sábado, 12 de outubro de 2013

Sentidos Humanos e Espiritualidade

Charles Evaldo Boller

Abstrato: Desligamento dos cinco sentidos naturais e desenvolvimento da espiritualidade para efeito de mudanças duradouras.

Os sentidos humanos existem para possibilitar os relacionamentos com outras pessoas e a realidade por eles perceptível. As sensações de tato, paladar, audição, olfato e visão são utilizados de forma limitada na orientação das criaturas reclusas ao planeta Terra.

O homem, devido sua capacidade racional mais desenvolvida, tem a capacidade de atingir a plenitude do sentir. Para tal, há necessidade de desligar os cinco sentidos, possível ao retirar-se para um local sem ruído e luz. É na escuridão e silêncio que os cinco sentidos humanos ficam sem alimento. Movimentos paralisam. Ficam apenas os pensamentos; é a meditação. Com a meditação é possível esvaziar a mente. Tal ação intencional e racional faz com que a percepção se volte para dentro de si. E é lá, neste mundo artificial criado pela mente que se abrem os olhos. São outros olhos e outro despertar. Ver esta luz desperta para realidades mais profundas. Percebe-se a espiritualidade, uma forma de energia que pode ser percebida e controlada.

O homem evolui, num maior ou menor grau, para os conhecimentos intelectual e espiritual: O conhecimento intelectual é tudo o que é possível de ser medido, aferido, possuído ou disponibilizado mediante alguma técnica. Normalmente são operações de identificação da criação que o sujeito faz do objeto, da consciência e da linguagem; o conhecimento espiritual, em sentido lato, é a relação interna da consciência para consigo mesmo. Basicamente o resultado do conhecimento que o sujeito tem de si mesmo. Em sentido íntimo é o único conhecimento possível para as próprias verdades metafísicas. Algo como a visão que o espírito tem de si mesmo. É a percepção de que existe sempre em um dado objeto inseparável de si mesmo que a consciência tem de suas próprias vivências. O espírito é a constatação material de uma forma de energia que está encarnada no sujeito.

Toda vez que a razão bloqueia o funcionamento dos sensores materiais, esvaziando a mente, a energia denominada alma, espírito, sopro de vida ou alento, conforme traduzido das mais diversas linhas de pensamento e culturas, penetra cada vez mais na matéria. Mistura-se. Forma unidade com ela. Com o exercício de esvaziamento o sujeito adentra a estados cada vez mais aprofundados de consciência. A manifestação física da substância sólida é outra forma de energia, só que hipoteticamente congelada devido sua frequência ondulatória manifestar-se em frequência tal que a torna perceptível aos sensores naturais. Bloquear os sensores naturais tem a função de afastar o sujeito da ilusão. A substância sólida é uma ilusão percebida pelos sensores naturais. Em sendo energia, a pessoa encontra dentro de si um vasto espaço, um universo em miniatura, semelhante ao grande universo que, de sua parte, também é energia. Tudo é energia e está energeticamente interligado! Tudo está amarrado por linhas de força. Tudo é, em essência, formado de espaço vazio. O nada!
"A realidade é constituída de átomos esféricos e de vazio; não existe nada além de átomos e espaços vazios. O resto não passa de opinião". (Demócrito de Abdera), filósofo de nacionalidade grega.
A afirmação que tudo é energia já foi intuída e é parte dos usos e costumes das culturas do sul da Ásia, onde, para indicar respeito e até veneração, as pessoas cumprimentam-se com as mãos postas em frente à testa, como se curvassem diante de um Deus ou pessoa santa, pronunciando a palavra "namastê"; significando: "o Deus que habita meu coração, saúda o Deus que habita teu coração". Traduzindo para a presente finalidade: a força ativa que anima meu coração, saúda o alento que habita em teu coração. Estou em você como você está em mim. Energeticamente somos um.

Em Maçonaria os adeptos são levados a reconstruir o templo que foi destruído, numa referência lendária a Zorobabel. O templo em verdade não é o histórico lugar misterioso e respeitável onde os judeus praticavam a adoração ao seu Deus Jeová, mas refere-se a um templo feito de carne e ossos: o próprio adepto. Interpretar literalmente a lenda histórica de Zorobabel de nada serve para alçar o homem a estados espirituais mais elevados. A razão do não entendimento subliminar da lenda reside na forma de organização e exploração definida pelo sistema humano de coisas, dada à alienação que consta da:
  • Consciência, que passa a considerar-se coisa; 
  • Pessoa tornar-se estranha para si mesma; 
  • Obrigatoriedade do trabalho; 
  • Influência das tecnologias; 
  • Frivolidade de entregar-se aos prazeres do instinto; 
  • Fantasia; 
  • Regra ou lei imposta que, de alguma forma, afasta o sujeito da vida natural.

Submissos ao sistema criado pelo homem, os templos de carne ficam ao chão, ao nível do esquadro, na materialidade.

A reconstrução do templo do maçom acontece a cada grau e está repleta de tensão e desespero. Implica em perigos. O pior inimigo está em si quando este se sabota e embota a coragem de mudar e de ser diferente. A busca da sabedoria para reconstruir implica em coragem para enfrentar a mudança. É precaver-se contra os inimigos internos e externos. Os agentes inimigos sabotam a capacidade e o incentivo às mudanças como: valor, firmeza e perseverança.

Há necessidade do uso da espada com maestria. O órgão mais parecido com uma espada de dois gumes é a língua. Uma língua afiada corta em dois sentidos; é arma que serve tanto para o ataque quanto para a defesa. Defende o conhecimento intelectual de fazer frente às mudanças e ataca o pensamento aviltante de terceiros que visam escravizar as pessoas a dogmas; verdades impostas por decreto e longe da Iluminação. Com a trolha o maçom constrói a espiritualidade. Como a espiritualidade é encarnada é internamente que a ferramenta tem a capacidade de aplainar rugosidades, preencher os vazios da mente que é o próprio processo da vida. Na medida em que a mente evolui pelo uso da espada e da trolha, cresce a consciência espiritual.

No passado considerava-se a mente como o aspecto da alma imaterial, ou espírito, sopro de vida, alento. Hoje, na visão da Teoria dos Sistemas Vivos, a mente deixou de ser coisa e passou a ser considerado um processo; comparável ao software que roda num hardware. A mente, o intelecto, corresponde a um conjunto de funções superiores da alma e da vontade. E o que é importante: é modificável! É esta capacidade que o maçom usa para modificar-se a cada grau que sobe e que introduzem na mente novos conhecimentos. Quando aumenta seu conhecimento intelectual, aplicado pelo uso da espada cresce também o seu conhecimento espiritual na aplicação da trolha. Por isso, todo maçom, para perseverar nas mudanças que resolveu em sua mente, tem a espada numa das mãos e a trolha noutra.

São muitas as considerações que permitem afirmar e aceitar a existência da energia interna que muda a forma de ver o mundo e de relacionar-se com ele, de perceber que o mundo é como um imenso campo energético. Pode-se especular que o templo de carne é parte de um todo que funciona em sincronia de oscilações energéticas, algumas visíveis, mas em sua maioria invisíveis aos sentidos naturais. Daí a necessidade de desenvolver novas capacidades de percepção pela anulação dos sentidos naturais. Onde o esvaziar da mente promove a percepção daquilo que tem a capacidade de efetuar mudanças no mais íntimo do ser: a espiritualidade.

O contato com energias desconhecidas e imperceptíveis aos sensores naturais leva à constituição de nova identidade. Um novo homem a cada mudança, a cada grau. É um processo que não tem fim. Depois de treinar a capacidade de reagir favoravelmente ao que cada grau que a Maçonaria pretende de seus adeptos, estes, treinados e suscetíveis a caminhar sozinhos, iniciam novas ligações mentais. Mesmo depois de alcançar o maior grau, o processo de multiplicação dos degraus da escada que ascende à espiritualidade continua. A mente está treinada. A escada propicia infinitas associações no caminho da Iluminação, vista pela primeira vez na cerimônia de iniciação do primeiro grau. Ritual e símbolo são sempre os mesmos, mas as suas interpretações evoluem de tempos em tempos dependendo apenas de perseverança no seu exercício.

O objetivo central de todos os graus da Maçonaria é o exercício de fortalecimento da espiritualidade. Da penetração da energia, do sopro da vida, cada vez mais fundo no campo energético que a pessoa é. Fortalece a capacidade de mudança na busca de contato com a essência daquilo que cada homem é. A espiritualidade pavimenta o caminho à religação com o divino ensinado pela religião que cada adepto segue. Justifica o fato de o maçom referir-se à divindade que existe dentro de seus irmãos por algo assemelhado a "namastê", o conceito Grande Arquiteto do Universo, o inominado, a energia com a qual cada criatura que pensa deseja religar-se.

Bibliografia

  1. ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de Filosofia, Dizionario di Filosofia, tradução: Alfredo Bosi, Ivone Castilho Benedetti, ISBN 978-85-336-2356-9, quinta edição, Livraria Martins Fontes Editora Limitada, 1210 páginas, São Paulo, 2007.
  2. ALMEIDA, João Ferreira de, Bíblia Sagrada, ISBN 978-85-311-1134-1, Sociedade Bíblica do Brasil, 1268 páginas, Baruerí, 2009.
  3. ANATALINO, João, Conhecendo a Arte Real, A Maçonaria e Suas Influências Históricas e Filosóficas, ISBN 978-85-370-0158-5, primeira edição, Madras Editora limitada., 320 páginas, São Paulo, 2007.
  4. ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni, História da Filosofia, Antiguidade e Idade Média, Volume 1, ISBN 85-349-0114-7, primeira edição, Paulus, 670 páginas, São Paulo, 1990.
  5. BLASCHKE, Jorge, Somos Energia, o Segredo Quântico e o Despertar das Energia, tradução: Flávia Busato Delgado, ISBN 978-85-370-0643-6, primeira edição, Madras Editora limitada., 172 páginas, São Paulo, 2009.
  6. GUIMARÃES, João Francisco, Maçonaria, A Filosofia do Conhecimento, ISBN 85-7374-565-7, primeira edição, Madras Editora limitada., 308 páginas, São Paulo, 2003.
  7. HILL, Clive; BURNHAM, Douglas; BUCKINGHAN, Will, O Livro da Filosofia, tradução: Rosemarie Ziegelmaier, ISBN 978-85-250-4986-5, primeira edição, Editora Globo, 352 páginas, São Paulo, 2011.

Um comentário:

hellen sthiffani disse...

muito interessante!