Charles Evaldo Boller
O conhecimento humano nasce de duas grandes fontes. A primeira é
física e material, adquirida pelos sentidos biológicos por meio daquilo que se
vê, ouve, toca, cheira e saboreia. A segunda, de natureza espiritual, refere-se
à capacidade de perceber realidades que transcendem a materialidade. No Grau de
Aprendiz Maçom, porém, o foco recai sobre a primeira vertente. O iniciado é
conduzido ao estudo da percepção material como fundamento indispensável para
toda construção posterior.
Os cinco sentidos constituem as portas de entrada das
informações que alimentam o intelecto. É por intermédio deles que a criança
reconhece uma casa após observar inúmeras casas; distingue sons, formas,
temperaturas e texturas; aprende a relacionar figuras e palavras aos conceitos
necessários para a vida em sociedade. Aos poucos, essas informações são
gravadas na mente e transformadas em compreensão do mundo real.
Essa etapa corresponde à infância da consciência. Antes de
investigar os mistérios mais profundos da existência, o ser humano precisa
aprender a interpretar corretamente aquilo que os sentidos lhe apresentam. A
ciência ocupa-se justamente desse domínio, estudando os fenômenos observáveis e
as leis que regem o Universo físico.
A Maçonaria utiliza esse mesmo mecanismo para despertar a
consciência. O símbolo funciona como uma instrução silenciosa. Ele relembra
valores, orienta comportamentos e preserva ensinamentos através das gerações.
As ideias mudam com o tempo; os símbolos permanecem. Por essa razão, constituem
veículos seguros para transmitir princípios filosóficos, sociais, éticos e
herméticos.
O templo maçônico é um grande laboratório sensorial. Nele
encontram-se estímulos visuais, sonoros, tácteis, olfativos e até gustativos. A
visão, responsável pela maior parte das informações recebidas pelo ser humano,
ocupa posição de destaque. Entretanto, todos os sentidos participam do
aprendizado simbólico.
Uma antiga parábola ilustra essa realidade. Conta-se que um
viajante encontrou cinco irmãos cegos diante de um elefante. Cada um tocou uma
parte diferente do animal. Um afirmou que era uma coluna; outro, uma corda;
outro, uma parede; outro, uma lança; outro, uma serpente. Todos estavam
parcialmente certos e totalmente incompletos. Assim também ocorre com os
símbolos. Sua apresentação é finita, mas suas interpretações são potencialmente
infinitas.
O Aprendiz Maçom inicia sua jornada aprendendo a interpretar o
símbolo em sua materialidade. Não se ocupa ainda dos aspectos metafísicos ou
transcendentes. Aprende por observação, ensaio, acerto e erro. Desenvolve a
capacidade de "ler entre as linhas",
vencendo gradualmente a ignorância racional.
Nesse sentido, a máxima de Sócrates — "sei que nada sei" — torna-se profundamente atual. O verdadeiro
iniciado reconhece os limites de seu conhecimento e, justamente por isso,
permanece aberto ao aprendizado. De modo semelhante, Immanuel Kant ensinava que
o esclarecimento consiste em abandonar a menoridade intelectual, isto é, a
dependência do pensamento alheio.
Cada símbolo representa uma ideia universal, mas jamais
aprisiona o indivíduo em um molde único. Dois maçons contemplam a mesma figura
e compreendem seus fundamentos essenciais; contudo, ao ultrapassarem o limiar
do pensamento abstrato, cada um trilha caminho próprio. A individualidade
permanece preservada.
Uma metáfora esclarece esse processo. O símbolo é semelhante a
uma chave antiga. Todos podem segurá-la, observar seu formato e compreender sua
função aparente. Entretanto, apenas quem a utiliza descobre quais portas ela é
capaz de abrir. Algumas revelam verdades visíveis; outras conduzem a
significados cada vez mais profundos.
Assim, o simbolismo molda a forma de pensar, agir e sentir.
Constitui o alicerce da reconstrução interior, da transformação da pedra bruta
em pedra trabalhada. O caminho iniciático é contínuo e recorrente,
desenvolvendo-se em sucessivas teses, antíteses e sínteses.
Tal como o Tao descrito pelos sábios orientais, o simbolismo
aponta para realidades que não podem ser completamente verbalizadas. O símbolo
remove parcialmente o véu do oculto, mas nunca esgota a verdade que representa.
O ponto dentro do círculo simboliza precisamente essa condição: delimita a ação
exterior, preserva as virtudes cultivadas e, ao mesmo tempo, abre ao iniciado
um horizonte infinito de reflexão e autoconhecimento.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Da alma. São Paulo: Edipro, 2011.
Obra fundamental para compreender a relação entre percepção sensorial,
intelecto e conhecimento. Seus estudos sobre os sentidos e os processos
cognitivos oferecem base filosófica para a compreensão da aquisição do
conhecimento material, tema central na formação inicial do Aprendiz Maçom;
2.
CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário
de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020. Referência clássica para o
estudo do simbolismo universal. Auxilia na compreensão de como os símbolos
preservam significados permanentes ao longo do tempo, mesmo quando as
interpretações individuais e culturais se transformam;
3.
ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaios
sobre o simbolismo mágico-religioso. São Paulo: Martins Fontes, 1991. Examina o
papel dos símbolos como instrumentos de transmissão de significados profundos
da experiência humana, contribuindo para a compreensão da linguagem simbólica
empregada pela Maçonaria;
4.
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. Estudo indispensável sobre a função
psicológica dos símbolos. Demonstra como imagens simbólicas influenciam a
consciência, a personalidade e o desenvolvimento interior do indivíduo;
5.
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: que é o
esclarecimento? Petrópolis: Vozes, 2011. Texto fundamental para compreender a
superação da menoridade intelectual e o exercício da autonomia do pensamento,
princípios que guardam estreita relação com o processo iniciático maçônico;
6.
LAO-TSÉ. Tao Te Ching: o livro do caminho e da
virtude. São Paulo: Pensamento, 2006. Clássico da filosofia oriental que aborda
a noção do Caminho como realidade que ultrapassa as limitações da linguagem.
Contribui para compreender o simbolismo como instrumento de aproximação de
verdades que não podem ser completamente verbalizadas;
7.
MACKEY, Albert Gallatin. Enciclopédia da
Maçonaria. São Paulo: Madras, 2008. Importante fonte de consulta sobre
história, filosofia, simbolismo e tradições maçônicas, oferecendo subsídios
para o aprofundamento dos conceitos iniciáticos relacionados ao Grau de
Aprendiz;
8.
PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Paulo: Martin
Claret, 2016. Obra essencial para a compreensão da humildade intelectual
representada pela máxima socrática "sei que nada sei", fundamento
importante da atitude investigativa cultivada pelo iniciado;
9.
WIRTH, Oswald. O aprendiz maçom. São Paulo:
Madras, 2009. Uma das mais importantes obras sobre o simbolismo do primeiro
grau da Maçonaria. Examina os instrumentos, alegorias e ensinamentos destinados
ao Aprendiz, servindo como referência direta para o estudo da formação
simbólica inicial;

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