Charles Evaldo Boller
A tolerância constitui uma das condições fundamentais da
convivência na Loja, pois permite que irmãos de diferentes origens, crenças e
concepções filosóficas trabalhem conjuntamente sem renunciar à liberdade de
consciência. Entretanto, sua elevação à condição de virtude não significa que
deva ser ilimitada. Compreender seus limites é indispensável para distinguir
fraternidade de permissividade e preservar a harmonia fundada na justiça.
Filosoficamente, tolerar significa reconhecer o direito à
diferença sem exigir concordância. John Locke (1632-1704), em sua Carta sobre a
Tolerância, publicada em 1689, contribuiu decisivamente para a compreensão
moderna dessa virtude ao defender espaços de liberdade diante das divergências
religiosas. Entretanto, reconhecer diferenças legítimas não significa atribuir
igual legitimidade a todos os comportamentos. Quando uma ação viola normas
destinadas a proteger a convivência, a questão deixa de pertencer
exclusivamente ao domínio da tolerância e ingressa no campo da
responsabilidade.
Karl Popper (1902-1994), em The Open Society and Its Enemies,
publicado originalmente em 1945, formulou o chamado paradoxo da tolerância. Seu
raciocínio adverte que a tolerância ilimitada pode permitir que forças
intolerantes destruam as próprias condições que tornam possível uma sociedade
tolerante. Aplicada prudentemente à Loja, essa reflexão evidencia que
fraternidade não pode significar indiferença diante de condutas que comprometam
a dignidade dos irmãos, a confiança coletiva ou os princípios que sustentam a
instituição.
O simbolismo maçônico reforça essa compreensão. Trabalhar a
pedra bruta não significa aceitá-la passivamente em todas as suas irregularidades,
mas reconhecer que o aperfeiçoamento exige discernimento, esforço e correção. O
malho e o cinzel, compreendidos filosoficamente, recordam que transformar não é
destruir: é retirar excessos para possibilitar uma construção mais justa e
harmoniosa. Do mesmo modo, corrigir uma conduta inadequada não significa
necessariamente rejeitar o irmão, mas reconhecer que a fraternidade também
implica responsabilidade.
Por isso, leis e regulamentos não devem servir à vingança nem
ser ignorados para preservar artificialmente a aparência de harmonia. Entre a
severidade arbitrária e a permissividade encontra-se a justiça prudente: aquela
que examina os fatos, respeita direitos, considera circunstâncias e aplica
proporcionalmente as normas existentes.
A Loja verdadeiramente tolerante não é aquela que admite
qualquer comportamento, mas aquela que protege a diversidade sem permitir que a
liberdade seja convertida em instrumento de deterioração da convivência. Quando
o maçom aprende a unir tolerância, prudência, justiça e fraternidade, o
simbolismo deixa de permanecer apenas no discurso e passa a orientar sua
existência. Trabalhar sobre a própria pedra torna-se, então, exercício
permanente de consciência, serviço responsável à ordem maçônica e contribuição
efetiva ao aperfeiçoamento do homem.
Bibliografia Comentada
Esta bibliografia reúne obras fundamentais para o aprofundamento
da tolerância, da justiça, da liberdade e da responsabilidade moral abordadas
na peça. As referências articulam perspectivas clássicas e modernas que
fundamentam o discernimento ético, os limites da tolerância e a convivência
institucional, oferecendo caminhos para estudos posteriores sobre virtude,
fraternidade e aperfeiçoamento humano.
1.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Edson
Bini. 4. Ed. São Paulo: Edipro, 2020. Fundamenta a compreensão da virtude, da
justiça e da prudência como disposições orientadas pela razão prática,
contribuindo para distinguir firmeza de severidade, tolerância de
permissividade e aplicação justa das normas de simples punição.
2.
LOCKE, John. Carta sobre a tolerância. Tradução
de João da Silva Gama. Lisboa: Edições 70, 2004. Obra fundamental para a
concepção moderna da tolerância, especialmente quanto à convivência entre
diferentes crenças. Contribui para compreender a liberdade de consciência sem
confundi-la com ausência de limites na organização da vida coletiva.
3.
POPPER,
Karl R. The open society and its enemies. New one-volume ed. Princeton:
Princeton University Press, 2013. Oferece a fundamentação central do
paradoxo da tolerância, demonstrando que a tolerância ilimitada pode
comprometer as condições que possibilitam sua própria existência. Sustenta a
reflexão sobre responsabilidade institucional, liberdade e estabelecimento
legítimo de limites.

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