sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A Tolerância Religiosa e Política

 Charles Evaldo Boller

A tolerância religiosa e política constitui uma exigência fundamental da convivência humana, especialmente em sociedades caracterizadas pela diversidade de crenças, valores e concepções de mundo. Reconhecer essa diversidade não significa abandonar as próprias convicções, mas compreender que a dignidade das pessoas não depende de sua concordância conosco. Na Maçonaria, particularmente no Rito Escocês Antigo e Aceito, a tolerância relaciona-se à liberdade de consciência, à investigação da Verdade e à fraternidade. Para o aprendiz maçom, esse princípio representa uma oportunidade de aperfeiçoamento interior, pois exige superar preconceitos, disciplinar impulsos e aprender a conviver respeitosamente com aqueles que pensam de maneira diferente.

A tolerância pressupõe a existência de diferenças consideradas significativas. Não se trata simplesmente de aceitar aquilo que nos agrada, mas de reconhecer o direito de outras pessoas sustentarem convicções das quais discordamos. Sua dimensão moral manifesta-se quando o respeito permanece mesmo diante de divergências profundas. Entretanto, tolerar não significa considerar igualmente verdadeiras todas as afirmações, nem renunciar à possibilidade de criticá-las. A distinção fundamental encontra-se entre contestar ideias e desrespeitar a dignidade de quem as expressa.

John Locke, em sua Carta sobre a tolerância, desenvolveu argumentos importantes em defesa da liberdade religiosa e da distinção entre as atribuições do governo civil e as questões da consciência. Sua reflexão contribuiu para o desenvolvimento moderno da tolerância, embora apresentasse limitações históricas quanto à extensão desse princípio a determinados grupos. Essa circunstância recorda que a própria compreensão da tolerância passou por transformações e permanece sujeita ao aperfeiçoamento crítico.

Voltaire, em seu Tratado sobre a tolerância, denunciou injustiças relacionadas ao fanatismo religioso e à perseguição de pessoas por suas crenças. Sua contribuição demonstra que a intolerância não constitui apenas uma deficiência individual de caráter, mas pode adquirir expressão institucional e produzir consequências graves para a justiça. A defesa da tolerância exige, portanto, atenção tanto às atitudes pessoais quanto às estruturas sociais que permitem discriminações.

Immanuel Kant acrescenta uma dimensão moral à questão ao fundamentar o respeito devido à humanidade presente em cada pessoa. Na Fundamentação da Metafísica dos costumes, sua concepção de dignidade impede reduzir indivíduos a instrumentos de interesses particulares. Aplicada à convivência religiosa e política, essa exigência significa que nenhuma divergência autoriza tratar o semelhante como alguém destituído de valor moral.

A tolerância política apresenta desafios próprios. A participação na vida pública envolve diferentes interpretações sobre justiça, liberdade, segurança e organização social. Essas divergências são legítimas quando expressas por meios compatíveis com os direitos fundamentais e com a convivência democrática. O pluralismo político não exige ausência de posições firmes, mas disposição de reconhecer a legitimidade da participação dos demais. A discordância deixa de ser ameaça quando encontra instituições capazes de organizar conflitos sem recorrer à violência ou à exclusão arbitrária.

Historicamente, a consolidação da liberdade religiosa e política esteve relacionada a processos prolongados de transformação institucional. A separação entre autoridade religiosa e poder civil, o reconhecimento de direitos individuais e o desenvolvimento do constitucionalismo contribuíram para estabelecer condições de convivência entre grupos diferentes. Entretanto, essas conquistas não eliminaram o fanatismo, a perseguição ou a discriminação, demonstrando que a tolerância necessita de permanente sustentação ética e institucional.

No simbolismo maçônico, o pavimento mosaico oferece uma imagem expressiva da convivência entre diferenças. Seus elementos claros e escuros, organizados em uma composição comum, permitem refletir sobre a possibilidade de coexistência sem uniformidade. A diversidade não precisa produzir desordem quando os participantes reconhecem princípios compartilhados de respeito e justiça. O símbolo não elimina os contrastes; apresenta-os como elementos de uma realidade que exige compreensão e equilíbrio.

O nível acrescenta uma dimensão essencial ao representar a igualdade fundamental entre os irmãos. Diferenças religiosas, políticas, econômicas ou culturais não devem ser convertidas em hierarquias de dignidade. O reconhecimento dessa igualdade não impede o exercício da crítica, mas estabelece limites morais à maneira de expressá-la. Ninguém precisa renunciar à própria consciência para reconhecer a humanidade do outro.

O esquadro, associado à retidão, recorda que a tolerância também exige honestidade. Não seria coerente defender a liberdade de consciência enquanto se manipula deliberadamente a opinião alheia, se difundem acusações infundadas ou se utiliza a autoridade para constranger divergências legítimas. A retidão intelectual impõe examinar argumentos com justiça, evitando atribuir intenções sem fundamento àqueles que sustentam posições diferentes.

A pedra bruta representa as imperfeições interiores que dificultam a convivência tolerante. Preconceitos, orgulho, ressentimentos e certezas inflexíveis podem transformar divergências em hostilidade. O trabalho simbólico de aperfeiçoamento convida o aprendiz a reconhecer essas limitações e desenvolver a capacidade de escutar antes de julgar. A tolerância começa quando a consciência admite que sua própria perspectiva, embora sinceramente defendida, não esgota todas as possibilidades de compreensão.

Na vida em Loja, a abstenção de discussões político-partidárias e sectário-religiosas preserva um espaço comum de formação moral e fraternidade. Essa disciplina institucional não exige que os irmãos abandonem suas convicções pessoais, mas que reconheçam a finalidade própria dos trabalhos maçônicos. Fora da Loja, cada cidadão conserva suas responsabilidades religiosas, políticas e sociais, devendo exercê-las com respeito às leis, à liberdade de consciência e à dignidade dos semelhantes.

A tolerância possui, entretanto, limites éticos. Respeitar diferenças não significa aceitar práticas que neguem direitos fundamentais, promovam violência ou impeçam outras pessoas de exercer sua liberdade. A defesa da convivência exige distinguir o direito de sustentar convicções da pretensão de impor coercitivamente essas convicções aos demais. A tolerância permanece coerente consigo mesma quando protege a dignidade humana e as condições que tornam possível o pluralismo.

A tolerância religiosa e política representa uma conquista moral que precisa ser continuamente renovada pela consciência. Sua prática exige firmeza de princípios sem arrogância, liberdade de pensamento sem desprezo e respeito às diferenças sem indiferença perante a injustiça. Para o aprendiz maçom, o pavimento mosaico recorda a possibilidade de convivência entre contrastes, o nível reafirma a igualdade de dignidade e o esquadro orienta a retidão das atitudes. A pedra bruta, por sua vez, demonstra que a intolerância também pode existir dentro de nós, exigindo trabalho perseverante de aperfeiçoamento. A verdadeira fraternidade não depende da uniformidade das crenças, mas da capacidade de reconhecer, mesmo na divergência, a humanidade compartilhada. Assim, a tolerância transforma-se em virtude ativa, fortalecendo a ordem maçônica e contribuindo para uma sociedade mais justa, livre e consciente.

Perguntas e Respostas

Esta seção reúne os fundamentos filosóficos e formativos da tolerância religiosa e política em unidades de reflexão destinadas à instrução de adultos. As perguntas procuram estimular o exame das convicções e das atitudes pessoais, enquanto as respostas apresentam princípios essenciais para o diálogo entre os irmãos. Seu propósito é favorecer a compreensão da liberdade de consciência, do pluralismo e da responsabilidade moral na convivência com as diferenças.

·         O que significa tolerância religiosa e política? - Significa reconhecer o direito das pessoas de possuir e expressar convicções diferentes, preservando sua dignidade e os direitos fundamentais.

·         Por que a tolerância não exige abandonar as próprias convicções? - Porque respeitar o direito de discordar não significa renunciar àquilo que se considera verdadeiro ou justo.

·         Qual é a diferença entre tolerância e concordância? - A concordância representa a aceitação de uma ideia; a tolerância preserva o respeito mesmo quando essa aceitação não existe.

·         Por que a liberdade de consciência é essencial à tolerância? - Porque assegura a cada pessoa a possibilidade de formar e sustentar convicções sem imposição arbitrária.

·         Qual é a contribuição de John Locke para a tolerância religiosa? - Sua reflexão defende a liberdade de consciência e distingue as atribuições do governo civil das questões religiosas.

·         O que a crítica de Voltaire ao fanatismo ensina? - Que a intolerância pode produzir injustiças graves quando convicções religiosas são utilizadas para justificar perseguições.

·         Como a dignidade humana fundamenta a tolerância? - Ao estabelecer que o respeito devido às pessoas não depende de suas crenças, opiniões ou posições políticas.

·         Por que o pluralismo político não elimina a necessidade de princípios comuns? - Porque divergências legítimas exigem respeito aos direitos fundamentais e às condições institucionais da convivência.

·         Qual é o significado simbólico do pavimento mosaico para a tolerância? - Representa a possibilidade de convivência harmoniosa entre elementos diferentes, sem exigir uniformidade.

·         O que o nível ensina sobre as diferenças religiosas e políticas? - Que nenhuma diferença de convicção justifica considerar alguém inferior em dignidade.

·         Como o esquadro orienta a prática da tolerância? - Recordando que o diálogo exige retidão, honestidade e respeito aos argumentos e às pessoas.

·         O que a pedra bruta representa na superação da intolerância? - Os preconceitos, o orgulho e os hábitos interiores que precisam ser trabalhados para permitir uma convivência respeitosa.

·         Por que a Loja evita discussões político-partidárias e sectário-religiosas? - Para preservar um ambiente comum de fraternidade e aperfeiçoamento moral, sem exigir uniformidade das convicções pessoais.

·         A tolerância possui limites? - Sim. Ela não exige aceitar violência, discriminação ou práticas que neguem direitos fundamentais e destruam as condições da convivência.

·         Qual é a expressão mais elevada da tolerância maçônica? - É preservar a fraternidade diante das diferenças, defendendo simultaneamente a liberdade de consciência, a justiça e a dignidade humana.

Bibliografia Comentada

As referências selecionadas fundamentam a tolerância religiosa e política como princípio moral, direito individual e condição de convivência em sociedades plurais. Reúnem contribuições da filosofia moderna sobre liberdade de consciência, dignidade humana e combate ao fanatismo, articuladas à perspectiva formativa maçônica. A seleção permite compreender a tolerância como virtude ativa, sem confundi-la com relativismo, indiferença ou aceitação da injustiça.

1.      KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007. A concepção da dignidade humana oferece fundamento ético para o respeito às pessoas independentemente de suas convicções. A obra permite compreender que divergências religiosas e políticas não autorizam instrumentalizar os semelhantes nem negar-lhes o reconhecimento moral;

2.      LOCKE, John. Carta sobre a tolerância. A obra defende a liberdade religiosa e distingue as competências do governo civil das questões da consciência. Sua contribuição fundamenta historicamente a reflexão sobre tolerância, embora suas limitações quanto à inclusão de determinados grupos também exijam avaliação crítica;

3.      PARANÁ. Grande Loja do. Ritual do Grau 01: Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito. 1. Ed. Curitiba: Grande Loja do Paraná, 2021. 174 p. As Preliminares apresentam a tolerância como condição da livre investigação da Verdade e estabelecem a abstenção de discussões político-partidárias e sectário-religiosas nas oficinas. O simbolismo do grau permite relacionar igualdade, retidão, diversidade e aperfeiçoamento moral;

4.      VOLTAIRE. Tratado sobre a tolerância. A obra examina as consequências da intolerância religiosa e denuncia injustiças associadas ao fanatismo. Sua contribuição demonstra que a tolerância possui uma dimensão prática e institucional, exigindo proteção contra perseguições e reconhecimento da liberdade de consciência;

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