Charles Evaldo Boller
A Maçonaria ensina que o progresso da humanidade não nasce da
força, da riqueza ou da tecnologia, mas da harmoniosa união entre justiça e
amor. Onde a justiça inexiste, instala-se a barbárie; onde o amor está ausente,
prosperam a violência, a indiferença e a fragmentação social. Por essa razão, a
Ordem é frequentemente considerada progressista: porque trabalha
incessantemente pela elevação moral do ser humano, compreendendo que somente a
aplicação simultânea da justiça e do amor pode conduzir à construção de uma
sociedade mais fraterna, equilibrada e civilizada.
Conta-se que um sábio maçom, ao ser questionado sobre o
significado da fraternidade, recordou uma cena observada em uma colina coberta
de neve. Dois garotos divertiam-se descendo a encosta em um pequeno trenó.
Sempre que chegavam à base da colina, o mais velho colocava o mais novo sobre
os ombros, segurava o trenó por uma corda e subia novamente até o topo. Após
observar aquela repetição diversas vezes, o sábio perguntou se não considerava
pesada aquela carga. O menino respondeu sorrindo: "De forma alguma. Esta carga é leve, pois este é meu irmão." O
observador era Abraham Lincoln, cuja sensibilidade reconheceu naquela resposta
uma das mais perfeitas definições de fraternidade já formuladas.
Essa parábola revela uma verdade profunda. O amor fraternal não
elimina os sacrifícios; transforma-os. Aquilo que seria peso torna-se
privilégio. O esforço deixa de ser obrigação para converter-se em expressão
espontânea de afeto. Assim ocorre entre verdadeiros irmãos. O auxílio prestado
não é contabilizado como dívida nem registrado como favor. É simplesmente a
manifestação natural de um coração que compreendeu a unidade essencial da
condição humana.
Sob a ótica simbólica maçônica, a fraternidade constitui o
cimento invisível que une as pedras do Templo. Uma pedra isolada possui valor
limitado; unida às demais, participa da construção de algo maior que si mesma.
O amor fraterno é esse aglutinante místico que transforma indivíduos em
comunidade e homens comuns em construtores conscientes da civilização.
Aristóteles ensinava que o homem é um ser naturalmente social.
Confúcio afirmava que a harmonia nasce do respeito mútuo. Espinosa demonstrava
que a compreensão racional conduz à cooperação. Em todos esses pensadores
encontramos a mesma intuição fundamental: o desenvolvimento humano floresce
quando o indivíduo supera o egoísmo e reconhece sua interdependência com os
demais.
Por isso, durante o processo de admissão de um profano, a
Maçonaria procura identificar não apenas qualidades intelectuais, mas também
características morais e emocionais. Pergunta-se se vive em harmonia no lar,
qual sua reputação perante a sociedade, como é visto pelos colegas de trabalho
e se demonstra capacidade de convivência equilibrada. Tais questionamentos
procuram avaliar se existe terreno fértil para o desenvolvimento do amor
fraterno.
A iniciação, compreendida simbolicamente como um psicodrama
transformador da consciência, exige do candidato o compromisso de tudo fazer
para amparar seus irmãos diante dos infortúnios da vida. Não se trata apenas de
uma promessa ritualística, mas de uma disposição permanente de solidariedade e
responsabilidade moral.
O contrário do amor não é o ódio. O ódio ainda revela algum tipo
de vínculo emocional. O verdadeiro oposto do amor é a indiferença. O egoísmo e
a indiferença são sintomas da incapacidade de perceber o outro como semelhante.
Quando essa percepção desaparece, a fraternidade se dissolve e surgem os
conflitos que fragmentam famílias, instituições e sociedades.
Uma antiga parábola oriental ilustra essa realidade. Dois
viajantes caminhavam pelo deserto. Um carregava apenas sua própria provisão; o
outro dividia constantemente sua água com os companheiros de jornada. Ao final
da travessia, descobriram que o primeiro havia preservado recursos, mas perdido
amigos; o segundo chegara com menos provisões, porém cercado de companheiros
dispostos a ajudá-lo. O que foi perdido materialmente retornou multiplicado em
apoio humano.
A justiça, por sua vez, constitui o complemento indispensável do
amor. Justiça é o respeito ao direito de cada um. É a base da convivência
social e a mola mestra do desenvolvimento coletivo. Entretanto, somente o justo
consegue avaliar corretamente duas partes em conflito. Quando razão, justiça e
amor atuam em conjunto, diminuem os enganos e ampliam-se as possibilidades de
entendimento.
O autoconhecimento ocupa papel central nesse processo. O maçom
não foi chamado para desbastar a pedra do outro, mas a própria. Não foi
convidado a iluminar o caminho alheio, mas a iluminar o seu próprio caminho.
Quando transforma a si mesmo, influencia naturalmente aqueles que o cercam. A
máxima "se eu mudar, o outro muda"
reflete essa compreensão iniciática.
Na Maçonaria não há espaço para disputas de poder, vaidade ou
personalismo. Onde predominam brigas por cargos e interesses particulares, o
espírito maçônico enfraquece. O amor substitui o personalismo; a fraternidade
vence o ego; o dever supera a ambição.
Cada irmão é constantemente convidado a questionar-se: realizo
meu trabalho maçônico com humildade ou com arrogância? Cumpro livremente aquilo
que jurei? Estou realmente cavando masmorras ao vício e levantando templos à
virtude? Sou tolerante com os outros e exigente comigo mesmo?
O Grande Arquiteto do Universo manifesta-se onde homens e
mulheres aprendem a tratar-se como irmãos. Sua presença torna-se perceptível
onde existe respeito, compreensão, auxílio mútuo e amor fraterno sincero. A
convivência deixa de ser mera obrigação semanal e transforma-se em fonte de
alegria, crescimento e realização espiritual.
Assim, a fraternidade não é apenas um ideal abstrato. É uma
prática cotidiana. É carregar alegremente o peso que a vida coloca sobre os
ombros do irmão, sabendo que aquilo que fazemos por ele contribui também para
nossa própria elevação. Como o menino da colina nevada, o maçom que se iniciou
internamente aprendeu que nenhuma carga é pesada quando é sustentada pelo amor.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo:
Edipro, 2019. Nesta obra clássica, Aristóteles demonstra que a amizade, a
justiça e a virtude constituem fundamentos indispensáveis para a vida boa e
para a construção de comunidades harmoniosas, oferecendo valiosa sustentação
filosófica ao ideal maçônico da fraternidade;
2.
CONFÚCIO. Os Analectos. São Paulo: Pensamento,
2012. Os ensinamentos de Confúcio destacam a importância da benevolência, da
harmonia social e do aperfeiçoamento moral contínuo, conceitos diretamente
relacionados ao amor fraterno e ao respeito mútuo cultivados na Maçonaria;
3.
ESPINOSA, Baruch. Ética. Belo Horizonte:
Autêntica, 2021. Espinosa demonstra que a razão conduz à compreensão da unidade
entre os seres humanos, favorecendo a cooperação, a tolerância e a superação
das paixões destrutivas, elementos centrais da convivência fraternal;
4.
MACKEY, Albert Gallatin. Enciclopédia da
Maçonaria. São Paulo: Madras, 2008. Referência clássica para o estudo dos
símbolos, princípios e valores maçônicos, esclarecendo a importância da
fraternidade como elemento agregador da Ordem;
5.
PIKE, Albert. Moral e Dogma. São Paulo: Madras,
2010. Obra fundamental para compreender as dimensões éticas, filosóficas e
espirituais da Maçonaria, enfatizando a relação inseparável entre justiça, amor
e aperfeiçoamento humano;
6.
THE
HOLLIES. He Ain't Heavy, He's My Brother. Londres: Parlophone, 1969. A
célebre canção popularizou a ideia de que o amor fraterno transforma o
sacrifício em alegria, sintetizando poeticamente o espírito de solidariedade
que inspira a parábola atribuída a Abraham Lincoln;

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