segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Fugir a Morte não é Difícil!


Charles Evaldo Boller

Sinopse: Considerações e especulações a respeito da morte. O significado da morte para o maçom.

Na explicação da morte pode-se encontrar razão em dois lados. É claro que não existe vida depois da morte, ao menos não da maneira como a nossa realidade atual concebe. A morte sempre é trágica, choca a qualquer um, é uma separação dolorosa, porém, adormecer na morte é comum a qualquer ser vivente. A boa explicação deste fato está nas palavras de Sócrates, que pouco antes de sua morte teria dito: "Fugir a morte não é difícil. Bem mais difícil é fugir a maldade, pois mais célere que a morte é a malvadez. Temer a morte é acreditar ser sábio e não sê-lo, posto que seja acreditar saber aquilo que não se sabe. Além do que, ela só pode significar: ou aquele que morre é reduzido ao nada, como uma longa noite de sono sem sonhos ou é a passagem daqui para outro lugar, e, se é verdade, como se diz, que todos os mortos aí se reúne; pode-se imaginar maior bem? Mas eis a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo, ninguém sabe, exceto o Deus".

O egípcio já desenvolvera uma noção de vida após a morte evidentes nas sepulturas neolíticas, em Tasa, Médio-Egito. Esta vida seria uma imitação da vida material que a mente humana tenta perpetuar. A ideia é evidente pela maneira como os mortos eram enterrados e pelos utensílios que o acompanham. Estes rituais antigos demonstram a preocupação do homem para explicar as mais intrigantes perguntas a serem dadas paras questões do por que e para que estamos aqui.

Na bíblia judaico-cristã encontra-se o seguinte: "os vivos ao menos sabem que vão morrer, enquanto os mortos não sabem nada, nem recebem salário, pois sua lembrança cai no esquecimento. Acabaram-se seus amores, ódios e paixões, e jamais tomarão parte no que se faz debaixo do sol"; "desfruta a vida com a mulher que amas, todos os dias que dure a tua vida fugaz que Ele te concedeu debaixo do sol, os anos todos de tua vida efêmera; pois essa é tua porção na vida e no trabalho com que afadigas debaixo do sol"; "tudo o que está ao teu alcance faze-o com esmero, pois não se trabalha nem se planeja, não há conhecer nem saber no xeol (sepultura) para onde vais.", Eclesiastes 9:5-10; "disse-lhe Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida." Quem crê em mim, ainda que morra, viverá". João 11:25.

A ansiedade, resultante da consciência da morte, faz o homem preocupar-se com o que pode acontecer após a morte. A crença na imortalidade, na vida depois da morte bem ilustra o quanto o homem se recusa a encarar o fim, ansiando por uma oportunidade eterna de vida. Esta é a razão que desde os primórdios da civilização humana exista preocupação de buscar abrigo na fé religiosa para aplacar este medo do desconhecido. Karl Jaspers disse que "existe algo em nós que não se pode crer suscetível de destruição".

Farias Brito afirmou que "se o espírito é a 'coisa em si' e o ser verdadeiro de todas as coisas, logo se compreende que não será possível chegar a legitima interpretação do verdadeiro sentido da existência, senão pela noção do espírito", então, a felicidade está no reconhecimento da própria realidade espiritual. Mas reconheceu que esta é uma tarefa árdua e considerou que liberdade e felicidade não é uma dádiva da natureza, mas uma conquista individual resultante do conhecimento próprio onde "cada um é a todo o momento criação de si mesmo". E considerou que "para descobrir a alma, o único meio eficaz consiste em interrogar a consciência, na qual existe o símbolo vivo da existência verdadeira. Procurar a alma fora da consciência é negá-la, e em verdade a alma só pode ser encontrada no fundo da consciência".

Existem duas maneiras de abordar a questão - E ambas estão corretas:

1. A morte é o fim, o vazio, o sono eterno - Esta é a visão do homem material.

2. Existe transcendência para um plano espiritual, que a alma passa para um nível diferente e desconhecido - É a visão do homem espiritualista.

Qual das duas visões é a menos dolorosa? Certamente é o exemplificado pelos antigos rituais de sepultamento dos mortos, onde a morte era associada com a crença numa vida após a morte; isto trás alento ao sofrimento daquele que remanesce vivo. Sem a visão espiritualista o homem não é completo, pois sofre muito mais com a realidade da morte que o acometerá ao final de sua existência.

Na Maçonaria, fugir a morte não é difícil, pois lá se procura desenvolver o homem espiritual que existe dentro de cada um, isto torna as coisas mais fáceis, mais doces, leva o indivíduo a tornar-se mais tenro, tolerante e maleável. A cada iniciação o maçom morre simbolicamente para uma situação anterior, de modo que possa viver uma nova vida num nível mais elevado dali em diante. É o treinamento para aceitar a morte como algo natural e deduzir desta experiência a importância de aprender a morrer bem para viver sempre melhor. Tal desenvolvimento afasta do costume de escamotear a morte, em resultado da dificuldade que sente em lidar com ela, e aproxima mais da possibilidade de incrementar a capacidade do maçom de lidar com a vida, ajudando-o a discernir se a sua vida é, ou não, autêntica.

Bibliografia:

1. BENOÎT, Pierre; VAUX, Roland de, A Bíblia de Jerusalém, título original: La Sainte Bible, tradução: Samuel Martins Barbosa, primeira edição, Edições Paulinas, 1663 páginas, São Paulo, 1973;

2. COSTA, Cristina, Sociologia, Introdução à Ciência da Sociedade, ISBN 85-16-04810-1, terceira edição, Editora Moderna Ltda., 416 páginas, São Paulo, 2005;

3. DURANT, Will, A História da Filosofia, tradução: Luiz Carlos do Nascimento Silva, ISBN 85-351-0695-2, primeira edição, Editora Nova Cultural Ltda., 480 páginas, Rio de Janeiro, 1926;

4. MARTINS, Maria Helena Pires; ARANHA, Maria Lúcia de Arruda, Temas de Filosofia, ISBN 85-16-02110-6, primeira edição, Editora Moderna Ltda., 256 páginas, São Paulo, 1998;

5. PLATÃO, Defesa de Sócrates, Platão, Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, Coleção os Pensadores, tradução: Gilda Maria Reale Starzynski, Jaime Bruna, Líbero Rangel de Andrade, primeira edição, Victor Civita, 230 páginas, São Paulo, 1972.

Nota:

1. Seol é a transliteração comum para o português da palavra hebraica she'óhl, usada em várias traduções da Bíblia. Existem diversas explicações para o significado da palavra hebraica she'óhl mas é provável que a palavra seja uma derivação do verbo hebraico sha'ál, que significa "pedir; solicitar". Uma análise imparcial e abrangente de todas as ocorrências da palavra "Seol" ou "Hades", incluindo o contexto em que surgem, revela que estão sempre associadas com a morte e os mortos, não com a vida e os vivos. Essas palavras, intrinsecamente, não contêm nenhuma ideia ou sugestão de prazer ou de dor. Em todos os lugares em que Seol ocorre na Bíblia este nunca é associado com vida, atividade ou tormento. Antes, frequentemente é relacionado com a morte e inatividade. A palavra latina correspondente a Seol ou Hades é inférnus (às vezes ínferus). Esta palavra significa "o que jaz por baixo; a região inferior", e se aplica bem ao domínio da sepultura. Ela é assim uma apta aproximação dos termos grego e hebraico, não no significado que a palavra portuguesa inferno veio a ter no imaginário popular, como um lugar de tormento ardente, mas sim como a condição dos que estão mortos. "Seol" ou "Hades" ou "Inferno" refere-se, portanto, a algo muito mais abrangente do que um túmulo individual ou até mesmo uma grande sepultura coletiva. Por exemplo, Isaías 5:14 diz que o Seol "escancarou a sua boca além de medida". Embora o Seol já tenha engolido, por assim dizer, um incontável número de mortos, parece que sempre anseia mais, conforme Provérbios 30:15, 16. Ao contrário de qualquer cova ou túmulo, que pode receber apenas um número limitado de mortos, "o Seol não se farta", conforme Provérbios 27:20. Este contexto dá a entender que o Seol nunca fica cheio ou que não tem limites. Portanto, Seol ou Hades não é um lugar literal num local específico. Depreende-se que é a sepultura comum ou geral da humanidade, o lugar figurativo onde se encontra a maioria dos humanos falecidos.

Biografia:

1. Farias Brito ou Raimundo de Farias Brito, advogado, escritor, filósofo e político brasileiro. Nasceu em São Benedito, Ceará em 24 de julho de 1862. Faleceu em Rio de Janeiro, em 16 de janeiro de 1917, com 54 anos de idade. Considerado como um dos maiores nomes do pensamento filosófico brasileiro e autor de uma das mais completas obras filosóficas produzidas originalmente no Brasil, onde identificou os planos do conhecimento e do ser, voltando dogmaticamente à metafísica tradicional, de caráter espiritualista;

2. Karl Jaspers ou Karl Theodor Jaspers, filósofo e psiquiatra alemão. Nasceu em Oldenburg em 23 de fevereiro de 1883. Faleceu em Basiléia, em 26 de fevereiro de 1969, com 86 anos de idade. Considerado um dos principais representantes do pensamento existencialista;

3. Sócrates ou Sócrates de Atenas, filósofo de nacionalidade grega. Nasceu em Atenas em 468 a. C. Faleceu em 399 a. C. Um dos mais importantes pensadores de todos os tempos.

Data do texto: 05/09/2008

Sinopse do autor: Charles Evaldo Boller, engenheiro eletricista e maçom de nacionalidade brasileira. Nasceu em 4 de dezembro de 1949 em Corupá, Santa Catarina. Com 61 anos de idade.

Loja Apóstolo da Caridade 21 Grande loja do Paraná

Local: Curitiba

Grau do Texto: Aprendiz Maçom

Área de Estudo: Espiritualidade, Filosofia, Maçonaria, Religião, Ritualística, Sociologia

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