Charles Evaldo Boller
Entre os símbolos mais conhecidos do Grau de Aprendiz Maçom
encontram-se as Colunas J e B, posicionadas à entrada do templo. Para muitos
observadores, elas podem parecer simples elementos decorativos ou referências
históricas relacionadas ao Templo de Salomão. Contudo, sua importância
ultrapassa amplamente a dimensão arquitetônica. Sob a perspectiva filosófica,
esotérica e simbólica, as colunas representam os princípios do equilíbrio, da
estabilidade e da harmonia que devem sustentar a construção do templo interior.
Nenhuma grande construção permanece de pé sem sólidos alicerces.
Antes de erguer paredes, telhados ou ornamentos, o construtor preocupa-se com a
estabilidade da estrutura. Da mesma forma, a Maçonaria ensina que o
aperfeiçoamento humano exige fundamentos morais consistentes. O desenvolvimento
intelectual, espiritual ou social torna-se frágil quando não está apoiado em
princípios sólidos.
As colunas representam precisamente esses fundamentos.
Uma antiga alegoria conta que dois construtores receberam a
missão de edificar uma torre. O primeiro preocupou-se apenas com a aparência
externa. Utilizou materiais belos e ornamentações impressionantes. O segundo
dedicou meses à preparação dos alicerces antes de iniciar a elevação das
paredes. Quando vieram as tempestades, a primeira torre desmoronou rapidamente.
A segunda permaneceu firme. Os viajantes que passavam pelo local admiravam sua
resistência sem perceber que sua verdadeira força se encontrava escondida sob a
terra.
Assim ocorre com o ser humano. Muitos dedicam enorme esforço à
aparência, ao prestígio ou às conquistas exteriores, mas negligenciam a
formação do caráter. Outros trabalham silenciosamente sobre seus valores,
princípios e virtudes. Quando surgem as dificuldades inevitáveis da existência,
a diferença torna-se evidente.
Aristóteles ensinava que a virtude consiste em encontrar o justo
equilíbrio entre os excessos. A coragem, por exemplo, situa-se entre a covardia
e a imprudência. A generosidade encontra-se entre a avareza e o desperdício. As
colunas simbolizam essa busca permanente pelo equilíbrio.
Sob a perspectiva esotérica, elas representam forças
complementares presentes em toda a criação. Luz e sombra, razão e emoção,
firmeza e compaixão, ação e reflexão. Nenhuma dessas forças deve eliminar a
outra. O objetivo consiste em harmonizá-las.
A natureza oferece inúmeros exemplos desse princípio. O dia
alterna-se com a noite. As estações sucedem-se continuamente. O coração alterna
contração e relaxamento para sustentar a vida. O equilíbrio não significa
imobilidade, mas harmonia entre forças diferentes.
Carl Gustav Jung observava que o amadurecimento psicológico
depende da integração dos opostos existentes na personalidade. O indivíduo
equilibrado não elimina suas contradições; aprende a compreendê-las e
administrá-las. As colunas recordam exatamente essa necessidade de integração.
Podemos imaginar a consciência como uma ponte suspensa. Se um
dos pilares enfraquece, toda a estrutura torna-se instável. Da mesma forma, a
vida humana exige equilíbrio entre conhecimento e sabedoria, liberdade e
responsabilidade, direitos e deveres.
Ao passar simbolicamente entre as colunas, o Aprendiz é
convidado a refletir sobre seus próprios fundamentos. Quais valores sustentam
suas decisões? Quais princípios orientam suas escolhas? Sua construção interior
repousa sobre bases sólidas ou sobre opiniões passageiras?
As Colunas J e B permanecem como guardiãs simbólicas da entrada
do templo porque lembram uma verdade universal: nenhuma obra duradoura pode ser
construída sem equilíbrio. O verdadeiro iniciado compreende que a grande tarefa
da existência não consiste apenas em crescer, mas em crescer de forma
harmoniosa. Somente então o templo interior poderá elevar-se com estabilidade,
beleza e permanência.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de
Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Nova Cultural, 1991. Obra
fundamental para a compreensão da virtude como equilíbrio entre excessos e
deficiências, oferecendo sólida base filosófica para a interpretação simbólica
das colunas como representação da harmonia moral.
2.
CASSIRER, Ernst. Filosofia das formas
simbólicas. Tradução de Marion Fleischer. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
Desenvolve a compreensão dos símbolos como instrumentos de organização da
experiência humana e da construção da consciência.
3.
JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos.
Tradução de Maria Lúcia Pinho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. Explica a
integração dos opostos psicológicos e o papel dos símbolos no desenvolvimento
da personalidade.
4.
MARCO AURÉLIO. Meditações. Tradução de Jaime
Bruna. São Paulo: Cultrix, 2019. Oferece reflexões sobre equilíbrio interior,
autodomínio e estabilidade moral diante das circunstâncias da vida.
5.
PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da
Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Fundamenta a busca
da ordem interior e da harmonia da alma como requisito para uma vida virtuosa.
6.
SÊNECA. Cartas a Lucílio. Tradução de J. A.
Segurado e Campos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2014. Desenvolve
importantes reflexões sobre moderação, prudência e fortalecimento do caráter.
7.
WILKINSON, Robert. Maçonaria e simbolismo. São
Paulo: Madras, 2012. Apresenta explicações acessíveis sobre os principais
símbolos maçônicos, incluindo as colunas e seus significados filosóficos e
iniciáticos.
8.
YATES, Frances A. A arte da memória. Campinas:
Editora da UNICAMP, 2007. Estuda a tradição simbólica ocidental e contribui
para a compreensão das estruturas simbólicas utilizadas na transmissão do
conhecimento iniciático.
