segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A Tolerância e os Limites da Fraternidade

 Charles Evaldo Boller

A tolerância constitui uma das condições fundamentais da convivência na Loja, pois permite que irmãos de diferentes origens, crenças e concepções filosóficas trabalhem conjuntamente sem renunciar à liberdade de consciência. Entretanto, sua elevação à condição de virtude não significa que deva ser ilimitada. Compreender seus limites é indispensável para distinguir fraternidade de permissividade e preservar a harmonia fundada na justiça.

Filosoficamente, tolerar significa reconhecer o direito à diferença sem exigir concordância. John Locke (1632-1704), em sua Carta sobre a Tolerância, publicada em 1689, contribuiu decisivamente para a compreensão moderna dessa virtude ao defender espaços de liberdade diante das divergências religiosas. Entretanto, reconhecer diferenças legítimas não significa atribuir igual legitimidade a todos os comportamentos. Quando uma ação viola normas destinadas a proteger a convivência, a questão deixa de pertencer exclusivamente ao domínio da tolerância e ingressa no campo da responsabilidade.

Karl Popper (1902-1994), em The Open Society and Its Enemies, publicado originalmente em 1945, formulou o chamado paradoxo da tolerância. Seu raciocínio adverte que a tolerância ilimitada pode permitir que forças intolerantes destruam as próprias condições que tornam possível uma sociedade tolerante. Aplicada prudentemente à Loja, essa reflexão evidencia que fraternidade não pode significar indiferença diante de condutas que comprometam a dignidade dos irmãos, a confiança coletiva ou os princípios que sustentam a instituição.

O simbolismo maçônico reforça essa compreensão. Trabalhar a pedra bruta não significa aceitá-la passivamente em todas as suas irregularidades, mas reconhecer que o aperfeiçoamento exige discernimento, esforço e correção. O malho e o cinzel, compreendidos filosoficamente, recordam que transformar não é destruir: é retirar excessos para possibilitar uma construção mais justa e harmoniosa. Do mesmo modo, corrigir uma conduta inadequada não significa necessariamente rejeitar o irmão, mas reconhecer que a fraternidade também implica responsabilidade.

Por isso, leis e regulamentos não devem servir à vingança nem ser ignorados para preservar artificialmente a aparência de harmonia. Entre a severidade arbitrária e a permissividade encontra-se a justiça prudente: aquela que examina os fatos, respeita direitos, considera circunstâncias e aplica proporcionalmente as normas existentes.

A Loja verdadeiramente tolerante não é aquela que admite qualquer comportamento, mas aquela que protege a diversidade sem permitir que a liberdade seja convertida em instrumento de deterioração da convivência. Quando o maçom aprende a unir tolerância, prudência, justiça e fraternidade, o simbolismo deixa de permanecer apenas no discurso e passa a orientar sua existência. Trabalhar sobre a própria pedra torna-se, então, exercício permanente de consciência, serviço responsável à ordem maçônica e contribuição efetiva ao aperfeiçoamento do homem.

Bibliografia Comentada

Esta bibliografia reúne obras fundamentais para o aprofundamento da tolerância, da justiça, da liberdade e da responsabilidade moral abordadas na peça. As referências articulam perspectivas clássicas e modernas que fundamentam o discernimento ético, os limites da tolerância e a convivência institucional, oferecendo caminhos para estudos posteriores sobre virtude, fraternidade e aperfeiçoamento humano.

1.      ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Edson Bini. 4. Ed. São Paulo: Edipro, 2020. Fundamenta a compreensão da virtude, da justiça e da prudência como disposições orientadas pela razão prática, contribuindo para distinguir firmeza de severidade, tolerância de permissividade e aplicação justa das normas de simples punição.

2.      LOCKE, John. Carta sobre a tolerância. Tradução de João da Silva Gama. Lisboa: Edições 70, 2004. Obra fundamental para a concepção moderna da tolerância, especialmente quanto à convivência entre diferentes crenças. Contribui para compreender a liberdade de consciência sem confundi-la com ausência de limites na organização da vida coletiva.

3.      POPPER, Karl R. The open society and its enemies. New one-volume ed. Princeton: Princeton University Press, 2013. Oferece a fundamentação central do paradoxo da tolerância, demonstrando que a tolerância ilimitada pode comprometer as condições que possibilitam sua própria existência. Sustenta a reflexão sobre responsabilidade institucional, liberdade e estabelecimento legítimo de limites.

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