quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Os Cinco Sentidos e a Iniciação ao Simbolismo

 Charles Evaldo Boller

O conhecimento humano nasce de duas grandes fontes. A primeira é física e material, adquirida pelos sentidos biológicos por meio daquilo que se vê, ouve, toca, cheira e saboreia. A segunda, de natureza espiritual, refere-se à capacidade de perceber realidades que transcendem a materialidade. No Grau de Aprendiz Maçom, porém, o foco recai sobre a primeira vertente. O iniciado é conduzido ao estudo da percepção material como fundamento indispensável para toda construção posterior.

Os cinco sentidos constituem as portas de entrada das informações que alimentam o intelecto. É por intermédio deles que a criança reconhece uma casa após observar inúmeras casas; distingue sons, formas, temperaturas e texturas; aprende a relacionar figuras e palavras aos conceitos necessários para a vida em sociedade. Aos poucos, essas informações são gravadas na mente e transformadas em compreensão do mundo real.

Essa etapa corresponde à infância da consciência. Antes de investigar os mistérios mais profundos da existência, o ser humano precisa aprender a interpretar corretamente aquilo que os sentidos lhe apresentam. A ciência ocupa-se justamente desse domínio, estudando os fenômenos observáveis e as leis que regem o Universo físico.

A Maçonaria utiliza esse mesmo mecanismo para despertar a consciência. O símbolo funciona como uma instrução silenciosa. Ele relembra valores, orienta comportamentos e preserva ensinamentos através das gerações. As ideias mudam com o tempo; os símbolos permanecem. Por essa razão, constituem veículos seguros para transmitir princípios filosóficos, sociais, éticos e herméticos.

O templo maçônico é um grande laboratório sensorial. Nele encontram-se estímulos visuais, sonoros, tácteis, olfativos e até gustativos. A visão, responsável pela maior parte das informações recebidas pelo ser humano, ocupa posição de destaque. Entretanto, todos os sentidos participam do aprendizado simbólico.

Uma antiga parábola ilustra essa realidade. Conta-se que um viajante encontrou cinco irmãos cegos diante de um elefante. Cada um tocou uma parte diferente do animal. Um afirmou que era uma coluna; outro, uma corda; outro, uma parede; outro, uma lança; outro, uma serpente. Todos estavam parcialmente certos e totalmente incompletos. Assim também ocorre com os símbolos. Sua apresentação é finita, mas suas interpretações são potencialmente infinitas.

O Aprendiz Maçom inicia sua jornada aprendendo a interpretar o símbolo em sua materialidade. Não se ocupa ainda dos aspectos metafísicos ou transcendentes. Aprende por observação, ensaio, acerto e erro. Desenvolve a capacidade de "ler entre as linhas", vencendo gradualmente a ignorância racional.

Nesse sentido, a máxima de Sócrates — "sei que nada sei" — torna-se profundamente atual. O verdadeiro iniciado reconhece os limites de seu conhecimento e, justamente por isso, permanece aberto ao aprendizado. De modo semelhante, Immanuel Kant ensinava que o esclarecimento consiste em abandonar a menoridade intelectual, isto é, a dependência do pensamento alheio.

Cada símbolo representa uma ideia universal, mas jamais aprisiona o indivíduo em um molde único. Dois maçons contemplam a mesma figura e compreendem seus fundamentos essenciais; contudo, ao ultrapassarem o limiar do pensamento abstrato, cada um trilha caminho próprio. A individualidade permanece preservada.

Uma metáfora esclarece esse processo. O símbolo é semelhante a uma chave antiga. Todos podem segurá-la, observar seu formato e compreender sua função aparente. Entretanto, apenas quem a utiliza descobre quais portas ela é capaz de abrir. Algumas revelam verdades visíveis; outras conduzem a significados cada vez mais profundos.

Assim, o simbolismo molda a forma de pensar, agir e sentir. Constitui o alicerce da reconstrução interior, da transformação da pedra bruta em pedra trabalhada. O caminho iniciático é contínuo e recorrente, desenvolvendo-se em sucessivas teses, antíteses e sínteses.

Tal como o Tao descrito pelos sábios orientais, o simbolismo aponta para realidades que não podem ser completamente verbalizadas. O símbolo remove parcialmente o véu do oculto, mas nunca esgota a verdade que representa. O ponto dentro do círculo simboliza precisamente essa condição: delimita a ação exterior, preserva as virtudes cultivadas e, ao mesmo tempo, abre ao iniciado um horizonte infinito de reflexão e autoconhecimento.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Da alma. São Paulo: Edipro, 2011. Obra fundamental para compreender a relação entre percepção sensorial, intelecto e conhecimento. Seus estudos sobre os sentidos e os processos cognitivos oferecem base filosófica para a compreensão da aquisição do conhecimento material, tema central na formação inicial do Aprendiz Maçom;

2.      CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020. Referência clássica para o estudo do simbolismo universal. Auxilia na compreensão de como os símbolos preservam significados permanentes ao longo do tempo, mesmo quando as interpretações individuais e culturais se transformam;

3.      ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaios sobre o simbolismo mágico-religioso. São Paulo: Martins Fontes, 1991. Examina o papel dos símbolos como instrumentos de transmissão de significados profundos da experiência humana, contribuindo para a compreensão da linguagem simbólica empregada pela Maçonaria;

4.      JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. Estudo indispensável sobre a função psicológica dos símbolos. Demonstra como imagens simbólicas influenciam a consciência, a personalidade e o desenvolvimento interior do indivíduo;

5.      KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: que é o esclarecimento? Petrópolis: Vozes, 2011. Texto fundamental para compreender a superação da menoridade intelectual e o exercício da autonomia do pensamento, princípios que guardam estreita relação com o processo iniciático maçônico;

6.      LAO-TSÉ. Tao Te Ching: o livro do caminho e da virtude. São Paulo: Pensamento, 2006. Clássico da filosofia oriental que aborda a noção do Caminho como realidade que ultrapassa as limitações da linguagem. Contribui para compreender o simbolismo como instrumento de aproximação de verdades que não podem ser completamente verbalizadas;

7.      MACKEY, Albert Gallatin. Enciclopédia da Maçonaria. São Paulo: Madras, 2008. Importante fonte de consulta sobre história, filosofia, simbolismo e tradições maçônicas, oferecendo subsídios para o aprofundamento dos conceitos iniciáticos relacionados ao Grau de Aprendiz;

8.      PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Paulo: Martin Claret, 2016. Obra essencial para a compreensão da humildade intelectual representada pela máxima socrática "sei que nada sei", fundamento importante da atitude investigativa cultivada pelo iniciado;

9.      WIRTH, Oswald. O aprendiz maçom. São Paulo: Madras, 2009. Uma das mais importantes obras sobre o simbolismo do primeiro grau da Maçonaria. Examina os instrumentos, alegorias e ensinamentos destinados ao Aprendiz, servindo como referência direta para o estudo da formação simbólica inicial;

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