Charles Evaldo Boller
Se o Universo é a grande oficina, a Loja é o seu microcosmo
deliberado: um recorte do mundo, purificado de ruídos dispersivos, para que o
homem aprenda a edificar-se a si mesmo com a mesma seriedade com que se ergue
um templo. A arquitetura externa, com seus eixos, colunas e medidas, não é mero
cenário: é uma gramática moral. Ao entrar, o Aprendiz atravessa um limiar
ontológico: sai do regime do acaso e ingressa no regime da forma. E forma,
aqui, não significa rigidez; significa medida, proporção, hierarquia do
essencial, disciplina do gesto e do verbo. Platão situou a alma humana entre
sombras e clarões; a Loja, ao ordenar luzes, silêncios e trabalhos, ensina que
a passagem do obscuro ao luminoso não é instantânea: é labor, método e
perseverança.
A peça de arquitetura que este tema ergue é um "observatório moral": um espaço
construído para tornar visível a ordem invisível. O Oriente não é apenas
direção; é princípio. O Ocidente não é apenas lugar; é termo. Entre ambos, o
homem aprende a percorrer o eixo da própria consciência. Aristóteles
ensinou que a virtude é hábito governado pela justa medida; o Esquadro e o
Compasso traduzem isso sem palavras: retidão e proporção não são ideais
abstratos, mas instrumentos de uma vida bem talhada. Quando o Rito Escocês
Antigo e Aceito fala de Loja "justa,
perfeita e regular", afirma algo mais profundo que a legalidade:
afirma que a alma precisa de regularidade para que a liberdade não se converta
em capricho. A liberdade, sem forma, dissolve-se; com forma, torna-se força.
As três colunas, Sabedoria, Força e Beleza, são pilares de uma
Metafísica prática. A Sabedoria preside: não como soberba de quem sabe, mas
como lucidez de quem distingue. A Força sustenta: não como violência, mas como
constância contra a inércia interior. A Beleza adorna: não como ornamento
supérfluo, mas como harmonia que impede a virtude de se tornar amarga. Aqui,
Hegel ajuda: o espírito não se realiza no puro interior; ele se objetiva em
formas. A Loja é uma objetivação pedagógica do espírito: cada ofício, cada
palavra ritmada, cada pausa, é uma moldura que torna o caráter inteligível para
si mesmo.
O mosaico, com brancos e pretos, não é um convite ao
relativismo; é um treinamento de discernimento. Pascal viu a grandeza e a
miséria do homem; o mosaico recorda que a estrada humana é uma tessitura de
contrastes, e que o trabalho iniciático não consiste em negar o preto, mas em
impedir que ele governe. A orla dentada figura uma lei de atração: o amor como
gravitação moral. Assim, o Aprendiz aprende que fraternidade não é sentimento
volátil; é força estruturante, capaz de manter diferenças sem ruptura. E é por
isso que a Loja, sendo cosmos moral, é também oficina do ser: ali se aprende a "amassar o cimento" que une, não
para nivelar por baixo, mas para compor um edifício comum.
Kant falaria do dever como lei interior; a ritualística
acrescenta algo: o dever precisa de rito, isto é, de repetição significativa,
para encarnar-se. O balaústre, a ordem do dia, a palavra concedida "a bem da ordem", tudo isso
constitui uma engenharia da linguagem: o homem aprende a pensar antes de falar,
a ordenar antes de agir. Marco Aurélio aconselharia a governar a si mesmo como
uma cidadela; a Loja ensina a mesma arte por símbolos: a guarda do templo, "a coberto", é a imagem do guardião
interior que impede profanações mentais — preconceitos, impulsos, vaidades — de
invadirem o santuário da decisão.
Por fim, este cosmos moral não se fecha em si: ele se abre ao
mundo como medida. "Sic Transit Gloria
Mundi" não humilha a vida; purifica-a. A glória passa, mas a obra
permanece: permanece o caráter, permanece o gesto justo, permanece a caridade
sem ostentação. A peça arquitetônica que se ergue, então, é uma ponte: do
templo para a cidade, do símbolo para a conduta, da luz recebida à luz
transmitida. Porque a Loja, quando bem compreendida, não é refúgio; é escola de
construção — e o primeiro edifício é o próprio homem, sob o olhar do Grande
Arquiteto do Universo.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de
Antônio C. C. de Almeida. São Paulo: Martins Fontes, 2009. Obra-chave para
compreender a virtude como hábito e justa medida, oferecendo um fundamento
filosófico sólido para interpretar Esquadro e Compasso como instrumentos de
formação do caráter, onde a excelência moral se realiza na prática reiterada e
deliberada;
2.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos
Costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007. Texto essencial
para articular a ideia de dever e lei interior, permitindo ler a regularidade
ritual como disciplina que dá forma concreta ao imperativo moral, sem reduzir a
ética a mero costume social;
3.
MARCO AURÉLIO. Meditações. Tradução de Jaime
Bruna. São Paulo: Cultrix, 2002. Fonte clássica do estoicismo para aprofundar a
noção de autogoverno e vigilância de si, iluminando o simbolismo do "templo a coberto" como metáfora do
cuidado interior e da fortaleza da consciência;
4.
PASCAL, Blaise. Pensamentos. Tradução de Mário
Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2005. Ajuda a compreender a tensão entre
grandeza e miséria humanas, dialogando de modo fecundo com o mosaico e com o
trabalho de lapidação da pedra bruta, ao exigir lucidez sobre limites e
responsabilidade;
5.
PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da
Rocha Pereira. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2001. A alegoria da caverna fornece
um arcabouço rigoroso para pensar a passagem das trevas à luz como processo,
tornando mais inteligível a estrutura iniciática como itinerário de
conhecimento, conversão do olhar e ascensão interior;
6.
WIRTH, Oswald. O Simbolismo Maçônico. Tradução
de Henrique de Campos. São Paulo: Madras, 2008. Referência direta para a
leitura esotérica e simbólica dos emblemas da Loja, oferecendo chaves
interpretativas para a tríade Sabedoria, Força e Beleza, e para a compreensão
do espaço ritual como linguagem formadora;

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