Charles Evaldo Boller
A tradição, no âmbito do Grau de Aprendiz Maçom no Rito Escocês
Antigo e Aceito, não deve ser compreendida como mera repetição de formas
antigas, mas como a continuidade viva de um princípio sagrado que atravessa o
tempo, preservando e transmitindo um núcleo essencial de sabedoria. Ela
constitui o elo invisível que conecta o presente ao passado e projeta o futuro,
assegurando que o conhecimento iniciático não se dissolva na superficialidade
das épocas, mas permaneça como referência perene para a construção do homem
interior.
Na medida em que o ritual afirma que a Maçonaria restabeleceu os
ensinamentos esotéricos dos antigos santuários, especialmente os egípcios, não
se está reivindicando uma filiação histórica literal, mas evocando uma linhagem
simbólica. Essa linhagem representa a continuidade de um modo de conhecer que
não se limita ao raciocínio discursivo, mas envolve experiência, vivência e
transformação. René Guénon, ao tratar da tradição, distingue entre conhecimento
profano e conhecimento tradicional, sendo este último caracterizado por sua
origem transcendente e por sua transmissão iniciática. A tradição maçônica,
nesse sentido, insere-se nesse segundo domínio.
A continuidade do sagrado implica fidelidade, mas não
imobilismo. A tradição não é estática; ela se adapta às circunstâncias sem
perder sua essência. Essa capacidade de permanência na mudança é o que garante
sua vitalidade. Hans-Georg Gadamer, ao desenvolver a hermenêutica filosófica,
afirma que toda tradição vive na interpretação. Cada geração, ao receber o
legado simbólico, é chamada a compreendê-lo à luz de seu próprio horizonte, sem
romper com sua origem. Assim, a tradição é ao mesmo tempo conservação e
renovação.
No contexto iniciático, essa continuidade se manifesta por meio
do ritual. O ritual não é apenas uma sequência de atos, mas uma forma
estruturada de transmissão de sentido. Ele organiza o tempo, o espaço e a ação
de modo a criar uma experiência significativa. Mircea Eliade, ao estudar as
religiões comparadas, demonstra que o ritual tem a função de reatualizar o
tempo sagrado, permitindo ao participante sair do tempo profano e entrar em
contato com uma dimensão atemporal. A loja, ao operar ritualisticamente,
torna-se um espaço onde o sagrado se torna presente.
A tradição também se expressa na linguagem simbólica. Os
símbolos utilizados — pedra, templo, luz, escada — não são invenções
arbitrárias, mas elementos que carregam significados acumulados ao longo de
séculos. Carl Gustav Jung, ao tratar dos arquétipos, sugere que certos símbolos
emergem do inconsciente coletivo e possuem uma ressonância universal. A
tradição, ao preservar esses símbolos, mantém viva uma linguagem que fala
diretamente à estrutura profunda da psique humana.
Entretanto, a tradição exige do iniciado uma postura ativa. Não
basta repetir os gestos; é necessário compreender seu sentido. A mera
reprodução sem entendimento conduz ao formalismo vazio. Por outro lado, a
rejeição da forma em nome de uma suposta liberdade conduz à perda do conteúdo.
O equilíbrio entre forma e sentido é, portanto, essencial. Essa tensão pode ser
comparada à relação entre estrutura e liberdade na música: a harmonia só se
realiza quando há respeito às regras, mas também expressão criativa.
A continuidade do sagrado implica também responsabilidade. Ao
receber a tradição, o iniciado torna-se seu guardião. Ele não é proprietário do
conhecimento, mas depositário. Essa condição exige ética, discrição e compromisso.
Edmund Burke, ao refletir sobre a sociedade, afirma que ela é uma parceria não
apenas entre os vivos, mas também com os mortos e os que ainda nascerão. A
tradição maçônica, nesse sentido, é uma corrente que liga gerações em torno de
um ideal comum.
No plano existencial, a tradição oferece um eixo de orientação.
Em um mundo marcado pela fragmentação e pela volatilidade, ela fornece
estabilidade e sentido. Não como imposição externa, mas como referência
interior. O homem moderno, muitas vezes desorientado, encontra na tradição um
ponto de apoio para reconstruir sua identidade. Essa função estruturante
aproxima-se da ideia de "habitus" em Pierre Bourdieu, como conjunto
de disposições incorporadas que orientam a ação.
A analogia com a física pode novamente enriquecer essa reflexão.
Assim como certas constantes fundamentais garantem a estabilidade do universo,
a tradição funciona como uma constante simbólica que mantém a coerência do
sistema iniciático. Sem ela, haveria dispersão; com ela, há continuidade.
Contudo, assim como na física essas constantes operam em sistemas dinâmicos, a
tradição também atua em contextos em transformação.
No âmbito da andragogia, a tradição desempenha um papel
singular. O adulto aprendiz não rejeita o passado, mas busca compreendê-lo e
integrá-lo à sua experiência. A aprendizagem significativa ocorre quando o novo
se articula com o já conhecido. A tradição, ao fornecer um repertório simbólico
rico, facilita essa integração. O ensino maçônico, ao valorizar a tradição,
promove uma aprendizagem que é ao mesmo tempo enraizada e aberta.
Importa destacar que a tradição não é exclusivista. Embora
possua formas específicas, seus princípios são universais. A busca pela
verdade, o cultivo da virtude, o respeito à ordem — esses elementos transcendem
culturas e épocas. A tradição maçônica, ao preservar esses princípios,
contribui para a construção de uma ética universal.
Por fim, compreender a tradição como continuidade do sagrado é
reconhecer que o homem não começa do zero. Ele herda, participa e transmite.
Sua tarefa não é inventar arbitrariamente, mas descobrir, atualizar e
aprofundar. A tradição não limita; orienta. Não aprisiona; fundamenta. Não
impede o novo; dá-lhe raiz.
Assim, ao inserir-se na tradição, o aprendiz não se torna repetidor,
mas continuador. Ele participa de uma obra que o antecede e o ultrapassa,
contribuindo com sua própria transformação para a permanência de um saber que,
embora antigo, permanece sempre novo na medida em que é vivido.
Bibliografia Comentada
1.
BOURDIEU, Pierre. O senso prático. Petrópolis:
Vozes, 2009. Introduz o conceito de habitus, útil para compreender a
internalização da tradição;
2.
BURKE, Edmund. Reflexões sobre a Revolução na
França. São Paulo: Edipro, 2014. Apresenta a tradição como elo entre gerações;
3.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São
Paulo: Martins Fontes, 2010. Analisa a função do ritual na atualização do tempo
sagrado;
4.
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método.
Petrópolis: Vozes, 1999. Desenvolve a hermenêutica como processo de interpretação
da tradição;
5.
GUÉNON, René. A crise do mundo moderno. Lisboa:
Vega, 2001. Obra central para compreender a distinção entre conhecimento
tradicional e profano;
6.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o
inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000. Fundamenta a compreensão dos
símbolos como expressões universais da psique;
7.
KNOWLES,
Malcolm. The Adult Learner. Burlington: Elsevier, 2015. Relaciona a
tradição com a aprendizagem significativa no adulto;
