Charles Evaldo Boller
A Maçonaria não envelhece simplesmente porque conserva símbolos,
práticas e ensinamentos provenientes de outros séculos. Uma tradição iniciática
perde vitalidade quando aqueles que receberam a responsabilidade de
compreendê-la e transmiti-la deixam de estudar, interpretar e relacionar seus
fundamentos aos problemas de seu próprio tempo. A questão essencial, portanto,
não consiste em saber se a Maçonaria precisa acompanhar todas as novidades, mas
se o maçom permanece intelectualmente capaz de compreender o mundo no qual pretende
exercer sua influência moral.
A tradição não deve ser confundida com imobilidade. Hans-Georg
Gadamer (1900-2002), em Verdade e Método (Gadamer, 1960), demonstrou que
compreender uma tradição significa estabelecer com ela um diálogo a partir do
horizonte histórico do intérprete. Aplicada à experiência maçônica, essa
concepção permite compreender que preservar não significa simplesmente repetir.
O símbolo permanece, mas cada geração precisa conquistar intelectualmente sua
significação. O esquadro, o compasso, a pedra bruta e a Luz não necessitam ser
substituídos para continuarem atuais; necessitam de homens capazes de
relacionar seus significados às questões éticas, científicas, tecnológicas e
sociais que caracterizam seu próprio tempo.
Essa exigência tornou-se particularmente importante diante da
revolução informacional. O iniciado contemporâneo pode chegar à Loja trazendo
no telefone acesso imediato a bibliotecas, universidades, documentos
históricos, filosofia, religião, esoterismo, ciência e inteligência artificial.
A resposta da ordem maçônica não pode ser a de competir com a quantidade de
informação disponível. Sua contribuição deve situar-se em outro plano:
transformar informação em compreensão, compreensão em discernimento e
discernimento em aperfeiçoamento. Nesse sentido, a tecnologia não constitui
necessariamente ameaça à tradição. Ela evidencia, ao contrário, a diferença
entre possuir informações e saber pensar.
Também por essa razão é necessário distinguir discrição
iniciática de silêncio intelectual. Preservar aquilo que pertence legitimamente
à experiência ritualística não exige abandonar o espaço público no qual
história, filosofia, valores e contribuições culturais da Maçonaria podem ser
estudados com seriedade. Quando os maçons preparados se retiram completamente
desse debate, não desaparece o interesse social pela instituição; desaparece
apenas a presença qualificada capaz de esclarecê-lo. O vazio pode então ser
ocupado pela desinformação, pelo proselitismo religioso, pelo sensacionalismo e
pela exploração comercial da curiosidade.
Uma Loja igualmente perde parte de sua finalidade quando a
convivência fraterna deixa de servir ao aperfeiçoamento e passa a substituí-lo.
A fraternidade possui valor indispensável, mas o avental não pode converter-se
em ornamento social nem o ritual em repetição destituída de compreensão. O
símbolo da pedra bruta recorda precisamente que ingressar na Maçonaria não
constitui certificado de aperfeiçoamento: representa compromisso permanente com
ele. A verdadeira fidelidade à tradição exige, assim, estudo contínuo,
humildade intelectual e capacidade de explicar por que antigas ferramentas
simbólicas ainda podem trabalhar sobre problemas humanos contemporâneos.
A sobrevivência intelectual da Maçonaria não depende de
abandonar o passado para perseguir o presente, mas de construir conscientemente
uma ponte entre ambos. Quando o maçom estuda, questiona, debate, interpreta e
transforma conhecimento em conduta, o símbolo antigo recupera sua força no
homem contemporâneo. Servir à ordem maçônica significa também impedir que sua
herança se transforme em memória sem significado. Trabalhar a própria pedra é
manter viva a consciência; e uma tradição permanece verdadeiramente viva
somente enquanto existirem homens dispostos a compreendê-la antes de pretender
transmiti-la.
Bibliografia Comentada
1.
ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaio sobre
o simbolismo mágico-religioso. São Paulo: Martins Fontes, 1991. A obra
contribui para compreender o símbolo como estrutura portadora de significados
que ultrapassam sua aparência imediata, oferecendo fundamento para interpretar
o simbolismo maçônico como instrumento de reflexão e transformação, e não como
simples elemento ornamental ou repetição formal.
2.
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método: traços
fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis: Vozes, 1997. A
hermenêutica de Gadamer fundamenta especialmente a compreensão da tradição como
realidade viva, cuja transmissão envolve interpretação. Sua contribuição
sustenta a tese de que fidelidade à herança recebida não significa repetição
mecânica, mas diálogo intelectualmente responsável entre tradição e presente.
3.
KNOWLES, Malcolm S.; HOLTON III, Elwood F.;
SWANSON, Richard A. The adult learner: the definitive classic in adult
education and human resource development. 8. Ed. New York: Routledge, 2015.
Referência fundamental da andragogia, permite compreender o adulto como participante
ativo de sua formação, oferecendo suporte metodológico à concepção da Loja como
ambiente de estudo, reflexão, experiência compartilhada e desenvolvimento
intelectual permanente.
4.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora
34, 1999. Lévy examina as transformações culturais produzidas pelas tecnologias
digitais e auxilia na contextualização da mudança das relações entre
indivíduos, conhecimento e informação, permitindo compreender por que
instituições tradicionais precisam desenvolver capacidade interpretativa diante
da crescente disponibilidade de conteúdos em ambientes digitais.
5.
POSTMAN,
Neil. Technopoly: the surrender of culture to technology. New York:
Vintage Books, 1993. Postman analisa criticamente a influência da tecnologia
sobre cultura, instituições e formas de conhecimento. Sua abordagem contribui
para distinguir disponibilidade tecnológica de compreensão intelectual e
sustenta a necessidade de preservar critérios humanos, éticos e reflexivos
diante da expansão dos instrumentos informacionais.
6.
SENNETT,
Richard. The craftsman. New Haven: Yale University Press, 2008. A
investigação de Sennett sobre o trabalho artesanal oferece importante paralelo
com o simbolismo construtivo maçônico. O aperfeiçoamento pela prática,
disciplina, repetição consciente e domínio progressivo do ofício permite
reinterpretar filosoficamente a pedra bruta como representação do trabalho
contínuo realizado sobre si mesmo.

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