Charles Evaldo Boller
A verdadeira finalidade de uma peça de arquitetura não consiste
em demonstrar erudição, mas em promover a transformação daquele que a elabora.
O trabalho simbólico constitui um exercício de reflexão consciente que conduz o
obreiro a percorrer o caminho da construção interior, transformando informações
em conhecimento, conhecimento em compreensão e compreensão em sabedoria. A
filosofia ensina que ninguém se aperfeiçoa apenas pelo acúmulo de conceitos;
aperfeiçoa-se quando o conhecimento modifica sua maneira de pensar, sentir e
agir.
Os símbolos possuem justamente essa capacidade. Enquanto uma
definição racional encerra um significado, o símbolo permanece aberto,
convidando o espírito a retornar inúmeras vezes ao mesmo objeto e descobrir
novos aspectos conforme amadurece interiormente. Carl Gustav Jung observava que
os símbolos constituem pontes entre a consciência e as dimensões mais profundas
da psique. Na tradição iniciática, essa característica explica por que os
mesmos instrumentos revelam ensinamentos diferentes em cada etapa da caminhada
humana.
Pode-se comparar o trabalho simbólico ao cultivo de um jardim. O
jardineiro não cria a vida da semente; apenas prepara o solo, remove as ervas
daninhas, irriga com perseverança e espera pacientemente o florescimento. Da
mesma forma, a peça de arquitetura não produz automaticamente a sabedoria, mas
prepara o terreno para que ela floresça no interior do próprio pesquisador.
Cada leitura elimina preconceitos; cada reflexão fortalece virtudes; cada
debate amplia horizontes.
Uma antiga parábola narra que três homens transportavam pedras.
Perguntados sobre o que faziam, o primeiro respondeu: "Carrego
pedras." O segundo disse: "Estou construindo um muro." O
terceiro sorriu e afirmou: "Estou edificando um templo." A atividade
era idêntica, mas a consciência transformava completamente o significado do
trabalho. Assim também ocorre com a elaboração das peças de arquitetura. Quem
escreve apenas para cumprir uma obrigação transporta pedras; quem pesquisa para
aprender constrói um muro; quem estuda para transformar a si mesmo edifica um
templo interior.
Sócrates ensinava que uma vida não examinada dificilmente merece
ser vivida. O trabalho simbólico concretiza esse exame permanente ao exigir que
o obreiro confronte suas próprias imperfeições diante das virtudes estudadas.
Cada símbolo torna-se um espelho moral. A pedra bruta deixa de representar
apenas um elemento ritualístico e passa a simbolizar os aspectos da
personalidade ainda necessitados de aperfeiçoamento. O verdadeiro autor da peça
acaba sendo simultaneamente seu primeiro leitor e principal aprendiz.
Desse modo, o trabalho simbólico revela-se um dos mais eficazes
instrumentos de autotransformação oferecidos pela tradição iniciática. Sua
finalidade maior não é produzir textos memoráveis, mas formar homens mais
prudentes, justos, fraternos e conscientes de sua responsabilidade perante si
mesmos, a humanidade e o Grande Arquiteto do Universo. Quando isso acontece, a
escrita deixa de ser mero exercício intelectual para tornar-se autêntico
instrumento de lapidação da consciência.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de
Antonio de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009. Obra fundamental para
compreender a formação das virtudes como resultado do hábito consciente,
oferecendo sólida base filosófica para interpretar o trabalho simbólico como
exercício permanente de aperfeiçoamento moral.
2.
JUNG, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. Explica a função psicológica dos símbolos
como mediadores entre a consciência e o inconsciente, permitindo compreender
por que o simbolismo iniciático favorece profundas transformações interiores.
3.
PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da
Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Apresenta reflexões
sobre educação, justiça e desenvolvimento da alma, fornecendo fundamentos
filosóficos para entender a construção interior como finalidade superior da
formação humana.

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