quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Pensar como Exercício de Liberdade

 Charles Evaldo Boller

A capacidade de pensar constitui uma das expressões mais profundas da liberdade humana. Entretanto, possuir inteligência não significa necessariamente exercê-la de maneira crítica. O conhecimento pode ser acumulado, repetido e transmitido sem que ocorra verdadeira reflexão. Para a ordem maçônica, essa distinção adquire particular importância: instruir não consiste simplesmente em oferecer respostas, mas em criar condições para que o irmão examine ideias, confronte certezas e desenvolva autonomia de consciência.

Pensar exige esforço. A repetição, ao contrário, oferece segurança. Uma resposta pronta elimina provisoriamente a inquietação da dúvida, enquanto a reflexão obriga o indivíduo a reconhecer limites, avaliar argumentos e assumir responsabilidade pelas próprias conclusões. Essa diferença aproxima-se da distinção estabelecida por Immanuel Kant (1724-1804), em Resposta à Pergunta: Que é Esclarecimento? De 1784. Para Kant, o esclarecimento envolve a capacidade de utilizar o próprio entendimento sem permanecer intelectualmente dependente da orientação de terceiros. A autonomia, portanto, não significa simplesmente conhecer muitas coisas, mas adquirir coragem intelectual para julgar.

Esse problema permanece relevante mesmo em ambientes de elevada formação científica. O domínio técnico, por si só, não assegura pensamento crítico. Uma pessoa pode memorizar teorias, dominar procedimentos complexos e reproduzir argumentos consagrados sem investigar seus pressupostos. Educação e autonomia intelectual são realidades relacionadas, mas não equivalentes. É precisamente nesse espaço que a andragogia encontra uma de suas funções essenciais: o adulto não deve ser tratado como recipiente destinado a receber conteúdos acabados, mas como consciência capaz de interpretar, questionar, relacionar experiências e reconstruir conhecimentos.

O simbolismo maçônico da Luz oferece uma representação particularmente fecunda desse processo. Receber Luz não pode significar receber um conjunto definitivo de respostas. Se assim fosse, a iniciação substituiria uma dependência intelectual por outra. A Luz adquire significado filosófico quando permite enxergar, distinguir e investigar. Ela não determina aquilo que o maçom deve pensar; amplia sua responsabilidade sobre como pensa. Nesse sentido, o trabalho realizado em Loja encontra correspondência na construção da autonomia: desbastar a pedra significa também reconhecer preconceitos, automatismos, opiniões herdadas e certezas nunca examinadas.

Uma sociedade composta por indivíduos habituados apenas à repetição torna-se intelectualmente vulnerável, independentemente de quem pretenda influenciá-la. O problema fundamental não está apenas na existência de discursos persuasivos, autoridades ou interesses organizados, mas na renúncia pessoal ao exame crítico. O maçom encontra aí uma responsabilidade especialmente significativa. Seu aperfeiçoamento não consiste em substituir antigas respostas prontas por novas fórmulas, ainda que revestidas de simbolismo. Consiste em aprender a interrogar, comparar, fundamentar e, quando necessário, revisar suas próprias convicções. A verdadeira construção da consciência começa quando a Luz deixa de ser apenas símbolo recebido e se converte em disciplina permanente do pensamento, colocada a serviço do homem, da ordem maçônica e da liberdade interior.

Bibliografia Comentada

1.      DEWEY, John. How we think. Boston: D. C. Heath & Co., 1910. A obra examina o pensamento reflexivo como processo de investigação que supera respostas automáticas e opiniões não examinadas. Fundamenta a distinção entre acumular informações e desenvolver hábitos intelectuais capazes de investigar evidências, formular problemas e construir juízos fundamentados. Google Livros

2.      KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: Que é esclarecimento? In: KANT, Immanuel. Textos seletos. Tradução de Floriano de Sousa Fernandes. Petrópolis: Vozes, 1974. O ensaio de 1784 constitui fundamento filosófico central para a autonomia intelectual, associando esclarecimento à superação da dependência do entendimento alheio e à disposição para utilizar a própria razão. Wikisource

3.      MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Tradução de Catarina Eleonora F. Da Silva e Jeanne Sawaya. 2. Ed. Reverendo São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2011. Morin amplia a discussão ao examinar problemas fundamentais do conhecimento e da educação, favorecendo uma formação capaz de reconhecer complexidade, incerteza e limites cognitivos em lugar da reprodução fragmentária de informações. RIA UFRN

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