segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Cuidar de Si para Amar e Servir

 Charles Evaldo Boller

Por que cuidar primeiro de si mesmo? À primeira vista, a pergunta pode parecer incompatível com a máxima de amar e servir ao próximo. Entretanto, ninguém oferece conscientemente aquilo que ainda não desenvolveu em si. O cuidado de si, compreendido filosoficamente, não significa egoísmo, mas preparação. Conhecer-se, educar o pensamento, disciplinar as emoções e cultivar a espiritualidade constituem condições para que o amor fraterno deixe de ser apenas princípio proclamado e se transforme em atitude vivida.

A formação maçônica convida o homem a tornar-se investigador da Verdade e a aperfeiçoar-se na suprema arte do pensamento. Conhecer os princípios da Arte Real, nesse sentido, não consiste apenas em acumular informações. Significa trabalhar sobre a própria consciência. A Loja oferece ambiente particularmente favorável a esse exercício porque estabelece disciplina, regularidade, convivência e propósito. Um clube, um bar, um teatro ou um cinema podem proporcionar cultura, entretenimento e sociabilidade, mas não foram estruturados especificamente para estimular o trabalho sistemático de transformação de si mesmo.

A convivência em Loja, contudo, não elimina divergências. Irmãos possuem experiências, temperamentos, convicções e maneiras diferentes de interpretar a realidade. Os atritos nos campos do pensamento e da opinião são, portanto, possíveis. É precisamente aí que a Tolerância deixa de ser conceito abstrato e se torna exercício. Tolerar não significa concordar com tudo nem abolir limites. Significa impedir que a diferença se converta automaticamente em hostilidade.

Podemos representar simbolicamente esse processo recorrendo à imagem de um circuito elétrico. Assim como filtros reduzem frequências indesejáveis e capacitores acumulam energia para contribuir com a estabilidade de um sistema, o maçom pode desenvolver filtros interiores capazes de selecionar aquilo que admite em sua consciência e a maneira como responde aos estímulos recebidos. A analogia não pretende afirmar literalmente a existência de fenômenos elétricos ou campos energéticos entre os irmãos; sua força está em ilustrar a disciplina necessária para que pensamentos, palavras e reações não sejam governados pelo impulso.

Nesse trabalho, cada maçom é estimulado de maneira diferente. A simbologia e a filosofia maçônicas podem favorecer o desenvolvimento de princípios éticos fundamentados numa compreensão espiritual da existência, mas esse desenvolvimento exige sensibilidade, estudo e aplicação. A simples presença em Loja não realiza automaticamente a transformação. É necessário participar interiormente do processo.

Cuidar de si mesmo significa, portanto, preparar-se para cuidar melhor do outro. Conhecimento sem fraternidade torna-se estéril; fraternidade sem trabalho interior pode permanecer apenas intenção. Quando o homem aprende a governar a si mesmo, torna-se mais capaz de amar os irmãos, servir à ordem maçônica e reconhecer no outro uma expressão da mesma dignidade humana. Assim, aperfeiçoar-se, tolerar, amar e servir deixam de ser caminhos separados: tornam-se etapas de uma mesma construção da consciência.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução, textos adicionais e notas de Edson Bini. 4. Ed. São Paulo: Edipro, 2014. A investigação aristotélica das virtudes e da formação do caráter fundamenta a compreensão do aperfeiçoamento como resultado da prática reiterada. Contribui especialmente para relacionar hábitos, escolhas conscientes, convivência e formação ética à construção progressiva de uma vida orientada pelo bem;

2.      FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000. A obra compreende o amor não apenas como sentimento, mas como capacidade que exige maturidade, autoconhecimento, prática e dedicação. Fundamenta diretamente a reflexão sobre cuidar de si para desenvolver condições interiores que permitam amar fraternalmente e estabelecer relações humanas responsáveis;

3.      HADOT, Pierre. Exercícios espirituais e filosofia antiga. São Paulo: É Realizações, 2014. Hadot recupera a concepção antiga da filosofia como maneira de viver e exercício de transformação do indivíduo. Sua abordagem sustenta a ideia de que conhecimento filosófico autêntico deve ultrapassar a aquisição intelectual e repercutir sobre pensamento, comportamento e relação com os outros;

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