quarta-feira, 11 de março de 2026

Ética Justa e Perfeita como Horizonte Simbólico

 Charles Evaldo Boller

A filosofia maçônica concebe a ética justa e perfeita não como um estado alcançável, mas como um horizonte regulador, semelhante à linha do horizonte que orienta o caminhante sem jamais ser tocada. Quando, ao término de cada sessão, afirma-se que os trabalhos foram justos e perfeitos, não se professa uma verdade literal, mas um compromisso simbólico: o reconhecimento humilde de que a perfeição absoluta não habita o mundo dos atos humanos, mas deve habitar o mundo das intenções. Tal fórmula ritualística funciona como espelho moral, recordando ao obreiro que sua obra é sempre provisória e que o aperfeiçoamento é tarefa contínua.

Se existisse uma ética plenamente justa e perfeita, aplicável de modo automático e universal, a história dispensaria tribunais, códigos e sanções. Bastaria ao ser humano compreender, de maneira imediata, a correspondência entre ação e reação. Contudo, a condição humana é marcada pela competição, pelo desejo de vantagem e pela tensão entre interesses. As leis civis surgem, assim, como andaimes frágeis, erguidos para sustentar uma convivência minimamente estável, não como expressão de uma moral elevada, mas como contenção do caos possível. A ética jurídica é corretiva; a ética maçônica é formativa.

Nesse ponto, a Maçonaria se aproxima das grandes tradições filosóficas e espirituais que reconheceram o caráter relativo das normas morais. A ética varia conforme culturas, épocas e circunstâncias, pois nasce do encontro conflituoso entre necessidades, crenças e projetos de vida. O que uma sociedade considera virtuoso, outra pode reprovar. A pretensão de respostas absolutas ignora o tecido complexo da vida social, da geopolítica e das paixões humanas. Ainda assim, os grandes mestres do pensamento universal convergiram numa intuição comum: acima das normas variáveis, existe um princípio axial, sintetizado na lei do amor.

O amor, nesse contexto, não é sentimentalismo, mas força ordenadora. Ele funciona como o prumo simbólico que permite avaliar o alinhamento das ações humanas. Quando Cristo fala do amor ao próximo, quando Sócrates busca o bem pela via do autoconhecimento, quando Confúcio insiste na harmonia social e quando Aristóteles trata da justa medida, todos apontam para a mesma direção: a ética não se reduz à obediência externa, mas exige transformação interior. A Maçonaria traduz essa intuição por meio de seus símbolos operativos, convidando cada iniciado a desbastar a pedra bruta de suas paixões.

A utopia da ética justa e perfeita é, portanto, deliberada. Ela não pretende descrever o mundo como ele é, mas indicar o mundo como ele poderia ser. Funciona como uma estrela polar: inalcançável, porém indispensável à navegação. Ao atribuir tal ética à vontade do Grande Arquiteto do Universo, a ordem maçônica não impõe dogmas, mas reconhece um princípio transcendente de harmonia e inteligência que inspira o aperfeiçoamento humano. O templo torna-se, assim, um laboratório simbólico onde se ensaia, em escala reduzida, a fraternidade que se deseja para a sociedade.

Nas oficinas, o debate livre, respeitoso e contínuo constitui método de ensino moral. A divergência não é ameaça, mas instrumento de lapidação. A famosa máxima atribuída a Voltaire resume esse espírito: defender o direito à palavra, mesmo quando se discorda do conteúdo. Nesse exercício, o maçom aprende que a ética não se constrói pela imposição, mas pelo diálogo. A perfeição permanece utópica, mas o esforço de persegui-la eleva o homem acima de sua própria inércia.

Sonhar com o inalcançável é, paradoxalmente, fonte de felicidade iniciática. A ética justa e perfeita, embora impossível em termos absolutos, dá sentido ao trabalho simbólico e à vida moral. Na medida em que o obreiro caminha em sua direção, torna-se mais consciente, mais livre e mais fraterno. Assim, a Maçonaria não promete a perfeição, mas oferece um caminho: trabalhar incessantemente para que cada ação humana se aproxime, ainda que imperfeitamente, do projeto de harmonia intuído para a humanidade pelo Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Atlas, 2009. Texto clássico que apresenta a ética como busca da virtude pela justa medida, oferecendo base racional para a compreensão da moral como hábito formativo e não como regra absoluta;

2.      CASTELLANI, José. Filosofia maçônica. São Paulo: Madras, 2012. Obra dedicada à interpretação dos princípios éticos e simbólicos da Maçonaria, contextualizando a ideia de ética justa e perfeita como ideal regulador e pedagógico;

3.      CONFÚCIO. Os analectos. São Paulo: Pensamento, 2014. Coletânea de ensinamentos que enfatizam a harmonia social, o respeito e a ética relacional, contribuindo para uma visão universal da moral fundada no equilíbrio e na retidão;

4.      PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010. Diálogo essencial sobre justiça, educação moral e organização da sociedade ideal, influenciando profundamente as concepções utópicas de ética e bem comum;

5.      ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Obra fundamental para a compreensão da origem das normas sociais e das tensões entre liberdade individual e organização coletiva, iluminando as raízes históricas e filosóficas dos conflitos éticos;

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