Charles Evaldo Boller
A experiência maçônica adquire maior força formativa quando
trabalho, aprendizagem e satisfação deixam de constituir atividades separadas e
passam a integrar uma mesma experiência humana. Essa aproximação,
frequentemente associada às reflexões de Domenico De Masi (1938-2023) sobre
trabalho, estudo e lazer, permite compreender a Loja como ambiente no qual o
maçom encontra prazer intelectual no próprio esforço de aperfeiçoamento. A
motivação, então, deixa de depender de imposições externas e nasce do
significado atribuído ao trabalho realizado sobre si mesmo.
A Psicologia Social demonstra que nenhum indivíduo se desenvolve
inteiramente isolado. Os estudos de Solomon Asch (1907-1996) sobre conformidade
evidenciaram a força exercida pelo grupo sobre julgamentos individuais,
enquanto Henri Tajfel (1919-1982), ao desenvolver a teoria da identidade
social, demonstrou que parte da percepção que o indivíduo constrói de si
decorre dos grupos aos quais reconhece pertencer. Essa influência pode conduzir
ao conformismo, mas também pode produzir efeitos construtivos quando o ambiente
coletivo valoriza reflexão, virtude, responsabilidade e autonomia. Na oficina
maçônica, portanto, a convivência não deveria produzir simples uniformidade de
pensamento; sua finalidade formativa está precisamente em estimular cada irmão
a realizar conscientemente seu próprio trabalho interior.
Esse princípio distingue profundamente instrução de
transformação. A Maçonaria não necessita reproduzir a relação convencional
entre professor e aluno, porque o conhecimento maçônico somente alcança
plenitude quando o próprio maçom o converte em experiência. Sob a perspectiva
da andragogia, sistematizada no século XX por Malcolm Knowles (1913-1997), o
adulto aprende com maior significado quando percebe a relevância do
conhecimento, relaciona-o à experiência acumulada e participa ativamente de sua
própria formação. Assim, cada irmão é simultaneamente aprendiz de si mesmo e
colaborador na formação dos demais.
O simbolismo do templo oferece poderosa representação desse
fenômeno. Cada maçom trabalha sua própria construção, mas nenhuma construção
humana ocorre completamente separada das outras. Por isso, levantar templos à
virtude e cavar masmorras aos vícios adquire sentido simultaneamente individual
e coletivo. Ninguém pode retirar do outro seus defeitos, dominar suas paixões
ou construir-lhe o caráter; entretanto, a presença dos irmãos oferece exemplos,
contrapontos, estímulos e oportunidades de reflexão. A oficina transforma-se,
desse modo, em comunidade de aperfeiçoamento na qual autonomia e influência
recíproca não são contraditórias, mas complementares.
Esse processo também envolve metacognição: a capacidade de
examinar os próprios pensamentos, estratégias, decisões e formas de aprender.
Quando o maçom debate ideias, confronta interpretações, reconsidera certezas e
procura aplicar à vida cotidiana aquilo que simbolicamente vivencia na Loja,
aprende não apenas conteúdos, mas também a observar como pensa e como age. O
verdadeiro valor do trabalho maçônico manifesta-se justamente quando essa
reflexão ultrapassa os limites físicos do templo e alcança a família, a
profissão e a sociedade.
A oficina pode, assim, tornar-se um espaço no qual trabalhar,
aprender e encontrar satisfação intelectual constituem dimensões de uma única
experiência. Sua força não reside em modificar compulsoriamente o homem, mas em
criar condições para que ele queira modificar a si mesmo. Sob a inspiração
simbólica do Grande Arquiteto do Universo, cada irmão permanece responsável
pela própria construção, enquanto a fraternidade lhe oferece ambiente, exemplo
e estímulo. É nessa reciprocidade que o trabalho sobre si deixa de ser
empreendimento solitário e se converte em serviço à ordem maçônica, ao próximo
e à permanente construção da própria consciência.
Bibliografia Comentada
A presente Bibliografia Comentada reúne as referências
diretamente relacionadas aos fundamentos empregados no texto sobre motivação,
convivência em Loja, influência social, autoeducação, andragogia e
metacognição. A seleção procura tornar explícito o percurso interdisciplinar
que sustenta a reflexão: da Psicologia Social de Solomon Asch e Henri Tajfel à
compreensão da aprendizagem adulta de Malcolm Knowles; da investigação
metacognitiva de John Flavell à análise sociológica de Domenico De Masi acerca
da integração entre trabalho, aprendizagem, criatividade e lazer. Essas obras
permitem interpretar a oficina maçônica não como espaço de transmissão passiva
de conhecimentos, mas como ambiente social no qual autonomia individual,
interação entre irmãos, reflexão e experiência podem favorecer o aperfeiçoamento.
As referências foram selecionadas por sua relação efetiva com os conceitos
desenvolvidos no texto e constituem, simultaneamente, fundamentação teórica e
roteiro para aprofundamento posterior.
1.
ASCH,
Solomon E. Social psychology. New York: Prentice-Hall, 1952. Obra
fundamental da Psicologia Social, oferece suporte à compreensão da influência
exercida pelo grupo sobre julgamentos, atitudes e comportamentos individuais,
permitindo analisar criticamente tanto os efeitos construtivos da convivência
quanto os riscos do conformismo no ambiente coletivo. (Google Livros)
2.
DE MASI, Domenico. O ócio criativo. 2. Ed. Rio
de Janeiro: Sextante, 2000. A obra fundamenta a integração entre trabalho,
estudo e lazer utilizada no texto para interpretar a atividade maçônica como
experiência simultaneamente produtiva, formativa e intelectualmente prazerosa,
relacionando criatividade, satisfação pessoal e reorganização qualitativa do
tempo humano. (BDS UNB)
3.
FLAVELL, John H. Metacognition and cognitive
monitoring: a new area of cognitive-developmental inquiry. American
Psychologist, Washington, DC, v. 34, n. 10, p. 906-911, 1979. DOI:
10.1037/0003-066X.34.10.906. Fundamenta o conceito de metacognição empregado
para explicar a capacidade de examinar os próprios processos cognitivos,
estratégias e experiências, oferecendo base científica à reflexão sobre
autoconhecimento e autorregulação da aprendizagem. (DOI)
4.
KNOWLES, Malcolm S. The adult learner: a
neglected species. Houston: Gulf Publishing Company, 1973. Referência clássica
da andragogia, sustenta a compreensão do adulto como participante ativo de sua
aprendizagem, valorizando experiência, autonomia, disposição para aprender e
aplicação prática, princípios particularmente pertinentes à concepção do maçom
como agente de sua própria formação. (ERIC)
5.
TAJFEL,
Henri. Human groups and social categories: studies in social psychology. Cambridge:
Cambridge University Press, 1981. A obra contribui para compreender identidade
social, categorização e relações entre grupos, oferecendo fundamento para
analisar como pertencimento, convivência e identificação coletiva podem
participar da formação de valores e comportamentos sem eliminar a autonomia
individual. (Google Livros)

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