Charles Evaldo Boller
Raízes Medievais e Continuidade Simbólica
A Ordem dos Templários[1], fundada
no século XII, não deve ser reduzida a uma instituição militar-religiosa, mas
reconhecida como um sistema complexo de organização, disciplina moral e
possível veiculação de conhecimentos acumulados em contato com múltiplas
culturas.
Sua dissolução formal[2], em
1312, sob pressão do rei Filipe IV, da França[3], e com a
anuência do papa Clemente V, não extinguiu o seu conteúdo simbólico. Ao contrário,
promoveu sua dispersão e, em certos territórios, sua reconfiguração.
Na medida em que os templários foram perseguidos, muitos
buscaram refúgio em regiões politicamente mais favoráveis. Em Portugal, o rei
Dom Dinis[4] revelou
notável lucidez estratégica ao permitir a reorganização desses cavaleiros sob a
denominação de Ordem de Cristo[5],
oficialmente instituída em 1319. Tal reorganização não representou ruptura, mas
metamorfose institucional, preservando elementos estruturais, simbólicos e
possivelmente patrimoniais.
A Ordem de Cristo e o Impulso dos Descobrimentos
A Ordem de Cristo assumiu papel estruturante no ciclo das
navegações portuguesas. Sob a direção do Infante Dom Henrique de Avis, o
Navegador[6], seu
grão-mestre, consolidou-se um projeto que integrava fé, técnica e poder
político. A cruz da ordem, visível nas velas das caravelas, funcionava como
signo identitário e como expressão de uma missão que transcendia o comércio.
O Tratado de Tordesilhas[7], firmado
entre Portugal e Espanha, deve ser interpretado para além de sua função
geopolítica. Ele representa a formalização jurídica de um impulso expansivo que
possuía fundamentos espirituais, econômicos e estratégicos. O descobrimento do
Brasil[8]
insere-se nesse contexto como consequência lógica de um processo iniciado
décadas antes.
A presença da Ordem de Cristo nas navegações evidencia a
transposição dos princípios templários para um novo campo: o oceano. O mar
deixa de ser apenas espaço físico e torna-se símbolo do desconhecido, enquanto
o navegador assume a função arquetípica do iniciado que se lança à busca de
novos horizontes.
Acúmulo de Riqueza e Hipótese de Transferência Templária
A hipótese de que recursos templários tenham contribuído para o
desenvolvimento da navegação portuguesa deve ser tratada com rigor
metodológico. A Ordem dos Templários acumulou vastos bens materiais e
desenvolveu práticas financeiras sofisticadas. Com sua dissolução, esses bens
foram, em grande parte, redistribuídos.
Em Portugal, diferentemente de outras regiões, a criação da
Ordem de Cristo permitiu a absorção legal de propriedades e estruturas. Ainda
que não haja consenso absoluto quanto à magnitude dessa transferência, é
plausível admitir que parte do patrimônio templário tenha sido preservado e
posteriormente mobilizado.
Mais relevante do que a transferência direta de riqueza é a
continuidade de um capital imaterial: conhecimento organizacional, disciplina
institucional, experiência logística e possível assimilação de saberes técnicos
oriundos do contato com o Oriente. Esse conjunto de fatores constitui base
consistente para o desenvolvimento de empreendimentos complexos, como as
expedições marítimas.
A Herança Templária na Maçonaria
A Maçonaria, especialmente no âmbito do Rito Escocês Antigo e
Aceito, não deriva institucionalmente dos templários, mas incorpora, de forma
inequívoca, elementos de sua tradição simbólica. A presença de graus que evocam
diretamente a temática templária, como o de Cavaleiro Kadosh, evidencia essa
assimilação.
O templário, nesse contexto, deixa de ser figura histórica e
transforma-se em arquétipo: o guardião de princípios, o defensor da justiça e o
homem fiel à palavra empenhada. Esses valores encontram ressonância na ética
maçônica, que privilegia o aperfeiçoamento moral, a disciplina interior e a
construção simbólica do templo humano.
A transposição do templo físico para o templo interior
constitui um dos elementos mais significativos dessa herança. O que antes era
defendido com armas passa a ser edificado por meio da consciência.
Correlação Simbólica Entre Templários, Ordem de Cristo e Maçonaria
A correlação entre essas três tradições pode ser compreendida
como um processo evolutivo de uma mesma matriz iniciática. Os templários
representam a fase operativa e militante; a Ordem de Cristo, a fase de
reorganização e expansão; a Maçonaria, a fase especulativa e interiorizada.
Essa sequência sugere um movimento de refinamento: da ação
externa à reflexão interna. Na medida em que o templário empunha a espada, o
membro da Ordem de Cristo empunha instrumentos de navegação, e o maçom utiliza
ferramentas simbólicas como o esquadro e o compasso. Cada etapa corresponde a
um nível distinto de elaboração do ideal.
Do ponto de vista esotérico, trata-se da adaptação de uma
tradição perene às circunstâncias históricas. A essência permanece, enquanto as
formas se transformam.
Implicações Filosóficas e Iniciáticas
A análise revela que a história funciona como veículo de
transmissão de sentidos. Templários, Ordem de Cristo e Maçonaria compartilham
um núcleo comum: a construção de um homem disciplinado, consciente e orientado
por princípios superiores.
Essa continuidade oferece ao iniciado um modelo de desenvolvimento
progressivo: da obediência à consciência, da exterioridade à interioridade. O
percurso simbólico revela que o campo de batalha se desloca do mundo exterior
para o interior do indivíduo.
A metáfora do templo sintetiza essa evolução. O templário protege
o templo físico; a Ordem de Cristo o projeta no mundo; a Maçonaria o reconstrói
na consciência. Esse deslocamento indica uma interiorização do sagrado,
característica das tradições iniciáticas mais elaboradas.
Portugal, Ordem de Cristo e a Herança Templária nas Navegações
A integração entre tradição templária e projeto marítimo
português constitui um dos fenômenos mais relevantes da história ocidental. O
descobrimento do Brasil, realizado por Pedro Álvares Cabral, não deve ser
interpretado como evento fortuito, mas como culminação de um processo
estruturado, no qual instituições, recursos e ideias convergiram.
A hipótese de que o capital templário tenha contribuído para
esse processo permanece plausível, sobretudo quando considerada em conjunto com
a continuidade institucional representada pela Ordem de Cristo. Ainda que a
prova documental absoluta seja limitada, a coerência histórica e simbólica
sustenta essa interpretação.
Assim, a relação entre templários, Ordem de Cristo e Maçonaria
não é meramente temática, mas estrutural. Trata-se de um encadeamento histórico
e simbólico que atravessa séculos e manifesta-se em diferentes formas,
mantendo, contudo, uma mesma essência: a busca pela ordem, pela verdade e pelo
aperfeiçoamento humano.
Bibliografia Comentada
1.
BARBER, Malcolm. Os Templários: a nova
cavalaria. São Paulo: Madras, 2006. Estudo rigoroso sobre a estrutura, riqueza
e queda da Ordem dos Templários, essencial para compreender seu impacto
histórico;
2.
BOXER, Charles R. O império marítimo português.
São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Obra clássica que examina a expansão
portuguesa e suas bases institucionais;
3.
DEMURGER, Alain. Os Templários: uma cavalaria
cristã na Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. Análise aprofundada
da ordem, com destaque para sua organização e legado;
4.
LE FORESTIER, René. A Francomaçonaria templária
e ocultista. São Paulo: Pensamento, 2003. Investigação sobre as conexões
simbólicas entre templários e Maçonaria;
5.
MACKEY, Albert G. Enciclopédia da Maçonaria. São
Paulo: Madras, 2008. Referência essencial para o estudo dos símbolos e
tradições maçônicas, incluindo influências templárias;
6.
MATTOSO, José. História de Portugal. Lisboa:
Estampa, 1993. Fornece contexto político e social fundamental para compreender
a atuação de Dom Dinis e a formação da Ordem de Cristo;
7.
RUSSELL-WOOD, A. J. R. Um mundo em movimento.
Lisboa: Difel, 1998. Explora a expansão portuguesa e suas implicações culturais
e econômicas;
8. Wikipédia;
Notas
[1]
A Ordem dos Templários, Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do
Templo de Salomão, foi uma ordem militar e religiosa cristã, fundada por volta
de 1118 por Hugo de Payens para proteger peregrinos na Terra Santa durante as
Cruzadas. Com votos de pobreza, castidade e obediência, tornaram-se monges
guerreiros famosos por sua coragem e por criarem um dos primeiros sistemas bancários
da Europa. Os Templários: Fundação e Apogeu: Surgiram em Jerusalém,
estabelecendo-se no Templo de Salomão. O Concílio de Troyes (1129) deu
reconhecimento oficial à ordem; Aparência: Eram conhecidos por suas túnicas
brancas com uma cruz vermelha, símbolo de martírio; Poder Econômico: Acumularam
vastas riquezas e terras na Europa, tornando-se uma organização financeira
poderosa que emitia cartas de crédito, facilitando viagens e transações;
Declínio e Extinção: Após a perda de Jerusalém e o declínio das Cruzadas, o
poder templário gerou inveja. O rei Filipe IV da França, endividado com a
ordem, perseguiu-os com apoio do Papa Clemente V. A ordem foi dissolvida em
1312; O Fim: O último Grão-Mestre, Jacques de Molay, foi queimado na fogueira
em 1314; Legado em Portugal: A ordem não foi extinta em Portugal; sob o rei D.
Dinis, foi transformada na Ordem de Cristo. A ordem é cercada de lendas e
teorias, incluindo a busca pelo Santo Graal e conexões com a Maçonaria.
[2]
A dissolução formal da Ordem dos Cavaleiros Templários ocorreu
oficialmente em 22 de março de 1312, através da bula papal Vox in excelso,
emitida pelo Papa Clemente V durante o Concílio de Vienne. Este ato encerrou a
existência legal da ordem militar e religiosa, que foi perseguida e acusada de
heresia, sodomia e idolatria, motivada principalmente por tensões políticas e
dívidas reais, especificamente do rei Filipe IV da França (o Belo). Principais
aspectos da dissolução: Prisões e Acusações (1307): Na sexta-feira, 13 de
outubro de 1307, Filipe IV ordenou a prisão em massa dos Templários na França,
com confissões obtidas sob tortura; Concílio de Vienne (1311-1312): O Papa
Clemente V, sob pressão, decidiu pela abolição da ordem. Embora muitas
acusações não tenham sido comprovadas, a dissolução ocorreu para evitar um
cisma com a coroa francesa; Destino dos Bens: Os bens da Ordem foram
formalmente transferidos para a Ordem dos Hospitalários (Ordem de Malta),
embora boa parte tenha sido retida pelas autoridades reais em diversas regiões;
Execução Final (1314): O último Grão-Mestre, Jacques de Molay, foi queimado na
fogueira em Paris em 1314, após retratar confissões anteriores; Em Portugal, a
ordem foi praticamente absorvida e transformada na Ordem de Cristo, mantendo
grande parte de seu patrimônio;
[3]
Filipe IV de França ou Filipe IV de França e I de Navarra de
nacionalidade francesa. Nasceu em Fontainebleau em 1268. Faleceu em
Fontainebleau em 29 de novembro de 1314. Suprimiu a Ordem dos Cavaleiros
Templários a 13 de outubro de 1307, fato que provavelmente esteve na origem da
superstição de as sextas-feiras dia 13 serem dias de azar;
[4]
Dom Dinis de Portugal, rei de nacionalidade portuguesa. Nasceu em Lisboa
em 9 de outubro de 1261. Faleceu em Santarém em 7 de janeiro de 1325. Foi
grande amante das artes e letras. Tendo sido um famoso trovador, cultivou
cantigas de amigo, de amor e a sátira, contribuindo para o desenvolvimento da
poesia trovadoresca na Península Ibérica;
[5]
A Ordem de Cristo foi uma ordem militar e religiosa portuguesa, fundada
em 1319 pelo rei D. Dinis e pelo Papa João XXII, sucedendo aos Templários em
Portugal. Sediada em Tomar, desempenhou papel fundamental nas navegações
portuguesas e expansão marítima. Secularizada em 1789, hoje perdura como uma
distinção honorífica da República Portuguesa. Principais Aspectos: Origem
Templária: Criada para proteger os bens e membros da Ordem do Templo, que
haviam sido extintos na Europa, mas mantidos em Portugal por D. Dinis; Sede em
Tomar: Após um período inicial em Castro Marim, a sede foi transferida em 1357
para o Convento de Cristo em Tomar, um complexo fortificado; Expansão Marítima:
A Ordem de Cristo financiou e apoiou as descobertas portuguesas, com destaque
para o papel do Infante D. Henrique como seu Mestre. A sua cruz foi o emblema
nas velas das caravelas; Membros Notáveis: Navegadores e figuras como Vasco da
Gama, Pedro Álvares Cabral, Gil Eanes e Bartolomeu Dias foram membros da ordem;
Status Atual: Após a extinção em 1910, foi refundada em 1917 como Ordem Militar
de Cristo, sendo uma distinção honorífica da República Portuguesa para
relevantes serviços à pátria; A Ordem de Cristo foi um dos principais pilares
do poder militar e econômico português durante a era das descobertas,
integrando o legado dos Templários na construção do império português.
[6]
O Infante Dom Henrique de Avis (1394-1460), conhecido como "O
Navegador" ou "Infante de Sagres", foi a figura central no
início da expansão marítima portuguesa, impulsionando os descobrimentos do
século XV, a exploração da costa africana e o desenvolvimento da cartografia e
navegação a partir do Algarve. Principais Feitos e Realizações: Pioneirismo nas
Navegações: Filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre, foi o motor da
exploração da costa ocidental africana, visando a expansão territorial,
comercial e a propagação da fé; Conquista de Ceuta (1415): Teve papel
fundamental na tomada desta praça no Norte da África, marcando o início da
expansão ultramarina portuguesa; "Escola de Sagres" (Mito e
Realidade): Estabeleceu-se no Algarve, onde reuniu cartógrafos, astrónomos e
especialistas em navegação, fomentando o aprimoramento da caravela e técnicas
náuticas; Administrador da Ordem de Cristo: Como administrador (desde
1418/1419) e posteriormente governador, utilizou os recursos desta ordem
militar para financiar as expedições; Colonização das Ilhas: Promoveu a
exploração e colonização dos Açores e da Madeira; Apesar de ser chamado de
"O Navegador", D. Henrique realizou poucas viagens
[7]
O Tratado de Tordesilhas, assinado em 7 de junho de 1494, foi um acordo
entre Portugal e a Coroa de Castela (Espanha) que dividiu o "Novo
Mundo" por uma linha imaginária a 370 léguas a Oeste de Cabo Verde. Terras
a Leste pertenceriam a Portugal e a Oeste, à Espanha, garantindo a Portugal a
posse de parte do Brasil antes mesmo da sua descoberta oficial. Principais
Pontos: Objetivo: Evitar conflitos entre as duas maiores potências marítimas da
época, especialmente após a chegada de Cristóvão Colombo à América em 1492;
Linha de Demarcação: Fixada a 370 léguas a Oeste das ilhas de Cabo Verde; Implicações:
Portugal garantiu o domínio sobre o Oceano Atlântico Sul, essencial para as
rotas comerciais, e parte do território brasileiro; Contexto: O acordo foi
ratificado pelo Papa e definiu a exploração de terras fora da Europa por
séculos; Fim do Tratado: A divisão deixou de ter sentido com a União Ibérica
(1580) e foi posteriormente substituída pelo Tratado de Madri em 1750; O
tratado reflete a rivalidade e a necessidade de regular a expansão marítima do
final do século XV.
[8]
O "descobrimento" do Brasil ocorreu em 22 de abril de 1500,
quando uma expedição portuguesa liderada por Pedro Álvares Cabral, a caminho
das Índias, chegou ao litoral do atual Estado do Rio Grande do Norte. O evento,
parte das Grandes Navegações, marcou o início da colonização e o encontro com
os povos indígenas nativos. A verdadeira história: Não foi um mero acaso.
Portugal já suspeitava da existência de terras a Oeste, legitimadas pelo
Tratado de Tordesilhas (1494). A esquadra desviou-se intencionalmente para
garantir a posse; A chegada: Estudos recentes baseados na carta de Pero Vaz de
Caminha, ventos e correntes marítimas provam que a expedição de Cabral chegou
primeiro ao Rio Grande do Norte, Touros, em 1500, e não à Bahia, Porto Seguro;
O encontro: O contato inicial foi pacífico, relatado na carta de Pero Vaz de
Caminha, que descreveu os habitantes e a terra; Nomes: Antes de ser Brasil,
devido ao Pau-Brasil, a terra foi chamada de Ilha de Santa Cruz e Terra de
Santa Cruz; Consequências: Início da exploração, catequização e a tentativa de
escravização dos povos indígenas; A historiografia moderna prefere o termo
"chegada" ou "encontro de culturas", pois o território já
era habitado por milhões de indígenas.

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