, São Paulo, 2007;

2. SILVA, Georges da, Budismo, Psicologia do Autoconhecimento, 222 páginas, Editora Pensamento Limitada, São Paulo;

3. TOLLE, Eckhart, Um Mundo Novo, o Despertar de uma Nova Consciência, tradução: Henrique Monteiro, ISBN 978-85-7542-313-4, primeira edição, Editora Sextante Limitada, 266 páginas, Rio de Janeiro, 2005;

domingo, 31 de março de 2013

Liberdade Absoluta

Considerações a respeito do aprendizado que suporta a obediência e respeito às leis.

Charles Evaldo Boller


De nada adiantam constituições que garantam direitos e deveres individuais se o beneficiado, o cidadão, em particular o maçom, continua preso de noção equivocada de si mesmo. Se vive infeliz e angustiado porque não tem coragem de mudar a si mesmo ou por indolência não possui energia vital para sair de sua ignorância e "andar com suas próprias pernas". Mesmo que os pensamentos do legislador levem ao desenvolvimento de leis justas e equitativas, estas usualmente são usurpadas e desviadas de seus objetivos originais pelo Poder Executivo, em ditadura que degrada e escraviza ao homem. Oriundas do legislativo, a sociedade pode até ser regulamentada por boas leis, mas se não existir quem faça oposição a um Poder Executivo pervertido por ideologias que visam o poder pelo poder, de nada adiantam leis perfeitas e justas. O fanático por poder despótico, que se coloca acima da lei e da moral, vence, perverte e derruba as leis no recôndito de seu covil.

Exemplo: a lei do aborto no Brasil. Sabe-se que mais de oitenta por cento da população brasileira é contra a legalização do aborto no país. O Poder Executivo, aplicando suas normas técnicas, legaliza na prática o crime do aborto: divulgado na mídia, em junho de 2012 o Ministério da Saúde propôs a criação de cartilha, já disponível, que ensina à mulher a abortar com segurança, oferecendo apoio e aconselhamento antes e suporte médico após o crime. Na ocasião, o secretário de Atenção à Saúde, afirmou que, aconselhar e dar suporte para abortos não é crime! Quem comete crime é a cidadã. Uma vez consolidado o crime, o judiciário a absolve, porque recebe apoio do ativismo judiciário; juízes torcem, interpretam as leis e "legislam" em favor da descriminalização do aborto. Matar alguém é crime. Entretanto, os sucessores de Herodes continuam sua macabra missão! Matar um indefeso feto não é crime! A pavimentação da estrada para a legalização do aborto no Brasil é resultado de lenta e gradual ação da revolução cultural. Muda-se gradualmente o pensamento das pessoas na direção de aceitarem o assassinato de fetos. No conjunto isto pinta um quadro onde, em sentido lato, o Brasil caminha célere a um golpe de estado de veludo. Gradativamente estabelece-se uma ditadura. O aborto por qualquer motivo será liberado em breve. Relacionado ao tema do aborto questiona-se: existem ações proativas ou revoltas dos maçons brasileiros?

A sociedade é dominada pela força do pensamento. Não existe déspota no Universo que consiga demover as ações de um homem que acredita em sua ação moral e justa. Nem mesmo o Grande Arquiteto do Universo interfere na vontade do homem decidido e convencido de sua vontade, seja boa seja má; para isso dispõem de livre-arbítrio. O homem que se modifica no pensamento só pode ser desviado de seus objetivos pela morte. Quanto mais pessoas pensarem de forma idêntica, mais aumenta o poder do grupo para opor-se ao prepotente e arrogante ditador. É por isso que o maçom é instado a mudar sua forma de pensar alinhada com a moralidade e com a construção social positiva emanada da filosofia político-social da Maçonaria. Infeliz do homem que não modifica a si mesmo para exercitar a diferença na evolução social e intelectual dele mesmo. Enquanto persiste em divagar e perder seu tempo com o circo armado para escravizá-lo, o injusto sistema humano arranca dele a parte mais importante de sua capacidade produtiva e vital. Sem modificar-se no pensamento ele permanecerá escravo do sistema. Aquele que permitiu que a iluminação da Maçonaria o modificasse, obedece a constituição de seu País e tudo faz para que as leis emanadas do legislativo sejam justas, e, enquanto em vigor, sejam aplicadas e respeitadas. O maçom iluminado é por definição desobediente civil quando obedece primeiro às leis naturais do Grande Arquiteto do Universo e depois às leis dos homens. Por juramento, o maçom obedece às leis dos homens porque se encontra inserido numa sociedade que, à priori, as define com base na moral de sua sociedade local e com vistas a paz social. Mas, no instante em que ocorre conflito entre uma lei humana e o projeto original do Grande Arquiteto do Universo, ele é forçado a rebelar-se. Como decidirá o que está certo ou errado se não aprende a pensar com lógica e inteligência?

A Maçonaria coloca toda a sua estrutura baseada na fundação de sociedades fraternas onde possa florescer o fundamento da "verdadeira" liberdade a ser sacrificada pelo bem da sociedade. O maçom que conhece a si mesmo e tem a coragem de fugir ao desespero de ser diferente, tudo faz para conservar pura a Constituição de seu país e age para estabelecer triunfo e glória da ordem constituída. Este objetivo só ocorre se ele se modificar. Se não se modificar, os outros também não mudam. Os outros só mudam se ele adquire coragem de mudar a si próprio. Sozinho é trabalho de difícil consecução. Apenas em grupo, na dinâmica social desenvolvida em loja e na sociedade que se obtém a vitalidade de mudar a si mesmo, e, em consequência, com todos aqueles com os quais se convive. Para entender isso é necessário analisar o que se faz na Maçonaria.

O maçom que não entrou na Maçonaria movido por "inclinação para ação política militante, regida por princípios de moralidade barata e movimentada por interesses inconfessáveis" (Ritual do aprendiz maçom), tem o perfil certo para ver a luz; é o homem saudável que almeja em si a liberdade de tornar seu "eu" diferente do que é; usualmente transforma-se num homem melhorado. Se não obtém sucesso na empreitada, passa a desprezar-se; na maioria dos casos, pede afastamento da ordem maçônica. Principalmente quando percebe que não pode tirar vantagens pessoais do fato de ser reconhecido maçom. Também esmorece e se afasta da Maçonaria aquele ao qual falta coragem para passar pelo trauma de abandonar o ignorante "eu" anterior (Kierkegaard). Na Maçonaria o trauma da mudança é revivido a cada iniciação; o maçom morre simbolicamente e reiteradas vezes para condições menos aperfeiçoadas e ressuscita encarnando um "eu" melhorado. É questão de liberdade do cavaleiro humanitário da Francomaçonaria conquistar seu novo "eu"; de modificar-se sem desesperar-se.

O desespero mais fraco em relação à mudança ocorre em função da ignorância sobre o "eu"; condição que desaparece se entendida a iniciação. Ignorância é condição natural do homem. Conhecimento e sabedoria é condição do homem superior. Uma condição elevada normalmente é alcançada pelo iniciado na Maçonaria, desde que conviva com os outros de igual disposição mental. A iniciação não consta apenas da cerimônia onde são feitos juramentos e dramatizações filosóficas, mas das consequências de se ver esclarecido e modificado para colocar o conhecimento maçônico em prática na vida; isto desperta a significação vital do "eu", do "ser"; é a razão da vida do maçom para o bem da sociedade. A cada iniciação o maçom depara-se com um homem novo; com novo propósito. A transformação é difícil; normalmente cercada de angústia e desespero. O maçom só atinge a Liberdade Absoluta depois de alcançar a verdade pelo pensamento; quando toma conhecimento de si mesmo, abandonando condição subserviente, castradora, e abraça outras condições melhoradas. Na caminhada pela Maçonaria, o "eu" anterior que não está alinhado com os princípios morais do grupo que o cerca, passa a ser repudiado. Sensação que piora ao conscientizar-se que não tem liberdade; o poder de afastar de si uma condição decaída; entendida como falta de coragem. A negação de si mesmo para assumir outra condição melhorada é sempre dolorosa porque aflora da noção de que não se é possuidor de si mesmo; é sempre o grupo que influencia e impõem a moral. A filosofia maçônica muda a situação avassaladora quando leva o adepto buscar dentro de si harmonia e paz, o que o leva a desejar aquilo que de fato reforça a modificação; cria novo homem mais espiritualizado.

O maçom potencializa o que realmente pode ser. Ao chegar à Maçonaria ele já tem atendidas as deficiências de suas necessidades fisiológicas como: ar, exercício, calor, bebida, sono, comida etc. Estão igualmente superadas as deficiências de segurança, como: emprego, estabilidade, dinheiro, abrigo, saúde etc. Também já tem satisfeitas as necessidades de amor e pertencimento, como: relacionamentos, aceitação, intimidade, amizade etc. Já está suprido nas carências de autoestima, como: reconhecimento, competência, conquista, respeito etc. Depois de iniciado na Maçonaria ele busca melhorar ou suprir as necessidades relacionadas ao crescimento e modificação do "eu". De seus estudos humanistas iluminados melhora sua necessidade cognitiva, como: conhecer-se, compreender-se etc. Afloram e se intensificam as necessidades de estética, como: ordem, disciplina, beleza, simetria etc. No topo de suas necessidades alcança a autorrealização. A partir deste ponto desenvolve seu "eu" potencial naquilo que faz sem esperar outro reconhecimento que não seja o do trabalho feito sem busca de recompensa, de cumprir seu dever social e cívico sem aguardar por recompensa; basta-lhe a sensação de haver realizado algo bem feito. Seguindo a vereda, aflora o derradeiro estágio das necessidades humanas; aquilo que é possível fazer para o "eu" sentir-se completo: a autotranscedência; ocasião em que passa a ajudar aos outros, ligar-se além de si mesmo, (Maslow) no caso do maçom, tornar-se trabalhador numa confraria de construtores sociais que se ajudam mutuamente. Atendidas estas necessidades e do desejo de ser quem realmente "é", obtém a liberdade de afastar-se do desespero e a coragem de modificar-se; é quando passa a aceitar o que realmente "é". Neste estágio fica fácil aplicar o esforço do pensamento orientado em aceitar a natureza modificável que existe em si. É a senda para o maçom encontrar sua essência natural e o propósito de sua vida.

O não iniciado dificilmente, raramente, conhece o Universo mental que o rodeia e que lhe tolhe a liberdade de modificar-se. O maçom "conhece a si mesmo"; primeira iniciação. Envereda ao nível do "penso, logo existo", pensa, debate e medita mais; segunda iniciação. Efetua a síntese dos problemas com que se confronta; terceira iniciação. E assim vai em frente, galgando sempre mais elevados conceitos e incentivado a modificar o "eu". A força motriz desta evolução é a força mental do maçom reunido em grupo; quando emerge a força energética do grupo pensante cujo poder modificador está em sincronia com o projeto do Grande Arquiteto do Universo. Tal capacidade modificadora pode ser deduzida das leis naturais e diversidade do Espírito Universal. Debaixo dos eflúvios inefáveis deste tipo de manifestação grupal, o maçom vence o desespero e consegue mudar a si mesmo, seu "eu", sem desespero.

As habilidades de convivência social do homem advêm da experiência ao lado dos colegas, família e professores; o maçom obtém o mesmo de seus irmãos em loja. O desenvolvimento humano ocorre nos níveis: cultural, interpessoal e individual. O cultural é de fácil acesso, porém, pouco motivador; a poucos atrai; principalmente aos maçons ainda não iluminados, ainda não iniciados de fato. Ao nível individual sobra pouco tempo e oportunidade; na maioria das vezes o cidadão é alienado de oportunidades de introspecção e meditação; facilmente trocado por: futebol, circo, restaurante e "rock and roll". Para Lev Vygotsky, sobram apenas os níveis cultural e interpessoal com grande possibilidade de modificar o "eu". A pessoa constitui sua identidade em resultado das relações que estabelece com outros; o relacionamento interpessoal é o que mais influi para o maçom mudar seu "eu" interior. Conhecimento e sabedoria são obtidos dos outros em resultado de acumulo de gerações, entretanto, só se coloca este conhecimento em prática na relação com os outros. A principal responsável pela interação social é a internalização das ferramentas culturais que modificam o "eu". Na Maçonaria nem interessa tanto passar conhecimento, senão, propiciar o meio, o laboratório onde os obreiros da nobre arte evolutiva possa multiplicar suas capacidades de aprendizagem, concentração e atenção. Uma sessão maçônica é momento de internalização, particular, introspectiva - o derradeiro encontro com o "eu". É a forma de utilizar da aprendizagem colaborativa, que na Maçonaria só ocorre no ambiente disciplinado de uma sessão maçônica. A isto se soma o pensamento de Jean Piaget: "o homem é resultado do ambiente em que vive"; se o ambiente é bom, disciplinado e ordeiro, as habilidades inatas afloram e manifestam-se, causando internamente a modificação do "eu". É isto que a Maçonaria persegue. Corrobora na linha da aprendizagem colaborativa do interior das lojas maçônicas o pensamento de Robert Slavin que: "identifica nos grupos de aprendizagem cooperativa a capacidade de desenvolver o "eu" quando é reduzida a rivalidade e as situações competitivas"; característica das sessões maçônicas bem conduzidas. A técnica de aprendizagem cooperativa já é utilizada pela Maçonaria há séculos e constitui hoje um conhecimento que nos círculos educacionais foi objeto de estudo sério faz apenas uma década. Os estudiosos e profissionais da área da aprendizagem perceberam que as pessoas que trabalham em pequenos grupos cooperativos, como no caso de uma loja maçônica, desenvolvem, de forma intensa, a troca intelectual que possibilita o pensamento criativo e a solução de problemas complicados. O sistema de aprendizagem e estudo da Maçonaria é perfeito: onde estão as ações? O maçom tem as mais modernas ferramentas de aprendizagem, basta agir conforme.

O grande prêmio do maçom é o desenvolvimento do potencial de pensar por conta própria. Por contar com a Liberdade Absoluta ao pensar, ele surpreende e ultrapassa todos os limites que o cativeiro deste sistema humano de coisas impõe. É o maior estágio de liberdade que se pode atingir de forma consciente. É o que dignifica e realiza o homem, elevando-o acima das outras criaturas viventes na biosfera terrestre. Isto coloca tremenda responsabilidade nos ombros do evolucionista maçom; a de sustentar as leis fundamentais da "verdadeira" liberdade aos especialmente preparados e que o tornam homem equilibrado, sábio e líder social. Feliz do maçom que alcança a iniciação interna onde desenvolve o amor fraterno para honra e à glória do Grande Arquiteto do Universo.


Bibliografia

1. KIERKEGAARD, Sören, o Desespero Humano, Martin Claret, São Paulo, 2001;

2. MASLOW, Abraham, Introdução à Psicologia do Ser, Título Original: Toward a Psychology of Being, Tradução: Álvaro Cabral, primeira Edição, Livraria Eldorado Tijuca limitada., 252 Páginas, Rio de Janeiro;

3. Paraná, Grande Loja do, Ritual do Grau de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito do Grande Loja do Paraná, Grande Loja do Paraná, 44 Páginas, Curitiba, 1975;

4. PIAGET, Jean William Fritz a Psicologia da Inteligência. Tradução: Egléa de Alencar, Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 239 Páginas, 1958;

5. SLAVIN, Robert E., Cooperative Learning, Theory, Research, and Practice, Englewood Cliffs, New Jersey, Prentice-Hall, 1990;

6. VYGOTSKY, Lev, Formação Social da Mente, São Paulo, Martins Fontes, 1999;