Charles Evaldo Boller
A tolerância religiosa e política constitui uma exigência
fundamental da convivência humana, especialmente em sociedades caracterizadas
pela diversidade de crenças, valores e concepções de mundo. Reconhecer essa
diversidade não significa abandonar as próprias convicções, mas compreender que
a dignidade das pessoas não depende de sua concordância conosco. Na Maçonaria,
particularmente no Rito Escocês Antigo e Aceito, a tolerância relaciona-se à
liberdade de consciência, à investigação da Verdade e à fraternidade. Para o
aprendiz maçom, esse princípio representa uma oportunidade de aperfeiçoamento
interior, pois exige superar preconceitos, disciplinar impulsos e aprender a
conviver respeitosamente com aqueles que pensam de maneira diferente.
A tolerância pressupõe a existência de diferenças consideradas
significativas. Não se trata simplesmente de aceitar aquilo que nos agrada, mas
de reconhecer o direito de outras pessoas sustentarem convicções das quais
discordamos. Sua dimensão moral manifesta-se quando o respeito permanece mesmo
diante de divergências profundas. Entretanto, tolerar não significa considerar
igualmente verdadeiras todas as afirmações, nem renunciar à possibilidade de
criticá-las. A distinção fundamental encontra-se entre contestar ideias e
desrespeitar a dignidade de quem as expressa.
John Locke, em sua Carta sobre a tolerância, desenvolveu
argumentos importantes em defesa da liberdade religiosa e da distinção entre as
atribuições do governo civil e as questões da consciência. Sua reflexão
contribuiu para o desenvolvimento moderno da tolerância, embora apresentasse
limitações históricas quanto à extensão desse princípio a determinados grupos.
Essa circunstância recorda que a própria compreensão da tolerância passou por
transformações e permanece sujeita ao aperfeiçoamento crítico.
Voltaire, em seu Tratado sobre a tolerância, denunciou
injustiças relacionadas ao fanatismo religioso e à perseguição de pessoas por
suas crenças. Sua contribuição demonstra que a intolerância não constitui
apenas uma deficiência individual de caráter, mas pode adquirir expressão
institucional e produzir consequências graves para a justiça. A defesa da
tolerância exige, portanto, atenção tanto às atitudes pessoais quanto às
estruturas sociais que permitem discriminações.
Immanuel Kant acrescenta uma dimensão moral à questão ao
fundamentar o respeito devido à humanidade presente em cada pessoa. Na
Fundamentação da Metafísica dos costumes, sua concepção de dignidade impede
reduzir indivíduos a instrumentos de interesses particulares. Aplicada à
convivência religiosa e política, essa exigência significa que nenhuma
divergência autoriza tratar o semelhante como alguém destituído de valor moral.
A tolerância política apresenta desafios próprios. A
participação na vida pública envolve diferentes interpretações sobre justiça,
liberdade, segurança e organização social. Essas divergências são legítimas
quando expressas por meios compatíveis com os direitos fundamentais e com a
convivência democrática. O pluralismo político não exige ausência de posições
firmes, mas disposição de reconhecer a legitimidade da participação dos demais.
A discordância deixa de ser ameaça quando encontra instituições capazes de
organizar conflitos sem recorrer à violência ou à exclusão arbitrária.
Historicamente, a consolidação da liberdade religiosa e política
esteve relacionada a processos prolongados de transformação institucional. A
separação entre autoridade religiosa e poder civil, o reconhecimento de
direitos individuais e o desenvolvimento do constitucionalismo contribuíram
para estabelecer condições de convivência entre grupos diferentes. Entretanto,
essas conquistas não eliminaram o fanatismo, a perseguição ou a discriminação,
demonstrando que a tolerância necessita de permanente sustentação ética e
institucional.
No simbolismo maçônico, o pavimento mosaico oferece uma imagem
expressiva da convivência entre diferenças. Seus elementos claros e escuros,
organizados em uma composição comum, permitem refletir sobre a possibilidade de
coexistência sem uniformidade. A diversidade não precisa produzir desordem
quando os participantes reconhecem princípios compartilhados de respeito e
justiça. O símbolo não elimina os contrastes; apresenta-os como elementos de
uma realidade que exige compreensão e equilíbrio.
O nível acrescenta uma dimensão essencial ao representar a
igualdade fundamental entre os irmãos. Diferenças religiosas, políticas,
econômicas ou culturais não devem ser convertidas em hierarquias de dignidade.
O reconhecimento dessa igualdade não impede o exercício da crítica, mas
estabelece limites morais à maneira de expressá-la. Ninguém precisa renunciar à
própria consciência para reconhecer a humanidade do outro.
O esquadro, associado à retidão, recorda que a tolerância também
exige honestidade. Não seria coerente defender a liberdade de consciência
enquanto se manipula deliberadamente a opinião alheia, se difundem acusações
infundadas ou se utiliza a autoridade para constranger divergências legítimas.
A retidão intelectual impõe examinar argumentos com justiça, evitando atribuir
intenções sem fundamento àqueles que sustentam posições diferentes.
A pedra bruta representa as imperfeições interiores que
dificultam a convivência tolerante. Preconceitos, orgulho, ressentimentos e
certezas inflexíveis podem transformar divergências em hostilidade. O trabalho
simbólico de aperfeiçoamento convida o aprendiz a reconhecer essas limitações e
desenvolver a capacidade de escutar antes de julgar. A tolerância começa quando
a consciência admite que sua própria perspectiva, embora sinceramente
defendida, não esgota todas as possibilidades de compreensão.
Na vida em Loja, a abstenção de discussões político-partidárias
e sectário-religiosas preserva um espaço comum de formação moral e
fraternidade. Essa disciplina institucional não exige que os irmãos abandonem
suas convicções pessoais, mas que reconheçam a finalidade própria dos trabalhos
maçônicos. Fora da Loja, cada cidadão conserva suas responsabilidades
religiosas, políticas e sociais, devendo exercê-las com respeito às leis, à
liberdade de consciência e à dignidade dos semelhantes.
A tolerância possui, entretanto, limites éticos. Respeitar
diferenças não significa aceitar práticas que neguem direitos fundamentais,
promovam violência ou impeçam outras pessoas de exercer sua liberdade. A defesa
da convivência exige distinguir o direito de sustentar convicções da pretensão
de impor coercitivamente essas convicções aos demais. A tolerância permanece
coerente consigo mesma quando protege a dignidade humana e as condições que
tornam possível o pluralismo.
A tolerância religiosa e política representa uma conquista moral
que precisa ser continuamente renovada pela consciência. Sua prática exige
firmeza de princípios sem arrogância, liberdade de pensamento sem desprezo e
respeito às diferenças sem indiferença perante a injustiça. Para o aprendiz
maçom, o pavimento mosaico recorda a possibilidade de convivência entre
contrastes, o nível reafirma a igualdade de dignidade e o esquadro orienta a
retidão das atitudes. A pedra bruta, por sua vez, demonstra que a intolerância
também pode existir dentro de nós, exigindo trabalho perseverante de
aperfeiçoamento. A verdadeira fraternidade não depende da uniformidade das
crenças, mas da capacidade de reconhecer, mesmo na divergência, a humanidade
compartilhada. Assim, a tolerância transforma-se em virtude ativa, fortalecendo
a ordem maçônica e contribuindo para uma sociedade mais justa, livre e
consciente.
Perguntas e Respostas
Esta seção reúne os fundamentos filosóficos e formativos da
tolerância religiosa e política em unidades de reflexão destinadas à instrução
de adultos. As perguntas procuram estimular o exame das convicções e das
atitudes pessoais, enquanto as respostas apresentam princípios essenciais para
o diálogo entre os irmãos. Seu propósito é favorecer a compreensão da liberdade
de consciência, do pluralismo e da responsabilidade moral na convivência com as
diferenças.
·
O que significa tolerância religiosa e política?
- Significa reconhecer o direito das pessoas de possuir e expressar convicções
diferentes, preservando sua dignidade e os direitos fundamentais.
·
Por que a tolerância não exige abandonar as
próprias convicções? - Porque respeitar o direito de discordar não significa
renunciar àquilo que se considera verdadeiro ou justo.
·
Qual é a diferença entre tolerância e
concordância? - A concordância representa a aceitação de uma ideia; a
tolerância preserva o respeito mesmo quando essa aceitação não existe.
·
Por que a liberdade de consciência é essencial à
tolerância? - Porque assegura a cada pessoa a possibilidade de formar e
sustentar convicções sem imposição arbitrária.
·
Qual é a contribuição de John Locke para a
tolerância religiosa? - Sua reflexão defende a liberdade de consciência e
distingue as atribuições do governo civil das questões religiosas.
·
O que a crítica de Voltaire ao fanatismo ensina?
- Que a intolerância pode produzir injustiças graves quando convicções
religiosas são utilizadas para justificar perseguições.
·
Como a dignidade humana fundamenta a tolerância?
- Ao estabelecer que o respeito devido às pessoas não depende de suas crenças,
opiniões ou posições políticas.
·
Por que o pluralismo político não elimina a
necessidade de princípios comuns? - Porque divergências legítimas exigem
respeito aos direitos fundamentais e às condições institucionais da
convivência.
·
Qual é o significado simbólico do pavimento
mosaico para a tolerância? - Representa a possibilidade de convivência
harmoniosa entre elementos diferentes, sem exigir uniformidade.
·
O que o nível ensina sobre as diferenças
religiosas e políticas? - Que nenhuma diferença de convicção justifica
considerar alguém inferior em dignidade.
·
Como o esquadro orienta a prática da tolerância?
- Recordando que o diálogo exige retidão, honestidade e respeito aos argumentos
e às pessoas.
·
O que a pedra bruta representa na superação da
intolerância? - Os preconceitos, o orgulho e os hábitos interiores que precisam
ser trabalhados para permitir uma convivência respeitosa.
·
Por que a Loja evita discussões político-partidárias
e sectário-religiosas? - Para preservar um ambiente comum de fraternidade e
aperfeiçoamento moral, sem exigir uniformidade das convicções pessoais.
·
A tolerância possui limites? - Sim. Ela não
exige aceitar violência, discriminação ou práticas que neguem direitos
fundamentais e destruam as condições da convivência.
·
Qual é a expressão mais elevada da tolerância
maçônica? - É preservar a fraternidade diante das diferenças, defendendo
simultaneamente a liberdade de consciência, a justiça e a dignidade humana.
Bibliografia Comentada
As referências selecionadas fundamentam a tolerância religiosa e
política como princípio moral, direito individual e condição de convivência em
sociedades plurais. Reúnem contribuições da filosofia moderna sobre liberdade
de consciência, dignidade humana e combate ao fanatismo, articuladas à
perspectiva formativa maçônica. A seleção permite compreender a tolerância como
virtude ativa, sem confundi-la com relativismo, indiferença ou aceitação da
injustiça.
1.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos
costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007. A concepção da
dignidade humana oferece fundamento ético para o respeito às pessoas
independentemente de suas convicções. A obra permite compreender que
divergências religiosas e políticas não autorizam instrumentalizar os
semelhantes nem negar-lhes o reconhecimento moral;
2.
LOCKE, John. Carta sobre a tolerância. A obra
defende a liberdade religiosa e distingue as competências do governo civil das
questões da consciência. Sua contribuição fundamenta historicamente a reflexão
sobre tolerância, embora suas limitações quanto à inclusão de determinados
grupos também exijam avaliação crítica;
3.
PARANÁ. Grande Loja do. Ritual do Grau 01:
Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito. 1. Ed. Curitiba: Grande Loja do
Paraná, 2021. 174 p. As Preliminares apresentam a tolerância como condição da
livre investigação da Verdade e estabelecem a abstenção de discussões
político-partidárias e sectário-religiosas nas oficinas. O simbolismo do grau
permite relacionar igualdade, retidão, diversidade e aperfeiçoamento moral;
4.
VOLTAIRE. Tratado sobre a tolerância. A obra
examina as consequências da intolerância religiosa e denuncia injustiças
associadas ao fanatismo. Sua contribuição demonstra que a tolerância possui uma
dimensão prática e institucional, exigindo proteção contra perseguições e
reconhecimento da liberdade de consciência;

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