Charles Evaldo Boller
No horizonte da ordem maçônica, a crítica ao materialismo
moderno não se apresenta como negação da matéria, mas como denúncia de sua
absolutização. O erro não reside no uso dos bens materiais, mas na sua elevação
ao estatuto de finalidade última da existência. Quando o homem passa a medir
seu valor exclusivamente por aquilo que possui, perde de vista aquilo que é.
E é precisamente essa inversão que a iniciação se propõe a corrigir.
O materialismo, enquanto visão de mundo, reduz a realidade ao
que é tangível, mensurável e imediatamente útil. Tal perspectiva, embora tenha
produzido avanços técnicos significativos, revela-se insuficiente para
responder às questões fundamentais da existência humana: o Sentido da Vida, o
Fundamento da Moral, a Natureza do Bem. Ao ignorar essas dimensões, o homem
torna-se prisioneiro de uma lógica que o empobrece interiormente, ainda que o
enriqueça exteriormente.
A filosofia moderna já antecipava essa tensão. Blaise Pascal
advertia que o homem, ao ocupar-se excessivamente com distrações, evita
confrontar sua própria condição. O materialismo, nesse sentido, funciona como
mecanismo de evasão: ao concentrar-se no exterior, o homem foge do interior. A
iniciação, ao contrário, convida ao retorno, à reflexão, ao enfrentamento da
própria realidade.
No simbolismo maçônico, essa crítica manifesta-se na valorização
do invisível sobre o visível. Os instrumentos de trabalho não são apresentados
como meios de produção material, mas como símbolos de transformação moral. A Régua
mede o tempo da vida; o Maço representa a ação consciente; o
Cinzel, o refinamento do espírito. Tudo aquilo que poderia ser
interpretado de forma utilitária é ressignificado como instrumento de elevação.
A metáfora da pedra bruta é novamente esclarecedora. O
materialismo tende a valorizar a pedra enquanto objeto externo, enquanto coisa.
A iniciação, porém, desloca o foco para o processo de lapidação, isto é, para a
transformação do sujeito. O valor não está na matéria em si, mas no trabalho
que a transforma e no significado que esse trabalho assume.
A crítica ao materialismo também implica uma revalorização da
interioridade. O homem não é apenas corpo, mas também Consciência, Vontade,
Inteligência. Ignorar essas dimensões é reduzir a complexidade do ser humano.
Como ensinava Viktor Frankl, o homem pode suportar quase qualquer condição,
desde que encontre sentido. O materialismo, ao negligenciar o sentido,
fragiliza a existência.
Entretanto, a tradição iniciática não propõe fuga do mundo, mas
transformação da relação com ele. Os bens materiais são reconhecidos como
necessários, mas não suficientes. Devem ser utilizados com discernimento,
subordinados a princípios superiores. O homem não deve ser servo da matéria,
mas seu senhor.
Há ainda uma dimensão ética nessa crítica. O materialismo,
quando levado ao extremo, tende a justificar comportamentos orientados
exclusivamente pelo interesse, negligenciando valores como justiça,
solidariedade e fraternidade. A iniciação, ao contrário, reafirma a
centralidade desses valores, propondo uma ética que transcende o utilitarismo.
A metáfora da Luz e das trevas reforça essa oposição. A
ignorância não é apenas ausência de conhecimento, mas Obscurecimento da
Consciência pelo excesso de apego ao material. A Luz, por sua vez, representa o
despertar para uma realidade mais ampla, onde o visível é apenas parte
do todo.
Pode-se afirmar, em síntese, que a crítica ao materialismo
moderno não visa negar o mundo sensível, mas recolocá-lo em seu devido lugar. O
iniciado é chamado a integrar matéria e espírito, ação e reflexão, exterior e
interior, construindo uma existência equilibrada e significativa.
Bibliografia Comentada
1.
FRANKL, Viktor. Em busca de sentido. Apresenta a
centralidade do sentido na vida humana, contrapondo-se à redução materialista
da existência;
2.
FROMM, Erich. Ter ou ser? Analisa a oposição
entre modos de existência centrados na posse e no ser, alinhando-se à crítica
iniciática;
3.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos.
Embora materialista, oferece crítica à alienação, útil para reflexão sobre o
domínio da matéria sobre o homem;
4.
PASCAL, Blaise. Pensamentos. Critica a distração
e a superficialidade da vida centrada no exterior, contribuindo para a
compreensão do materialismo como evasão;

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