Charles Evaldo Boller
Por que cuidar primeiro de si mesmo? À primeira vista, a
pergunta pode parecer incompatível com a máxima de amar e servir ao próximo.
Entretanto, ninguém oferece conscientemente aquilo que ainda não desenvolveu em
si. O cuidado de si, compreendido filosoficamente, não significa egoísmo, mas
preparação. Conhecer-se, educar o pensamento, disciplinar as emoções e cultivar
a espiritualidade constituem condições para que o amor fraterno deixe de ser
apenas princípio proclamado e se transforme em atitude vivida.
A formação maçônica convida o homem a tornar-se investigador da
Verdade e a aperfeiçoar-se na suprema arte do pensamento. Conhecer os
princípios da Arte Real, nesse sentido, não consiste apenas em acumular
informações. Significa trabalhar sobre a própria consciência. A Loja oferece
ambiente particularmente favorável a esse exercício porque estabelece disciplina,
regularidade, convivência e propósito. Um clube, um bar, um teatro ou um cinema
podem proporcionar cultura, entretenimento e sociabilidade, mas não foram
estruturados especificamente para estimular o trabalho sistemático de
transformação de si mesmo.
A convivência em Loja, contudo, não elimina divergências. Irmãos
possuem experiências, temperamentos, convicções e maneiras diferentes de
interpretar a realidade. Os atritos nos campos do pensamento e da opinião são,
portanto, possíveis. É precisamente aí que a Tolerância deixa de ser conceito
abstrato e se torna exercício. Tolerar não significa concordar com tudo nem
abolir limites. Significa impedir que a diferença se converta automaticamente
em hostilidade.
Podemos representar simbolicamente esse processo recorrendo à
imagem de um circuito elétrico. Assim como filtros reduzem frequências
indesejáveis e capacitores acumulam energia para contribuir com a estabilidade
de um sistema, o maçom pode desenvolver filtros interiores capazes de
selecionar aquilo que admite em sua consciência e a maneira como responde aos
estímulos recebidos. A analogia não pretende afirmar literalmente a existência
de fenômenos elétricos ou campos energéticos entre os irmãos; sua força está em
ilustrar a disciplina necessária para que pensamentos, palavras e reações não
sejam governados pelo impulso.
Nesse trabalho, cada maçom é estimulado de maneira diferente. A
simbologia e a filosofia maçônicas podem favorecer o desenvolvimento de
princípios éticos fundamentados numa compreensão espiritual da existência, mas
esse desenvolvimento exige sensibilidade, estudo e aplicação. A simples
presença em Loja não realiza automaticamente a transformação. É necessário
participar interiormente do processo.
Cuidar de si mesmo significa, portanto, preparar-se para cuidar
melhor do outro. Conhecimento sem fraternidade torna-se estéril; fraternidade
sem trabalho interior pode permanecer apenas intenção. Quando o homem aprende a
governar a si mesmo, torna-se mais capaz de amar os irmãos, servir à ordem maçônica
e reconhecer no outro uma expressão da mesma dignidade humana. Assim,
aperfeiçoar-se, tolerar, amar e servir deixam de ser caminhos separados:
tornam-se etapas de uma mesma construção da consciência.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução, textos
adicionais e notas de Edson Bini. 4. Ed. São Paulo: Edipro, 2014. A
investigação aristotélica das virtudes e da formação do caráter fundamenta a
compreensão do aperfeiçoamento como resultado da prática reiterada. Contribui
especialmente para relacionar hábitos, escolhas conscientes, convivência e
formação ética à construção progressiva de uma vida orientada pelo bem;
2.
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins
Fontes, 2000. A obra compreende o amor não apenas como sentimento, mas como
capacidade que exige maturidade, autoconhecimento, prática e dedicação.
Fundamenta diretamente a reflexão sobre cuidar de si para desenvolver condições
interiores que permitam amar fraternalmente e estabelecer relações humanas
responsáveis;
3.
HADOT, Pierre. Exercícios espirituais e
filosofia antiga. São Paulo: É Realizações, 2014. Hadot recupera a concepção
antiga da filosofia como maneira de viver e exercício de transformação do
indivíduo. Sua abordagem sustenta a ideia de que conhecimento filosófico
autêntico deve ultrapassar a aquisição intelectual e repercutir sobre
pensamento, comportamento e relação com os outros;

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