sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O Triângulo como Chave de Harmonia Entre Conhecimento e Mistério

 Charles Evaldo Boller

O simbolismo do triângulo oferece uma das mais fecundas chaves de leitura para harmonizar campos do saber que, à primeira vista, parecem irreconciliáveis: Maçonaria, filosofia, ciência, religião e mesmo a moderna física quântica. Longe de se tratar de mera figura geométrica, o triângulo revela-se como um arquétipo universal da ordem, da manifestação e da unidade possível no plano humano, funcionando como ponte entre o visível e o invisível, o racional e o simbólico, o mensurável e o mistério.

Na tradição maçônica, o triângulo exprime a superação da dualidade pela síntese consciente. A Unidade absoluta, incognoscível, permanece além de qualquer definição; a dualidade introduz a diferença, o contraste e o conflito; o ternário, porém, integra sem anular, harmoniza sem suprimir. Esse movimento encontra notável paralelo na filosofia clássica. Em Platão, a justiça nasce da harmonia entre as partes da alma; em Aristóteles, a virtude reside no justo meio; em Pitágoras, o número é a estrutura secreta do cosmos. Em todos esses sistemas, a perfeição não é excesso nem ruptura, mas proporção.

Quando a religião recorre ao ternário, como no dogma cristão da Trindade ou nas tríades orientais do Logos, não o faz por convenção teológica, mas por intuição simbólica: três é o menor número capaz de expressar relação viva. Um é silêncio absoluto; dois é tensão; três é diálogo. A Maçonaria, ao adotar o triângulo como símbolo central, preserva essa intuição e a traduz em método iniciático e moral, afastando-se tanto do dogmatismo religioso quanto do materialismo estreito.

A ciência moderna, especialmente a física quântica, oferece inesperadas convergências com essa visão simbólica. O observador, o observado e o ato de observação formam um ternário inseparável, rompendo com a antiga ilusão de um mundo puramente objetivo. A realidade, como sugerem os físicos contemporâneos, não se manifesta sem relação. Essa estrutura relacional ecoa o simbolismo do triângulo, no qual nenhuma linha existe isoladamente e a forma só surge quando o conjunto se fecha. A metáfora é clara: a realidade não é ponto, nem linha, mas superfície relacional.

Nesse contexto, o triângulo pode ser comparado a um campo de forças estável. Assim como na física um sistema atinge equilíbrio quando forças opostas se compensam por meio de uma terceira resultante, na vida moral e espiritual o homem encontra estabilidade quando integra razão, sentimento e vontade. O maçom, ao trabalhar simbolicamente esse arquétipo, aprende que o aperfeiçoamento não consiste em negar partes de si, mas em ordená-las segundo uma medida justa.

Essa medida, central no ritual e na ética maçônica, não é arbitrária. Ela nasce do reconhecimento dos limites humanos diante do infinito. O homem não se torna absoluto, mas torna-se consciente. Como ensinava Immanuel Kant, a razão humana deve reconhecer seus limites para alcançar sua verdadeira dignidade. O triângulo simboliza exatamente isso: uma unidade construída, finita, porém verdadeira, capaz de refletir, na matéria e na ação, a ordem do princípio universal.

A metáfora final talvez seja a mais simples e a mais profunda: o triângulo é uma ponte. Uma ponte entre ciência e religião, porque permite pensar o mistério sem negar a razão; entre filosofia e simbolismo, porque traduz conceitos abstratos em imagens vivas; entre o indivíduo e o Todo, porque ensina que a unidade interior é condição da harmonia exterior. Assim, o simbolismo maçônico não se opõe ao saber moderno, mas o completa, lembrando que todo conhecimento, para ser plenamente humano, deve também ser sabedoria.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Antônio C. A. Gomes. São Paulo: Martin Claret, 2001. Obra fundamental para a compreensão da virtude como justo meio, oferecendo base conceitual sólida para o entendimento da medida, da proporção e do equilíbrio moral presentes no simbolismo ternário maçônico;

2.      CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. Tradução de Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 1983. Obra que estabelece pontes entre a física moderna e as tradições filosóficas e espirituais, auxiliando na harmonização entre ciência contemporânea e simbolismo metafísico;

3.      ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Estudo essencial sobre a função dos símbolos na mediação entre o transcendente e o mundo sensível, esclarecendo o papel arquetípico do triângulo nas tradições religiosas e iniciáticas;

4.      KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução de Valério Rohden. São Paulo: abril Cultural, 1980. Obra decisiva para compreender os limites da razão humana, contribuindo para a reflexão sobre a unidade finita e consciente simbolizada pelo ternário;

5.      PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Texto central da filosofia clássica que desenvolve a tripartição da alma e a noção de justiça como harmonia, em profunda consonância com o simbolismo do triângulo e sua aplicação ética;

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A Ética como Arte de Lapidação Interior

 Charles Evaldo Boller

A reflexão ética proposta visa a uma compreensão mais profunda da moralidade como experiência viva, trágica e iniciática, e não como simples aplicação de regras abstratas. Na filosofia maçônica, o homem é visto como construtor de si mesmo, chamado a transformar a pedra bruta de suas paixões, impulsos e certezas ingênuas em pedra polida, apta a integrar o edifício simbólico da humanidade sob a orientação do Grande Arquiteto do Universo. Os dilemas morais difíceis revelam-se, assim, instrumentos privilegiados dessa lapidação, pois expõem o indivíduo a situações em que nenhum caminho preserva integralmente o bem, obrigando-o a escolher não entre o certo e o errado, mas entre perdas inevitáveis.

A filosofia clássica oferece fundamentos sólidos para essa compreensão. Em Platão, a justiça não é mera obediência à lei, mas harmonia da alma; quando essa harmonia se rompe, o indivíduo entra em conflito consigo mesmo e com a pólis. Já Aristóteles aprofunda essa visão ao afirmar que a ética não pode ser reduzida a fórmulas matemáticas, pois lida com o contingente, com aquilo que "pode ser de outro modo". A prudência surge como virtude central, orientando o julgamento concreto quando as regras gerais se mostram insuficientes. Essa noção conversa profundamente com o simbolismo do compasso maçônico, instrumento que não impõe linhas retas absolutas, mas mede, ajusta e reconhece limites.

Os dilemas do médico, do juiz que pode condenar um inocente para conter revoltas violentas, do cientista que descobre uma cura potencialmente revolucionária, mas precisa testá-la sem consentimento humano, do homem da ponte na qual um indivíduo deve ser empurrado para salvar outros, funcionam como espelhos que refletem a fragilidade da ética puramente consequencialista. Salvar muitos à custa da dignidade de um parece, à primeira vista, solução eficiente; contudo, tal escolha equivale a substituir pessoas por números, como se a vida fosse mercadoria intercambiável. Contra essa tentação, ergue-se a ética do dever, sistematizada por Immanuel Kant, para quem o ser humano jamais deve ser tratado apenas como meio. O ensaio mostra, entretanto, que mesmo esse rigor kantiano encontra limites diante do sofrimento concreto, exigindo integração com a sensibilidade moral e com a formação do caráter.

A Maçonaria propõe justamente essa integração simbólica. O esquadro representa princípios que não devem ser violados; o compasso lembra que toda aplicação desses princípios ocorre em circunstâncias singulares; entre ambos, o iniciado aprende que a moral é uma arquitetura viva, sujeita a tensões constantes. Uma metáfora elucidativa é a do arquiteto que constrói sobre terreno irregular: o projeto ideal existe, mas precisa dialogar com o solo real, sob pena de ruir. Do mesmo modo, a ética que ignora a complexidade humana transforma-se em dogma estéril; a ética que abandona princípios converte-se em oportunismo.

Também se dialoga com a ciência contemporânea, especialmente por meio de analogias com a física quântica. Tal como o observador interfere no fenômeno observado, o agente moral transforma a realidade e a si mesmo ao decidir. A escolha não é neutra: deixa marcas duradouras na consciência. O dilema do cientista evidencia esse ponto com clareza. O conhecimento amplia o poder humano, mas não fornece automaticamente critérios para seu uso. Sem iniciação ética, o progresso assemelha-se ao fogo mitológico: ilumina e aquece, mas também queima e destrói. A tradição iniciática sempre advertiu que o saber sem sabedoria conduz ao orgulho, a desmedida que antecede a queda.

Nesse contexto, os dilemas morais podem ser comparados a travessias noturnas. A razão funciona como lanterna de alcance limitado; a tradição filosófica, como estrelas-guia; a consciência, como bússola interior. Nenhum desses elementos, isoladamente, garante chegada segura, mas juntos reduzem o risco de naufrágio moral. Uma sugestão construtiva decorrente do ensaio é a valorização do debate ético contínuo, tanto em espaços iniciáticos quanto educacionais, não para impor respostas, mas para treinar o discernimento e a empatia. Outra proposta é o cultivo sistemático da introspecção, pois decisões maduras nascem menos da pressa e mais do silêncio reflexivo.

Por fim, sugere-se que a verdadeira ética não elimina o sofrimento inerente às escolhas trágicas, mas confere dignidade à ação. Escolher é assumir responsabilidade, e responsabilidade é aceitar o custo moral sem se esconder atrás de justificativas fáceis. Nesse sentido, a Maçonaria, em diálogo com a filosofia clássica, a ciência e a espiritualidade, oferece o método de ensino do limite: ensina que o ser humano não é onipotente, mas pode ser íntegro. A grandeza moral não reside em jamais errar, mas em permanecer fiel à dignidade humana e ao esforço constante de aperfeiçoamento interior sob o olhar do Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2009. Obra fundamental da ética das virtudes, na qual a prudência é apresentada como guia da ação moral em situações concretas e contingentes, oferecendo base conceitual para compreender a complexidade dos dilemas éticos;

2.      CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo: Cultrix, 2006. Obra que aproxima ciência moderna e tradições filosófico-espirituais, útil para analogias entre ética, observador e responsabilidade na construção da realidade;

3.      KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. Texto central da ética deontológica, defendendo a dignidade humana e o dever moral como princípios incondicionais, essenciais para a crítica à instrumentalização do ser humano;

4.      PLATÃO. A República. São Paulo: Edipro, 2014. Diálogo clássico sobre justiça, verdade e harmonia da alma, fornecendo fundamentos para a reflexão sobre a relação entre indivíduo, consciência e ordem social;

Pensamento Pragmático e Ação Consciente

 Charles Evaldo Boller

Pensar para Agir ou Agir sem Pensar?

Em um mundo saturado por informações instantâneas, algoritmos preditivos e respostas prontas, pensar tornou-se, paradoxalmente, um ato raro. A velocidade substituiu a reflexão; a eficiência eclipsou a sabedoria. O ensaio que se segue nasce justamente dessa tensão: o que significa filosofar quando máquinas processam dados mais rápido do que a consciência humana pode refletir? E, mais ainda, qual é o papel do filosofar maçônico em uma sociedade que confunde informação com conhecimento e técnica com verdade?

Desde sua origem etimológica, o pensamento pragmático se vincula à ação. Pensar é intervir no real. Contudo, quando a ação se dissocia da consciência, ela se converte em automatismo. O texto convida o leitor a investigar se a tecnologia amplia ou empobrece a experiência reflexiva do maçom, e até que ponto o computador pode ser um aliado sem se tornar um substituto da consciência iniciática.

Tradição Simbólica em Tempos Digitais

A Maçonaria sempre se estruturou como um sistema simbólico de autoconstrução humana. Seus ritos, mitos e alegorias não pretendem explicar o mundo, mas transformar o sujeito que o observa. Em contraste, a sociedade contemporânea abandonou o simbolismo profundo em favor da utilidade imediata. O ensaio questiona: ao introduzir máquinas nos espaços ritualísticos, preserva-se o caráter iniciático ou dilui-se a atmosfera mística que favorece a introspecção e a intuição?

O leitor será conduzido por uma reflexão que percorre ritos antigos, filosofia clássica, ciência moderna e física quântica, demonstrando que o simbolismo maçônico não é um resíduo arcaico, mas uma linguagem sofisticada para lidar com a complexidade do real, algo que nenhuma máquina consegue plenamente reproduzir.

Verdade, Experiência e Consciência

Outro eixo provocador do ensaio reside na pergunta sobre a verdade. O pensamento pragmático abandona a verdade ou apenas redefine seu sentido? O texto defende que, na Maçonaria, a Verdade não é um objeto a ser possuído, mas um caminho a ser trilhado. Essa concepção dialoga com a filosofia clássica, com o pragmatismo moderno e com os princípios da ciência contemporânea, segundo os quais o observador participa do fenômeno observado.

O leitor encontrará argumentos que demonstram por que o computador pode organizar dados, mas não realizar síntese moral; por que a dialética viva não pode ser automatizada; e por que a evolução maçônica ocorre no silêncio reflexivo tanto quanto no debate consciente.

Um Convite à Leitura Integral

Este ensaio não oferece respostas fáceis. Ele propõe perguntas necessárias. Questiona crenças, tensiona certezas e convida o leitor a reavaliar o lugar da tecnologia, da filosofia e do simbolismo em sua própria caminhada. Ao final, torna-se claro que o conflito não é entre Maçonaria e tecnologia, mas entre consciência e automatismo. Ler até o fim é aceitar esse desafio iniciático.

A palavra "pragmático" deriva do grego prâgma, que significa ação, feito, acontecimento concreto. Tal etimologia já revela que o pragmatismo não se ocupa primariamente de especulações abstratas desconectadas da realidade, mas do pensamento enquanto instrumento de intervenção no mundo. O pensamento vale pelo que produz, pela transformação que opera na vida individual e coletiva. Essa perspectiva encontra reflexo profundo na filosofia maçônica, cujo eixo não é o acúmulo de doutrinas, mas a lapidação do ser humano em sua vida prática, moral e espiritual.

O Pensamento se Prova na Conduta

Para o maçom, pensar é agir interiormente; agir interiormente é transformar o mundo exterior. Assim como o cinzel não tem valor se não toca a pedra, a ideia não tem dignidade se não conduz à edificação do Templo Interior. A Maçonaria, desde seus primórdios simbólicos, nunca foi uma escola de Metafísica estéril, mas um laboratório ético, onde o pensamento se prova na conduta.

Essa compreensão aproxima a ordem maçônica de correntes modernas do pensamento, como o pragmatismo filosófico, cujo principal expoente foi John Dewey. Para Dewey, o pensamento nasce da experiência problemática e retorna a ela como solução provisória. Não pensamos por deleite intelectual, mas porque algo no mundo exige reorganização.

Problema, Experiência e Consciência

Segundo Dewey, a mente humana não opera no vazio: ela se ativa diante de obstáculos, rupturas e incertezas. O pensamento é uma resposta organizada à desordem percebida. Essa concepção encontra surpreendente consonância com o simbolismo maçônico da Câmara de Reflexões, onde o iniciado é confrontado com a instabilidade da existência, com a finitude e com a necessidade de escolher conscientemente seu caminho.

No entanto, quando se introduz o computador com acesso irrestrito à Internet nos debates maçônicos, surge uma tensão filosófica relevante: a mente continua sendo convocada a pensar ou passa a apenas consultar respostas prontas? O perigo não reside na tecnologia em si, mas na substituição da experiência reflexiva pela dependência informacional. A diferença entre conhecimento e informação torna-se aqui crucial.

O conhecimento implica assimilação, interiorização, transformação do sujeito; a informação, por si só, é neutra, fragmentária e frequentemente descontextualizada. Uma loja maçônica que se limita a reproduzir dados acessados em tempo real corre o risco de transformar o templo em sala de conferências técnicas, esvaziando o caráter iniciático da vivência.

Mudança, Adaptação e Evolução

A teoria da evolução proposta por Charles Darwin demonstrou que a vida não é estática, mas adaptação contínua a ambientes em permanente mutação. Esse princípio pode ser transposto simbolicamente para a Maçonaria: uma instituição que se recusa a dialogar com seu tempo fossiliza-se; aquela que se entrega sem crítica à técnica dissolve-se.

O maçom vive, portanto, no limiar entre tradição e adaptação. O ambiente contemporâneo é marcado pela incerteza, pela aceleração e pela sobrecarga informacional. Nesse cenário, não cabe ao maçom rejeitar a tecnologia, mas experimentá-la conscientemente, transformando condicionamentos naturais e artificiais em oportunidades de crescimento.

Tal postura é essencialmente iniciática: experimentar, observar, refletir, integrar. Assim como o alquimista não teme o fogo, mas o domina, o maçom não deve temer o computador, mas compreender seus limites e potencialidades.

Ritos Antigos, Símbolos Eternos

Desde as civilizações antigas, ritos, sacrifícios, encenações míticas e práticas simbólicas foram utilizados para harmonizar o ser humano com forças invisíveis, sejam elas compreendidas como deuses, arquétipos ou princípios cósmicos. A Maçonaria herdou e ressignificou tais práticas, depurando-as de literalismos e integrando-as a uma ética racional e espiritual.

O rito maçônico não apazigua deuses irados; ele organiza a psique humana. O símbolo não atua sobre entidades externas, mas sobre estruturas internas de consciência. Nesse sentido, o maçom moderno não oferece sacrifícios aos deuses, mas sacrifica suas ilusões, vaidades e ignorâncias no altar da Verdade possível.

Entretanto, a sociedade contemporânea, marcada pelo utilitarismo e pelo imediatismo, abandonou em grande parte o filosofar. Busca-se eficiência sem sabedoria, solução sem compreensão, técnica sem ética. O computador tornou-se uma prótese cognitiva que dispensa o esforço reflexivo. O risco não é tecnológico, mas espiritual.

Retórica, Silêncio e Intuição

Nas lojas maçônicas, o processo de autoeducação afasta-se deliberadamente da retórica clássica vazia. Longos discursos, prolixos e autorreferentes, cansam porque não conduzem à ação nem à transformação. O filosofar maçônico é essencialmente dialético, mas uma dialética viva, encarnada, voltada à construção do ser.

Nesse ponto, a Maçonaria aproxima-se da tradição socrática. Para Sócrates, a Verdade não é transmitida, mas despertada. A maiêutica não fornece respostas prontas; ela provoca o nascimento da consciência. Nenhum computador, por mais avançado, pode substituir esse encontro humano, esse choque de consciências que gera sentido.

A satisfação que o maçom experimenta ao final de uma sessão não decorre de conclusões definitivas, mas de uma intuição integradora. A verdade permanece suspensa, como um véu parcialmente erguido. Essa suspensão não é falha, mas método. O pensamento simbólico não resolve; ele fecunda.

Verdade, Pragmatismo e Simbolismo

O pensamento pragmático não abandona a verdade; ele redefine seu estatuto. A verdade deixa de ser um objeto absoluto e torna-se um horizonte regulador. Para William James, verdadeiro é aquilo que funciona no fluxo da experiência sem trair valores fundamentais.

Na Maçonaria, a Verdade não é dogma, mas caminho. O símbolo protege essa verdade do fanatismo, permitindo múltiplas leituras sem dissolver o núcleo ético. Assim, o filosofar maçônico orienta moralmente, não por imposição, mas por conscientização.

Tecnologia, Consciência e Limites

A tecnologia pode auxiliar o maçom como instrumento, jamais como substituto. O computador organiza dados, cruza informações, simula cenários. Mas não realiza síntese existencial, não experimenta silêncio, não acessa o sagrado. Ele opera na esfera da dianoia[1], jamais da noesis[2], para usar a distinção platônica de Platão.

A noesis, a intuição intelectual do ser, nasce da integração entre razão, experiência e simbolismo. Máquinas não intuem; calculam. O mundo vivo, inteligente e espiritual não pode ser plenamente programado, pois ele contém indeterminação, liberdade e transcendência, conceitos que a física quântica apenas começa a vislumbrar.

Física Quântica e Metáfora Iniciática

A física quântica revelou que o observador interfere no fenômeno observado, que a realidade não é totalmente objetiva e que o potencial precede o ato. Essas descobertas dialogam simbolicamente com a Maçonaria: o maçom transforma o mundo ao transformar-se; o Templo Exterior reflete o Templo Interior.

Assim como a partícula só se define no ato da observação, o ser humano só se realiza no ato consciente de escolha. A tecnologia pode ampliar o campo de possibilidades, mas jamais substituir o ato iniciático da decisão moral.

Sugestões Construtivas à Prática Maçônica

É recomendável que as lojas utilizem tecnologia de forma criteriosa e ritualisticamente consciente: para pesquisa prévia, organização administrativa e aprofundamento individual. Durante os debates simbólicos, o desligamento consciente das máquinas pode funcionar como um ritual de passagem do profano ao sagrado.

Sessões temáticas, momentos de silêncio, perguntas abertas e exercícios reflexivos preservam o caráter iniciático e estimulam a metacognição, isto é, a consciência sobre o próprio pensar. O progresso maçônico não está na velocidade da informação, mas na profundidade da compreensão.

O Maçom é o Artífice

O filosofar maçônico permanece como um dos raros espaços contemporâneos onde ciência, ética, espiritualidade e simbolismo ainda dialogam. Ele não rejeita a modernidade, mas a submete ao crivo da consciência. Não idolatra a máquina nem demoniza a técnica; antes, recoloca o ser humano no centro do processo.

O computador pode ser uma ferramenta; o maçom é o artífice. A pedra pode ser bruta ou polida; o sentido nasce do trabalho. A verdade não é possuída; é buscada. E nessa busca reside a dignidade da Maçonaria.

Entre a Ferramenta e o Artífice

Ao longo do ensaio, tornou-se evidente que o debate não se estabelece entre Maçonaria e tecnologia, mas entre consciência e automatismo. O computador, enquanto ferramenta sofisticada, amplia o acesso à informação, acelera processos e organiza dados; contudo, permanece ontologicamente incapaz de substituir o ser humano como sujeito pensante, moral e simbólico. Na filosofia maçônica, o centro da obra não é o instrumento, mas o artífice. A ferramenta apenas obedece; o maçom escolhe, julga e responde por seus atos.

Essa distinção é fundamental para preservar o caráter iniciático das sessões maçônicas. A tecnologia pode auxiliar, mas jamais ocupar o lugar da experiência simbólica, da escuta atenta, do silêncio fecundo e da dialética viva entre consciências.

Conhecimento não é Acúmulo, é Transformação

Outro ponto essencial ressaltado pelo ensaio é a diferença radical entre informação e conhecimento. Informações podem ser armazenadas, copiadas e transmitidas mecanicamente; o conhecimento, porém, exige assimilação interior, reflexão crítica e integração ética. A Maçonaria não forma depósitos de dados, mas consciências despertas.

Nesse sentido, a prática do filosofar maçônico revela-se um antídoto contra a superficialidade contemporânea. Ao invés de respostas prontas, oferece perguntas estruturantes; ao invés de certezas dogmáticas, caminhos simbólicos. A Verdade, aqui, não é um ponto de chegada, mas um horizonte regulador que orienta a conduta e promove a evolução interior.

Simbolismo, Ciência e Mistério

O ensaio também demonstrou que não há antagonismo necessário entre Maçonaria, ciência e espiritualidade. Pelo contrário, o simbolismo maçônico conversa profundamente com descobertas da ciência moderna e da física quântica, sobretudo no reconhecimento da indeterminação, da participação do observador e da complexidade do real. Onde a máquina calcula, o símbolo integra; onde o algoritmo prevê, a consciência escolhe.

Assim, preservar o ambiente ritualístico como espaço de experiência simbólica não é apego ao passado, mas fidelidade a um método de ensino espiritual que reconhece os limites da razão instrumental.

Uma Advertência Clássica ao Mundo Moderno

Como mensagem correlata, ouvimos com força o pensamento de Immanuel Kant, ao afirmar que o ser humano deve ser sempre tratado como um fim em si mesmo, jamais como meio. Essa advertência ilumina todo o ensaio: quando a tecnologia passa a governar o pensamento, o homem corre o risco de tornar-se meio de seus próprios instrumentos.

A Maçonaria, ao insistir no aperfeiçoamento moral, na autonomia da consciência e na responsabilidade individual, reafirma sua missão histórica: lembrar ao ser humano que nenhuma máquina pode substituir o dever de pensar, escolher e agir com sabedoria. O progresso não é técnico, mas ético; não é exterior, mas interior. Nesse ponto, o ensaio conclui como começou: pensar é agir, mas apenas quando a ação nasce da consciência.

Bibliografia Comentada

1.      DARWIN, Charles. A origem das espécies. São Paulo: Martin Claret, 2004. Clássico da ciência moderna que demonstra a adaptação contínua como princípio da vida, permitindo analogias simbólicas com a evolução moral e espiritual proposta pela Maçonaria;

2.      DEWEY, John. Experiência e educação. São Paulo: Nacional, 1976. Obra fundamental do pragmatismo pedagógico, na qual o autor defende que o conhecimento nasce da experiência e retorna a ela como ação transformadora, oferecendo sólido suporte teórico para a compreensão do pensamento maçônico como prática viva;

3.      ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Referência indispensável para compreender o papel dos ritos, símbolos e espaços sagrados, fundamentais à estrutura ritual da Maçonaria;

4.      HEISENBERG, Werner. Física e filosofia. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995. Livro que estabelece pontes entre física quântica e reflexão filosófica, oferecendo metáforas valiosas para a compreensão simbólica da realidade na tradição iniciática;

5.      JAMES, William. Pragmatismo. São Paulo: abril Cultural, 1979. Obra que consolida o pragmatismo como teoria da verdade em movimento, dialogando diretamente com a noção maçônica de verdade como caminho simbólico e ético;

6.      PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. Texto central da filosofia clássica, especialmente relevante pela distinção entre doxa, dianoia e noesis, conceitos aplicáveis à compreensão dos limites da tecnologia frente ao conhecimento iniciático;


[1] Dianoia é um termo grego antigo que significa "pensamento", "entendimento" ou "faculdade de pensar", referindo-se mais especificamente ao pensamento discursivo, hipotético-dedutivo, que se move através de raciocínios e premissas (como na matemática e ciências). Em Platão, contrasta com noesis (intuição imediata) e é crucial na Alegoria da Caverna; em Aristóteles, divide-se em conhecimento teórico (episteme) e prático (techne);

[2] Noesis (Nóesis), do grego, significa inteligência, intelecção ou compreensão imediata, o ato de pensar, perceber ou conhecer algo diretamente, sem discursos, contrastando com a dianoia (pensamento discursivo). Em filosofia, descreve o ato da consciência de intencionar ou conhecer, a atividade do intelecto;

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Nada e Tudo na Ordem Invisível do Real

 Charles Evaldo Boller

A ideia de que o Grande Arquiteto do Universo cria o Universo a partir do "nada" constitui uma das mais elevadas sínteses simbólicas já formuladas pelo pensamento humano. Esse "nada", longe de significar inexistência, representa o fundamento invisível de todas as coisas, aquilo que escapa aos sentidos, mas sustenta o que se manifesta como realidade. A Maçonaria, ao operar por símbolos, convida o espírito a ultrapassar a ilusão do mundo sensível e a reconhecer que o visível é apenas a superfície de uma ordem mais profunda, regida por leis universais que harmonizam matéria, energia e consciência.

A filosofia clássica antecipou essa intuição ao questionar a solidez do ser aparente. Quando Górgias afirma que o ser não existe, mas apenas o nada, não propõe o vazio absoluto, mas denuncia a inconsistência ontológica daquilo que nasce, muda e perece. O mundo percebido pelos sentidos é como a sombra projetada na parede da caverna platônica: necessária ao aprendizado inicial, mas insuficiente para quem busca a verdade. Já Parmênides, ao afirmar que o caminho da verdade é o caminho da razão, aponta para uma razão que discerne entre aparência e essência, não se limitando ao que é imediatamente dado.

A Maçonaria Especulativa integra essas heranças ao ensinar que o aperfeiçoamento do indivíduo exige o uso disciplinado da razão, aliado à intuição e à vivência simbólica. O esquadro, o compasso e o nível não são apenas instrumentos operativos, mas metáforas das leis que regem o cosmos. Assim como o arquiteto concebe a obra antes de erguê-la, o Grande Arquiteto do Universo ordena o real a partir de princípios invisíveis, transformando potencialidade em forma. O "nada" corresponde a esse plano potencial, comparável ao silêncio que antecede a música ou à tela em branco que contém todas as pinturas possíveis.

A ciência contemporânea, especialmente a física quântica, fornece linguagem técnica para intuições antigas. A matéria revelou-se energia organizada em padrões estáveis; o átomo, antes concebido como sólido, mostrou-se majoritariamente espaço vazio estruturado por campos de força. Nada surge do nada nem retorna ao nada, como já ensinava Anaxágoras, antecipando o princípio moderno da conservação da energia. O que se chama criação é, na verdade, transformação, passagem de um estado a outro dentro da mesma ordem universal.

Nesse horizonte, ciência e religião deixam de ser antagonistas. A ciência investiga os mecanismos da manifestação; a religião, quando depurada do dogmatismo, aponta para o sentido e a finalidade. A Maçonaria atua como ponte simbólica entre esses domínios, harmonizando razão científica, contemplação filosófica e intuição espiritual. Como observou Albert Einstein, o mais belo sentimento é o do mistério, pois é dele que nasce a verdadeira ciência e a verdadeira arte. O mistério não bloqueia o conhecimento; estimula-o.

A noção de espírito, compreendida como essência vibratória sutil, insere-se naturalmente nesse quadro. Assim como existem frequências sonoras e eletromagnéticas fora do alcance dos sentidos humanos, a consciência pode manifestar-se em níveis não perceptíveis pelos instrumentos atuais. A morte, nesse contexto, não é aniquilação, mas transição: a forma cessa, a essência se religa ao todo. Essa compreensão tem consequências éticas profundas, pois, se tudo participa da mesma origem, a fraternidade deixa de ser ideal abstrato e torna-se exigência lógica.

Tudo conduz a uma visão integrada do real, na qual nada e tudo são polos complementares de uma única ordem. O iniciado aprende que conhecer o Universo é, simultaneamente, conhecer a si mesmo, e que polir a própria consciência é contribuir para a harmonia do todo. O trabalho interior torna-se, assim, verdadeiro labor arquitetônico, realizado não com pedras materiais, mas com ideias, atitudes e virtudes.

Bibliografia Comentada

1.      ANAXÁGORAS. Fragmentos e testemunhos. Traduções diversas. Anaxágoras formula o princípio da continuidade do real, segundo o qual nada surge do nada nem se dissolve no nada, antecipando concepções modernas da conservação da energia;

2.      EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. As reflexões de Einstein revelam a abertura da ciência ao mistério e à dimensão filosófica do conhecimento, aproximando ciência, ética e espiritualidade;

3.      GÓRGIAS. Fragmentos. Traduções diversas. Os fragmentos atribuídos a Górgias oferecem uma crítica radical à consistência ontológica do mundo sensível, fornecendo base conceitual para a reflexão sobre o nada como fundamento e não como ausência;

4.      PARMÊNIDES. Sobre a natureza. Traduções diversas. A obra de Parmênides estabelece a razão como via privilegiada para a verdade, distinguindo o ser necessário das aparências mutáveis, sendo essencial à compreensão Metafísica do real;

5.      PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes. A alegoria da caverna oferece poderosa metáfora para a distinção entre aparência sensível e realidade inteligível, em plena consonância com o simbolismo iniciático;

A Diversidade como Método de Aperfeiçoamento Humano

 Charles Evaldo Boller

A Maçonaria revela-se menos como uma instituição formal e mais como um método vivo de educação moral, estruturado para trabalhar com a matéria-prima mais complexa que existe: o próprio homem. A diversidade de obediências, ritos e organizações, tantas vezes interpretada como sinal de fragilidade, surge, sob análise filosófica mais profunda, como expressão coerente de um sistema que respeita a liberdade, a consciência crítica e a imperfeição constitutiva da natureza humana. Assim como um prisma de cristal revela múltiplas cores sem deixar de ser uno, a Maçonaria manifesta-se em múltiplas formas sem perder sua essência.

A filosofia maçônica parte de um princípio caro à filosofia clássica: o homem não nasce pronto, constrói-se. Em Aristóteles, a virtude é hábito adquirido pelo exercício contínuo; não é dádiva, mas obra. Essa noção encontra respaldo direto no simbolismo da pedra bruta, que não deve ser rejeitada por suas imperfeições, mas trabalhada com método, tempo e perseverança. O erro, nesse contexto, não é falência moral, mas indício de movimento. Tal como o escultor que só encontra a forma ao retirar o excesso do mármore, o maçom encontra sua medida ética ao confrontar seus limites.

A pluralidade interna da Maçonaria pode ser comparada a um grande rio que, ao longo de seu curso, se divide em braços e canais sem jamais perder a nascente. A unidade não reside no leito único, mas na origem comum e na direção compartilhada. Platão, ao tratar da justiça na pólis, já advertia que a harmonia não nasce da igualdade absoluta, mas da justa ordenação das diferenças. Da mesma forma, a Maçonaria não busca uniformizar consciências, mas alinhá-las a princípios universais, permitindo que cada uma expresse sua singularidade.

O conflito, inevitável onde há convivência humana, não é negado pelo sistema maçônico; é educado. Essa postura conversa com o pensamento de Heráclito, para quem a tensão entre os opostos é a fonte do movimento e da harmonia do mundo. O arco só cumpre sua função porque suas extremidades se opõem; sem tensão, não há impulso. Assim, divergências internas, quando tratadas eticamente, tornam-se forças propulsoras de amadurecimento coletivo. Quando não há mais possibilidade de convivência fraterna, a separação administrativa surge não como ruptura moral, mas como preservação do método, mantendo-se o vínculo simbólico comum.

A ciência moderna reforça essa leitura simbólica. A evolução biológica demonstra que a vida progride por mutações, desequilíbrios e adaptações, nunca por estabilidade absoluta. O equilíbrio total é sinônimo de inércia, e a inércia, de morte. A Maçonaria, ao aceitar a imperfeição como ponto de partida, alinha-se a essa lógica universal. O próprio Grande Arquiteto do Universo, enquanto princípio ordenador, manifesta-se não pela eliminação do erro, mas pela capacidade de transformá-lo em aprendizado e evolução.

A multiplicação de lideranças, decorrente da diversidade organizacional, constitui outro aspecto virtuoso do sistema. Liderar, na tradição iniciática, não é dominar, mas servir. Essa concepção aproxima-se da ética estoica, na qual o homem sábio governa primeiro a si mesmo. Cada maçom, ao assumir responsabilidades em sua loja ou obediência, torna-se multiplicador de valores morais, irradiando para a sociedade os frutos de seu trabalho interior. É como uma tocha acesa a partir de outra: a chama se divide, mas a luz aumenta.

Como sugestão construtiva, inspira-se a valorização consciente da diferença como instrumento pedagógico. Em vez de buscar eliminar divergências, o maçom pode aprender a escutá-las, analisá-las e integrá-las quando possível. Outra proposta ilustrativa é encarar a loja como um laboratório ético, onde o erro não é motivo de exclusão imediata, mas oportunidade de correção fraterna. O maço e o cinzel, nesse sentido, não devem ser aplicados com violência, mas com discernimento: força sem razão quebra a pedra; razão sem força não a transforma.

Em síntese, a Maçonaria ensina que a obra não é erguer edifícios perfeitos, mas homens conscientes. Como afirmou Immanuel Kant, o homem deve ser tratado sempre como fim, nunca apenas como meio. Ao trabalhar homens imperfeitos com um método imperfeito apenas na aparência, a Maçonaria permanece fiel à sua vocação mais elevada: oferecer ao ser humano um caminho de liberdade responsável, evolução contínua e serviço à humanidade, sob a inspiração constante do Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia Comentada

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2001. Obra fundamental para a compreensão da virtude como hábito adquirido, conceito que dialoga diretamente com a pedagogia simbólica da lapidação da pedra bruta na Maçonaria;

2.      CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo: Cultrix, 1991. Livro que aproxima ciência moderna e tradições filosóficas, oferecendo metáforas úteis para compreender a Maçonaria como sistema alinhado às leis da natureza;

3.      HERÁCLITO. Fragmentos. São Paulo: Loyola, 2012. Conjunto de pensamentos que elucidam a noção de tensão criadora entre opostos, aplicável à compreensão do conflito como motor de evolução moral;

4.      KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. Obra que sustenta a dignidade do homem como fim em si mesmo, princípio ético central à filosofia maçônica;

5.      PLATÃO. A República. São Paulo: Perspectiva, 2006. Texto clássico que fundamenta a ideia de harmonia social baseada na ordenação das diferenças, oferecendo paralelo filosófico à diversidade interna do sistema maçônico;

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Leitura do Livro da Lei

 Charles Evaldo Boller

Entre a Memória Cultural do Rito e a Dinâmica Evolutiva da Maçonaria Contemporânea

A Simbologia Original das Joias que Repousavam Sobre o Altar

A questão da leitura do livro da lei no Rito Escocês Antigo e Aceito revela muito mais do que um detalhe ritualístico: ela expõe a tensão profunda entre tradição e atualização que acompanha a Maçonaria desde seus primórdios. O ensaio investiga essa tensão ao revisitar a simbologia original das joias que repousavam sobre o altar, especialmente a Régua de Vinte e Quatro Polegadas, e demonstra como a substituição desse símbolo universal pelo livro da lei introduziu desafios culturais, religiosos e filosóficos que não existiam na estrutura primitiva do rito. Ao examinar fontes históricas, antropológicas e esotéricas, o texto mostra que o livro, inicialmente apenas presença simbólica, tornou-se leitura fragmentada, afetando a transmissão da memória cultural que o rito deveria preservar. A reflexão integra filosofia clássica, física quântica e ciência da consciência para revelar como pequenas alterações simbólicas podem alterar profundamente a atmosfera ritual. O leitor é convidado a refletir se o retorno ao símbolo original, ou a revisão do uso ritual do livro, poderia restaurar a universalidade iniciática desejada pelos Irmãos fundadores do Rito Escocês Antigo e Aceito. Uma análise provocativa e profundamente esclarecedora, capaz de despertar novas compreensões sobre o propósito oculto dos ritos e sobre o destino simbólico da Arte Real.

A Tensão Entre Tradição e Atualização

O maçom moderno se encontra diante de um paradoxo: é convocado a manter-se fiel às fontes simbólicas da Arte Real e, simultaneamente, deve responder ao chamado de um mundo em permanente mutação. O desafio é antigo: como transmitir um patrimônio ancestral a gerações que vivem sob outros ritmos tecnológicos, sociais e espirituais? Tal tensão se torna evidente quando o irmão se depara com declarações como a do Ritual de Aprendiz da Mui Respeitável Grande Loja do Paraná, que denuncia o desvirtuamento da Ordem como consequência da abertura indiscriminada de seus templos, acolhendo multidões heterogêneas que se distanciaram dos elevados princípios da instituição.

Essa crítica, recorrente em várias épocas da história maçônica, não pretende ser um ataque ao tempo presente, mas um apelo despertador, uma forma de retomar a bússola moral que conduz o iniciado. Toda instituição viva experimenta tensões internas; o problema não é mudar, mas perder a consciência da direção. A evolução sem Norte é mero deslocamento; com norte, é aperfeiçoamento. Nesse contexto, analisar a simbologia do livro da lei, da Régua de Vinte e Quatro Polegadas e da própria natureza ritualística do Rito Escocês Antigo e Aceito é essencial para compreender como tradição e mudança se equilibram para transmitir, como queriam os antigos, não apenas ideias, mas uma memória cultural.

Base Sociológica da Crise e do Esclarecimento

A crítica contida no ritual paranaense é sociologicamente pertinente. A Maçonaria, como qualquer instituição humana, sofre o efeito do "ruído antropológico": aquilo que os homens tocam, com o tempo, tende a perder sua forma original. A sociologia clássica, de Durkheim a Weber, nos lembra que instituições se desgastam quando sua função sagrada é esquecida e substituída por funções instrumentais. Quando uma fraternidade se torna sociedade de auxílio mútuo ou palanque político, rompe-se o pacto simbólico que a legitimava.

O Rito Escocês Antigo e Aceito, conforme o texto ritualístico, se propõe a recuperar "o mais alto apostolado da moralidade", a prática das virtudes, a liberdade sob a lei, a igualdade segundo o mérito e a fraternidade disciplinada. Aqui reside uma chave simbólica: o rito não deseja retroceder, mas reencontrar sua função. Assim como o compasso circunscreve o homem para que este encontre o centro, o rito circunscreve a instituição, lembrando-a de seu eixo moral.

A História do Livro da Lei: Entre o que se Lê e o que se Mostra

Uma análise histórica revela que a leitura do livro da lei não era originalmente prescrita. O ritual de 1928 apenas determina que o livro fosse aberto "na parte apropriada", sem indicar qual seria essa parte, nem afirmar que deve ser lido. O ritual de 1898, por sua vez, sequer menciona sua abertura. Os rituais franceses de 1804 e 1810, pilares do Rito Escocês Antigo e Aceito, igualmente não impunham leitura alguma.

Isso aponta para uma compreensão simbólica: o livro da lei não era objeto didático, mas um signo ritual, uma presença simbólica, semelhante ao lume que deve brilhar, não ao texto que se deve decifrar.

É importante compreender que o simbolismo original não está vinculado ao conteúdo literal de um texto, mas ao fato de que nele repousa um ideal moral. O livro da lei, qualquer que seja, não ensina por palavras, mas por presença. Assim como o silêncio do templo ensina mais que um discurso, o livro fechado, repousando sobre o altar, é mais poderoso que milhares de versículos.

A Régua de Vinte e Quatro Polegadas: a Ferramenta que se Tornou Livro

Há registros de que, nos primórdios da Maçonaria Especulativa, o conjunto das joias que repousavam sobre o altar era formado por:

·         Régua de vinte e quatro polegadas,

·         Esquadro,

·         Compasso.

Não havia bíblia. E a ausência não é acidental. Naquele contexto, bíblias eram raras, caras e proibidas ao leigo. Ter um exemplar poderia significar perseguição e até morte na fogueira inquisitorial.

Além disso, grande parte dos maçons não sabia ler, a transmissão era oral, como é característico de tradições iniciáticas. Assim, a régua cumpria simbolicamente a função do livro da lei:

·         Continha a noção de ordem,

·         Expressava medida e disciplina,

·         Oferecia o princípio do tempo organizado,

·         Representava o limite moral.

A régua é universal. O livro, não.

A medida é humana e objetiva; a escritura é cultural e subjetiva. O símbolo primitivo, portanto, preservava melhor a universalidade buscada pela Maçonaria. Por isso, substituir a régua pelo livro da lei introduziu uma limitação simbólica: o livro passou a depender da cultura da maioria presente.

O Problema da Fragmentação Simbólica

A régua é indivisível; seu significado é pleno, total. O livro da lei, como substituto, deveria igualmente ser tomado como totalidade simbólica. Mas quando se escolhe um único versículo, repetido sessão após sessão, cria-se uma fragmentação do símbolo, fragmentação que não estava prevista no espírito original do rito. Pegar um único pedaço da totalidade é como tentar compreender o Universo observando apenas um único átomo.

A física quântica nos ensina que um sistema não pode ser compreendido por uma fração isolada; o todo se manifesta no entrelaçamento. Similarmente, o rito não deve ser compreendido por partes desconexas, mas pela totalidade de seus símbolos. A repetição de um único versículo corre o risco de construir um novo rito, não previsto, baseado em microfragmentos textuais e não na força simbólica integral da liturgia.

A Incompatibilidade Religiosa e a Solução Simbólica

O uso da Bíblia Judaico-cristã como livro da lei decorre da origem cultural do Rito Escocês Antigo e Aceito. Assim, naturalmente, pessoas não-cristãs encontrariam dificuldade de ingressar plenamente no rito se exigido fosse o uso exclusivo desse livro. o que, em teoria, excluiria muçulmanos, budistas, hinduístas, espíritas, judeus e outras tradições.

Para resolver essa limitação, adotou-se o uso permutável do livro da lei: cada loja usa o livro sagrado da maioria. Mas isso só se tornou possível porque o símbolo original foi substituído. Se a régua ainda estivesse sobre o altar, o problema sequer existiria, pois ela é uma joia universal, desprovida de conotação religiosa.

Isso levanta uma provocação filosófica:

Será que a substituição da régua pelo livro não introduziu um desafio que não existia antes?

Memória Cultural e Antropologia do Rito

Antropólogos como Victor Turner e Clifford Geertz afirmam que ritos preservam uma memória cultural, transmitida não pelo raciocínio, mas pela percepção simbólica. O rito tem a função de recordar ao iniciado algo que ele não entende racionalmente, mas que, pela repetição ritualística, grava-se em seu inconsciente.

Se o rito original não exigia leitura do livro da lei, mas apenas sua presença simbólica, introduzir leituras específicas, especialmente leituras repetitivas, pode deformar aquilo que deveria ser memória simbólica e torná-lo conteúdo doutrinário. Um rito que vira doutrina perde sua universalidade, e o símbolo que vira catecismo deixa de servir ao iniciado e passa a condicioná-lo.

O ritual não existia para ensinar palavras, mas para despertar imagens internas. É pela imagem, não pela frase, que o inconsciente é transformado.

Maçonaria, Religião e o Perigo da Palavração

Se o livro da lei fosse lido e estudado integralmente, transformar-se-ia em catecismo. E, ao fazer isso, a Maçonaria perderia sua essência e tornar-se-ia religião. Assim, limitar-se a pequenos fragmentos é um modo de evitar o caminho religioso. Mas fragmentar também é perigoso. É preciso encontrar o ponto médio aristotélico, a harmonia entre presença simbólica e uso ritual.

A filosofia clássica recomenda esse equilíbrio:

·         Aristóteles falaria de justa medida.

·         Platão lembraria que a letra mata, mas a essência, o logos, vivifica.

·         Kant falaria da autonomia moral, não tutelada por textos, mas pela razão iluminada.

Ciência, Consciência e Simbolismo: uma Leitura Contemporânea

A física quântica ensina que o observador altera o fenômeno observado. Da mesma forma, o livro da lei não é neutro: o versículo escolhido gera um campo vibracional específico, uma "egrégora textual" que se projeta na sessão. A escolha repetitiva de um mesmo versículo produz uma onda ressonante que condiciona, sutilmente, a "cor emocional" das sessões.

A ciência da informação nos lembra que sinais repetidos criam padrões. A espiritualidade hermética diria que "o que é pensado se manifesta". A neurociência afirma que estímulos repetidos moldam circuitos neuronais.

Assim, repetir um único versículo é, em última instância, alterar a paisagem simbólica do rito. O símbolo deve ser dinâmico, não fixo; profundo, não literal.

Exemplos Práticos para Reflexão em Loja

·         Uma loja majoritariamente cristã adota a bíblia judaico-cristã como livro da lei.

·         Um visitante muçulmano é recepcionado. A troca do livro da lei permite a inclusão, mas cria um problema: qual é a base moral da sessão? A régua não teria esse problema.

·         Uma loja repete o mesmo versículo durante todo o ano.

·         Os aprendizes começam a associar a moral maçônica aos valores daquele versículo particular, não ao rito como um todo.

·         Uma loja decide não ler mais nenhum versículo.

·         A sessão ganha silêncio, profundidade e foco simbólico. O livro da lei se torna presença e não instrução.

·         Retorno da Régua de Vinte e Quatro Polegadas.

·         Ao recolocar a régua no altar, simbolicamente devolve-se o caráter universal ao rito, preservando tradição e evitando conflitos religiosos.

Mudança: Necessidade Vital da Maçonaria

A Maçonaria é formada por muitos ritos porque ela muda. A permanência da essência e a mutabilidade das formas constituem sua força. Assim como o Universo se expande, e assim como a consciência humana se refina, também o rito deve evoluir para permanecer vivo. Evoluir não é negligenciar o original, mas reencontrá-lo.

O retorno ao símbolo primitivo não significa regressão, mas recuperação da memória simbólica. E pode ser uma solução elegante para a tensão religiosa introduzida pela presença de livros sagrados culturalmente específicos.

Pode o Ritual Ser Modificado?

Sim. A história da Maçonaria é a história das adaptações. A pergunta é: a mudança é coerente com a essência? O retorno à simbologia da régua seria, paradoxalmente, uma mudança para preservar o original, um ato de fidelidade criativa, não de ruptura.

O rito existe para transformar consciências, não para manter tradições mortas. Sua força está na capacidade de conduzir o homem ao centro de si mesmo, e para isso o símbolo deve estar vivo e inteligível. Uma régua é inteligível em qualquer cultura; um livro sagrado não.

A solução, portanto, não é dogmatizar, mas harmonizar; não é fixar, mas compreender; não é repetir, mas sentir.

A Maçonaria, como a fênix, renasce quando o símbolo é compreendido e não apenas preservado.

Bibliografia Comentada

1.      ANDERSON, James. Constituições de Anderson. Londres, 1723. Obra fundadora da Maçonaria Especulativa, enfatiza o caráter moral e universal da instituição, sem prescrever textos religiosos específicos;

2.      BALESTRERI, Paulo. Símbolos Maçônicos: Função, História e Interpretação. São Paulo: Madras, 2014. Analisa profundamente o caráter universal dos símbolos, reforçando a tese da régua como instrumento original e intercultural;

3.      BELLINE, Robert. Histoire de la Franc-Maçonnerie Française. Paris: Dervy, 2002. Contextualiza o Rito Escocês Antigo e Aceito e seus primórdios na França pós-iluminista, mostrando que a presença da Bíblia variou historicamente;

4.      CARVALHO, Mário. Antropologia do Ritual Maçônico. Rio de Janeiro: Maçônica Editora, 2010. Investiga a função antropológica dos rituais, reforçando a importância da memória não racional, mas simbólica;

5.      GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008. Fundamenta a ideia de que o rito é um sistema de significados, não um conjunto doutrinário;

6.      KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Proporciona base filosófica para compreender a autonomia moral como independente de textos específicos;

7.      PLATÃO. A República. São Paulo: Edipro, 2019. Sua distinção entre essência e aparência ajuda a entender a força do símbolo sobre a palavra literal;

8.      TURNER, Victor. O Processo Ritual. Petrópolis: Vozes, 2013. Demonstra a função transformadora do rito como estrutura simbólica;

9.      WALKER, Benjamin. Foundations of Ritual Studies. New York: Routledge, 2016. Explora como rituais transmitem cultura através de símbolos e não principalmente por instrução verbal;

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Ignorância Sabedoria e Libertação do Espírito

 Charles Evaldo Boller

A ignorância, longe de constituir simples ausência de instrução formal, revela-se como uma disposição interior que deturpa o uso do conhecimento e corrompe a convivência humana. Trata-se de um estado no qual a razão é subjugada pelo impulso, pela vaidade ou pelo desejo de domínio, produzindo injustiça, violência e desagregação social. A história demonstra, de modo recorrente, que não são raras as sociedades abundantemente providas de informação, mas carentes de discernimento. Nesse sentido, a ignorância manifesta-se não como vazio, mas como desordem interior, semelhante a um edifício erguido sem prumo, cujas paredes cedo ou tarde ruirão sobre si mesmas.

A tradição filosófica já advertia sobre tal perigo. Em Platão, a ignorância aparece como prisão da alma na caverna das aparências, onde sombras são confundidas com a realidade. O processo educativo, portanto, não consiste em acumular dados, mas em converter o olhar interior, orientando-o para a Luz. Essa metáfora encontra profundo eco no simbolismo maçônico, no qual o aperfeiçoamento do obreiro exige o polimento contínuo da pedra bruta, não apenas pelo estudo, mas sobretudo pela retificação moral e pelo domínio das paixões degradantes.

O homem sábio distingue-se do erudito estéril na medida em que integra conhecimento, ética e ação. A sabedoria, enquanto harmonia interior, permite ao indivíduo agir com prudência, tolerância e senso de justiça, evitando os extremos que conduzem ao fanatismo. Em Immanuel Kant, a maioridade do espírito humano realiza-se quando o indivíduo ousa pensar por si mesmo, libertando-se da tutela de dogmas impostos. Tal autonomia moral, contudo, não implica isolamento, mas responsabilidade, pois a liberdade autêntica se expressa no respeito ao outro e na construção do bem comum.

O fanatismo político e religioso surge precisamente quando essa autonomia é substituída pela obediência cega. Nessas circunstâncias, a razão é sacrificada em nome de verdades tornadas absolutas, e o ser humano converte-se em instrumento de ideologias ou crenças deformadas. A ciência moderna, por sua vez, ao revelar a complexidade do universo, oferece poderoso antídoto contra tais simplificações. A física quântica, ao demonstrar que o observador participa do fenômeno observado, ensina que a realidade não é rígida nem unívoca, mas relacional. Essa visão conversa com o princípio maçônico segundo o qual a Verdade não se impõe, constrói-se progressivamente, na medida em que o espírito se amplia.

Em Albert Einstein, ciência e espiritualidade não se opõem, mas se complementam. Para ele, a experiência do mistério constitui a fonte mais profunda da arte, da ciência e da religião autêntica. Tal percepção aproxima-se da compreensão simbólica do Grande Arquiteto do Universo como princípio ordenador, não antropomórfico, que convida o ser humano à contemplação, à humildade intelectual e à ética universal. Nesse horizonte, Maçonaria, ciência e religião deixam de disputar territórios e passam a cooperar na formação integral do indivíduo.

A Maçonaria, ao privilegiar o método de ensino simbólico e a educação permanente, propõe-se a combater a ignorância em sua raiz mais profunda: a incapacidade de refletir, de dialogar e de reconhecer limites. Sua ação não se funda em privilégios pessoais, mas na transformação interior, que se irradia naturalmente para o meio social. Assim como uma lâmpada acesa ilumina sem esforço, o obreiro esclarecido influencia pelo exemplo, promovendo concórdia onde havia conflito e discernimento onde reinava a confusão.

Educar o espírito é, portanto, libertar o ser humano das correntes invisíveis do embrutecimento. Essa libertação não ocorre por ruptura violenta, mas por amadurecimento consciente, na medida em que a razão se alia à sensibilidade e a ciência se reconcilia com a espiritualidade. Nessa convergência, a sociedade encontra caminhos mais justos e humanos, e o indivíduo realiza sua vocação mais elevada: tornar-se instrumento consciente da harmonia universal, sob a inspiração do Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia Comentada

1.      BOHM, David. A totalidade e a ordem implicada. São Paulo: Cultrix, 1992. A obra articula conceitos da física quântica com uma visão holística da realidade, favorecendo a compreensão simbólica da interdependência entre consciência, matéria e ordem universal;

2.      EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. Reunindo reflexões científicas e filosóficas, Einstein oferece uma visão integrada entre ciência e espiritualidade, contribuindo para o diálogo entre conhecimento racional, ética universal e sentimento do mistério;

3.      FROMM, Erich. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. A análise psicológica de Fromm esclarece os mecanismos pelos quais indivíduos abdicam da liberdade em favor de sistemas autoritários, fornecendo importante subsídio para a compreensão do fanatismo político e religioso;

4.      KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: que é o esclarecimento? Petrópolis: Vozes, 2005. O ensaio kantiano apresenta o conceito de maioridade intelectual como superação da tutela dogmática, sendo referência indispensável para compreender a relação entre razão, liberdade e responsabilidade moral;

5.      PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Nesta obra fundamental, Platão desenvolve a célebre alegoria da caverna, que permite compreender a ignorância como aprisionamento da consciência às aparências, oferecendo sólida base filosófica para a reflexão sobre educação, ética e libertação interior;