Charles Evaldo Boller
A formação maçônica não se realiza pela simples transmissão de
conhecimentos, mas pela participação consciente do indivíduo em uma comunidade
de reflexão e trabalho. Na Loja, aprender, conviver e aperfeiçoar-se constituem
dimensões inseparáveis de uma mesma experiência. Quando o trabalho sobre si
deixa de ser obrigação e se transforma em atividade desejada, o maçom encontra
na convivência fraterna um poderoso estímulo para sua própria construção moral
e intelectual.
Domenico De Masi (1938-2023), sociólogo italiano associado à
reflexão sobre o chamado ócio criativo, defendeu a possibilidade de integração
entre trabalho, estudo e lazer, questionando a rígida separação entre essas
dimensões da existência. Transportada prudentemente para a realidade maçônica,
essa concepção permite compreender por que a oficina pode tornar-se um espaço
simultaneamente laborioso, formativo e prazeroso. O trabalho maçônico adquire
maior força quando o irmão não comparece apenas por obrigação regulamentar, mas
porque encontra na Loja oportunidade de aprender, refletir, conviver e
trabalhar sobre si mesmo. O prazer de participar não elimina a disciplina; ao
contrário, pode conferir-lhe sentido interior.
Essa dinâmica encontra respaldo nos estudos da psicologia
social. Solomon Asch (1907-1996), em seus conhecidos experimentos sobre
conformidade realizados na década de 1950, demonstrou a força exercida pelo
grupo sobre julgamentos individuais. Posteriormente, Henri Tajfel (1919-1982) e
John Turner (1947-2011), por meio da teoria da identidade social, aprofundaram
a compreensão de como a pertença grupal participa da construção da identidade.
Na Loja, essa influência pode adquirir finalidade construtiva quando não produz
submissão intelectual, mas estimula o indivíduo pelo exemplo, pelo diálogo e
pela convivência com irmãos comprometidos com valores elevados. A comunidade
torna-se, então, ambiente de desenvolvimento sem substituir a liberdade da
consciência.
É nesse ponto que a formação maçônica se distingue do ensino
escolar convencional. O maçom adulto não deve permanecer na posição passiva de
quem simplesmente recebe respostas. Pela andragogia, conceito sistematizado no
século XX por Malcolm Knowles (1913-1997), compreende-se que o adulto aprende
de maneira especialmente significativa quando reconhece a utilidade do
conhecimento, mobiliza suas experiências anteriores e participa ativamente de
sua aprendizagem. A oficina oferece precisamente essa possibilidade: cada irmão
observa, interpreta, questiona, estuda e confronta suas próprias convicções. O
conhecimento transmitido pelo símbolo somente adquire valor formativo quando se
converte em reflexão e, finalmente, em conduta.
Nesse processo manifesta-se também a metacognição, conceito
desenvolvido no campo da psicologia cognitiva por John Flavell (1928-2021):
pensar sobre o próprio pensamento, observar como se aprende, reconhecer
limitações e avaliar estratégias para modificá-las. Sob essa perspectiva, os
símbolos maçônicos funcionam como instrumentos de reflexão sobre o próprio
indivíduo. A pedra a trabalhar, o templo a construir e as masmorras destinadas
aos vícios não precisam ser entendidos como imagens distantes da vida
cotidiana. Representam operações interiores pelas quais o maçom identifica
imperfeições, examina hábitos e deliberadamente procura transformar sua maneira
de agir.
A Loja torna-se, assim, uma comunidade de autoconstrução na qual
ninguém pode realizar pelo outro o trabalho essencial da transformação, embora
ninguém precise realizá-lo isoladamente. Cada irmão trabalha em seu próprio
templo interior enquanto oferece aos demais exemplo, estímulo e fraternidade.
Cavar masmorras aos vícios e levantar templos à virtude expressa,
simbolicamente, esse movimento coletivo de aperfeiçoamentos individuais: homens
trabalhando sobre si mesmos, servindo à ordem maçônica e procurando aproximar
sua consciência do projeto moral que reconhecem sob a inspiração do Grande
Arquiteto do Universo.
Bibliografia Comentada
A presente Bibliografia Comentada reúne obras que oferecem
sustentação conceitual aos principais eixos desenvolvidos na peça: influência
social, construção da identidade no grupo, aprendizagem do adulto, metacognição
e integração entre trabalho, estudo e experiência prazerosa. A seleção combina
contribuições clássicas e contemporâneas da psicologia social, psicologia
cognitiva, sociologia e andragogia, permitindo compreender a oficina maçônica
como ambiente de interação, reflexão e autodesenvolvimento. As referências
foram escolhidas por sua relação direta com os conceitos mobilizados no texto,
distinguindo fundamentos científicos de interpretações filosóficas e simbólicas
próprias do contexto maçônico. Dessa maneira, a bibliografia não pretende
conferir comprovação científica ao simbolismo, mas oferecer instrumentos
intelectuais capazes de esclarecer fenômenos humanos que nele podem ser
interpretados, como influência grupal, autonomia, aprendizagem pela
experiência, autorreflexão e transformação pessoal.
1.
ASCH, Solomon E. Opinions and social pressure.
Scientific American, New York, v. 193, n. 5, p. 31-35, 1955. Trabalho clássico
da psicologia social sobre conformidade, demonstra experimentalmente como
julgamentos individuais podem ser influenciados pela maioria, oferecendo
fundamento para compreender criticamente a influência exercida pelo grupo sobre
seus integrantes.
2.
DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Rio de
Janeiro: Sextante, 2000. Desenvolve a concepção de integração entre trabalho,
estudo e lazer, oferecendo fundamento para interpretar a atividade formativa
como experiência simultaneamente produtiva, intelectual e prazerosa, capaz de
favorecer criatividade, participação e desenvolvimento pessoal.
3.
FLAVELL, John H. Metacognition and cognitive
monitoring: a new area of cognitive-developmental inquiry. American
Psychologist, Washington, DC, v. 34, n. 10, p. 906-911, 1979. Texto fundamental
para a conceituação da metacognição, permitindo compreender a capacidade de
observar, avaliar e regular os próprios processos cognitivos como instrumento
de aprendizagem, autoconhecimento e aperfeiçoamento consciente.
4.
KNOWLES, Malcolm S.; HOLTON III, Elwood F.;
SWANSON, Richard A. The adult learner: the definitive classic in adult
education and human resource development. 8. Ed. London: Routledge, 2015.
Sistematiza princípios fundamentais da aprendizagem de adultos, oferecendo suporte
à compreensão do maçom como participante ativo de sua formação, capaz de
mobilizar experiência, autonomia, motivação e aplicabilidade prática do
conhecimento.
5.
TAJFEL,
Henri; TURNER, John C. An integrative theory of intergroup conflict. In:
AUSTIN, William G.; WORCHEL, Stephen (ed.). The social psychology of intergroup
relations. Monterey: Brooks/Cole, 1979. P. 33-47. Formula fundamentos da
teoria da identidade social, relevantes para compreender como pertencimento,
categorização e identificação grupal participam da construção da identidade e
influenciam atitudes e comportamentos individuais.

Nenhum comentário:
Postar um comentário