Charles Evaldo Boller
Que vestimenta seria digna daquele que trabalha na construção de
si mesmo? A pergunta ultrapassa a etiqueta e alcança o simbolismo. Se o maçom é
simultaneamente obreiro, matéria e obra de seu aperfeiçoamento, sua verdadeira
indumentária não pode ser reduzida ao tecido que cobre o corpo. Entre avental,
traje formal e convenções da Loja, importa compreender aquilo que a vestimenta
exterior pretende recordar ao homem interior.
Historicamente, o avental estabelece a ligação mais evidente
entre a maçonaria especulativa e o imaginário dos antigos construtores.
Originalmente associado ao trabalho e à proteção do artífice, foi
progressivamente ressignificado como símbolo da dignidade do labor e do
compromisso com o aperfeiçoamento. Sua simplicidade encerra uma lição
filosófica: diante da tarefa de construir o próprio caráter, ostentação e luxo
pouco acrescentam. O valor do obreiro deve manifestar-se na qualidade da obra.
O traje adotado pelas lojas pertence, em grande medida, ao
domínio das convenções institucionais e sociais. Sua uniformidade pode
favorecer solenidade, disciplina e igualdade visual entre os irmãos. Vestir-se
adequadamente não deveria significar estabelecer distinções econômicas, mas
demonstrar respeito pelo espaço compartilhado, pelos demais participantes e,
sobretudo, pelo trabalho que cada um realiza sobre si mesmo. Quando a
indumentária se transforma em instrumento de ostentação, o símbolo perde sua
função niveladora.
A preferência tradicional pelo preto admite igualmente uma
leitura simbólica. Fisicamente, uma superfície percebida como preta absorve
grande parcela da radiação visível incidente; daí, entretanto, não decorre
cientificamente que roupas pretas absorvam pensamentos ou energias espirituais.
No campo simbólico e esotérico, porém, essa característica física inspirou
associações com recolhimento, interiorização e concentração. A egrégora pode,
nesse contexto, ser compreendida como representação da unidade psicológica e
afetiva produzida por homens concentrados em propósito comum.
Também o balandrau possui função prática em determinados
ambientes maçônicos, particularmente por permitir uniformidade sobre diferentes
roupas profissionais. Seu significado, contudo, não deveria superar aquele do
avental nem transformar peculiaridades culturais em princípios universais. Regulamentos, costumes, Ritos e
Potências podem estabelecer diferentes padrões de
apresentação, cabendo ao maçom respeitá-los sem confundir convenção administrativa
com essência iniciática.
A filosofia conduz, finalmente, da aparência ao ser. Aristóteles
distinguia potência e ato: aquilo que o homem pode tornar-se somente adquire
realidade por meio da ação. Nenhum traje transforma moralmente seu portador. A
verdadeira vestimenta maçônica é construída pela prática: prudência, justiça,
temperança, coragem, fraternidade e disposição permanente para aprender. O
tecido pode solenizar o homem; somente suas ações podem dignificá-lo.
O avental recorda que o maçom entrou na Oficina
para trabalhar. Todo o restante auxilia a compor a dignidade exterior desse
compromisso, mas não pode substituí-lo. A roupa mais nobre permanece invisível:
é aquela tecida diariamente pela consciência, pelas virtudes e pelo serviço.
Quando aparência e caráter se harmonizam, o obreiro não apenas veste os
símbolos da arte: torna-se, progressivamente, expressão viva da obra que
oferece à ordem maçônica e à humanidade.
Bibliografia Comentada
1.
MACKEY,
Albert G. The symbolism of Freemasonry. New York: Clark & Maynard,
1869. Obra clássica do simbolismo maçônico, contribui para interpretar
instrumentos, objetos e práticas da tradição como recursos de educação moral,
permitindo compreender a indumentária para além de sua dimensão meramente
ornamental.
2.
PARANÁ. Grande Loja do Paraná. Constituição da
Grande Loja do Paraná. 1. Ed. Curitiba: Grande Loja do Paraná, 2011. Documento
institucional que oferece o contexto normativo necessário à compreensão da
organização, dos deveres e das práticas estabelecidas no âmbito jurisdicional
da Grande Loja do Paraná.
3.
PARANÁ. Grande Loja do Paraná. Regulamento Geral
da Grande Loja do Paraná. 1. Ed. Curitiba: Grande Loja do Paraná, 2013.
Complementa a Constituição ao disciplinar aspectos administrativos e funcionais
da instituição, permitindo distinguir princípios simbólicos de normas e
convenções estabelecidas pela Potência.
4.
PARANÁ. Grande Loja do Paraná. Ritual do Grau
01: Aprendiz Maçom: Rito Escocês Antigo e Aceito. 1. Ed. Curitiba: Grande Loja
do Paraná, 2013. Fundamenta o contexto ritualístico do Aprendiz e permite
compreender o avental e outros elementos da apresentação do obreiro em sua
função simbólica e formativa.
5.
PARANÁ. Grande Loja do Paraná. Manual de
Execuções Ritualísticas. 1. Ed. Curitiba: Grande Loja do Paraná, 2015. Oferece
referência institucional para a execução dos trabalhos, contribuindo para
compreender a relação entre solenidade, uniformidade, disciplina e apresentação
pessoal no ambiente da Loja.

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