Moral e Espiritualidade do Maçom
A espiritualidade maçônica não é fuga mística nem adorno
filosófico, mas um método de lapidação interior capaz de transformar o homem comum
em arquiteto consciente de sua própria existência. No mundo acelerado e
fragmentado, onde a violência brota da falta de amor e da pobreza moral, a
Maçonaria propõe um caminho de equilíbrio, autodomínio e lucidez. Seu objetivo
não é salvar almas, mas despertar consciências, revelando a grandeza oculta no
próprio ser. Através de símbolos, rituais e exercícios de pensar, o maçom
aprende a domar paixões, disciplinar emoções e harmonizar razão e
espiritualidade, tornando-se capaz de agir com firmeza sem cair na vingança, de
exercer tolerância sem sucumbir à permissividade, de buscar justiça sem ser
instrumento de despotismos. Entre filosofia clássica, física moderna e
tradições esotéricas, o ensaio apresenta a Maçonaria como ponte entre o visível
e o invisível, entre o eu e o cosmos, convidando o leitor a explorar a ética
como construção diária e a espiritualidade como ciência da consciência. Ao
descobrir o sentido profundo dos símbolos e do Grande Arquiteto do Universo como
princípio universal, o leitor será conduzido a uma reflexão transformadora: ser
maçom é, sobretudo, tornar-se um ser humano mais desperto, ativo e luminoso.
A Construção Interior como Horizonte da Vida Maçônica
A Maçonaria não nasceu para ser mais uma peça no complicado
tabuleiro das instituições humanas, nem para funcionar como "refúgio psicológico" de homens
cansados do caos social. Seu propósito primordial é mais ambicioso: despertar
uma espiritualidade madura, lúcida e operativa, muito diferente daquela
espiritualidade difusa, emocional ou supersticiosa que caracteriza grande parte
da humanidade desorientada. A Ordem visa formar um tipo humano específico: um
construtor de si mesmo, um sacerdote de sua própria consciência, um diplomata
da paz, um guerreiro ético e um artesão do espírito.
A massa humana, entregue ao consumismo voraz, costuma mover-se
como poeira ao vento, sem centro e sem eixo, girando em torno de valores
líquidos e voláteis. A violência contemporânea, apesar de sua multiplicidade de
causas sociológicas, manifesta sempre uma origem mais profunda: a ausência de
amor e de moralidade autêntica, frutos diretos da baixa espiritualidade. A
degradação moral antecede e alimenta o colapso social.
A espiritualidade maçônica, que não é religião, doutrina ou
crença, é uma capacidade latente em todos os seres humanos, como uma semente
adormecida que aguarda solo fértil. O trabalho maçônico não é "conceder" espiritualidade, mas
revelar a espiritualidade inerente. Não se trata de impor dogmas, mas de
retirar véus. Cada obreiro, ao tomar consciência dessa potência interior, passa
a reorientar suas atitudes diante de si mesmo, de sua família, da sociedade e
de toda a biosfera que chamamos Gaia.
A Ordem não concorre com religiões; tampouco as substitui. Mas
reconhece que as formas religiosas, apesar de sua importância civilizatória,
frequentemente fracassam em conduzir seus fiéis à maturidade moral. A
espiritualidade maçônica, ao contrário, busca o exercício do amor mediante
práticas simbólicas e filosóficas que convidam ao autodomínio, à interiorização,
ao pensar crítico e ao serviço ao próximo.
A Ativação do Maçom: do Homem Passivo ao Homem Operante
A transformação espiritual e moral não ocorre por osmose. É
preciso "ativar" o maçom,
despertá-lo de sua condição humana inclinada ao prazer imediato, às paixões
desordenadas, ao ego inflado e à impulsividade. O trabalho interior exige
permanente vigilância. Quem não vigia cai.
A tradição maçônica, especialmente no Rito Escocês Antigo e
Aceito, fornece instruções e técnicas de ensino sofisticadas. A certo altura do
desenvolvimento, caminhando pelos 33 graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, apenas a título de
exemplo, adverte o maçom contra a tentação de assumir o papel de justiceiro, de
querer impor sua verdade à força, de ceder ao instinto primitivo da vingança.
A vingança sempre é estéril: quem a pratica despe a si mesmo de
racionalidade e regressa ao estado selvagem. A Maçonaria educa pelo método
simbólico. As narrativas, lendas, alegorias e parábolas instruem o iniciado a
desenvolver a virtude da tolerância, virtude complexa, difícil, sutil, sempre
condicionada ao contexto. A tolerância não é aceitação irrestrita de tudo; é a
firmeza de não devolver o mal com o mal, sem renunciar à defesa da justiça.
A abóbada de aço, por exemplo, não é apenas um símbolo
estético: ela ensina que a justiça é escudo e espada, proteção aos leais e
condenação aos pérfidos. Não se trata de intolerância pura e simples, mas da
justa aplicação da lei moral. A espiritualidade não é sinônimo de mansidão
ingênua; é inteligência moral que distingue entre tolerar o erro e consentir
com o crime.
O maçom deve agir assemelhado a um cavaleiro medieval: defensor
dos fracos, guardião da paz, escudo dos oprimidos. Os instrumentos da Oficina,
régua, esquadro, compasso, malho e cinzel, traduzem princípios éticos. A régua
recorda que há limites; o esquadro exige retidão; o malho simboliza a energia
necessária para combater o mal; o compasso circunscreve os desejos e paixões.
O iniciado nunca toma a justiça com as próprias mãos, mas age
para que a justiça prevaleça. Ele combate o mal, mas jamais se deixa contaminar
por ele.
Intolerância, Fanatismo e a Espiritualidade Racional do Maçom
A grande tarefa da Maçonaria é transformar a indignação justa
em sabedoria madura. A intolerância e o fanatismo, frutos de ignorância
espiritual, devastaram continentes, incendiaram templos, dizimaram povos. A
única forma de reduzi-los a níveis insignificantes é uma sociedade educada,
racional e espiritualizada.
O maçom aprende que tolerância absoluta é autodestrutiva:
tolerar os intolerantes conduz ao fim da tolerância. Portanto, a Ordem ensina o
delicado equilíbrio entre acolher diferenças e impor limites éticos.
A Maçonaria nasceu no século XVIII para unir homens de diversas
crenças, línguas e tradições em torno do exercício da razão, da liberdade e da
fraternidade universal. Essa reunião só foi possível porque nenhum maçom pode
reivindicar a posse da verdade absoluta. A verdade última, se existe, pertence
somente ao Grande Arquiteto do Universo, que, de sua parte, é um conceito
filosófico e não entidade religiosa.
O maçom espiritualizado dispensa intermediários entre si e sua
divindade. Ele mesmo é seu templo. Ele mesmo acende sua Luz. Ele mesmo é
sacerdote e oferenda.
Maçonaria, Religião e a Questão do Grande Arquiteto do Universo
A Maçonaria não é religião, mas é profundamente religiosa no
sentido etimológico de "religare":
reconecta o homem consigo mesmo, com o próximo e com a totalidade do cosmos.
Mas não oferece dogmas, salvação, clero ou culto.
Grande Arquiteto do Universo é um conceito, não uma figura
antropomórfica. É símbolo da ordem, da inteligência e da harmonia universal. Cada
obreiro o interpreta à luz de sua própria tradição, cristão, judeu, muçulmano,
budista, deísta ou panteísta.
A Ordem exige apenas duas crenças fundamentais (Landmarks 19 e
20):
·
A existência de um princípio supremo;
·
A imortalidade da alma ou sobrevivência
espiritual.
Além disso, a Maçonaria explora elementos da filosofia clássica,
especialmente o platonismo, para indicar que a realidade sensível é apenas
sombra da realidade inteligível. Assim como o prisioneiro da caverna deve
erguer-se em direção ao Sol, o iniciado deve ascender da ignorância à Luz.
Espiritualidade como Consciência da Unidade da Vida
A doutrina maçônica reconhece que toda vida é continuidade. O
corpo morre, mas não a vida que habita em cada ser. Todos os organismos
compartilham moléculas, estruturas e princípios fundamentais com a biosfera
terrestre, e essa compreensão amplia o sentido espiritual.
A espiritualidade maçônica aproxima-se das concepções
herméticas: "O que está em cima é
como o que está embaixo". O espírito é a centelha divina que anima
todas as criaturas e irmana todos os seres em uma grande teia cósmica. É por
isso que o orgulho espiritual é contradição: ninguém é separado; ninguém é
superior.
A vida é parte de um gigantesco organismo vivo, e cada
indivíduo é célula participativa desse corpo universal.
O Caminho do Maçom: Ética, Liberdade e Autodomínio
Ser maçom não é ostentar títulos, graus ou insígnias. É
incorporar virtudes. O maçom evoluído busca equilíbrio interior e exterior.
Suas virtudes não provêm do medo da punição, mas do desejo profundo de bem
agir.
Ele conhece suas paixões e não as elimina, mas disciplina-as.
Sabe que o prazer existe para ser apreciado, não para escravizar. Sabe que a
palavra é sagrada, e por isso fala com moderação e coragem. Sabe que a virtude é
um exercício constante.
Sua espiritualidade manifesta-se em pequenas ações: na
cordialidade, no trabalho, na família, na postura diante das injustiças. Contra
fanatismo, intolerância e ignorância, sua posição é firme, porém sem ódio. Ele
é bom, mas não ingênuo; é pacífico, mas não passivo.
A Tolerância: Virtude, Limite e Ferramenta
A Maçonaria não prega tolerância universal. Isso seria
fraqueza. Ela prega tolerância criteriosa, inteligente, moralmente orientada.
A história fornece exemplos. No Brasil, o Marechal Deodoro da
Fonseca, maçom, combateu a escravidão espiritual e mental característica do
despotismo: instituiu o casamento civil, secularizou cemitérios, proibiu o
ensino religioso nas escolas públicas e extinguiu a pena de morte em tempos de
paz. Seu governo foi breve e imperfeito, mas representou a luta eficiente contra
a tirania.
O maçom deve agir do mesmo modo: com equilíbrio, firmeza e
coragem. Tolerância não é licenciosidade; Democracia não é fraqueza; liberdade
não é caos.
·
Se tolerarmos o intolerável, destruímos a
liberdade.
·
Se odiarmos o adversário, destruímos a
fraternidade.
·
Se renunciarmos às discussões, destruímos a
inteligência.
O maçom pratica a "tolerância
com limites" porque sabe que sem limites a tolerância anula a si mesma.
Filosofar como Exercício de Liberdade
O maçom aprende a pensar em dicotomias, a apresentar argumentos
múltiplos, a ouvir e a calar. Filosofar é pensar sem provas absolutas. É
especular sem dogma. É examinar ideias por amor à Verdade e não por vaidade
intelectual.
A prática ritualística, silenciosa, simbólica e meditativa,
forma um ambiente no qual o homem pode exercitar sua própria razão, libertar-se
da minoridade kantiana e criar uma consciência autônoma.
O maçom pensa para ser livre; é
livre porque pensa.
Espiritualidade e Física Quântica: o Campo da Consciência
Ao relacionar espiritualidade com ciência, especialmente com a
física quântica, não se pretende fazer pseudociência, mas explorar metáforas
úteis. A física moderna demonstra que a realidade é mais interdependente,
vibratória e sutil do que os sentidos captam.
O átomo é vazio da ótica como nossa vida de ilusão nos
apresenta. A matéria é energia condensada. Tudo vibra. Tudo no Universo é
composto de pequenos campos energéticos que se movimentam em velocidade tão
vertiginosa e mantém entre si uma força de atração tão intensa que nos
transmitem a ideia de que a matéria que tocamos é sólida.
A consciência, embora ainda um mistério científico, parece
dialogar com realidades que transcendem o espaço-tempo clássico. Na cosmologia,
nas teorias de campos e na neurociência, a ideia de interconexão universal
ganha substância.
A espiritualidade maçônica entende o homem como ponto luminoso
dentro de um grande círculo, uma estrela viva dentro da Criação. O compasso que
delimita a ação moral pode ser comparado às forças que estruturam o cosmos. O
esquadro que exige retidão pode ser comparado ao princípio da ordem que rege
galáxias e partículas.
O Templo interior é, em certa medida, um microcosmo quântico:
sutil, vibratório, simbólico, invisível, mas real.
Exemplos Práticos: a Espiritualidade na Vida Diária
·
No trabalho. O maçom não busca ser chefe,
mas líder. Lidera pela integridade, pela ética e pela compaixão. Promove
justiça sem autoritarismo e diálogo sem fraqueza.
·
Na família. É o eixo moral. Mantém a
serenidade nos conflitos, orienta com amor e firmeza, e cuida para que a casa
seja espaço sagrado de aprendizado e de paz.
·
Na sociedade. Participa da vida pública
com responsabilidade. Não usa a Maçonaria como trampolim, mas como fonte de
valores. Combate corrupção, fanatismo e injustiça com coragem, mas sem ódio.
·
Em si mesmo. Pratica meditação, estudo,
silêncio, reflexão e autocrítica. Usa o compasso para medir suas ações e o
esquadro para corrigir seus desvios.
O Maçom como Homem Novo
O propósito da Maçonaria é simples e gigantesco: construir um
homem que pense, sinta e aja com espiritualidade ativa. Um homem que combina
firmeza moral com delicadeza espiritual. Um homem que combate o mal sem se
transformar nele. Um homem que irradia luz onde há
trevas, amor onde há ódio e inteligência onde há ignorância.
· A iniciação é interior.
·
O templo a ser construído é o coração.
·
O material de obra é a própria vida.
O maçom, quando desperto, torna-se não apenas um melhor cristão,
judeu ou muçulmano, mas um melhor humano. E o mundo, por consequência, torna-se
um pouco mais justo, mais sábio e mais iluminado.
Bibliografia Comentada
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Martin
Claret, 2010. Obra clássica sobre a virtude, a moderação e o cultivo do
caráter. Fundamenta a ética do equilíbrio que permeia a espiritualidade
maçônica;
2.
BOHM, David. Wholeness and the Implicate Order.
London: Routledge, 2002. Apresenta a ideia de interconexão universal no campo
quântico, diálogo útil à metáfora da unidade espiritual presente na Maçonaria;
3.
CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São
Paulo: Cultrix, 1995. Explora mitos e arquétipos que iluminam as narrativas
maçônicas de morte e renascimento iniciático;
4.
DESCARTES, René. Meditações Metafísicas. Lisboa:
Calouste Gulbenkian, 2008. Inspira o racionalismo espiritual da Ordem,
sobretudo na crítica ao dogmatismo;
5.
EINSTEIN, Albert. Meu Mundo. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2015. Reflexões éticas e científicas que sustentam a relação
entre espiritualidade e ciência;
6.
KANT, Immanuel. A Paz Perpétua. São Paulo:
Martins Fontes, 2008. Indispensável para compreender a ideia de tolerância
racional limitada, tão cara à filosofia maçônica;
7.
LOCKE, John. Ensaio sobre o Entendimento Humano.
São Paulo: Editora Unesp, 2011. Base da visão deísta presente em parte da
tradição da Maçonaria moderna;
8.
PLATÃO. A República. São Paulo: Vozes, 2012.
Inspira a metáfora iniciática da ascensão da caverna para a luz, central na
formação moral do maçom;
9.
SPINOZA, Baruch. Ética. Belo Horizonte:
Autêntica, 2017. Desenvolve a noção de liberdade pela razão, convergente com a
espiritualidade ativa do maçom;
10. STEINER,
Rudolf. Ciência Oculta. São Paulo: Antroposófica, 2012. Aprofunda a ideia de
evolução espiritual e conexão com o cosmos, dialogando com o simbolismo
maçônico;
