Charles Evaldo Boller
Em todas as
épocas da história humana, a transmissão do conhecimento esteve vinculada à
presença. Não apenas à presença física, mas à presença viva, carregada de intenção,
autoridade moral e experiência. A tradição iniciática sempre compreendeu essa
realidade de forma profunda. Ensinar, nesse contexto, não significa apenas
transferir informações, mas provocar um processo interior de transformação. O
ensinamento atua como o cinzel que, ao encontrar a pedra bruta, desperta nela a
forma que estava potencialmente contida. É nesse sentido que a reflexão sobre a
substituição do homem pela tecnologia no ensino maçônico exige discernimento
filosófico e simbólico.
A Maçonaria,
especialmente no âmbito do Rito Escocês Antigo e Aceito, estrutura-se sobre
símbolos que são, ao mesmo tempo, instrumentos pedagógicos e operadores de
consciência. O maço e o cinzel não representam apenas ferramentas do antigo
ofício do pedreiro; representam o esforço disciplinado de aperfeiçoamento
moral. O maço simboliza a força da vontade; o cinzel simboliza a inteligência
que orienta essa força. Sem o cinzel, o golpe torna-se brutalidade; sem o maço,
o cinzel permanece inerte. Essa complementaridade oferece metáfora eloquente
para o processo educativo. A tecnologia pode funcionar como instrumento
auxiliar, semelhante ao cinzel que amplia a precisão, mas a vontade humana
permanece como o impulso essencial que dá sentido ao trabalho.
Quando se
observa o desenvolvimento histórico da filosofia, percebe-se que os grandes
mestres sempre ensinaram por meio da convivência. Sócrates não deixou tratados
escritos; deixou discípulos transformados. Seu método dialógico demonstrava que
o conhecimento nasce do encontro entre consciências. Platão, seu discípulo,
registrou essa dinâmica ao afirmar que a Verdade surge quando duas almas se
aproximam na busca comum do bem. Essa mesma compreensão ecoa na tradição
iniciática: a sabedoria não é simplesmente comunicada; é despertada.
Aristóteles
ensinava que o caráter se forma pelo hábito. Tornamo-nos justos praticando a
justiça, prudentes exercitando a prudência, corajosos enfrentando aquilo que
exige coragem. A instrução que permanece apenas no plano conceitual produz
erudição, mas não necessariamente virtude. A Maçonaria sempre distinguiu esses
dois níveis. O aprendizado exige prática consciente, repetição disciplinada e
exemplo vivo. O mestre não ensina apenas por palavras; ensina por postura, por
atitude e por coerência.
A tecnologia
moderna oferece instrumentos poderosos para ampliar o acesso ao conhecimento.
Bibliotecas digitais, bases de dados e ferramentas de comunicação instantânea
permitem que um estudante tenha acesso, em poucos segundos, a conteúdos que
anteriormente exigiriam anos de pesquisa. Contudo, essa abundância de
informação traz consigo um risco: a superficialidade. Nicholas Carr observa que
o ambiente digital estimula uma forma fragmentada de leitura, na qual a atenção
salta continuamente de um estímulo para outro. A mente acostuma-se à
velocidade, mas perde profundidade. A contemplação torna-se rara.
No caminho
iniciático, porém, a contemplação é indispensável. O símbolo exige silêncio
interior. Assim como a luz que atravessa um vitral revela cores ocultas, o
símbolo revela significados apenas quando a consciência se aquieta para
observá-lo. O esquadro, por exemplo, não é apenas instrumento de medição; é
lembrança constante da retidão moral. Ele ensina que cada ação humana deve ser
medida segundo a justiça e a Verdade. A régua de vinte e quatro polegadas
recorda a administração sábia do tempo: oito horas para o trabalho, oito para o
descanso e oito para o cultivo do espírito. Esses símbolos não produzem seu
efeito pela simples leitura de uma definição. Eles atuam pela reflexão
reiterada e pela convivência em um ambiente que os valoriza.
Martin
Buber, ao refletir sobre a natureza das relações humanas, distinguiu duas
formas fundamentais de encontro: a relação "Eu-Isso" e a relação
"Eu-Tu". A primeira caracteriza-se pela objetificação; a segunda,
pela presença autêntica. A tecnologia, em grande medida, tende a organizar
relações do tipo "Eu-Isso", mediadas por interfaces e algoritmos. A
formação iniciática, entretanto, depende da relação "Eu-Tu", na qual
duas consciências se encontram em reconhecimento mútuo. Esse encontro cria um
campo simbólico onde o aprendizado adquire densidade existencial.
A tradição
maçônica sempre compreendeu essa dimensão comunitária. A Loja não é apenas
espaço físico; é laboratório moral. Ali, o Aprendiz observa, escuta e aprende
gradualmente a ordenar seus pensamentos e suas ações. Cada gesto ritualístico,
cada palavra pronunciada, cada silêncio compartilhado contribui para formar uma
atmosfera pedagógica singular. É nesse ambiente que o indivíduo começa a
perceber que a construção do templo não ocorre apenas em pedra, mas no interior
do próprio ser.
A
tecnologia pode colaborar com esse processo quando utilizada com discernimento.
Pode facilitar o estudo, organizar bibliografias, registrar reflexões e ampliar
horizontes intelectuais. Contudo, ela não pode substituir a presença que
inspira, corrige e orienta. Assim como o mapa não substitui a viagem, o
conteúdo digital não substitui a experiência vivida. O caminho iniciático exige
passos concretos, realizados em comunidade.
Ao final
dessa reflexão, torna-se evidente que o desafio não é tecnológico, mas humano.
A questão fundamental não é se a tecnologia pode ensinar, mas se o homem
continuará disposto a aprender no sentido mais profundo da palavra. Aprender,
nesse contexto, significa transformar-se. Significa reconhecer imperfeições,
lapidar o caráter e construir uma vida orientada pela justiça, pela sabedoria e
pela fraternidade.
Tal como o
pedreiro que, golpe após golpe, revela a forma escondida na pedra, o processo
iniciático revela gradualmente a dignidade da natureza humana. A tecnologia
pode iluminar o caminho, mas é a consciência desperta que realiza a obra.
Bibliografia
1.
ARISTÓTELES.
Ética a Nicômaco. São Paulo: abril Cultural, 1973;
2.
BOLLER, Charles Evaldo. Substituição do Homem pela Tecnologia no Ensino Maçônico,
Curitiba, 2026;
3.
BUBER,
Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 2001;
4. CARR,
Nicholas. The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains. New York: W.
W. Norton, 2010;
5.
MACKEY, Albert G. Encyclopedia of Freemasonry and Its
Kindred Sciences. Chicago:
Masonic History Company, 1921;
6.
PLATÃO.
A República. São Paulo: Martin Claret, 2000;

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