A Justiça, desde os primórdios da humanidade, apresenta-se como
uma tentativa imperfeita de conter a barbárie da natureza humana. O Rito
Escocês Antigo e Aceito, em seus 33 graus, oferece não apenas lições
simbólicas, mas uma resenha instrutiva iniciática para transformar a Justiça
exterior, violenta, lenta, falha, em Justiça interior, essa sim incorruptível e
capaz de engendrar a Revolução da Não Violência.
Cada grau do Rito
Escocês Antigo e Aceito é uma etapa da alma, um passo rumo ao Oriente da
consciência iluminada. A violência é treva; a Justiça é lâmpada; o perdão é sol
nascente. O que se pretende aqui é mostrar como cada grau contribui para
esclarecer por que a violência humana existe, como a Justiça age, por que a
vingança destrói e de que modo o maçom é chamado, grau a grau, a tornar-se um
agente da paz.
A Pedra Bruta e o Nascimento da Justiça (Graus 1 ao 3)
O Aprendiz (primeiro grau) descobre que o homem é pedra bruta:
violento por instinto, movido por impulsos primários, incapaz de conter a si
mesmo. A Justiça humana nasce da incapacidade do indivíduo de se autogovernar.
Por isso, o Companheiro (segundo grau) deve estudar as artes liberais para
disciplinar a razão, e o Mestre (terceiro grau) deve dominar a si mesmo,
vencendo a ignorância, o pior dos assassinos internos.
A lenda de Hiram revela que violência sem causa é fruto da
estupidez humana: três companheiros matam o Mestre porque não suportam limites.
Toda violência humana nasce assim, da incapacidade de lidar com a frustração.
Logo, o primeiro chamado à Justiça é interior: matar os três maus companheiros
internos.
Os Graus Inefáveis e a Luta Contra a Violência Oculta (Graus 4 ao 14)
Nos graus 4 ao 14, o iniciado desce à caverna do subconsciente.
·
O Mestre Secreto (4) compreende que a Justiça é
vigilância interior, não vingança.
·
O Mestre Perfeito (5) purifica intenções.
·
O Secretário Íntimo (6) controla emoções.
·
O Preboste (7) aprende que a lei sem
misericórdia é tirania.
·
O Intendente dos Edifícios (8) entende que cada
indivíduo é pedra na construção social.
·
O Mestre Eleito dos Nove (9) confronta a
violência pela coragem reta e não pela fúria.
·
No grau 10, compreende que o assassino está
sempre dentro de si.
·
Os graus 11 e 12 revelam que a Justiça divina é
mais elevada que a humana.
·
O Cavaleiro do Real Arco (13) e o Perfeito e
Sublime Maçom (14) mostram que a verdade profunda é luz que dissipa todo
impulso agressivo.
A violência diminui quando a verdade interior é encontrada. O
homem violento é ignorante de si mesmo.
Os Graus Capitulares e a Harmonia pela Lei (Graus 15 ao 18)
·
O Cavaleiro do Oriente (15) e o Príncipe de
Jerusalém (16) ensinam que Justiça é reconstrução, como os judeus que voltam
para reedificar o Templo.
·
O Cavaleiro Rosa-Cruz (18) compreende que o amor
é a lei maior, acima da violência, acima da vingança. A cruz representa a dor
humana; a rosa, a espiritualização da dor. Nesse grau, entende-se que a
violência cessa quando se espiritualiza a dor; que o perdão é a mais alta forma
de Justiça; que a luz cristológica, entendida esotericamente, é libertação da
fúria.
Os Graus Místicos e o Julgamento Interior (Graus 19 ao 22)
·
Os graus 19 ao 22 revelam verdades sobre o
Cosmos, a alma e a moral.
·
O Cavaleiro do Sol (28º, antecipado aqui como
símbolo) lembra que a luz espiritual ilumina e julga.
·
O Grande Pontífice (19º) compreende que lei sem
espírito mata.
·
O Príncipe do Tabernáculo (23º) entende que o
templo interior substitui qualquer templo material.
Aqui se aprende que a Justiça não vem de fora, mas do tribunal
invisível da consciência, conceito confirmado pela física quântica: o
observador transforma o observado.
Assim, o indivíduo violento altera o tecido social; o indivíduo
pacificado o harmoniza.
Os Graus Humanistas e a Ética da Sociedade (Graus 23 ao 26)
·
O Chefe do Tabernáculo (23), o Príncipe do
Tabernáculo (24) e o Cavaleiro da Serpente de Bronze (25) aprendem que todo mal
provém da ignorância e que a cura, simbolizada pela serpente, é elevar a visão
do homem.
·
O Príncipe da Mercê (26) revela que as três
forças, inteligência, vontade e emoção, devem estar equilibradas para que a
violência seja domada.
A pessoa violentada pelas paixões age sem triângulo interior.
Os Graus Filosóficos e a Justiça Universal (Graus 27 ao 30)
·
No Soberano Comendador do Templo (27) e no
Cavaleiro do Sol (28), aprende-se que o Sol é símbolo de Justiça: sua luz recai
sobre bons e maus igualmente.
·
No Grande Escocês de Santo André (29),
compreende-se que a cavalaria combate a injustiça sem violência, como os
Templários espirituais.
·
O Cavaleiro Kadosh (30) confronta os tiranos
interiores, não pessoas. A espada do Kadosh é símbolo de discernimento, não de
violência. O grau 30 é a síntese da Justiça espiritual: matar o tirano interior
e não o tirano exterior.
Os Graus Administrativos e a Arte do Julgamento (Graus 31 e 32)
·
O Grande Inspetor Inquisidor (31) precisa
aprender que Justiça sem misericórdia é crueldade. O julgamento deve ser
imparcial, profundo, iluminado, mas nunca sanguinário.
·
O Príncipe do Real Segredo (32) entende que o
segredo supremo é a harmonia entre lei e amor.
Aqui, Justiça e compaixão tornam-se inseparáveis.
O Grau 33 e a Revolução da não Violência
·
O Inspetor Geral da Ordem (33) ascende ao ápice
da consciência. Ele compreende que: a violência é ignorância, a vingança é
regressão, o perdão é poder, a luz interior é o verdadeiro tribunal.
O grau 33 não é poder sobre os outros, mas sobre si mesmo. É o
domínio da fúria, a extinção da necessidade de vingança, a compreensão de que o
amor fraternal é superior à espada, à lei humana e ao castigo.
É o grau da Revolução da Não Violência, a mesma defendida por
Sócrates, Gandhi, Martin Luther King, Francisco de Assis e todos os iluminados.
Síntese dos 33 Graus: da Pedra Bruta à Pureza da Luz
Ao somar a sabedoria dos graus, percebe-se um caminho:
·
Graus 1 a 3: dominar a violência interior;
·
Graus 4 a 14: purificar o inconsciente;
·
Graus 15 a 18: espiritualizar a dor;
·
Graus 19 a 22: compreender a lei universal;
·
Graus 23 a 26: humanizar-se;
·
Graus 27 a 30: tornar-se cavaleiro da Justiça;
·
Graus 31 e 32: julgar com sabedoria;
·
Grau 33: irradiar a paz;
O Maçom Pleno dos 33 Graus Compreende
·
Justiça humana é necessária, mas imperfeita;
·
Vingança é atraso;
·
Violência é treva da consciência;
·
Perdão é iniciação suprema;
·
Amor fraternal é a única lei realmente capaz de
curar a humanidade;
E assim conclui-se:
·
A maior obra maçônica é transformar o homem
violento em construtor da paz.
·
A Justiça é a luz que nasce dentro.
Bibliografia Comentada
Maçonaria, Rito Escocês Antigo e Aceito
1.
ALMEIDA, João Marques de. História, Filosofia e
Simbologia dos 33 Graus do Rito Escocês Antigo e Aceito. São Paulo: Madras,
2014. Obra fundamental para compreender a evolução simbólica dos graus do REAA,
utilizada para articular a relação entre Justiça interna e a jornada
iniciática;
2.
CASTELLANI, José. Rito Escocês Antigo e Aceito:
História, Filosofia e Ritualística. São Paulo: A Trolha, 2008. Fonte essencial
sobre os graus, sua moral e suas finalidades éticas, especialmente para
integrar violência, disciplina e autodomínio;
3.
MACKEY, Albert G. Encyclopedia of Freemasonry.
New York: Gramercy, 1996. Compilação que esclarece símbolos e temas esotéricos
usados na interpretação maçônica da Justiça;
4.
PIETROBON, Silas. Maçonaria e Virtude: Estrutura
Moral dos Graus Simbólicos. Porto Alegre: Ciências Humanas, 2017. Contribui
para o tratamento ético dos três primeiros graus como fundamentos da Justiça
interior;
Filosofia Clássica, Justiça e não Violência
5.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Nova
Cultural, 1991. A base da ideia de Justiça como virtude e da relação entre lei,
hábito e equilíbrio;
6.
GANDHI, Mahatma. A Minha Vida e Minhas
Experiências com a Verdade. São Paulo: Palas Athena, 2004. Inspirou a discussão
sobre a não violência como ápice da Justiça espiritual (grau 33);
7.
KING, Martin Luther Júnior A Força de Amar. Petrópolis:
Vozes, 2005. Base moderna para a ideia de Justiça como caridade em ação e amor
fraternal;
8.
PLATÃO. A República. São Paulo: Martins Fontes,
2006. Fonte central para o mito da caverna e a análise filosófica da Justiça e
da alma;
9.
PLATÃO. Críton. São Paulo: Edipro, 2018.
Utilizado para fundamentar a postura socrática de obediência à lei e não
violência;
10. XENOFONTE.
Memoráveis. São Paulo: Paulus, 2009. Complementa a interpretação ética de
Sócrates como precursor da revolução da não violência;
Hermetismo, Esoterismo, Cabala e Simbolismo
11. ELIPHAS
LEVI. Dogma e Ritual da Alta Magia. São Paulo: Pensamento, 2001. Relativo ao
combate interno contra forças sombrias e aspectos de autocontrole espiritual;
12. HALL, Manly P. The Secret Teachings of All
Ages. Los Angeles: Philosophical Research Society, 2003. Importante para
interpretação esotérica de símbolos usados nos graus 4 a 33;
13. PAPUS
(Gérard Encausse). O Tarot dos Boêmios: Chave Hermética dos Mistérios. São
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renascimento no processo iniciático;
14. YATES,
Frances. Arte da Memória. Campinas: UNICAMP, 2007. Esclarece práticas
mnemônicas e contemplativas presentes nos graus superiores;
Psicologia, Subconsciente e Sombra
15. FRANKL,
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compreensão da espiritualização da dor nos graus Rosa-Cruz;
16. JUNG,
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Aplicado na análise dos símbolos maçônicos como arquétipos universais;
17. JUNG,
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tratar da "caverna interna" e dos "assassinos simbólicos"
dos graus 9 a 14;
Religião Comparada e Espiritualidade
18. ELIADE,
Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Apoia a análise
do templo interno e do rito como via de superação da violência;
19. SCHUON,
Frithjof. A Unidade Transcendente das Religiões. São Paulo: Attar, 2000.
Utilizado para abordar a universalidade da moral nos graus filosóficos (27 a
30);
20. ZOHAR,
Danah; MARSHALL, Ian. A Inteligência Espiritual. Rio de Janeiro: Record, 2001.
Suporte para a integração entre espiritualidade, consciência e evolução moral;
Ciência, Física Quântica e Consciência
21. BOHM,
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ideia de que a consciência individual influencia o campo coletivo (sistema
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22. CAPRA,
Fritjof. O Tao da Física. São Paulo: Cultrix, 1983. Base para a conexão entre
física quântica e espiritualidade dos graus superiores;
23. GOSWAMI,
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do observador como modulador da realidade - aplicada à Justiça interior;
Violência, Direito e Sociedade
24. ARENDT,
Hannah. Sobre a Violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.
Fundamenta a crítica à violência como mecanismo de poder;
25. BANDURA,
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mecanismos psicológicos da violência irracional;
26. BAUMAN,
Zygmunt. Medo Líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. Auxilia na análise
sociológica do medo, insegurança e violência moderna;
Maçonaria, Ética e Fraternidade
27. BRAGA,
Roque. A Ética Maçônica. Rio de Janeiro: Maçônica Editora, 2011. Base para o
conceito de fraternidade como resposta iniciática à violência;
28. TAVARES,
Raimundo. Os Graus Filosóficos do REAA. Brasília: A Trolha, 2012. Esclarece o
papel da Justiça, do perdão e da cavalaria moral nos graus 18 a 32;
