quarta-feira, 15 de junho de 2011

O Edifício Social

Ensaio sobre a atividade de desmonte e possibilidade de reconstrução do edifício social.

Charles Evaldo Boller


O edifício social é construído para que o cidadão possua o atributo humano para desenvolver sua dignidade e desde era remota vem desenvolvendo sua humanidade em sociedades cada vez mais organizadas e complexas. Na Maçonaria o maçom destaca a honra e nobreza já perseguidas desde sociedades mais antigas e combate os inimigos da dignidade humana: a falsa liberdade, aquela que transforma a vida para o mal em resultado de vida e procedimentos dissolutos como desregramento moral; promoção da falsa ordem que redunda em anarquia, a falsa humanidade como consequência do despotismo das massas. Estas ideias de combate surgiram no Iluminismo alemão e foram introduzidos nas leis e dispositivos legais hodiernos.

Com o crescimento da população e conspiração ideológica, o estabelecimento destas leis colocou fora do controle a sua aplicação. O progresso tecnológico deu lugar a guerras de dominação sem lutas armadas e onde passaram a figurar povos dominantes e dominados em larga escala. Desapareceram as classes dos escravos e homens livres; hoje todos estão de alguma forma presos ao um nefasto sistema onde uma minoria explora a maioria em seus próprios prejuízos; em detrimento do edifício social que vai desfalecendo. Presa de paixões e vícios a sociedade humana derruba constantemente a soberania da igualdade e da justiça.

Aquela dignidade que era respeitada de forma natural pelos antigos passou a ser aviltada e desrespeitada no edifício social hodierno que obriga os miseráveis e oprimidos a se escravizarem de forma indigna para sobreviver. Negam-se às pessoas os direitos mais rudimentares de liberdade, desviando-os do estado de direito e gerando homens desesperados que enveredam ao crime organizado, quebrando uma cultura natural que também tinha seus defeitos, mas preservava valores hoje esvaziados e ridicularizados. A instituição familiar está de tal forma arruinada que, para coibir o crescimento populacional os governos permitem, e até incentivam, a união conjugal de pessoas do mesmo sexo. A violência não é combatida de forma eficaz apenas para manter o terror e a submissão. A saúde é negligenciada para reduzir a sobrevida do cidadão e diminuir a população.

O maçom estuda as diferenças entre orgulho, vaidade e egoísmo para esta época marcada pelo avilte da dignidade humana onde ele levanta-se contra a tendência de desestruturação do edifício social, inspirado na lenda da Torre de Babel descrita na bíblia judaico-cristã e que representa a confusão e desestruturação da sociedade. O mundo civilizado vive em permanente atividade para desconstruir a sociedade, gerando conflitos sociais e derrubando o edifício social na sarjeta; é do interesse das classes dominantes manter os mais fracos submissos ao seu sistema de domínio. Grandes humanistas como Joaquim Nabuco e Rousseau, em seu tempo, já apontavam para esta degradante situação e em seus trabalhos filosóficos buscam resgatar a humanidade do retorno à barbárie.

O maçom é inspirado a levar para a sua célula social a devida reação contra toda e qualquer injustiça promovida pelos grandes e poderosos. Prove auxílio para os que sofrem alguma forma de tratamento desigual pela justiça, delatando juízes e políticos prevaricadores e corruptos. Auxilia aos que foram aviltados por extorsões, abusos e violências. É inspirado a estabelecer justiça humana condizente com as necessidades para estabelecer a dignidade humana e estabilizar as bases da sociedade ordeira e progressista. Incentiva-se a integridade mantida a semelhança de Noé, quando este foi justo e modesto fugindo ao orgulho que vitimou o planejador do projeto da edificação que deveria alcançar as nuvens e ficou conhecida como torre de Babel, símbolo da confusão hoje representado pelo sistema que oprime e escraviza.

A dignidade humana com liberdade é o meio necessário para que o homem construa o edifício social assentado nos valores da natureza humana. O respeito pela liberdade faz o homem equilibrado constituir a sociedade organizada no humanismo, valorizando o homem. Dignidade só aflora com liberdade. E isto só se conquista quando se reconhecem os valores internos do homem e não suas posses materiais ou dotes intelectuais. A vaidade é a pior componente do avilte do homem por outro homem. Descendente do sentimento social e do desejo de aprovação que condiciona os homens a se tornarem agradáveis como exercício de falsidade e hipocrisia; faz com que um homem queira ser mais importante que o outro, é quando o orgulho, a autoestima em demasia o leva a promover a submissão de outros homens pela força. A consequência disso leva ao desmonte do edifício social.

A escravidão nos antigos moldes é rara nos dias de hoje. A subjugação do homem é parcial, mas tão repugnante como a antiga, onde um ser humano podia ser conduzido a uma condição de propriedade de outro. O que avilta os alicerces do edifício da sociedade de hoje é a ultrajante desigualdade social que pode ser resolvida por vontade política. Existem recursos financeiros, humanos e tecnológicos suficientes para eliminar a mácula da servidão e miséria em questão de pouco tempo. Mas como hoje as pessoas são dominadas pela economia, tecnologia e falta de acesso aos bens de consumo e oportunidades em virtude da presença de imensos e intransponíveis vales do desnível social, esta realidade parece querer perpetuar-se.

O edifício social humano melhorou em artificialidades e técnica, mas não em valores sociais; nisso a degradação e desmonte é visível - existe uma grande opressão à dignidade humana em virtude da dificuldade de acesso a melhores oportunidades e suporte de condições de vida em decorrência do manipulado descontrole econômico ao sabor dos interesses de uns poucos grupos de poder mundial.

Na Maçonaria busca-se a presença da premente necessidade do despertar da consciência individual, de consciência universal para obter liberdade necessária para nutrir a dignidade e construir uma sociedade liberta em sentido lato. Não é o caso de nova ideologia político partidária, mas de marcha em sentido de restaurar valores e elevar o respeito à dignidade humana num pedestal onde o egoísmo humano não a possa tocar. Isto faz aflorar uma nova organização social. É pela reorganização dos pilares que suportam a justiça social que o homem adquire a liberdade necessária para obter dignidade de vida e de onde obtém forças para construir um edifício social digno para si e seus descendentes. Com o aparecimento e desenvolvimento da liberdade individual despertará a consciência social e a vontade de servir às causas comuns da sociedade.

As palavras em nossa constituição federal são lindas e poéticas, mas a sua consecução é um desastre em virtude da falta de força e do interesse alienígena de fazer do povo escravos para o sistema aviltante que escraviza. Tem a dignidade humana como fundamento, mas esta é apenas teoria. Fala-se em erradicação de pobreza, que poderia ser eliminada num soco só, bastaria, para tanto, apenas vontade política. Ao invés disso criou-se uma geração de dependentes e indolentes sem vontade alguma de trabalhar para construir e manter os valores do edifício social. Inclusive contém em seus artigos previsão que coíbe tratamento degradante e aviltante, mas a realidade dos corredores de hospitais, escolas e lares estão recheadas de péssimos exemplos de má gestão da coisa pública, quando não desvio de verbas e outros crimes de lesa-pátria. Arrogam-se proteção aos desamparados e esta não passa de mero ensaio, de um faz de conta que não tem fim. Propala-se a base da ordem social e do bem estar e justiça social e isto não passa de teatro, encenação até bem pobre, pois é notória até ao mais simples cidadão. Dispositivos legais existem em profusão, mas não protegem a dignidade humana, antes, degradam-na e aviltam de forma ultrajante. Leis existem, mas faltam força e vontade na sua aplicação.

Para o edifício social existir em sua plenitude, a ação conjunta da sociedade deve fortalecer os direitos fundamentais do homem com liberdade; só então este poderá conquistar vida digna. O que impede a aplicação do diversificado cabedal de boas leis é ganância, vaidade, orgulho e outros pecados. Apenas o amor é capaz de tornar os homens mais modestos e livres. Longe de paixões e desejos exagerados passarão a enobrecer a pratica de virtudes, obedecerão às leis, respeitarão os direitos dos outros e cumprirão seus deveres de forma aceitável e natural. A educação estará em primeiro plano no planejamento dos governantes. Liberdade de imprensa e da palavra possibilitará correção de rumos. Assim que o maçom acorda em si esta disposição ele fará a diferença no mundo em que vive. Se o fizer em seu lar já é de bom tamanho. Se obtiver o privilégio de dirigir a política e chegar ao ponto de poder influenciar nas decisões de poder e com sua atuação construir o edifício social, então se dará glória ao Grande Arquiteto do Universo e o homem escravo recuperará naturalmente a sua dignidade.


Bibliografia

1. ANATALINO, João, Conhecendo a Arte Real, A Maçonaria e Suas Influências Históricas e Filosóficas, ISBN 978-85-370-0158-5, primeira edição, Madras Editora limitada., 320 páginas, São Paulo, 2007;

2. GREGÓRIO, Fernando César, Ética e Maçonaria, Opúsculos do Livre Pensamento, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha limitada., 190 páginas, Londrina, 2005;

3. ISRAEL, Jonathan I., Iluminismo Radical a Filosofia e a Construção da Modernidade 1650-1750, Radical Enlighttenment, Philosofy, Making of Modernity, 1650-1750, tradução: Cláudio Blanc, ISBN 978-85-370-0432-6, primeira edição, Madras Editora limitada., 878 páginas, São Paulo, 2009;

4. ROHDEN, Humberto, Educação do Homem Integral, primeira edição, Martin Claret Editores Limitada, 140 páginas, São Paulo, 2007;

5. ROUSSEAU, Jean-Jacques, A Origem da Desigualdade Entre os Homens, tradução: Ciro Mioranza, primeira edição, Editora Escala, 112 páginas, São Paulo, 2007;

6. SOFISTE, Joarez, A Problemática do Homem, ISBN 978-85-99396-09-04? Primeira edição, Quadrioffice Editora, 234 páginas, Curitiba, 2009;

sábado, 14 de maio de 2011

Valor da Intolerância

A intolerância na construção social.
Definição da intolerância como a única realmente válida.
Na sociedade humana existe apenas intolerância.

Charles Evaldo Boller


Já observou o quanto a intolerância desmedida torna o indivíduo tolo? Principalmente porque é sempre ligada aos abusos de intolerância cometidos por sistemas de governos absolutistas e religiões, a intolerância é objeto de ódio profundo, como um grande mal da humanidade. Não lhe dão valor algum. É injusto dar valor apenas à tolerância. A intolerância possui tanto valor quanto a tolerância. Inclusive, até mais.

O que aconteceria se fosse possível calar todas as mentes pensantes? Trazer as pessoas numa tal dependência que não tenham mais a mínima coragem de proferir nenhuma palavra, a não ser com o consentimento daquele sentado no trono do poder? Felizmente não é assim! Brutos déspotas não conseguem ver, ouvir ou parar o pensamento de ninguém. O homem "ainda" tem a possibilidade de manter o pensamento bloqueado ao tirano e manter a mente livre do alcance deste. Aquele que exerce autoridade arbitrária não obtém sucesso em obrigar as pessoas a pensarem exatamente igual ao que sua tirânica disposição define. Se fosse possível seria o fim da boa-fé - a retidão ou pureza de intenções; a sinceridade - a necessidade máxima do estado, a qual se corromperia, incrementando a hipocrisia e a adulação. O aumento da deslealdade faria aflorar uma sociedade corrupta em todas as relações sociais.

Não se vive algo assemelhado? Já sem penetrar o pensamento, apenas manipulando a distribuição das riquezas e das oportunidades, o déspota impõe sua vontade aos cidadãos e os manobra quais cordeiros. Como o faz? Com o tempo, a intromissão do estado na vida do cidadão, através das leis, debilita o vínculo social e subjuga a consciência de cada cidadão pela exploração da miséria e da ignorância. É o lado negro da Democracia.

São estabelecidos pisos para investimento na educação em todos os níveis do poder, mas estes pisos passam a ser interpretados como tetos. Por truques e artimanhas administrativas e legais investe-se cada vez menos na educação, a qual seria importante válvula de escape da sociedade de livrar-se do despotismo. Com o acirramento da ignorância aparece o fanatismo entre as diversas relações dos cidadãos. A liberdade aos poucos é tomada e caminha-se para um estado de desvio de regras e padrões, para a intolerância descabida, a um estado despótico.

Um regime tolerante tem batalha perpétua na obtenção da liberdade do cidadão. E desta liberdade emana o poder que mantém o governante em seu posto. Mas esta concessão de liberdade pode ferir o estado profundamente. Para evitá-lo deve existir um forte esquema de segurança para o estado, porque do outro lado, quanto mais goza de liberdade de pensar, de se manifestar, mais aumenta a hostilidade do cidadão contra o poder estabelecido. É parte da índole do homem abusar quando experimenta liberdade. Um governo deve administrar a coisa pública em geral e não favorecer os interesses de indivíduos ou grupos. O poder não pode ceder às minorias ou indivíduos que visam obter vantagens para espoliar o bem público. Obter o equilíbrio entre o poder do estado e liberdade do cidadão é a tolerância instituída. É a melhor política, mas para funcionar, certos mecanismos de intolerância devem ser postos em prática.

Para um governo equilibrado, quais seriam os limites para impor a certeza de estar de posse de uma verdade absoluta? O maçom, e hoje a filosofia pós-moderna, sabe que a verdade absoluta não existe. Como fazer para evitar o uso da força e reprimir a vontade do governante déspota de impor sua vontade por anuência ou repressão? A história conta como o poder político sempre usa da violência legal para subjugar o cidadão, escravizando-o de uma forma ou outra. Esquema de segurança forte demais para o Estado, fatalmente leva ao abuso do governante. Muita liberdade para o cidadão certamente leva ao abuso de liberdade. De um lado o tirano, de outro, o libertino inconsequente. Isto instituiu a necessidade de estabelecer limites para a tolerância. Impõem a necessidade de exercer intolerância sobre alguns aspectos da convivência social; é a razão da existência das leis que são a maior expressão da intolerância institucional da sociedade.

Já que a verdade absoluta não existe, a intolerância das leis deve ser mantida aos que ensinam princípios que ameaçam a convivência pacífica entre os cidadãos e os bons costumes; aos grupos, religiões ou seitas que reservam prerrogativas contrárias ao direito civil; ao dano moral e material; ao comportamento de uma minoria que prejudica a maioria; e mesmo com o perigo da generalização pode-se definir que os limites da tolerância podem ser resumidos num único princípio: de que a intolerância não pode ser tolerada, na medida em que, prevalecendo ela, não seria mais possível a tolerância.

Tanto a intolerância como a tolerância têm a ver com a manipulação do mal. E isto traz confusão. Se uma tratasse do mal e a outra do bem seria fácil de entender. Não havendo intolerância para que tolerância? Havendo tolerância ao extremo ela mesma se anula. Havendo intolerância ao extremo ela anula a possibilidade de tolerância. São apenas conceitos diferentes para o mesmo objetivo; minimizar os efeitos do mal. Ser tolerante ou intolerante com o mal, o que é mais importante? A primeira exige sacrifício; não existe tolerância sem sacrifício. A segunda exige poder e força. A intolerância movida pelo fanatismo é a pior expressão do mal contra o progresso da humanidade. Intolerância extrema torna o homem sanguinário. Considerado o lado bestial do ser humano, subjugado apenas ao rigor da lei, a intolerância emanada da lei deve existir equilibrada no limite até onde a tolerância fica impossível; senão o estado totalitário abusaria do expediente de pressionar o cidadão usando dos rigores da lei o que tornaria sua vida difícil. Este equilíbrio é necessário em todos os ambientes sociais onde existe disputa de poder ou geração de medo. Não fica restrita à determinada linha de tempo, mas em todas as épocas, a cada relação de força do Estado e o cidadão ou entre pessoas.

A intolerância ao mal é importante na vida em sociedade. Sem intolerância ao mal a sociedade não tem como subsistir. A intolerância não é algo a ser banido do pensamento, mas carece de uso equilibrado para o estabelecimento de relações estáveis e pacíficas entre as pessoas; é o que torna possível a vida em comum entre povos e nações. "Tolerância mútua é uma necessidade em todos os tempos, e para todas as raças. Tolerância não significa aceitar o que se tolera", (Mahatma Gandhi). Este é o exercício filosófico de Voltaire: "a intolerância é fruto do fanatismo; o único remédio para superá-la está na filosofia". Muitas vezes a verdade fica oculta por não se olharem os vários lados de uma questão. Existe aquele que se diz tolerante e abomina a intolerância apenas porque, por razões simplistas, não avaliou que a intolerância também tem seu valor. Se levado ao extremo da lógica, só a intolerância existe. Se a tolerância for levada ao extremo, inviabiliza a própria tolerância; uma sociedade tolerante ao absoluto já não é mais uma sociedade humana. A tolerância é considerada uma virtude menor, pois quando se diz que se tolera algo, aflora embutido neste pensamento a intolerância. O valor da intolerância está nisso: apenas ela existe de fato. Dizer que se tolera algo define em realidade que não se tolera aquilo; exerce-se apenas intolerância. Ser tolerante significa que se está exercendo intolerância até o limite onde, existindo apenas tolerância, a própria tolerância desaparece.

Quando a ordem maçônica se denomina tolerante para com todas as religiões significa que a intolerância é reduzida; a intolerância existe. No laboratório que pretende reproduzir uma sociedade igualitária não existe igualdade de fato. Existe intolerância para situações onde mentira e verdade é confundida para embaralhar a moral, mas até nestes casos, quando impera a ignorância, o déspota impõe seu domínio - isto determina a necessidade do maçom aprender a pensar filosoficamente, de estudar e ensinar. Quanta intolerância é suportada para sustentar a busca do poder dentro da ordem maçônica, razão da existência da diversificação de grandes orientes, grandes lojas, ritos e ofensas em época de eleição. Quando a tolerância é maximizada ela é tão má quanto à intolerância: surge inadimplência, indisciplina, absentismo, templos esvaziam e obreiros adormecem. Quanto mais tolerância, mais os incompetentes e maus se estabelecem no poder e afastam os bons. Intolerância levada ao extremo causa o mesmo mal. Daí a necessidade do estabelecimento de limites. É a razão da existência dos regulamentos e leis de cada obediência; a expressão da intolerância ao mal.

Qual o valor da intolerância? Pela lógica apenas ela existe e é benéfica para a sociedade. Exercida dentro de limites ela é boa e traz à existência a tolerância tão necessária e importante para superar dificuldades, tornando-se elemento de progresso de pessoas e nações. Se não existir intolerância não há necessidade de tolerância. É ela que define a importância do inimigo, pois são em razão da existência do adversário que se desenvolvem os limites para manter a intolerância ao mínimo. O inimigo é o grande mestre de tolerância para cada um. Retribuir bem com bem, tolerância com tolerância, não estabelece mérito algum, mas sem tolerância não é possível boa Democracia e construção.

Haja vista os erros e fraquezas característicos do homem, a intolerância tem seu valor porque dá à luz a tolerância. A tolerância é um ato de amor fraterno, algo que exige abnegação, a única solução para todos os problemas da humanidade. Onde a tolerância brilha, mesmo que seja a menor, insignificante, o homem cresce e se desenvolve debaixo da suprema lei de sua melhor natureza, advinda de um projeto inteligente, magistral, cujo autor o maçom conhece apenas por um conceito que torna a sua convivência maçônica possível e prazerosa, denominada Grande Arquiteto do Universo.


Bibliografia

1. ABBAGNANO, Nicola, Dicionário de Filosofia, Dizionario DI Filosofia, tradução: Alfredo Bosi, Ivone Castilho Benedetti, ISBN 978-85-336-2356-9, quinta edição, Livraria Martins Fontes Editora limitada., 1210 páginas, São Paulo, 2007;

2. ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni, História da Filosofia, do Romantismo Até Nossos Dias, Volume 3, título original: El Pensiero Occidentale Dalle Origini Ad Oggi, ISBN 85-349-0142-2, sexta edição, Paulus, 1114 páginas, São Paulo, 1991;

3. COMTE-SPONVILLE, André, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, tradução: Eduardo Brandão, ISBN 85-336-0444-0, primeira edição, Livraria Martins Fontes Editora limitada., 392 páginas, São Paulo, 1995;

4. DURANT, Will, A História da Filosofia, tradução: Luiz Carlos do Nascimento Silva, ISBN 85-351-0695-2, primeira edição, Editora Nova Cultural limitada., 480 páginas, Rio de Janeiro, 1926;

5. GAVAZZONI, Aluisio, História do Direito, dos Sumérios Até Nossa Era, ISBN 85-353-0250-6, terceira edição, Livraria Freitas Bastos S. A., 196 páginas, Rio de Janeiro, 2005;

6. HITLER, Adolf, Minha Luta, Tomo 1 de 2, título original: Mein Kampf, tradução: J. De Mattos Ibiapina, ISBN 85-7246-016-0, terceira edição, Revisão Editora, 612 páginas, Porto Alegre, 1990;

7. MAQUIAVEL, Nicolau, O Príncipe, Comentado por Napoleão Bonaparte, tradução: Fernanda Pinto Rodrigues, segunda edição, Publicações Europa-américa, 182 páginas, 1976;

8. ROCHA, José Manuel de Sacadura, Fundamentos de Filosofia do Direito, da Antiguidade a Nossos Dias, ISBN 978-85-224-4597-4, primeira edição, Atlas, 157 páginas, São Paulo, 2006;

9. SPOLADORE, Hercule, Revista A Trolha, março 2005, Páginas 32-33, tema: Tolerância;

10. TOFFLER, Alvin, A Terceira Onda, A Morte do Industrialismo e o Nascimento de uma Nova Civilização, título original: The Thrid Wave, tradução: João Távora, ISBN 85-01-01797-3, 21ª edição, Editora Record, 492 páginas, Rio de Janeiro, 1980;

terça-feira, 10 de maio de 2011

O Caminho das Virtudes I

O caminho que inicia com a cerimônia de iniciação.

Charles Evaldo Boller


Inicia a escuridão.

O caminhante cego é conduzido por seu guia a iniciar uma jornada, que ao final, dizem, lhe devolverão a visão.

Mesmo amparado, caminha trôpego, instável e inseguro. Todos os quatro sentidos restantes de percepção estão funcionando ao máximo de suas capacidades. Cada som, cada odor, cada detalhe do relevo é importante. Na falta da luz, a mente trabalha ao máximo de sua capacidade para compensar a falta de visão.

Alguém sussurra palavras de apoio aos seus ouvidos, as quais o acalmam. No proceder gentil, terno e suave desta pessoa denota-se consideração quase contemplativa, semelhante a ato de adoração. E esta Polidez desenvolve no caminhante o efeito semelhante ao apoio do cajado, que o ampara nos momentos de dificuldades e desequilíbrios das estradas. E mais, enche-o de moral frente aos possíveis perigos; pois é propalado que, na via que pretende passar, existem inúmeros riscos e armadilhas. Já está consciente da necessidade de muita bravura para superar os perigos à sua frente. A Coragem surge então como o ponto de prova mais elevado para seguir no caminho em toda a sua extensão.

O caminhante já sabe que a via possui segredos que possibilitam perspectivas de um futuro promissor, principalmente visando à continuação da construção e o acabamento de seu templo interior, da sua condição humana aperfeiçoada. Sabe também que, a matéria prima a ser utilizada nesta obra será retirada do interior dele mesmo, independente de suas limitações e imperfeições. Inclusive, e como bem maior, lhe será possibilitado ver a luz em matizes diferentes dos até então observados. Tem a promessa que estes bens serão adquiridos não por dinheiro, mas lhe serão doados se dispuser de coração onde reina Pureza.

Para demonstrar que possui coração puro, é submetido a testes de integridade. Passa por pontes instáveis, é ameaçado com arma branca, sente-se rejeitado, é inquirido, é admoestado, enfim, passa por uma série de atividades que, em outra situação, seriam encaradas como ultraje. Vence as provas representadas simbolicamente pela Terra, Ar, Água e Fogo.

Como o caminho em que pisa possui inúmeras passagens secretas, que abrigam tesouros materiais, intelectuais, ritualísticos e espirituais. É exigida dele a Fidelidade para com a manutenção destes segredos. Tudo mediante juramentos e acompanhado de advertências severas. Os moradores locais usam de muita Prudência com a pretensão do passante. Usam de múltiplos expedientes para descobrir e desarmar eventuais tentativas de aventura leviana. A Prudência, filha mais velha da Sabedoria, é requisitada diversas vezes na tomada de decisões em todos os questionamentos e juramentos.

Conforme vai sendo aprovado em cada etapa, segredos passam a lhe ser revelados:

É recomendado que desenvolvesse moderação e sobriedade ao consumir comida e bebida, bem como comedimento em outros prazeres da vida. A Temperança é apresentada como rumo para a felicidade da alma e da saúde do corpo.

É perceptível um refinado senso de Humor em alguns dos procedimentos.

É orientado a desenvolver o reconhecimento por alguém que lhe prestou um benefício, fazendo da Gratidão um modelo.

É exortado a dispor-se a sacrificar seus próprios interesses em benefício da coletividade e de tornar a magnanimidade constante em sua vida. Onde perder uma ocasião de ser útil é considerado infidelidade e um socorro recusado, perjúrio.

Nunca doar nada de forma aviltante ou de modo a ofender àquele que recebe.

Nunca tornar pública a sua doação, ou jactar-se dela, para obter reconhecimento e louvor.

Cultivar permanentemente a Simplicidade e a Boa Fé.

Praticar a Generosidade, a qual trará progresso à vida familiar e secular. E que esta virtude triunfe sobre a indiferença.

Desenvolver sentimento piedoso para com a tragédia pessoal de outrem, principalmente de seus companheiros. E este deve estar acompanhado do desejo de minorar a dor.

Praticar a Misericórdia que compele à participação não apenas material, mas também, espiritual da infelicidade alheia. Suscitar um impulso altruísta de participar do sofrimento de outrem, com Ternura para com o sofredor.

Fazer da Compaixão e do Amor as virtudes mais preciosas da vida, na medida em que, munido de Tolerância, reconhece que cada ser humano é parte da humanidade, independente de raça, cor, religião, cultura e ideologia.

Não apenas desenvolver a Humanidade em pensamentos de generosidade diante do sofredor, mas desenvolver a Doçura que o impede de produzi-la ou de aumentá-la.

É convocado a alistar-se numa tropa de elite, homens de escol treinados em agir contra a tirania e a escravidão resultantes da força sem Justiça.

Que a Justiça deve começar em sua própria casa, de uma forma para a qual há de se desenvolver uma estabilidade nas decisões a partir de um bom coração, e do Amor dirigido pelo equilíbrio entre racionalidade e emotividade.

É estimulado ao estudo da verdade independente de dogmas religiosos ou filosóficos. Praticando permanentemente o que é justo à semelhança de uma fortaleza inexpugnável, no alto de uma montanha indestrutível que não pode ser abatida pela força ou ação de nenhum exército. Onde este forte e esta montanha inexpugnável é o Grande Arquiteto do Universo, conceito que engloba todas as divindades que o homem cria em si.

O caminhante a tudo absorve avidamente, pois já sabe que está no lugar certo, e que o Criador, só se faz presente onde pessoas se tratam como irmãos e têm profundo sentimento de Amor de uns pelos outros. Um Amor que transpõem barreiras raciais, sociais e nacionais, unindo pessoas em genuína fraternidade universal. E decide definitivamente em seu coração e em sua mente, que é num lugar assim que o seu templo poderá receber os acabamentos para ser aprovado por Aquele que construiu todos os Universos existentes. E considera que, como a vida é uma teia tecida de bens e de males, será ali que passará a açoitar suas virtudes para que estas não se tornem orgulhosas. Pretendendo que virtudes assim tratadas acabem fortalecidas, transpostas não apenas no desenvolvimento de energias para abster-se de vícios, mas até, em sequer desejá-los.

E termina a escuridão. E o caminhante chega ao final do caminho das virtudes. Faz-se a luz. À sua frente são subitamente revelados, pelo brilho da luz, diversos cavalheiros, perfilados e estranhamente paramentados. Em suas mãos espadas e estas apontadas diretamente ao seu coração. Passado o sobressalto, ele vê, não com os olhos da racionalidade, mas, com os olhos do coração, que das pontas das espadas emerge a mais pura energia do Universo, brota em profusão a maior riqueza que se pode desejar obter, partindo da mais nobre de todas as virtudes, uma que os humanos seres têm capacidade de produzir e doar sem esforço e sem sentimento de perda, a mais importante delas, o Amor.


Bibliografia

1. COMTE-SPONVILLE, André, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, tradução: Eduardo Brandão, ISBN 85-336-0444-0, primeira edição, Livraria Martins Fontes Editora Limitada, 392 páginas, São Paulo, 1995;

2. PUSCH, Jaime, ABC do Aprendiz, segunda edição, 146 páginas, Tubarão Santa Catarina, 1982;

3. Ritual do Grau de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito, terceira edição, Grande Loja do Paraná, 98 páginas, Curitiba, 2001;

domingo, 10 de abril de 2011

Tudo Depende de Como Queremos Ver

Charles Evaldo Boller


Platão dizia que a perfeição do círculo existe apenas na mente, o que induz pensar que em nenhum lugar do Universo existe um círculo perfeito, apenas na imaginação humana. Criar círculos na mente deixa claro o poder da mente em desenvolver novas e inusitadas ideias, induzidas pela diversidade com que foi projetado o Universo. Neste mundo de ilusão sensorial tudo depende de como queremos ver. Inúmeros foram os círculos que os homens já desenharam e esculpiram, em sua maioria manifestação da arte fútil que agrada a sensibilidade do observador. É semelhante à diversidade de ritos da Maçonaria, a arte útil que visa o homem. A diversidade de ritos na Maçonaria é a razão de sua sobrevivência.

Debates entusiásticos a favor e contra a flexibilidade do Rito Escocês Antigo e Aceito deram conta da existência de divergências do "rito original", o que, segundo opinião de pensadores maçons, estaria destruindo a Maçonaria de dentro para fora; suas críticas são severas e contundentes contra as modificações do rito introduzidas nas diversas obediências, inclusive em lojas de uma mesma obediência. Estes analistas sérios e bem intencionados desejam voltar ao "rito original", o que, em face da diversidade vigente, constitui tarefa difícil, senão impossível; o rito de hoje é resultante da flexibilidade da Maçonaria e da vontade de homens igualmente pensadores ilustres ao longo do tempo. Rito presta-se a estabelecer costumes e, pela repetição, mudar pessoas em determinada época. Ademais, quanto o "rito original", ao qual se pretende voltar, é de fato original? "Neste mundo nada se cria, tudo se copia"; todo saber humano deve sua existência a incontáveis ciclos de tese, antítese e síntese. Não será este "rito original" cópia de ritos anteriores? Ritos mudam constantemente. Em que a mudança é prejudicial? São as estruturas físicas enrijecidas, que se opõem ao movimento, duras, que mais têm possibilidade de quebrar na presença das oscilações, vibrações, mudanças de um Universo vivo, cheio de energia. A estrutura flexível da Maçonaria tem a capacidade de sobreviver mais tempo; é como na alegoria do grande, rijo e velho carvalho e a esguia, jovem e frágil haste de trigo, quando submetidos à força do vento, um quebra a outra verga; qual deles sobrevive?

Observem-se as complicações geradas pelos imutáveis landemarques e que engessam a instituição maçônica numa realidade do passado. Existem diversas compilações, qual delas é original? Hoje algumas das leis naturais básicas extraídas dos landemarques estão defasadas em relação a presente realidade e dinâmica social. Alguns landemarques são discutíveis, ilógicos. Mas é a lei! Lei não se discute, obedece-se! Rito não é lei, é modelo; passível de modificação. E é o que os homens fazem: adaptam o rito para a sua realidade, a sua época. As leis também se adaptam no tempo, entretanto a compilação dos vinte e cinco landemarques de Mackey atrofia-se quando reza imutabilidade; até onde se sustenta imutável só a sabedoria dos homens do futuro definirá. Albert Pike, com ironia e pensamento arguto irrefutável demoliu, em seu tempo, o que hoje ainda sufoca a Maçonaria; reduziu os vinte e cinco landemarques de Mackey a apenas cinco. Ritos e leis mudam na corrente do tempo; apenas uma única lei é imutável para o homem, oriunda dos atos criativos do Grande Arquiteto do Universo: a lei do amor fraterno.

Do movimento que é característica do mundo vivo, as modificações introduzidas no Rito Escocês Antigo e Aceito foram salutares e prestam-se materializar homens aperfeiçoados para a sociedade humana em qualquer época. Muda o homem, muda a ideia, mas o símbolo é o mesmo. Percebe-se que as mudanças no rito são função do movimento, de palavras, de ideias; os símbolos são os mesmos: compasso, esquadro, nível, prumo, maço, cinzel, régua, espada, trolha etc. Basta preservar os símbolos! O que aconteceria se substituírem a espada por um fuzil AR15, a pena do secretário por um laptop, o cinzel por uma britadeira?

Mudarem palavras do ritual, a forma de circulação em loja, criar novos aventais, novos estandartes, não muda o "antigo e aceito" rito escocês! Trata-se do mesmo rito! O rito assim como seus símbolos, é apenas arquétipo, modelo; as réplicas mais antigas serviram aos homens de sua época; vive-se outra realidade; constroem-se outros círculos perfeitos na imaginação e imperfeitos na realidade; da mesma forma surgem novos procedimentos para representar os mesmos ritos, só que ligeiramente adaptados ao seu tempo. Não interessa o método usado para construir círculos perfeitos, o que realmente interessa é que estes transmitam beleza para sensibilizar homens e transformar sua maneira de ver as verdades sob outro prisma; introduzir mudanças nos ritos tem a mesma função. É só preservar os símbolos que o rito não muda!

Homens são criaturas emocionais, espirituais e racionais a um só tempo, prevalece a característica que cada um mais alimenta; separar cada elemento destes e tratá-los em separado é técnica preconizada pelo mecanicismo. Daí a necessidade de tolerância na convivência com homens racionais, detalhistas e substancialmente técnicos, que insistem em preservar o "rito original" apenas porque suas mentes, assim treinadas, insistem em colocar tudo em funcionamento como se fosse um antigo relógio de algibeira; um homem saudável seria um bom relógio, um homem decaído um péssimo relógio! É o mecanicismo de Descartes, caracterizado por dividir processos complicados em estruturas simplificadas e estanques, para então proceder à análise separada de cada componente. Em sistemas dinâmicos isto não funciona. Enquanto se estiver analisando uma das partes, as outras são negligenciadas; resultado: o todo fenece. A geometria é bela, mas para sistemas dinâmicos como a evolução humana ela é limitadora, castradora, morta. O mecanicismo influi em todas as ciências e só pouco a pouco cede lugar para análises que contemplam o todo e não apenas uma parte isolada de um processo. Voltar ao "rito original" é conservadorismo, simplificação e saudosismo; é influência mecanicista daqueles que olham o rito apenas como parte isolada de um sistema e esquece-se do homem que se conecta ao rito para crescer e melhorar-se. Diante do movimento, do avanço do tempo, o rito e o homem são um; o homem evolui e o rito com ele.

Para matar um rito é fácil: mudem-se os símbolos! Endureça-se o coração dos homens para que se neguem em efetuar mudanças em si; admitam-se nas lojas homens não dispostos a acordos, selvagens, viciados em drogas, imorais, politiqueiros, materialistas, ateus; negligenciem-se: estudo de temas da sociedade, sindicâncias para admissão de novos, desenvolvimento da espiritualidade, tratamento fraterno e amoroso; e outras mazelas. Observe-se que o fundamento da Maçonaria não está nos ritos, mas nos homens que a compõem e usam dos ritos como arquétipos, modelos para se relacionarem e se influenciarem para o bem. Rito é instrumento de trabalho, homem é matéria prima em modificação. Qual tem maior valor, a ferramenta ou a obra de arte? Toda atenção da Maçonaria é direcionada no sentido de mudar homens através de sua autoconstrução, e nisso o rito é apenas coadjuvante, arquétipo, modelo, nunca diretor. Paredes não debatem, ritos não se abraçam, são os homens que estão dentro templo os que interagem entre si e influenciam-se uns aos outros e se abraçam, para se reunirem utilizam um rito, uma simples ferramenta para se autodesenvolver. Se os homens mudam porque o rito deve permanecer inalterado?

Partindo da ideia que na Natureza tudo se modifica, nada é igual na linha do tempo, é nas pequenas diferenças entre as diversas réplicas do "rito original" que reside a força do Rito Escocês Antigo e Aceito como elemento de transformação de homens. Todos os ritos da Maçonaria têm o mesmo potencial. Cada rito oferece características diferentes que se adaptam à diversidade de homens espalhados pelo Orbe. Voltar ao "antigo e aceito" rito escocês é o mesmo que eliminar todos os ritos diferentes, transformando-os num só; ou reunir todas as obediências numa única. O que embeleza e fortalece a Maçonaria é a maravilhosa diversidade, sob qual se albergam as colunas da maioria das linhas de pensamentos filosóficos e crenças religiosas. Com isto possibilita-se o ambiente seguro para o debate das necessidades da sociedade sem que os debatedores se matem uns aos outros. A Maçonaria é o único foro seguro para solucionar todos os problemas da humanidade, algo só possível pela atuação do amor fraterno, aquilo que o Grande Arquiteto do Universo revela e escreve na Natureza.

Ninguém está matando o rito maçônico, o maçom enriquece, melhora, adapta o rito às novas realidades na linha do tempo. Boa solução é aquela que preconiza flexibilidade e diversidade. É só preservar os símbolos e deixar o pensamento fluir. Semelhante ao desenvolvimento de perfeitos, lindos e maravilhosos círculos na mente, o maçom aprende com a linguagem e traços do Grande Arquiteto do Universo que escreve a realidade na mais caótica diversidade. O homem foi projetado para admirar a diversidade. O maçom progride no "conhece-te a ti mesmo", de Sócrates, quando observa a Natureza e abandona a tendência de insistir em colocar tudo dentro de moldes estanques; condicionados às limitações impostas pela realidade, à ilusão, de seus sentidos presentes neste pequeno grão de areia onde ele se encontra recluso.

Imagine o absurdo de Kepler colocando a órbita de um planeta nas linhas definidas por um cubo, esta era a realidade dele, a do hodierno maçom é outra, mas igualmente limitada. Ao criar lindos e perfeitos círculos na mente, exercitando a capacidade de pensar, o maçom cria novos e inusitados instrumentos que alargam a visão do Universo e também se conscientiza de sua responsabilidade para consigo mesmo e a sociedade onde está simbioticamente imerso. Diante da constante mutação da Natureza e, consequentemente, do homem, os ritos vão se diversificando, cada um deles vai se modificando, acompanhando a evolução da sociedade; a Maçonaria é evolucionista, acredita na mudança do homem para melhor, razão de investir nele e perseverar em melhorar as ferramentas, os ritos.

Para evitar desgastes e perda de foco ao que realmente interessa na Maçonaria, cabe ao maçom nadar a favor da correnteza do tempo para não se cansar e desistir de promover o crescimento do homem, e principalmente dele mesmo. Se o maçom é agente de mudanças, deve ele mesmo estar suscetível às mudanças que o tempo e a sabedoria lhe impõem. Mudança começa consigo mesmo e depois se propaga em tudo aquilo que o rodeia. Citando Bertolt Brecht: "Desconfiai do mais trivial, na aparência singela. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar".

O Rito Escocês Antigo e Aceito continuará em modificar-se sem que isto cause a queda da Maçonaria ou o desgaste do rito. O que destrói o rito é o homem que, a semelhança de Kepler, não consegue formar círculos em sua imaginação devido à imaginação embotada, limitada; que ainda não alargou seus horizontes e não aguçou seu pensamento para além dos limites impostos aos seus sensores. Ao invés de voltar ao passado é essencial projetar o futuro, livrar-se das amarras da mesmice e pensar de forma proativa para desenvolver e adaptar ritos mais eficientes da dança eterna dos ciclos de tese, antítese e síntese. Que os ritos construam homens que pensam sem preconceitos e estejam esclarecidos ao ponto de entenderem aquilo que o Grande Arquiteto do Universo escreve e desenha de forma aparentemente caótica, e onde, em meio à evidente confusão, acende a chama da vida.

Bibliografia

1. ASLAN, Nicola, Landmarques e Outros Problemas Maçônicos, Volume 1, ISBN 85-7252-044-9, terceira edição, Editora Maçônica a Trolha limitada., 240 páginas, Londrina, 2010;

2. CORTEZ, Joaquim Roberto Pinto, Maçonaria, Conceitos Litúrgicos, Ritualísticos e Históricos, ISBN 978-85-7252-279-3, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha limitada., 204 páginas, Londrina, 2010;

3. GLEISER, Marcelo, Criação Imperfeita, ISBN 978-85-01-08977-7? Primeira edição, Editora Record, 366 páginas, São Paulo, 2010;

4. ISRAEL, Jonathan I., Iluminismo Radical a Filosofia e a Construção da Modernidade 1650-1750, Radical Enlighttenment, Philosofy, Making of Modernity, 1650-1750, tradução: Cláudio Blanc, ISBN 978-85-370-0432-6, primeira edição, Madras Editora limitada., 878 páginas, São Paulo, 2009;

5. SOUZA FILHO, Ubyrajara de, Cognição e Evolução dos Rituais Maçônicos, ISBN 978-85-7252-278-6, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha limitada., 152 páginas, Londrina, 2010;